A América Latina virou à direita
Milei e a sua motosserra na Argentina. Bukele e as suas prisões em El Salvador. Abelardo de la Espriella e suas apariões intrigantes com aparato de segurança O avanço de forças conservadoras e a erosão de projectos progressistas em diferentes países da América Latina compõem um cenário pouco animador para quem ainda acredita que a história caminha, por inércia, na direcção certa.
Durante muito tempo, parte da esquerda latino-americana pareceu acreditar que a memória das desigualdades, a defesa dos mais pobres e a promessa de justiça social seriam suficientes para garantir a sua continuidade política. Não eram.
A direita percebeu que a insatisfação popular pode ser transformada em força eleitoral. Aprendeu a explorar o medo, a insegurança, a revolta contra as elites e o cansaço com promessas que nunca chegam à mesa de jantar.
A esquerda, por vezes, parece ter ficado a discutir a interpretação correcta do descontentamento enquanto outros tratavam de o converter em votos.
Há, evidentemente, diferenças entre os países, os seus sistemas políticos e as razões que explicam cada resultado eleitoral. Mas existe uma pergunta comum: como é possível que sectores populares apoiem projectos políticos que parecem contrariar os seus próprios interesses económicos?
Talvez a pergunta esteja mal formulada. Talvez o problema comece quando presumimos saber, melhor do que os próprios eleitores, quais são os seus interesses.
Lula, o colírio de uma esquerda fatigada
É neste contexto que Lula da Silva reaparece como uma figura de enorme relevância para a esquerda latino-americana. Não porque tenha todas as respostas, nem porque o Brasil tenha resolvido os seus problemas, mas porque a sua trajectória demonstra que é possível sobreviver politicamente à mudança dos tempos.
Para muitos, Lula representa também uma alternativa à influência norte-americana na região. A aposta nos BRICS, a defesa de uma ordem internacional multipolar e a procura de maior autonomia diplomática alimentam essa expectativa.
Mas convém não confundir ambição geopolítica com transformação económica. Um mundo multipolar não é necessariamente um mundo mais justo. Podemos substituir a dependência de um centro de poder por várias dependências menores e continuar a vender matérias-primas, importar produtos transformados e celebrar discursos sobre soberania.
Queremos um mundo multipolar, mas, quando chega a hora de discutir quem controla a riqueza, descobrimos que a multipolaridade também tem os seus departamentos comerciais.
Lula funciona, assim, como uma espécie de colírio para uma esquerda fatigada: devolve-lhe alguma esperança, oferece-lhe uma referência internacional e demonstra que o campo progressista ainda pode vencer eleições difíceis.
A questão é saber se essa esperança produzirá renovação política ou se servirá apenas para adiar uma conversa incómoda sobre os limites, os erros e as contradições da própria esquerda.
Porque vencer com Lula não significa, automaticamente, compreender o Brasil. E admirar Lula não dispensa a tarefa de perceber por que razão tantos brasileiros continuam a preferir alternativas políticas que a esquerda considera inexplicáveis.
Quando o eleitor se torna um problema sociológico
Existe uma tentação recorrente nos círculos políticos e intelectuais: quando o eleitor vota como esperamos, é consciente; quando vota contra as nossas expectativas, precisa de ser explicado.
De repente, o cidadão transforma-se num objecto de estudo. Surgem as análises sobre a manipulação mediática, o conservadorismo cultural, a falta de consciência de classe e a influência das igrejas. Tudo isso pode ter importância. O problema começa quando a explicação se transforma numa forma elegante de desqualificação.
O eleitor vota mal porque foi enganado. Vota à direita porque não compreende os seus interesses. Rejeita determinada proposta porque não teve acesso à informação correcta.
E se simplesmente discordar?
Uma parte da esquerda parece ter desenvolvido uma relação curiosa com a democracia: acredita profundamente no poder do povo, desde que o povo chegue à conclusão esperada.
É uma estratégia interessante. Tem a vantagem de dispensar a escuta e a desvantagem de perder eleições.
O problema não é a universidade, a teoria ou a análise sociológica. Precisamos de tudo isso. O problema é imaginar que o conhecimento académico confere automaticamente superioridade política e moral. Saber interpretar o mundo não significa, necessariamente, saber conversar com quem vive nele.
Um trabalhador pode rejeitar um partido de esquerda por razões religiosas, culturais, económicas ou pessoais. Pode desconfiar do Estado, temer a criminalidade, desejar mobilidade social ou sentir que determinada política ameaça a sua autonomia. Essas razões podem ser contraditórias, mas continuam a ser razões.
Não basta classificá-las. É preciso compreendê-las.
A democracia ganhou milhões de comentadores. Ainda está a tentar perceber quantos deles estão dispostos a ouvir.
O mistério do pobre de direita
O chamado «pobre de direita» tornou-se uma das personagens mais discutidas da política contemporânea brasileira. É frequentemente apresentado como alguém que vota contra os seus interesses, teme a mudança, frequenta a igreja e acredita no mérito individual. Em algumas versões, acrescentam-se o machismo e a misoginia, como se um conjunto tão vasto de pessoas pudesse caber numa única caricatura.
A caricatura é confortável porque dispensa a investigação. Basta olhar para o eleitor, identificar a contradição e concluir que ele não percebe o mundo.
Mas a política raramente funciona de forma tão arrumada.
As pessoas não votam apenas em função do rendimento, dos impostos ou das transferências sociais. Votam também a partir da sua identidade, da comunidade a que pertencem, das suas crenças, dos seus medos e da imagem que fazem do futuro.
Um pequeno empresário pode ganhar pouco, trabalhar doze horas por dia e acreditar sinceramente que o seu destino depende de conseguir expandir o negócio. Não se identifica necessariamente com a linguagem da luta de classes. Identifica-se com a ideia de independência, com o desejo de deixar de depender de terceiros e com a esperança de um dia prosperar.
Entre quem depende de assistência social e quem possui uma multinacional existe um território imenso de experiências, aspirações e inseguranças. A política perde quando trata esse território como se fosse uma fronteira moral entre esclarecidos e ignorantes.
Lembro-me das conversas com um amigo brasileiro nas nossas , em algumas das nossas quartas-feiras marxistas. Discutíamos capitalismo, consciência de classe e a velha promessa de emancipação. Fora da conversa, porém, o mundo continuava a oferecer às pessoas outras linguagens para interpretar a sua existência: a igreja, o pequeno negócio, a família, o mérito, a disciplina e a possibilidade de ascender socialmente.
O neoliberalismo tem uma narrativa poderosa: começa-se pequeno, trabalha-se muito e, um dia, pode-se chegar a Bill Gates. A probabilidade de isso acontecer é outra conversa. A força política da narrativa está em oferecer uma imagem de futuro na qual cada pessoa pode imaginar-se protagonista.
A esperança é a última a morrer, sobretudo porque raramente lê as sondagens.
A igreja também pode oferecer pertença, apoio, disciplina e redes de solidariedade onde o Estado chega mal ou chega tarde. Isso não significa que todas as igrejas pensem da mesma maneira, nem que a religião explique, por si só, o voto conservador. Significa que as organizações políticas precisam de perceber os vínculos sociais que já existem, em vez de presumirem que uma boa proposta económica será suficiente para os substituir.
A esperança vende. O sentido de pertença também. E quem não oferece nenhum dos dois dificilmente conquista alguém apenas com uma apresentação sobre desigualdade.
Há ainda uma dimensão mais desconfortável: nem todas as pessoas colocam a redistribuição económica no topo das suas prioridades. Algumas preferem segurança, estabilidade cultural, autonomia individual ou uma promessa de mobilidade, mesmo quando essas prioridades entram em tensão com os seus interesses materiais imediatos.
Isso pode ser criticado. Não deve ser tratado como um mistério insolúvel.
O desafio da esquerda não é fingir que todas as escolhas são coerentes. É perceber por que razão uma narrativa política consegue mobilizar as pessoas, enquanto outra, por vezes mais favorável à sua condição material, não consegue convencê-las.
Lula aprendeu a mudar sem deixar de ser Lula
Lula não chegou à Presidência em 2022 depois de perder a primeira volta. Pelo contrário, ficou em primeiro lugar, com 48,43% dos votos válidos, contra 43,20% de Jair Bolsonaro. Como nenhum candidato obteve maioria absoluta, a disputa passou à segunda volta, na qual Lula venceu com 50,90%.
O resultado foi apertado e demonstrou que o Brasil continuava profundamente dividido.
A vitória não pode ser explicada por uma única estratégia, muito menos pelas redes sociais. Pesaram a memória dos governos anteriores de Lula, a rejeição a Bolsonaro, as alianças políticas, a situação económica, a mobilização territorial e a capacidade de construir uma coligação eleitoral ampla.
Ainda assim, a campanha deixou uma lição importante: a comunicação política não pode ficar congelada na linguagem de uma época.
Lula conservou elementos centrais da sua identidade política, mas adaptou a forma de se apresentar, de circular nos meios digitais e de conversar com públicos diferentes. Não precisou de abandonar toda a sua história para reconhecer que o ambiente político tinha mudado.
Essa distinção é fundamental. Adaptar-se não significa renunciar aos princípios. Significa compreender que os princípios não se comunicam sozinhos.
Uma ideia pode ser justa, necessária e intelectualmente sólida. Se não conseguir chegar às pessoas, disputar a sua atenção e fazer sentido na experiência quotidiana, corre o risco de permanecer confinada aos lugares onde já é aplaudida.
A política não é apenas o conteúdo da mensagem. É também a capacidade de a tornar compreensível, relevante e credível para quem ainda não está convencido.
A camisola da selecção e a reconquista do Brasil
Durante anos, a camisola amarela da selecção brasileira foi um símbolo nacional que atravessava diferenças políticas. Nos últimos anos, tornou-se também um marcador de identidade política, associado de forma particularmente visível aos apoiantes de Bolsonaro e a sectores da direita brasileira.
O problema não era a camisola. Era a disputa pelo significado da camisola.
Quando um grupo político consegue apropriar-se de um símbolo colectivo, passa a apresentar-se como representante legítimo da nação. Os adversários deixam de ser apenas adversários: parecem menos brasileiros, menos patriotas ou menos dignos de pertencer à comunidade.
Recuperar um símbolo nacional é, por isso, mais do que uma operação estética. É disputar a ideia de quem tem direito a representar o país.
A esquerda brasileira procurou contrariar essa apropriação, apresentando a camisola e as cores nacionais como património de todos, não como uniforme de uma facção. O gesto revela uma lição que ultrapassa o futebol: símbolos políticos não pertencem definitivamente a quem os utiliza primeiro ou com maior intensidade.
O mesmo vale para a bandeira, a pátria, a família e até a ideia de liberdade. Nenhum campo político possui o monopólio dessas palavras.
Há, porém, uma questão mais profunda. A linguagem tradicional da luta de classes já não descreve, por si só, toda a experiência de quem trabalha. A classe operária não desapareceu; transformou-se. O trabalho distribui-se hoje por serviços, plataformas digitais, pequenos negócios, informalidade e formas precárias de emprego que nem sempre se reconhecem nas antigas categorias políticas.
O trabalho mudou. A política precisa de perceber o que mudou com ele.
Continuar a falar como se todos os trabalhadores se identificassem automaticamente com os símbolos, as organizações e a linguagem do movimento operário do século XX é uma forma de nostalgia. E a nostalgia pode ser intelectualmente sedutora, mas raramente constitui um programa eleitoral.
A lição de Lula: ninguém é proprietário do povo
A trajectória de Lula não prova que a esquerda tem sempre razão, nem que basta adaptar a comunicação para vencer. Demonstra algo mais modesto e mais exigente: a política precisa de se renovar sem perder a capacidade de reconhecer as pessoas a quem pretende representar.
Nenhum partido é proprietário dos trabalhadores. Nenhum movimento possui o monopólio da justiça social. Nenhuma ideologia garante, por si só, que os seus representantes compreendem a realidade melhor do que os seus adversários.
A representação política é uma relação, não uma escritura de propriedade.
O eleitor não tem a obrigação de confirmar as nossas teorias. Somos nós que temos de perceber as suas escolhas, disputar a sua confiança e apresentar alternativas que façam sentido para a vida concreta.
Isso exige princípios, mas também escuta. Exige análise, mas também humildade. E exige a coragem de reconhecer que, por vezes, o problema não está apenas naquilo que as pessoas não compreendem. Está naquilo que nós ainda não conseguimos compreender sobre elas.
Lula continua a ser uma referência incontornável para a esquerda latino-americana. A questão decisiva, porém, não é saber quantas vezes será possível repetir a sua vitória.
É saber se a esquerda consegue aprender com ela.
Viva a democracia.
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