segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Lula e a difícil arte de explicar o povo ao povo


A América Latina virou à direita

Milei e a sua motosserra na Argentina. Bukele e as suas prisões em El Salvador. Abelardo de la Espriella e suas apariões intrigantes com aparato de segurança O avanço de forças conservadoras e a erosão de projectos progressistas em diferentes países da América Latina compõem um cenário pouco animador para quem ainda acredita que a história caminha, por inércia, na direcção certa.

Durante muito tempo, parte da esquerda latino-americana pareceu acreditar que a memória das desigualdades, a defesa dos mais pobres e a promessa de justiça social seriam suficientes para garantir a sua continuidade política. Não eram.

A direita percebeu que a insatisfação popular pode ser transformada em força eleitoral. Aprendeu a explorar o medo, a insegurança, a revolta contra as elites e o cansaço com promessas que nunca chegam à mesa de jantar.

A esquerda, por vezes, parece ter ficado a discutir a interpretação correcta do descontentamento enquanto outros tratavam de o converter em votos.

Há, evidentemente, diferenças entre os países, os seus sistemas políticos e as razões que explicam cada resultado eleitoral. Mas existe uma pergunta comum: como é possível que sectores populares apoiem projectos políticos que parecem contrariar os seus próprios interesses económicos?

Talvez a pergunta esteja mal formulada. Talvez o problema comece quando presumimos saber, melhor do que os próprios eleitores, quais são os seus interesses.

Lula, o colírio de uma esquerda fatigada

É neste contexto que Lula da Silva reaparece como uma figura de enorme relevância para a esquerda latino-americana. Não porque tenha todas as respostas, nem porque o Brasil tenha resolvido os seus problemas, mas porque a sua trajectória demonstra que é possível sobreviver politicamente à mudança dos tempos.

Para muitos, Lula representa também uma alternativa à influência norte-americana na região. A aposta nos BRICS, a defesa de uma ordem internacional multipolar e a procura de maior autonomia diplomática alimentam essa expectativa.

Mas convém não confundir ambição geopolítica com transformação económica. Um mundo multipolar não é necessariamente um mundo mais justo. Podemos substituir a dependência de um centro de poder por várias dependências menores e continuar a vender matérias-primas, importar produtos transformados e celebrar discursos sobre soberania.

Queremos um mundo multipolar, mas, quando chega a hora de discutir quem controla a riqueza, descobrimos que a multipolaridade também tem os seus departamentos comerciais.

Lula funciona, assim, como uma espécie de colírio para uma esquerda fatigada: devolve-lhe alguma esperança, oferece-lhe uma referência internacional e demonstra que o campo progressista ainda pode vencer eleições difíceis.

A questão é saber se essa esperança produzirá renovação política ou se servirá apenas para adiar uma conversa incómoda sobre os limites, os erros e as contradições da própria esquerda.

Porque vencer com Lula não significa, automaticamente, compreender o Brasil. E admirar Lula não dispensa a tarefa de perceber por que razão tantos brasileiros continuam a preferir alternativas políticas que a esquerda considera inexplicáveis.

Quando o eleitor se torna um problema sociológico

Existe uma tentação recorrente nos círculos políticos e intelectuais: quando o eleitor vota como esperamos, é consciente; quando vota contra as nossas expectativas, precisa de ser explicado.

De repente, o cidadão transforma-se num objecto de estudo. Surgem as análises sobre a manipulação mediática, o conservadorismo cultural, a falta de consciência de classe e a influência das igrejas. Tudo isso pode ter importância. O problema começa quando a explicação se transforma numa forma elegante de desqualificação.

O eleitor vota mal porque foi enganado. Vota à direita porque não compreende os seus interesses. Rejeita determinada proposta porque não teve acesso à informação correcta.

E se simplesmente discordar?

Uma parte da esquerda parece ter desenvolvido uma relação curiosa com a democracia: acredita profundamente no poder do povo, desde que o povo chegue à conclusão esperada.

É uma estratégia interessante. Tem a vantagem de dispensar a escuta e a desvantagem de perder eleições.

O problema não é a universidade, a teoria ou a análise sociológica. Precisamos de tudo isso. O problema é imaginar que o conhecimento académico confere automaticamente superioridade política e moral. Saber interpretar o mundo não significa, necessariamente, saber conversar com quem vive nele.

Um trabalhador pode rejeitar um partido de esquerda por razões religiosas, culturais, económicas ou pessoais. Pode desconfiar do Estado, temer a criminalidade, desejar mobilidade social ou sentir que determinada política ameaça a sua autonomia. Essas razões podem ser contraditórias, mas continuam a ser razões.

Não basta classificá-las. É preciso compreendê-las.

A democracia ganhou milhões de comentadores. Ainda está a tentar perceber quantos deles estão dispostos a ouvir.

O mistério do pobre de direita

O chamado «pobre de direita» tornou-se uma das personagens mais discutidas da política contemporânea brasileira. É frequentemente apresentado como alguém que vota contra os seus interesses, teme a mudança, frequenta a igreja e acredita no mérito individual. Em algumas versões, acrescentam-se o machismo e a misoginia, como se um conjunto tão vasto de pessoas pudesse caber numa única caricatura.

A caricatura é confortável porque dispensa a investigação. Basta olhar para o eleitor, identificar a contradição e concluir que ele não percebe o mundo.

Mas a política raramente funciona de forma tão arrumada.

As pessoas não votam apenas em função do rendimento, dos impostos ou das transferências sociais. Votam também a partir da sua identidade, da comunidade a que pertencem, das suas crenças, dos seus medos e da imagem que fazem do futuro.

Um pequeno empresário pode ganhar pouco, trabalhar doze horas por dia e acreditar sinceramente que o seu destino depende de conseguir expandir o negócio. Não se identifica necessariamente com a linguagem da luta de classes. Identifica-se com a ideia de independência, com o desejo de deixar de depender de terceiros e com a esperança de um dia prosperar.

Entre quem depende de assistência social e quem possui uma multinacional existe um território imenso de experiências, aspirações e inseguranças. A política perde quando trata esse território como se fosse uma fronteira moral entre esclarecidos e ignorantes.

Lembro-me das conversas com um amigo brasileiro nas nossas , em algumas das nossas quartas-feiras marxistas. Discutíamos capitalismo, consciência de classe e a velha promessa de emancipação. Fora da conversa, porém, o mundo continuava a oferecer às pessoas outras linguagens para interpretar a sua existência: a igreja, o pequeno negócio, a família, o mérito, a disciplina e a possibilidade de ascender socialmente.

O neoliberalismo tem uma narrativa poderosa: começa-se pequeno, trabalha-se muito e, um dia, pode-se chegar a Bill Gates. A probabilidade de isso acontecer é outra conversa. A força política da narrativa está em oferecer uma imagem de futuro na qual cada pessoa pode imaginar-se protagonista.

A esperança é a última a morrer, sobretudo porque raramente lê as sondagens.

A igreja também pode oferecer pertença, apoio, disciplina e redes de solidariedade onde o Estado chega mal ou chega tarde. Isso não significa que todas as igrejas pensem da mesma maneira, nem que a religião explique, por si só, o voto conservador. Significa que as organizações políticas precisam de perceber os vínculos sociais que já existem, em vez de presumirem que uma boa proposta económica será suficiente para os substituir.

A esperança vende. O sentido de pertença também. E quem não oferece nenhum dos dois dificilmente conquista alguém apenas com uma apresentação sobre desigualdade.

Há ainda uma dimensão mais desconfortável: nem todas as pessoas colocam a redistribuição económica no topo das suas prioridades. Algumas preferem segurança, estabilidade cultural, autonomia individual ou uma promessa de mobilidade, mesmo quando essas prioridades entram em tensão com os seus interesses materiais imediatos.

Isso pode ser criticado. Não deve ser tratado como um mistério insolúvel.

O desafio da esquerda não é fingir que todas as escolhas são coerentes. É perceber por que razão uma narrativa política consegue mobilizar as pessoas, enquanto outra, por vezes mais favorável à sua condição material, não consegue convencê-las.

Lula aprendeu a mudar sem deixar de ser Lula

Lula não chegou à Presidência em 2022 depois de perder a primeira volta. Pelo contrário, ficou em primeiro lugar, com 48,43% dos votos válidos, contra 43,20% de Jair Bolsonaro. Como nenhum candidato obteve maioria absoluta, a disputa passou à segunda volta, na qual Lula venceu com 50,90%.

O resultado foi apertado e demonstrou que o Brasil continuava profundamente dividido.

A vitória não pode ser explicada por uma única estratégia, muito menos pelas redes sociais. Pesaram a memória dos governos anteriores de Lula, a rejeição a Bolsonaro, as alianças políticas, a situação económica, a mobilização territorial e a capacidade de construir uma coligação eleitoral ampla.

Ainda assim, a campanha deixou uma lição importante: a comunicação política não pode ficar congelada na linguagem de uma época.

Lula conservou elementos centrais da sua identidade política, mas adaptou a forma de se apresentar, de circular nos meios digitais e de conversar com públicos diferentes. Não precisou de abandonar toda a sua história para reconhecer que o ambiente político tinha mudado.

Essa distinção é fundamental. Adaptar-se não significa renunciar aos princípios. Significa compreender que os princípios não se comunicam sozinhos.

Uma ideia pode ser justa, necessária e intelectualmente sólida. Se não conseguir chegar às pessoas, disputar a sua atenção e fazer sentido na experiência quotidiana, corre o risco de permanecer confinada aos lugares onde já é aplaudida.

A política não é apenas o conteúdo da mensagem. É também a capacidade de a tornar compreensível, relevante e credível para quem ainda não está convencido.

A camisola da selecção e a reconquista do Brasil

Durante anos, a camisola amarela da selecção brasileira foi um símbolo nacional que atravessava diferenças políticas. Nos últimos anos, tornou-se também um marcador de identidade política, associado de forma particularmente visível aos apoiantes de Bolsonaro e a sectores da direita brasileira.

O problema não era a camisola. Era a disputa pelo significado da camisola.

Quando um grupo político consegue apropriar-se de um símbolo colectivo, passa a apresentar-se como representante legítimo da nação. Os adversários deixam de ser apenas adversários: parecem menos brasileiros, menos patriotas ou menos dignos de pertencer à comunidade.

Recuperar um símbolo nacional é, por isso, mais do que uma operação estética. É disputar a ideia de quem tem direito a representar o país.

A esquerda brasileira procurou contrariar essa apropriação, apresentando a camisola e as cores nacionais como património de todos, não como uniforme de uma facção. O gesto revela uma lição que ultrapassa o futebol: símbolos políticos não pertencem definitivamente a quem os utiliza primeiro ou com maior intensidade.

O mesmo vale para a bandeira, a pátria, a família e até a ideia de liberdade. Nenhum campo político possui o monopólio dessas palavras.

Há, porém, uma questão mais profunda. A linguagem tradicional da luta de classes já não descreve, por si só, toda a experiência de quem trabalha. A classe operária não desapareceu; transformou-se. O trabalho distribui-se hoje por serviços, plataformas digitais, pequenos negócios, informalidade e formas precárias de emprego que nem sempre se reconhecem nas antigas categorias políticas.

O trabalho mudou. A política precisa de perceber o que mudou com ele.

Continuar a falar como se todos os trabalhadores se identificassem automaticamente com os símbolos, as organizações e a linguagem do movimento operário do século XX é uma forma de nostalgia. E a nostalgia pode ser intelectualmente sedutora, mas raramente constitui um programa eleitoral.

 A lição de Lula: ninguém é proprietário do povo

A trajectória de Lula não prova que a esquerda tem sempre razão, nem que basta adaptar a comunicação para vencer. Demonstra algo mais modesto e mais exigente: a política precisa de se renovar sem perder a capacidade de reconhecer as pessoas a quem pretende representar.

Nenhum partido é proprietário dos trabalhadores. Nenhum movimento possui o monopólio da justiça social. Nenhuma ideologia garante, por si só, que os seus representantes compreendem a realidade melhor do que os seus adversários.

A representação política é uma relação, não uma escritura de propriedade.

O eleitor não tem a obrigação de confirmar as nossas teorias. Somos nós que temos de perceber as suas escolhas, disputar a sua confiança e apresentar alternativas que façam sentido para a vida concreta.

Isso exige princípios, mas também escuta. Exige análise, mas também humildade. E exige a coragem de reconhecer que, por vezes, o problema não está apenas naquilo que as pessoas não compreendem. Está naquilo que nós ainda não conseguimos compreender sobre elas.

Lula continua a ser uma referência incontornável para a esquerda latino-americana. A questão decisiva, porém, não é saber quantas vezes será possível repetir a sua vitória.

É saber se a esquerda consegue aprender com ela.

Viva a democracia.

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Abaixo Tudo! Mas Quem Fica com as Chaves?




1. A Europa também tem os seus dias de chinelos

A Europa acordou! Eu, que durante anos me perguntava como uma civilização que tanto se orgulha dos seus indicadores de desenvolvimento humano conseguia conviver tão tranquilamente com injustiças e condições de vida precárias para tantos, começo a surpreender-me com os acontecimentos recentes. O descontentamento que começou a tirar o sono a Macron parece alastrar-se, atravessar fronteiras e ameaçar chegar a outros centros de poder europeus. Até em Portugal, as notícias já falam de ameaças contra uma das 55 propriedades ligadas ao primeiro-ministro. O continente que tantas vezes se apresentou ao mundo como um modelo de estabilidade parece ter descoberto que a paz social também tem prazo de validade.

Tudo terá começado com manifestações estudantis em França, motivadas por reivindicações concretas e melhores condições. Mas, como acontece tantas vezes, uma pequena chama encontrou um terreno que já estava seco. Por baixo das reivindicações imediatas acumulavam-se outras frustrações, outras contas por pagar, outras promessas por cumprir. A manifestação deixou de ser apenas sobre aquilo que a fez nascer. Tornou-se uma oportunidade para gritar tudo o que andava entalado. Não podemos duvidar da força dos que perceberam que não serão influencer's ou modelos de Only Fans.

A crise europeia não nasceu ontem. As guerras, a instabilidade geopolítica, os choques energéticos, a inflação e a crescente dificuldade de aceder à habitação expuseram fragilidades que a prosperidade dos últimos anos ajudara a disfarçar. O gás russo deixou de ser a fonte barata e previsível que alimentava parte da economia europeia. Os conflitos no Médio Oriente e os riscos associados às rotas marítimas voltaram a lembrar que a estabilidade dos preços europeus depende, em parte, de acontecimentos que se desenrolam a milhares de quilómetros. Entretanto, o mercado imobiliário continua a ser, para muitos, uma máquina de produzir rendas para uns e ansiedade para outros. 

Os europeus, que tantas vezes olharam para o resto do mundo com a tranquilidade de quem acredita ter encontrado a fórmula certa para viver, começam a conhecer uma versão da vida que, para muitos povos, nunca foi novidade: muito trabalho, salários que mal chegam ao fim do mês, instituições em que já não se confia e a sensação persistente de que o poder político e o interesse público nem sempre caminham de mãos dadas, talvez fosse ainda pior, interesses conflitantes.

Como santomense, confesso que sempre tive alguma inveja daqueles que conseguem confiar nos processos, nas instituições e na boa-fé dos seus governantes. Crescemos a olhar para determinados países como lugares onde as regras funcionam, onde os contratos são respeitados e onde a competência, em princípio, vale mais do que a proximidade com quem manda. É intrigante perceber que até essas sociedades podem começar a questionar os alicerces da confiança que as sustentam.

O mundo está a capotar. Ou talvez sejamos nós que estamos finalmente a ver aquilo que a estabilidade nos permitia ignorar. Admito o meu próprio viés: há em mim uma tendência para olhar para acontecimentos desta dimensão e imaginar que estamos a assistir ao princípio do fim. Talvez seja apenas o velho fascínio humano pelos tempos apocalípticos. Mas há uma questão que não consigo afastar: quando uma sociedade começa a perder a confiança nas suas instituições, quem consegue transformar esse descontentamento numa oportunidade política?

2. Quem controla a narrativa, controla a revolta

É aqui que a disputa fica interessante.

A direita encontrou uma maneira particularmente eficaz de disputar o significado da revolta. Por um lado, responsabiliza os sucessivos governos de esquerda pela degradação das condições de vida. Por outro, apresenta-se como a força da ordem, da segurança e da autoridade. Mas existe um problema: como defender a ordem sem reconhecer que parte dos desordeiros pode pertencer à própria comunidade que se pretende proteger? Como explicar a violência sem admitir que ela também pode nascer de dentro do tão celebrado mundo civilizado?

A solução narrativa é conveniente: o imigrante. Aquele que, alegadamente, importa métodos de selvageria, ameaça os costumes e vem pilhar a casa alheia. A partir daí, a reivindicação passa a ser desordem; a desordem transforma-se em pilhagem; a pilhagem converte-se em violência; e a violência acaba apresentada como prova de que o país está a perder a sua identidade. A questão social desaparece por trás da questão securitária. Não o imigrante que compram prédios, falo dos "petits fonctionnaires" do turismo, das obras e os uber's da vida. 

Não significa que os episódios de violência devam ser ignorados, nem que todos os discursos sobre imigração sejam iguais. Significa que, quando a violência de alguns passa a representar a essência de um movimento inteiro, cria-se uma oportunidade para deslegitimar as reivindicações de muitos. A direita não precisa necessariamente de inventar a desordem. Basta-lhe, por vezes, conseguir que a desordem seja a única coisa que o público vê.

E assim nasce um paradoxo: uma população protesta porque sente que o sistema deixou de funcionar a seu favor e pode acabar por entregar mais poder àqueles que prometem restaurar a ordem, sem necessariamente resolver as condições que alimentaram a revolta. O medo do caos pode tornar-se mais urgente do que a procura de justiça. E, quando isso acontece, a promessa de autoridade começa a valer mais do que a promessa de transformação.

3. A esquerda quer mudar o mundo. Mas consegue organizar a mudança?

Do outro lado, há uma esquerda mais radical que acredita que todas as batalhas devem ser travadas em conjunto. Greta Thunberg e outros ativistas procuram frequentemente estabelecer ligações entre a crise climática, as desigualdades económicas, as guerras, o legado colonial e as relações de poder internacionais. E não estão necessariamente errados ao reconhecer essas ligações. Não se pode compreender a Europa sem olhar para o mundo, nem falar de prosperidade europeia ignorando as relações históricas que a ajudaram a construir.

Mas existe uma diferença entre reconhecer que as injustiças estão relacionadas e acreditar que todas devem gritar ao mesmo tempo, no mesmo lugar e com a mesma intensidade.

Uma coligação que tenta transformar cada reivindicação numa batalha universal pode acabar por perder a capacidade de explicar o que pretende mudar primeiro, como o pretende fazer e com quem está disposta a construir uma solução. Quanto mais causas se acumulam sem prioridades partilhadas, mais difícil pode tornar-se manter a coesão. A diversidade não condena um movimento ao fracasso, mas a ausência de uma estratégia comum pode condená-lo à dispersão.

E, enquanto a esquerda tenta explicar o mundo inteiro, alguém pode estar a perguntar simplesmente como vai pagar a renda no próximo mês.

A política não se faz apenas com a verdade das causas. Faz-se também com a capacidade de as transformar em respostas compreensíveis, concretas e possíveis. Uma população pode reconhecer a injustiça do sistema e, ainda assim, rejeitar os movimentos que prometem combatê-la, se sentir que esses movimentos não compreendem as suas urgências. É nesse intervalo entre a indignação e a solução que outras forças políticas encontram espaço para crescer.

4. Da liberdade à autoridade: a história não tem o mesmo guião, mas tem perguntas recorrentes

A França, aliás, tem uma história que nos devia tornar prudentes perante os grandes gritos da liberdade. A Revolução Francesa abalou uma ordem política antiga, mas abriu caminho a uma sequência de conflitos e transformações que incluiu a ascensão de Napoleão Bonaparte. A história não se repetiu simplesmente quando Charles de Gaulle emergiu num contexto de crise nacional profundamente diferente. Seria demasiado fácil transformar acontecimentos separados por séculos numa única sequência. Mas permanece uma questão: porque é que, em certos momentos, a promessa de liberdade acaba acompanhada pela procura de uma autoridade forte?

Será que estamos a assistir à preparação de uma nova etapa da política francesa, com Marine Le Pen e a direita nacionalista a beneficiarem do cansaço, da insegurança e da desconfiança? Não sei. Seria precipitado anunciar o resultado antes de conhecermos o desfecho. Mas a hipótese merece atenção. Uma revolta contra a ordem existente não tem necessariamente uma orientação progressista. Pode abrir caminho a uma transformação social, mas também pode produzir uma reação conservadora, nacionalista ou autoritária.

Marx escreveu que os grandes acontecimentos e personagens da história aparecem, por assim dizer, duas vezes: primeiro como tragédia, depois como farsa. Talvez o problema seja que, enquanto discutimos se a história está a repetir-se como tragédia ou como farsa, ela já esteja a preparar um terceiro ato que ninguém antecipou.

5. O povo pode encher as ruas. Mas quem tem o poder de mudar o Estado?

Não vos apoquenteis! Antes de anunciar a revolução, convém perceber que encher uma praça é mais fácil do que tomar um palácio. O povo tem cartazes, megafones e indignação. O Estado tem tribunais, burocratas, cofres e polícia. A indignação faz barulho; a máquina pública trata da papelada.

Thomas Hobbes já nos avisava: sem uma autoridade capaz de impor a ordem, corremos o risco de transformar a sociedade numa guerra de todos contra todos. Mas imagino o velho filósofo a explicar aos jovens manifestantes que o Leviatã existe para os proteger, enquanto estes lhe perguntam quem os protege do senhorio. É que a ordem é muito bonita, mas pagar a renda também tem as suas exigências.

Maquiavel seria menos sentimental. Não perguntaria quem tem razão, mas quem controla as armas, quem permanece fiel e quem consegue conservar o poder quando os aplausos acabam. Um governante pode ser detestado por milhões e continuar no palácio; uma multidão pode aplaudir a revolução e regressar a casa sem ter mudado absolutamente nada. A popularidade enche praças. Não derruba, por si só, estruturas de poder.

Morgenthau acrescentaria que, por trás dos grandes discursos sobre liberdade, solidariedade e dignidade humana, existem interesses e cálculos de poder. Os Estados apoiam aliados, enfraquecem rivais e aproveitam oportunidades. Mas nem precisamos de imaginar um embaixador estrangeiro a distribuir instruções secretas por cada revolta. Às vezes, a incompetência dos próprios governantes já faz o trabalho todo.

A verdade é que o povo pode ter a razão e até a maioria, mas o Estado continua a ter as armas, os cofres e o aparelho administrativo. Para transformar indignação em poder, é preciso mais do que gritar «demissão!»: é preciso abalar as estruturas que sustentam quem governa. Caso contrário, chega a noite, os manifestantes regressam a casa e, na manhã seguinte, o mesmo ministro aparece na televisão a defender a estabilidade.

Mas há um pequeno problema: o Estado pode dispersar uma multidão, não pode dispersar a inflação. Pode prender manifestantes, não pode algemar o preço da renda. Pode restaurar o trânsito, mas não consegue obrigar uma população inteira a acreditar que está tudo bem.

6. A revolta pode acabar a votar em quem promete acabar com ela

As manifestações poderão continuar. E, com elas, a procura de culpados. A esquerda e a direita digladiar-se-ão para explicar quem destruiu o país. Uns apontarão os gananciosos; outros, os preguiçosos. Uns dirão que o sistema foi mal desenhado; outros insistirão que o problema está nas pessoas que não sabem respeitar as regras de um sistema que, no essencial, seria perfeito.

No fim do dia, haverá quem continue em cima e quem permaneça em baixo. A riqueza poderá continuar a concentrar-se no topo, enquanto a base luta por uma fatia cada vez menor daquilo que produz. As pessoas poderão dormir nas praças, gritar nas ruas e exigir justiça. E talvez algumas acabem por votar mais à direita, em nome da ordem, precisamente porque a revolta não conseguiu oferecer-lhes uma alternativa que considerassem credível.

É este o perigo que mais me interessa. Não apenas a possibilidade de a revolta fracassar, mas a possibilidade de produzir uma vitória política para aqueles que menos têm interesse em alterar as condições que a fizeram nascer.

Afinal, a questão não é simplesmente saber se a Europa irá para a direita ou para a esquerda. É perceber se conseguirá transformar o descontentamento em mudanças concretas antes que o medo da desordem se torne mais poderoso do que a vontade de justiça.

Porque uma sociedade pode suportar a desigualdade durante muito tempo, sobretudo quando acredita que o futuro será melhor. Mas, quando deixa de acreditar nisso, alguma coisa começa a partir-se. E o resultado dessa ruptura não depende apenas de quem protesta. Depende também de quem consegue dar sentido à revolta, organizar as suas forças e convencer as pessoas de que existe uma saída.

7. Europa, e agora?

Uma mentira foi repetida tantas vezes que quase se tornou verdade: estamos todos no mesmo barco. Não estamos. Uns viajam em primeira classe; outros remam no porão. E há quem nem sequer tenha conseguido embarcar.

Durante anos, disseram aos pobres que a pobreza era uma questão de mindset. Os gurus venderam-lhes disciplina, os livros prometeram abundância e o poder da atração prometeu o resto. Mas nenhuma visualização paga a renda. Nenhum pensamento positivo compra uma casa. E, quando a promessa de sucesso falha, sobra a pergunta: e se o problema não estiver apenas na nossa cabeça, mas nas regras do jogo?

A Europa começa a temer aquilo que durante décadas julgou ser o destino dos outros: uma geração instruída, competente e condenada à precariedade. Jovens com diplomas, mas sem casa. Qualificações, mas sem segurança. Empregos, mas sem futuro. Não há vergonha em servir à mesa ou trabalhar num café. A vergonha está numa sociedade que promete mobilidade social e depois transforma a sobrevivência num privilégio.

Europa, e agora? Virar à direita, à procura de culpados? Virar à esquerda, à procura de alternativas? Derrubar os que estão em cima ou mudar as regras que os mantêm lá?

Os próximos acontecimentos dirão. Mas a pergunta decisiva é outra: quando a injustiça se torna insuportável, mas a mudança assusta, o povo escolherá transformar a ordem ou entregar-se a quem promete restaurá-la?

Lula e a difícil arte de explicar o povo ao povo

A América Latina virou à direita Milei e a sua motosserra na Argentina. Bukele e as suas prisões em El Salvador.  Abelardo de la Espriella e...