quarta-feira, 8 de abril de 2026

De Re Publica et Potestate: Commentarii Thucydidei de Trumpiana Aetate

Para quem ainda acredita em grandes princípios

Discuti por alguns dias com alguns amigos e disse-lhes que os homens que ainda acreditam em grandes princípios deviam reler Tucídides, não Maquiavel, mas Tucídides, não para consolar a alma, mas para endurecê-la até ao ponto de a tornar insensível.

O historiador ateniense, exilado e amargo como um velho general derrotado, via com clareza cristalina o que hoje se disfarça sob hashtags, discursos televisivos e posts furiosos no X: a política não é o reino da justiça, mas o domínio perpétuo e descarado do temor, da honra e do interesse: timor, honor, interest.

Donald Trump não é uma anomalia da história americana; é apenas a versão atualizada, com X, tariffs e ameaças de “trazer de volta à Idade da Pedra”, da mesma lógica implacável que moveu Atenas contra Melos ou Esparta contra Atenas. A Guerra do Peloponeso atualizou-se, senhores: chama-se agora Guerra contra o Irão.

Os fortes fazem o que podem

Como diria o próprio Tucídides, “os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem”. Trump compreendeu esta máxima com uma lucidez quase ofensiva, muito melhor do que qualquer senador que ainda invoca a “alma da democracia” enquanto treme diante das sondagens.

Quando, em 2019, lançou a guerra comercial contra a China, não o fez em nome da liberdade ou dos direitos humanos, mas porque via claramente o risco de perder a primazia económica, exatamente como Atenas construiu os Longos Muros não por amor à democracia, mas por puro medo de perder o império do mar.

America First não é slogan; é a tradução moderna, brutal e televisiva de imperium nostrum.

Muros, pobres e temor

Observe-se o muro na fronteira com o México. Tucídides teria reconhecido nele os mesmos muros longos de Atenas: uma barreira física e simbólica contra o “outro” que ameaça a coesão interna.

Os americanos, que tanto se orgulham de ser “nação de imigrantes”, aplaudiram a construção porque, na prática, o povo ama os seus pobres, mas teme e detesta os pobres alheios. Quando Trump ordenou expulsões em massa, não agiu por crueldade gratuita, mas por fria prudência realista: o forte protege o que é seu enquanto pode. Ou estava interessado em um Reality Show on ICE

O povo aplaudiu, como outrora os atenienses aplaudiram Cleão. O temor sempre vence a caridade nas relações entre povos. Sempre.

Alianças, deals e a OTAN

Nos assuntos internacionais, a ironia torna-se ainda mais deliciosa e cruel. A OTAN, esse “império disfarçado de aliança”, foi tratada por Trump exatamente como os atenienses tratavam os aliados da Liga de Delos: “paguem ou saímos”.

Não era amor à Europa, nem ódio à Rússia; era simples cálculo. Cui bono? Em 2026, com a guerra na Ucrânia ainda a sangrar lentamente, Trump não fala de “defesa da democracia”, mas de deal: “Putin, dá-me algo e eu dou-te algo”.

Tucídides sorriria com sarcasmo: a paz não nasce da virtude, mas da impossibilidade momentânea de continuar a guerra com vantagem.

O Médio Oriente e os Acordos de Abraão

E no Médio Oriente? Ah, aqui a comédia atinge o sublime. Os Acordos de Abraão não foram fruto de reconciliação moral, mas de medo comum do Irão e de muito dinheiro saudita. Israel faz o que pode porque é forte; os outros sofrem o que devem porque são os mais fracos.

Nada mudou desde o Diálogo dos Melianos, apenas o cenário é agora transmitido em direto no TikTok, com imagens de pontes a voar pelos ares e o preço do petróleo a subir como um foguete iraniano e a descer consoante os sons dos trompetes com investidores "amigos" lucrando como se guiados por uma bola de cristal laranja... coincidências.

A Guerra contra o Irão: lição máxima

Mas foi a Guerra contra o Irão que coroou a lição thucydídea com um laço de ironia negra. Em fevereiro de 2026, os fortes (EUA e Israel) fizeram o que podiam: lançaram uma chuva de strikes contra instalações nucleares, comandantes e até o próprio líder supremo, tudo em nome de impedir uma arma que talvez já não existisse ou talvez existisse amanhã.

Trump, com a sua habitual elegância, ameaçou “trazer o Irão de volta à Idade da Pedra”, destruir todas as pontes, todas as centrais elétricas e transformar uma civilização inteira em cinzas numa única noite se o Estreito de Ormuz não fosse reaberto. “Open the f***ing Strait, you crazy bastards!”, tuitou ele, ou algo igualmente refinado.

Os fracos (o Irão) sofreram o que deviam: mísseis retaliatórios, portos atingidos, economia em colapso e o mundo inteiro a pagar gasolina mais cara.

O cessar-fogo de duas semanas

A ironia máxima? Depois de semanas de bombardeamentos, ultimatos apocalípticos e ameaças que fariam corar até os generais lacedemónios, chegou-se, pasme-se, a um cessar-fogo de duas semanas. Duas míseras semanas, negociadas no Paquistão, com o Irão a declarar vitória e o povo de Teerão a festejar nas ruas como se tivesse humilhado o império.

Trump recuou nas ameaças “devastadoras”, o Estreito reabriu (ou fingiu reabrir) e todos voltaram à mesa das negociações, como bons realistas que são.

Tucídides teria adorado: a guerra não termina por justiça ou clemência, mas porque o custo se tornou momentaneamente inconveniente. Amanhã recomeçará, com novos nomes, novos hashtags e o mesmo velho jogo.

A democracia como tirania popular

A maior ironia, (ironicaante repetitivo aqui), porém, reside na própria democracia americana. O povo que se considera o ápice da liberdade elegeu (e aparentemente tolera) duas vezes um homem que despreza abertamente as formas polidas do discurso político.

Trump não é um tirano clássico; é um demagogo thucydídeo perfeito: diz em voz alta o que a plebe pensa em silêncio. “Fake news!”, “Deep State!”, “Eles odeiam-nos"! São fórmulas que Cleão ateniense teria aprovado de pé.

A polarização atual não é acidente; é o resultado natural de uma democracia onde o demos descobre que pode usar o poder contra as próprias elites que o controlavam. Tucídides já avisara: quando o temor e o interesse dominam, a democracia facilmente se transforma em algo muito próximo da tirania popular, só que agora com likes e retweets.

Trump, o espelho

Assim, longe de condenar Trump, convém entendê-lo como sintoma puro. Ele não corrompeu a República; apenas arrancou-lhe as vestes retóricas, as invocações à “alma da democracia” e mostrou a nudez realista que sempre esteve por baixo.

Os mesmos que o acusam de “destruir as normas democráticas” agora copiam os seus métodos: tarifas, muros, discursos crus, apelos diretos ao povo e, quando necessário, bombas sobre pontes alheias. A China impõe tarifas, a Europa reforça fronteiras, todos praticam o seu próprio America First.

A ironia final é verdadeiramente deliciosa: Trump não foi a doença; foi o espelho mais cruel e mais honesto.

Et sic transit gloria mundi

De Re Publica et Potestate: Commentarii Thucydidei de Trumpiana Aetate

Para quem ainda acredita em grandes princípios Discuti por alguns dias com alguns amigos e disse-lhes que os homens que ainda acreditam em g...