segunda-feira, 31 de julho de 2023

Não se nasce mulher, compra-se?

 

Então, quero tratar dos arquétipos ou modelos que servem de referência. Por uma questão metodológica, trato aqui do “ser mulher” enquanto uma produção industrial de um capitalismo tardio, bem no início dos anos 60, tendo como o seu grande expoente a atriz e modelo Marilyn Monroe.

Quando digo que ser mulher é um ato de compra, não se trata da mulher biológica, mas da mulher social. O que chamamos de feminilidade e toda a sua manifestação social estão ligados ao ato de compra. Para mim, o grande golpe da dominação ideológica foi tornar todo o jogo de marketing como um produto natural. Quando vês uma mulher andar de salto, batom vermelho e lábios carnudos, a silhueta, a pele fina, os cabelos longos… tem todo um aparelho ideológico por trás empurrando essa ideia a partir dos seus apóstolos (celebridades) para que isso surja como o ideal, o padrão, o atingível, desde que seja comprado.

Por outro lado, de qual mulher estás a pensar quando eu falo de mulher? Das camponesas e seus corpos musculados acompanhados de uma cintura fina? Certamente não, se falo de beleza e mulher ou feminilidade surge na tua mente toda a produção de Hollywood e as cantoras famosas que vendem essa imagem. Ao fim do dia, a infraestrutura marxista continua a mesma, a economia. As empresas precisam te fazer sentir mal com tudo que és naturalmente!

De repente, a indústria percebeu o poder de compra da mulher negra, toda uma gama de estética africana começa a ser vendida ao público, o que chamaram estrategicamente de inclusão. Perceberam o podem de compra dos LGBTQ+, toda uma gama de coisas foi inventada para vender a feminilidade ao grupo. Trata-se de nichos de mercado que decorre de uma abordagem ideológica. Negócios apenas

Se alguém perguntar o que garante hoje uma ideia de mulher feminina e desejável, não se trata somente do corpo, mas de um conjunto de acessórios e notoriedade nas redes sociais. Além do corpo bem proporcionado, precisa de um iphone, antigamente, um pau de self, várias fotos de viagem e conhecer lugares inusitados. Precisa de ter um bom número de seguidores, algum macbook, airpods, estar presente nas festas mais badaladas.

Claro, isso é um estereótipo, está enviesado… muitas exceções existem e muita contracultura. Esse modelo é o mais divulgado. E para cada contracultura também encontrará uma estética própria que é explorada por alguma companhia. Ao fim do dia, amor próprio e aceitação do que se é continua sendo um ato revolucionário!

terça-feira, 25 de julho de 2023

Um resquício insistente da Frente Popular?

Conheci muitos que na ocasião de 12 de julho disseram-me que não tínhamos motivo algum para comemorar uma vez que o país anda numa situação caótica, diriam ainda num tom quase profético, num estado catatónico. As velhas tábuas estão caindo e as novas repugnam a nobreza santola. Criamos vários tons pejorativos, desde tongas ao gabão, de angolar ao londrino.

Através disso, olham as fotos por onde coincidentemente encontram vários brancos banhando no clube náutico e ocupando moradias que estão na posse atualmente dos “bravos combatentes” da revolução e dizem: ali sim vivíamos, ali sim o país era feliz, ali enquanto comíamos mamão cozido em 83. Hoje, essa gente que frequentava a Rua do Rosário e reclama de pudor em toda a sua magnitude, essa gente que após a independência se apressou a montar um “clube dos mulatos” em substituição aos colonos por proximidades de cor… podemos ouvir dessa gente uma desilusão, como de quem após ter levado o filho ao Monte Moriá para o Sacrifício, Deus não interveio, não houve cordeiro e  um homicídio ocorreu ali, rola a cabeça de Isaac no asfalto esburacado da nossa jovem democracia…e  Tomé quer ver as chagas e Cristo dá gargalhadas.

Permita-me ainda, nesse misto de aforismo poético e mordaz cavar ainda mais fundo. Uma vez que não tenho palco para expor as coisas como as vejo no quotidiano, meio que instinto de sobrevivência e algum bom senso colocado pelos pais educadores.

Não podemos desacreditar a independência total e completa por causa do desenvolvimento económico que não ocorreu nos nossos moldes. São categorias diferentes. Totalmente diferentes. O facto de alguém ser livre não quer dizer que será feliz, mas é necessário que haja liberdade para que haja uma chance de tentar ser feliz. Precisamos entender isso para que paremos de olhar a bandeira subir e descer, num sebastianismo santomense que veste várias roupagens, tirando de nós a responsabilidade pela construção coletiva daquilo que almejamos.

Um pouco de entendimento histórico do contexto africano faria qualquer um ver importância de se ser independente, mesmo que num contexto internacional duvidoso, várias organizações megalómanas, o peso da dívida que nos acorrenta o pescoço… desafios e mais desafios, tudo isso pode ser enfrentando por sermos independentes.

Precisamos parar de falar em devolver o país aos portugueses, precisamos acabar com o complexo de Peter Pan que tem assolado o país qual um nevoeiro desviante de opinião pública financiado pelas pessoas que eram autorizadas pela Loja Intermar a fazer comprar por parte de dentro do balcão e se sentiam demiurgos por causa disso.

Independência é o que torna todo o debate contra independência possível. É independência que nos faz não acabar com um cesto furado tentando sugar toda a água de Fernão Dias enquanto somos fulminados pelos olhares coloniais… Liberdade é uma possibilidade!

terça-feira, 16 de maio de 2023

Um fim que está próximo e não pode ser visto.

 

Hoje eu preciso falar de coisas óbvias como se fossem especiais, estamos em queda. Não se trata de ideologia ou de bons e maus, mas de conceitos básicos que colocam a existência nacional em questão. O Estado não tem lugar para todos e no fim débito = crédito, alguém sempre paga as contas.

Não me importa se gostas de abrir garrafas de whisky todos os dias e ter acesso aos vários corpos que pernoitam pela capital, de facto, não importa. O problema começa quando a promiscuidade torna-se um modus vivendi.  Não é moralismo, é economia. Quando vejo um conjunto de jovens embriagados e mulheres dedicadas à profissão do Velho Testamento, estou diante de jovens que podiam estar contribuindo para o desenvolvimento do país, mas estão ali sem talento nenhum e rodando em copos e corpos até que uma embaixada humana os evacue para Portugal. Jovens financiados pelo capital gerontocrático, Jovens financiados por padrastos, pederastas e todos os moralistas do país que oferecem carros, casas e talão de combustível do Estado aos amores.

Os que ficam olham para isso com olhos elitistas e acham que são jovens perdidos indo em busca de subempregos e falam agora que devemos evitar Lisboa por ter santomenses demais… ledo engano, eu só olho o nosso Sistema do INSS falir e todos aqueles que acreditam que terão reforma acabar sem ter capital o suficiente para não ser confundido com feiticeiros na terceira idade, geralmente, é este o destino dos pobres velhinhos descapitalizados.

Por fim, uma elite presa na ideia de cacau e café, reproduzindo discurso saudosista de um STP irreal enquanto se deixa de lado o potencial tecnológico, a ciência e a produtividade. O país parece estar preso agora em fazer da ilha um retiro de férias para os santolas que se deram bem vir aqui de férias e passear em suas casas e desfilarem em seus carros enormes. E os que ficam, servem para vassalagem? Quem está guiando esse “bateau ivre”? O que fazer com a nossa matriz económica? Quem nos acordará do sonho dos indicadores fantásticos sobre a nossa realidade?

quinta-feira, 4 de maio de 2023

A responsabilidade, um ruído insular persistente


O maior inconveniente no “modus vivendi” santomense é a ideia da responsabilidade.  Cada um olhando para o seu umbigo desenha um mundo para si mesmo onde terá sempre razão. Está tudo bem não respeitar o tempo alheio, a outra parte deverá entender o atraso. Tudo bem acreditar que os problemas individuais são tão gigantescos que possam minar os acordos colectivos. Tudo bem aumentar a minha parcela de terra tomando um pouco da via pública. Tudo bem fazer canalizações noturnas que ameaçam a água de uma comunidade. Tudo bem em nome de estado importar produtos duvidosos para aumentar a margem de lucro enquanto ameaça a saúde pública… aliás, se não for ele, alguém o fará.

com efeito, O que não nos contam? Se a salvação é individual, a destruição é coletiva. Se não respeitamos o pacto coletivo em nome dos interesses individuais, o “contrato social” deixa de fazer sentido. A maior ofensa que existe é ser considerado uma boa pessoa. Significa que será usado pela família, pelo cônjuge, pelos amigos, pelo Estado e por todo um sisema existente que considera integridade uma fraqueza, fidelidade é idiotice e o pecado maior é ser pobre, significa que terá de se vender na primeira esquina e não terá peso nenhum andando sobre a ilha. Todos os trejeitos sociais escondem o simples facto que ninguém nessa ilha poderá apontar o mal sem tremer os dedos, soar frio e temer que o outro saiba algo… e todos nós sabemos quem é quem.

Logo, não se trata de comprar carros e aumentar o tamanho dos pneus diante de uma estrada degradada, mas sim, consertar a estrada para que todos possam usurfruir desse ganho. Não se trata de ganhar melhor e ter um plano de saúde em Portugal, mas de melhorar o nosso sistema de saúde. Não se trata de dar um visto para cada jovem nessa ilha, mas de construir um país cuja música de maior sucesso não seja um jovem anseando a sua saída do país… Portugal enquanto refúgio dos azarados sociais. Isso deveria incomodar-nos. Se todos jovens viram no visto um maná para escapar daqui, eram esses jovens livres? Se pessoas se vendem para quem faclita o visto, são essas pessoas livres no próprio país?

sábado, 29 de abril de 2023

Notas sobre Relações líquidas em uma Sociedade do Espetáculo

 

Faz tempo que não vejo almas nas pessoas, sempre constatei que tudo de tornou uma mercadoria. Pessoas aprendem sobre relações com tik toks, com blogueirinhas do Instagram e memes. E para quem tem essas ilusões, só outros atores conseguem vender isso. O que Guy Debord diria em Sociedade do Espetáculo – “A ilusão é sagrada, a verdade é profana”

Todavia, é tudo um espetáculo. De figuras que aparecem de fato e gravata com sotaque lisboeta e parecem mais iteligentes do que são e socialmente mais relevantes. De jovens abrindo garrafas de whisky como sinal de macho alfa dominante, isso funciona, e atraem olhares penetrantes. De casais perfeitos que tomamos por felizes por causa das imagens que propagam... um triste espetáculo.

Vejamos, pensando em um relacionamento, terá como ideia a publicidade onde algo excitante ocorre o tempo todo como num filme… e no filme as mulheres são figuras passivas que precisam ser bajuladas o tempo todo. esquecem que isso é entertrenimento para vender produtos. A imagem do homem provedor que atualmente precisa vir de Londres, precisa vestir camisolas de jogadores de NBA e estar fumando shishas o tempo todo. É uma imagem que transmite um conceito que acaba sendo repetido por todo canto da ilha. Ser simples é “boring”, não ser notado é um sacrilégio.

Com efeito, só temos atores de imagens já criadas. Como se a ficção e a realidade não pudessem mais ser separadas. Todos os perfis femininos são iguais, mesmos ângulos, sublimação das mesmas coisas e os seus amores acabam sendo super semelhantes. Basta andar pela rua e reparar que todas se vestem da mesma forma e adoram as mesmas marcas.

Por fim, ninguém ama ninguém, boa parte não tem alma, tudo se trata das imagens que as pessoas absorvem, escolhas feitas para elas. E quando julgam gostar de facto de alguém, trata-se somente de um amor por uma marionete que saindo de controle o mestre de marionetes sente-se frustrado. Precisamos de mais remédios para esconder que esse modelo fantasioso não está adoecendo as pessoas… a relação afetiva trnou-se um jogo de números, uma ficção, uma representação de casais frustrados. Um conjuntos de ansiosos sociais usando máscaras.

quinta-feira, 13 de abril de 2023

E o piolho está na cabeça de todos nós.

 

Existe uma receita básica para inflar o interesse das pessoas por um determinado tema: o ridículo. Sempre foi explorado em todas as partes do mundo e com resultados surpreendentes. A fórmula de chamar atenção pela atenção com conteúdos chocantes – uma receita pós-moderna, uma receita kardashian.

Mister Page é um herói trágico, do meu ponto de vista. Eu via-o andar de lugar em lugar usando as suas roupas extravagantes e se declarando cantor. Humilhação após humilhação dos demais que desacreditam o seu talento. Ele foi de dor em dor sem nunca perder o entusiasmo por uma vida com base na sua arte, naquilo que o deixa feliz, a música. Ele venceu a resistência (desculpas que se dá para não seguir o que se ama), ele superou o conceito existencialista de má fé (colocar nos outros a culpa pela forma como age ou por não estar onde desejaria estar). E agora ele olha o piolho por cima das nossas cabeças.

Por outro lado, conheci muitos cantores que em quesito talento e oportunidades superavam facilmente o Mister Page. Onde eles estão? Uns em depressão, outros buscam emprego “de verdade” e os outros sequer conseguiram sair do banheiro. Outros até, acredito que muitos agora, maldizem de todos que tentam seguir o talento ou a vontade de cantar chamando-os de imaturos, infantis e ridículos.

Por consequência, posso até falar de mim. Sempre gostei de escrever e perco horas lendo coisas e acumulando experiências na esperança que um dia, enfim, venha uma obra magna da minha parte e eu tenha finalmente a ousadia de me declarar escritor. Mas não consigo, o desemprego assombra-me, a ideia de que não sou bom o suficiente está ali. Passo dias pensando na carreira de escritor e poeta que nunca segui de facto. Tive ótimas oportunidades para seguir a vocação, mas faltou aquilo que Mister Page tem de sobra, coragem e perserverança… faltou a coragem do neu vizinho Ghost, do meu amigo Brother, lafinesse, Okapa,… o piolho está na minha cabeça também.

Por fim, creio que Mister Page tenha percebido o óbvio das redes sociais: as pessoas compartilham mais o que acham ridículo do que outra coisa qualquer. Basta olhar para o The Voice, ninguém se lembra do vencedor, mas todos se lembram dos que fizeram papel de ridículos. Até a audiência do The Voice é maior durante o casting. O piolho está ali também, o público quer ser entretido apenas.

quarta-feira, 12 de abril de 2023

O remédio budista para o fim do sofrimento.

 


De acordo com o pensamento budista, a causa maior do sofrimento reside nos nossos desejos. Diante dessa afirmação, a mente corre rapidamente para a ideia de que não desejar é a solução. Isso é não entender a natureza da mente. Desejar não desejar ainda é desejar. Buda estava falando do desejo pelas coisas não correctas. Os desejos não podem não ser desejados, mas entendidos, desaparecem como bolas coloridas.

Com efeito, se desejamos algo passamos por duas fases: não ter e ficar ansioso ou ter e ficar entediado. Posso fazer uma relação rápida com a ideia de amor em Platão que se fundamenta no desejo. Para Platão amor = desejo. Qual é o problema? Assim que se tem o objeto do amor, vem o êxtase e após isso o amor acaba. Só o cego pode desejar ver. O desejo mostra a nossa falta, mostra a nossa insegurança e prega-nos uma armadilha existencial. Se só desejo o que não tenho, o desejo reside na falta. Os relacionamentos tornariam uma espécie de lançamento de Iphone, após experimentar os dissabores de lidar com a realidade, um novo modelo é lançado e nos convencemos que o futuro será melhor.

Buda diria, tenha cuidado com as coisas que desejas, por esses desejos correrás riscos desnecessários e projetarás a tua felicidade em coisas bem fugazes ou passageiras. Buda despertou para a vida quando conheceu o mundo real. A morte, a doença, o envelhicmento… a perda. A natureza transitória do corpo e das coisas que tomamos por eternas causam sofrimentos reais. Os nossos pais ou filhos morrerão, o nosso corpo entrará em colapso, um dia morreremos também. Precisamos reconhecer isso como parte da vida.  Evitar isso é evitar a vida… é urgente viver realmente e sem distrações.

Buda no momento de iluminação meditando nas árvores salas gêmeas percebeu o Mara, a ilusão. É fácil alguém se iludir enquanto crê iludir o outro. Que nem um aluno que copia na prova e crê driblar o sistema mas acaba perdendo a oportunidade de desenvolver uma competência útil à vida. Mara representa a ilusão, Mara vive dentro de nós e funciona como a força que nos impede de ver a Verdade. Ele está no véu de Maya que não nos permite ver as coisas como são.

Qual Verdade?: a transitoriedade das coisas. Hoje estamos vivos, amanhã não. Não podemos controlar os pensamentos e as ações dos outros. O mundo é caótico. As pessoas que gostamos vão morrer. Nosso tempo pode ser exinguido a qualquer instante. Estabilidade não existe. Tudo está em constante mudança. Não precisamos buscar nada fora, nada está em falta, a única viagem necessária é para dentro. Por fim, não podemos salvar pessoa alguma, cada um está naufragando, corpos doridos, e quem está se afogando não poderá ser salva e arrastará tudo e todos no processo.

Destarte, penso no problema com o desejo, devemos de facto buscar satisfazer os nossos desejos ou entender a natureza dos nossos desejos? Devemos dizer a quem tem desejo por álcool que deverá buascar formas de consumir mais ou de entender de onde vem esse desejo? Devemos satisfazer os nossos desejos e ficar irritado quando não conseguimos ou entender o quanto Ego nos engana dizendo que merecemos isso ou aquilo e personaliza tudo?

Diante da dor, precisamos entender o quanto disso reside nas coisas que permitimos, nas pessoas com quem aceitamos conviver, no contexto que acreditamos que precisa ser suportado... no nosso senso de auto-importância. Como temos sido engandos pelo próprio desejo de ser isso ou aquilo? - Não temos inimigos e ninguém poderá nos ofender se enfrentamos o nosso ego e seus desejos.

sábado, 25 de março de 2023

Porque é tão difícil amar o real?

Amor fati,ou amaor ao destino, é a fórmula de Nietszche contra todo o mundo ideal que nos contrange diariamente.

Diria Nitszche:

"O amor fati é o amor ao seu destino, mesmo que ele seja duro e implacável. Somente aceitando-o e amando-o, você pode libertar a si mesmo do sofrimento e da dor."

 

Eu sei que é mais fácil gostar do calor quando se está no frio, é mais fácil gostar do frio quando se está no calor. Com esse pensamento, caímos no platonismo perigoso: acreditar que existe um mundo ideal onde não existirá nada daquilo que nos deixa triste.

Todavia, se tens em mente o ideal de família perfeita com base em redes sociais e filmes onde pessoas felizes tomam pequeno almoço juntos e riem,casais perfeitos, o sofrimento espreita.

COmo também, as Pessoas reais são falhas, na vida nós adoecemos, pessoas passam por problemas e amigos morrem. Pessoas que amamos passam por problemas e incertezas insondáveis, tais como nós. Negar o mundo real é um passo para o escapismo alcóolico, drogas, promiscuidade e se tornar vítima de pastores maldosos.

Destarte, criamos fantasias nessa vida.Desenhamos papéis para o outro que não existem: queremos que a pessoa seja A ou B. Queremos que elas nos olhem de forma C ou D… uma tentativa de tentar aplicar as nossas fantasias às pessoas e às situacões. 

Por fim, Desilusão – o mundo mostrando para ti que não és quem pensas ser e os outros também não o são. Não és exceção à inevitabilidade da morte e dos problemas. O Universo não é mau, apenas não existe para os nossos caprichos e desejos. O mundo capota diariamente… aceite-o, aceitando as emoções superamos, negando-as,sucumbimos... 

Nietzsche segurando no martelo diria:

 

"O amor fati é a chave para a felicidade, pois é a aceitação completa e incondicional de tudo o que a vida oferece, mesmo o sofrimento e a dor."

 

"Amar a vida, mesmo em sua dor e sofrimento, é o caminho para a sabedoria e a compreensão da verdadeira natureza do mundo."

 

"O amor fati é a aceitação do presente, sem desejar que fosse diferente. É amar a vida como ela é, não como gostaríamos que fosse."

quarta-feira, 22 de março de 2023

Poesia, remédio contra a modernidade doente

 

Desde o início, a linguagem apareceu como uma necessidade de expressar uma ideia. Tentativa de comunicar-nos com os outros a partir de códigos e sinais. Contudo, o que não nos contam é o quanto a linguagem é limitada, mal sabemos o que sentimos e não conseguimos nomear as coisas que passam dentro, os nossos olhares estão sempre desatentos.

Por um lado, no baile de máscaras que é a sociedade, a única variável comum é a mentira. A maior mentira contada não é aos outros, mas a nós mesmos. A grande mentira é a propaganda vendendo um modelo de vida irreal a partir de estranhos apóstolos em vestes de “digital influencer”. Por outro lado, estamos viciados na busca por distrações, queremos evitar o que sentimos. Boa parte do problema poderá ser o trabalho que não gostas, o parente narcisista, os amigos que não abandonas e o medo de estar só.

De qualquer modo, estamos sempre convencidos de sermos melhores ou piores do que de fato somos. Sócrates martela de um lado o que ouviu do Oráculo dos Delfos: conheça-te a ti mesmo. Algo simples, mas complicado de se fazer. Muitos não resistem aos rótulos. Os pais, dão-nos um nome, no apelido, está aí sepultado toda a carga histórica e expectativas frustradas que esperam que o seu gene carregado pela criança materialize. Depois a criança se faz adolescente, agora é o pensamento do grupo, ela quer se identificar com certos grupos e isso passa a ser a sua identidade… depois adulto, o trabalho, a sua sexualidade, a conta bancária, os aplausos… tudo isso joga naquilo que ele acredita ser… o que a pessoa é de fato? Queremos a felicidade do outro ou que ela cumpra nossas expectativas?

Todavia, a poesia seria uma aposta alta! É travar a vida agitada e suas rotinas desgastantes para começar a se indagar verdadeiramente: que raio de felicidade é essa que preciso estar sempre dopado? Essas pessoas que me envolvem e todos os rituais de prova de masculinidade ou de capacidade de consumo fazem sentido para mim? O que fazer quando se sente que nenhuma tribo reflete os nossos ideais? – mentimos para nós mesmos, o problema deve estar em nós. A poesia serve para dizer que não tem valor algum estar adaptado a uma sociedade doente.

Por consequência, como muitos, fico no meio de um turbilhão de incertezas que muitos acabam aplacando com copos e corpos, consumo de pessoas e adorações de objetos ou deuses e feiticeiros… e o baile de máscaras segue, muitos passam tanto tempo com a mesma máscara que esquecem o próprio rosto. A poesia serve para dizer que a vida é um ato de ousadia, um ato de resistência, dar chance à realidade. A poesia questiona o quotidiano e quebra os pés de argila da Normalidade…

Quem são os outros que nos olham como juízes? Por qual motivo precisamos estar perdendo a nós mesmos numa tentativa de pertencer, de buscar aplausos, precisamos de fato imitar a vida artificial das redes sociais?! Por qual motivo todos os atos de amor aparecem ligados ao consumo? O presente caro que significa amor, os banquetes intermináveis como família unida, o casamento que precisa ser uma espécie de pompa para os outros… Porque o Natal tem cores da Coca-cola? Quando foi que viramos jogadores do jogo de quem importa menos com os outros? A história da civilização se encerra no sepultamento de todos que ousam revelar a Verdade – Somos reféns de imagens irreais.

Por fim, pessoas, tudo é sobre pessoas, todas tão iguais representando um papel emprestado. A sensação que sempre tive é de todos estarem em monólogos consigo mesmos, dois monólogos numa tentativa de diálogo impossível. A sensação é de as pessoas imitarem ídolos: o tipo intelectual, a pessoa de família, o arrogante disfarçando a ignorância com títulos e posições sociais, a Diva soberba, … Depois o cansaço, rejeitei todos esses títulos. Longe da perfeição, apreciava as conversas literárias mais irónicas com meu pai. Amigos e companheiros de sarcasmo em toda a parte do mundo. A poesia não tem pátria.

A poesia cai como um martelo estoico e pergunta-me: conheces o teu bisavô e a vida que teve? – Respondo que não. A poesia depois grita: memento mori! Um dia serás alguém que em duas gerações ninguém se lembrará. Não precisas das opiniões dos teus contemporâneos. A vida é o que acontece quando não és mais dominado pelo medo. Liberdade é quando não negocias mais a tua felicidade aceitando rótulos… Por ser momento poético, quero terminar com esse trecho:

 

“Todos esses que aí estão

Atravancando meu caminho,

Eles passarão...

Eu passarinho!”

(Mário Quintana)

 

Nota: Bem-vindo Marvin, nasceu no dia da poesia e da criação da Ilha dos Poetas vivos!  

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

O prazer como medicamento contra a morte?

 Geralmente deparo-me com a frase como: “todos nós vamos morrer, por isso, precisamos aproveitar a vida ao máximo” – O que não dizem e fica implícito é o que quer dizer “aproveitar a vida”. O que temos aqui para aproveitar? Onde vamos aproveitar e como?

Todavia, depois de dizer "aproveitar", a pessoa segura num copo de cerveja e afirma que só se vive uma vez e não compensa negar os prazeres da vida. A partir daqui podemos ousar filosofar um pouco… então, o prazer é a forma mais rápida de aproveitar a vida. Logo, o homem estaria condenado a uma vida de evitar dores e buscar o máximo de prazer possível. Parece correto… mas a conta não fecha.

Por qual motivo a conta não fecha?  - Porque o que nos dá prazer, não necessariamente nos faz bem e causa uma dependência a partir de um ponto. Ter prazer e ter momentos felizes parecem a mesma coisa, mas se trata de categorias diferentes, mesmo ao nível bioquímico. Nesse momento podem pensar que tem um Lopandza pregando o ascetismo e a vida sem prazeres. Garanto que não é isso.

Vejamos, ao passar por uma tenda de cacharamba e dar de encontro com os bêbados, tenha noção que o prazer os deixou ali nesse estado. O prazer como fuga da realidade é viciante, tira as pessoas da tensão atual, e um dia elas são atropeladas pela realidade e não resta nada além de um corpo buscando por mais prazer. Mais do que isso, o prazer não pode ser repetido com a mesma dose inicial. Pense na tua infância e as coisas que te davam gozo e prazeres enormes. As festas que darias a alma para ir… as festas não ficaram sem graça do nada, apenas precisas de festas com níveis cada vez mais intensos de prazer para causar a mesma sensação ou de beber tanto para que uma festa repetindo as mesmas músicas com as mesmas pessoas não pese tanto nos teus ombros.

Com efeito, se aproveitar a vida é apenas sexo, comer, beber, rir, fugir das responsabilidades e garantir que tenha o mínimo de dor… isso é uma vida bovina, vida de uma vaca no pasto. Quer dizer que todo esse potencial humano, a imaginação, a linguagem, a abstração, servem apenas para isso… sexo, drogas, álcool e entretenimento?? Tantas questões interessantes, a vida cósmica, a política que nos dá um soco no estômago diariamente, as mudanças climáticas, a fome e todas as tragédias.. devem ser só regadas ao álcool e “aproveitar a vida”.

Por fim, quero partilhar o meu segredo contra o desespero. Tenho consciência de que antes de mim as condições foram melhores, depois pioraram, passamos 400 anos de esclavagismo com base racial… e os que lutaram não viram a vitória. Tivemos séculos em que a morte por doenças que hoje extinguimos, encomendava as almas e desafiava a existência humana. Vejo herança da humanidade em tudo, no sofá onde me sento, no laptop onde escrevo esse artigo, … vejo a história humana em todo o seu potencial e contradições. Como quero participar na História Humana? – embriagar-me e esquecer os problemas da humanidade?! Não seria “aproveitar a vida” uma contribuição de todo o nosso potencial para a futura geração? Que raios de vida aproveitada que precisamos estar embriagados e a ter orgasmos para distrair-nos?! Sei que nem todos possuem o luxo de pensar o porvir, aos que podem, o que vos detém? Foram silenciados pelos pequenos prazeres? – Meu pai citando Sócrates dizia-me: “Não morremos porque nos matam, morremos porque somos mortais, é da nossa natureza morrer” – E Ivanick, um Lopandza sem a mesma notoriedade ainda acrescenta: E viver? Porque temos tanta gente morrendo sem ter vivido? Não é da nossa natureza viver também? Quais são as prisões que nos tem impedidos de sonhar um futuro melhor e optar por essa fuga constate da realidade?!

 

 


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Texto sobre os mortos para a utilidade dos vivos

 


 

A vida é breve, o fim é inevitável e nesse meio tempo carregamos uma existência sem saber ao certo o que fazer com o tempo que temos aqui.

Pessoalmente, lembro de ter lido Voltaire por sugestão do meu pai. Tinha lido alguns livros seus famosos, quando o meu pai morre crio uma pasta com todos os livros que o meu pai gostaria que eu lesse. Entre os livros de Voltaire está o Micrômegas, um gigante vindo de Sirius, visitando o nosso sistema solar, chega na terra e discute filosofia com os terráqueos mais geniais. Em algum momento eles reclamam da brevidade da vida, e Micrômegas na voz de Voltaire diz que passou por várias estrelas e universos onde seres vivem até mil anos, e todos achavam que a vida fosse breve.

Sêneca acrescentaria, a vida é breve ou as nossas ocupações insignificantes roubam o nosso tempo? Quanto do nosso tempo é realmente nosso? – Ivanick acrescentaria, de onde vem a ideia que viveremos para sempre e envelheceremos como os nossos pais, avôs, vizinhos?! … a velhice não é garantida, a vida não é uma corrida para ver quem vive mais.

Por outro lado, tendemos a achar que existe uma fórmula como a vida deve ser vivida. Não tem. Quem arroga para si o conhecimento da boa vida não sabe o que fazer com a própria vida. A vida é exploração e não replicação de fórmulas fracassadas por outros. O mundo não foi criado por deuses, mas pessoas como nós, com angústias e frustrações, é o nosso papel buscar as nossas próprias conclusões e vivê-las.

Vitor Frankl, após sobreviver ao campo de concentração nazista percebe que a força para aguentar a vida não é uma questão física ou condições materiais favoráveis, a nossa maior necessidade é por propósito. Ivanick acrescentaria como um filósofo que nunca foi: De onde vem a ideia que precisamos sobreviver tendo uma vida que não queremos para nos manter vivos na vida que não queremos, não parece um ciclo estranho demais?!

Ailton krenak acrescenta: A vida não é útil, não vivemos medindo a nossa produtividade apenas. Não somos na medida que consumimos. O que é ser útil? O que andamos por aí a adorar? Quais imagem fantasiamos?

O que isso tem a ver com a morte? Porque trouxe essas referências que parecem aleatórias? - Porque a vida acaba, e precisamos pensar o que queremos fazer com o nosso tempo… Não seria melhor contribuir para que a experiência humana seja interessante para todos? O que queremos vencer? O que é vencer na vida quando a morte reduz tudo à nada?! A quem vendemos o nosso tempo tão limitado. E tu que lês, podes morrer amanhã, valeu à pena a experiência até agora? Queria ter perguntado isso ao Kaymy, Papito, meu pai, meus tios, amigos,… e ao menino Dalton que um dia desses se foi – Valeu à pena? Quais eram os vossos ideais e sonhos que deixaram na gaveta por realizar?

A quem vocês venderam o vosso tempo? Quantas costelas quebraram erguendo esse mesmo monstro social que vos engole?

 

Não quero aqui fazer uma propaganda de vida louca e irresponsável, mas o contrário. Se vamos morrer, temos de ser responsáveis com quem partilhamos o tempo, as ideias que defendemos e com as coisas que nos fazem bem! Compensa estar numa relação que te consome a alma? Compensa perder saúde mental num trabalho alienante? Compensa sofrer para manter status de família perfeita? Vais morrer, leve a porra da tua felcidade mais à sério!

A vida é breve, mais uma vez perco um amigo para me lembrar disso. Estamos juntos Kaymy! Estamos juntos Dalton, e tantos outros mergulhados no mesmo caldo do tempo.

Aos vivos, espero que estejamos ainda mais juntos, estamos atravessando o mesmo portal espaço-tempo, não precisamos ser inimigos! Não temos inimigos, não há ninguém que seja ok machucar, Precisamos pensar em criar nossos próprios valores que sejam de facto humanos

Lula e a difícil arte de explicar o povo ao povo

A América Latina virou à direita Milei e a sua motosserra na Argentina. Bukele e as suas prisões em El Salvador.  Abelardo de la Espriella e...