terça-feira, 18 de agosto de 2026

Não Quero Ter Inimigos: memória, colonialismo e a possibilidade de reconciliação

Precisamos crescer, falo enquanto humanidade, é necessário crescer. Ir além de tudo aquilo que acreditamos ser importante. De facto, o esvaziamento de todas as narrativas de reconciliação tem-me assustado. O outro, muito além do inferno sartreano, aparece como um incómodo persistente. Precisamos crescer, buscar uma ética que não leve todos a quebrar as pontes de reconciliação e focar em ser o mais leal possível para com todos os outros. Não quero que vivamos num mundo onde o perdão, o diálogo, a convivência sejam palavras que já não carreguem peso. Falo, daqui, de todas as periferias do mundo, mais isolado, escrevo em português, outra periferia, falo de África, Sul Global periférico, falo de São Tomé, periferia da periferia de um mundo insular.

A história do meu pequeno país começa com a chegada dos portugueses, em 1470, durante a era em que a Europa lançou o seu empreendimento sanguinário, a que chamou de "grande era das descobertas". Por séculos, pessoas que nasciam com o mesmo tom de pele que o meu passaram a pertencer à categoria de "negro", uma classificação que seria transformada numa das bases de um dos maiores empreendimentos comerciais da época: o tráfico e a escravização de seres humanos. Por séculos, sem sermos reconhecidos plenamente como pessoas, fomos sendo mortos como moscas cansadas, apenas tentando voar. A violência não foi apenas física. Foi também jurídica, económica, cultural e simbólica. Inventaram-se categorias para organizar a exploração, e essas categorias sobreviveram aos sistemas que lhes deram origem.

Contudo, aqueles que perpetuaram coisas desse tipo dizem-nos que isso está no passado. Na verdade, temos de aprender a diferenciar entre colonos, Estados, instituições e sociedades ocidentais, porque uma coisa não é sinónimo da outra. Nem todo europeu foi colonizador, nem todo ocidental participou do empreendimento colonial. Houve também europeus que resistiram ao colonialismo, denunciaram a escravidão e lutaram contra as formas de dominação que outros europeus construíram. Ou seja, estamos todos do mesmo lado? Eu quero acreditar que sim.

Por outro lado, olhamos para o norte e encontramos outra história de violência, comércio e escravização. Diferentes sociedades e poderes árabes e muçulmanos participaram, durante séculos, de redes de comércio de pessoas escravizadas que atravessavam o Saara, o Mar Vermelho e o Oceano Índico. Mas é preciso cuidado: não existiu um único "povo árabe" responsável por tudo isso, assim como não existiu uma Europa homogénea. A história é mais incómoda do que as nossas categorias. A expansão árabe e a islamização do Norte de África foram processos históricos complexos, feitos de conquista, migração, assimilação, conflito e intercâmbio cultural. Em determinados períodos, populações africanas foram escravizadas, deslocadas e submetidas a diferentes formas de dominação. Em outros, sociedades africanas resistiram, negociaram e também participaram dessas redes.

O problema não é determinar quem foi o maior criminoso da história. O problema é compreender como diferentes civilizações foram capazes de transformar seres humanos em mercadoria, em propriedade e em categorias inferiores. E, quando olhamos para o mundo contemporâneo, percebemos que algumas dessas hierarquias sobreviveram, embora tenham adquirido novas formas. Dependendo da época e do lugar, uns serão chamados irmãos, outros estrangeiros, outros imigrantes, outros ilegais. As categorias mudam, mas a capacidade de produzir o outro como inferior permanece.

Em outros lugares do mundo, o povo negro continuou a ser subjugado, expulso, animalizado e submetido ao absurdo. E hoje dizem-nos que precisamos esquecer e ultrapassar. Certamente não falam do mesmo esquecimento que muitas sociedades recusaram em relação aos seus próprios traumas históricos. O Holocausto, ocorrido entre 1939 e 1945, tornou-se uma referência central da memória e da responsabilização internacional. Ao mesmo tempo, genocídios e massacres cometidos contra povos africanos, alguns deles posteriores a 1945, permaneceram durante muito tempo nas margens da memória internacional. O genocídio dos Herero e Nama, cometido pelo Império Alemão na atual Namíbia entre 1904 e 1908, é um dos exemplos mais evidentes. Não se trata de estabelecer uma competição entre sofrimentos. Trata-se de perguntar por que algumas memórias conseguem ocupar o centro da consciência internacional enquanto outras permanecem nas periferias da história.

O problema da memória não deveria ser saber quem sofreu mais. Deveria ser saber por que algumas vítimas receberam reconhecimento, investigação, reparação e mecanismos de responsabilização, enquanto outras tiveram de esperar décadas, ou continuam à espera. O passado não desaparece porque deixamos de falar sobre ele. Apenas muda de lugar. Às vezes, instala-se no corpo, na pobreza, na fronteira, na identidade, na desconfiança e na forma como olhamos para o outro.

Por fim, esquecemos. Somos supermulticulturais, dizemos que não definimos os outros pelo que não somos. Não causámos massacres de nenhum outro povo no mundo, talvez por falta de oportunidade. Mas as pessoas vivas, com a pele marcada pela história, continuam a ser estigmatizadas em muitas partes do mundo: caçadas, expulsas, animalizadas e sujeitas ao absurdo. Recebemos os colonos, imitámos os antigos colonos, podemos imaginar até ao fim da África, mas não o fim de um modelo neocolonial africano. Quem ousar imaginar será, muitas vezes, confrontado por um mundo de interesses materiais muito bem definidos.

E talvez esse seja um dos nossos maiores fracassos: aprendemos a denunciar o colonizador, mas nem sempre aprendemos a reconhecer o mecanismo que o tornou possível. Porque o colonialismo não foi apenas uma bandeira estrangeira hasteada sobre um território. Foi também uma forma de organizar poder, conhecimento, economia e humanidade. E essas formas podem sobreviver depois de a bandeira desaparecer.

O que nos restou? Agora entramos numa categoria de deslocados chamados "imigrantes", que se tornou, em parte da política europeia, um bode expiatório diante de uma Europa que enfrenta as suas próprias contradições num mundo cada vez mais multipolar. Uma Europa que não sabe sempre como lidar com a ambiguidade norte-americana, com o poder crescente da China e com uma Rússia que voltou a ocupar, através da guerra e da ameaça militar, um lugar central na imaginação estratégica europeia.

Eu, este africano da periferia, que ainda crê no poder das ideias, lido com a arrogância de instituições que nos dizem o que fazer e como fazer, que atribuem medalhas imaginárias e estabelecem hierarquias entre aqueles que podem falar e aqueles que devem apenas ouvir. Não sei mais por onde ir. Só queria um mundo onde pudéssemos chegar a um acordo, não nos eliminar nas fronteiras como bonecos usados. Não precisam também de vir. Podemos negociar com outras pessoas. Se não nos querem, se somos tão maus, se somos esse Terceiro Mundo, esses poderes poderiam retirar os seus agentes, as suas máquinas das nossas minas, os seus capitães de mando dos nossos partidos e os seus interesses dos nossos mares. Talvez assim descobríssemos até que ponto a nossa pobreza é realmente apenas nossa.

Quero ainda acreditar nos fundamentos das Nações Unidas, no potencial humano para chegar ao acordo. Quero acreditar que os Estados podem negociar antes de disparar, que as sociedades podem lembrar antes de odiar e que os povos podem defender a sua autodeterminação sem transformar o vizinho em inimigo.

Portanto, não quero ter inimigos. Não quero ter de olhar para um inimigo em cada caucasiano que encontro quando eu mesmo tenho tantos amigos entre todas as etnias humanas, todos os credos e todas as partes deste mundo. Na minha linha de vida, não vejo diferença entre um europeu esfomeado, um norte-americano esfomeado e um africano esfomeado. A fome não pede passaporte. A dignidade não tem nacionalidade.

Mas isso não significa que as estruturas sejam iguais. A desigualdade pode atravessar fronteiras nacionais, raciais e religiosas, mas também pode utilizar essas mesmas categorias para se reproduzir. O colonialismo demonstrou isso de forma brutal. A exploração económica foi acompanhada pela criação de hierarquias raciais, pela classificação dos seres humanos e pela construção de uma ordem em que alguns podiam decidir sobre a vida dos outros.

E, ainda assim, não quero transformar essa história numa herança de ódio.

O que os colonizadores europeus fizeram em África não deve ser esquecido. Mas também não acredito que o descendente de um colonizador deva nascer culpado pelo crime de alguém que morreu há séculos. Da mesma forma, não acredito que um africano deva ser responsabilizado pelos crimes cometidos por qualquer outro africano. A culpa não deve ser hereditária. A memória, sim, pode ser.

Qual é a diferença entre um judeu na Alemanha e as etnias da Namíbia reduzidas às cinzas pelos alemães? Existem diferenças históricas, jurídicas e políticas que não devemos apagar. Mas há também uma pergunta que permanece: por que alguns crimes produziram mecanismos internacionais de responsabilização muito mais fortes do que outros? O segundo não teve Nuremberga. E isso deveria incomodar-nos.

Talvez seja essa a questão que ainda não conseguimos responder: como reconhecer a violência sem transformar a memória numa máquina de produzir novos inimigos?

Não quero esquecer o passado. Quero impedir que o passado determine quem devo odiar no presente.

Precisamos pensar numa outra civilização humana, uma civilização capaz de lembrar sem viver de ressentimento, de reconhecer responsabilidades sem transformar culpa histórica em culpa hereditária, de defender a autodeterminação sem transformar a diferença em inimizade.

Caso contrário, continuaremos presos à velha guerra de todos contra todos, apenas com novas fronteiras, novas palavras e novas armas.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Para uma Crítica do Derrotismo Geracional

    Talvez tenhamos deixado de acreditar numa revolução africana. É como se, por séculos, o nosso objetivo tenha sido a independência, a soberania, e, ao mínimo vestígio de luz ao fundo do túnel, tenhamos ficado satisfeitos. Após a independência, ficámos divididos entre os que gostariam de voltar ao passado mítico de São Tomé e Príncipe, colónia das grandes roças com hospitais, caminhos de ferro e energia para alguns “alvos”.

    Por qual motivo, hoje, que temos mais meios de luta e mais ferramentas, o derrotismo reina entre a juventude santomense?

    Por algum motivo, o meu ofício de “filosofeiro” leva-me a conversar com muitas pessoas ao longo do dia, a colher as opiniões de muitos e, para minha surpresa, todos se sentem diante de um jogo viciado em que já começaram derrotados. O objetivo, como um lutador no canto do ringue, é esperar que o seu agressor não os mate ou que se simpatize com a sua dor… mas já não têm força para bater de volta.

    Todavia, sinto que estão de olhos fechados enquanto apanham, pois veriam o tamanho real do agressor, que se alimenta do medo, da incerteza e da ideia de que os mais obedientes serão incorporados. O problema reside no facto de que o sistema foi desenhado para que os vitoriosos sejam a exceção. E que os pobres não existem dentro do sistema por acaso, mas por design.

    Não há como todos serem incorporados. Eu sei que muitos acreditam que serão a exceção e que, de alguma forma, a voracidade do jogador santomense os fará sobreviver. Talvez consigam. Mas deixarão muitos corpos danados ao longo do percurso… pois o seu sonho de vitória não é inclusivo.

    Por consequência, os meus amigos esclarecidos têm muita informação, muitas “armas da crítica”, e facilmente apontam o que vai mal enquanto resultado final. Contudo, são incapazes de entender o mecanismo silencioso que produz todos esses problemas. Estão convencidos de que se trata apenas de escolher melhor a liderança. Acreditam que os recursos naturais, por si só, resolvem o problema. Acreditam que ter um diploma universitário emanado em cada esquina do mundo poderá resolver a pobreza do país. Inocentes. Não conseguem ver o subterrâneo explicativo. A lógica estranha que produz a pobreza e mora na forma como os nossos sentidos se acomodam diante de tanta deseigualdade. 

    Destarte, tenho para mim que há uma mudança geracional incrível, acompanhada de novas fantasias e novos desejos. Se no passado era sobre independência e reconstrução nacional, hoje é sobre poder de consumo e salvação individual. A nova geração já não quer construir nada duradouro e, como tal, vive de pactos de silêncio entre vilões e protagonistas, id est, todos cúmplices!

       E quando dei por mim, percebi que todos podem ficar facilmente ofendidos quando alguém aponta para uma capacidade que tenta ser exibida e acaba por ser inexistente. Todos acreditam, por força das redes sociais, que são protagonistas em algum filme americano e que basta “farmar aura” ou ter autoconfiança. Nada mais desastroso do que um ignorante confiante. Ele não sabe que não sabe, não procura saber porque crê ser sabedor, e motiva outros não sabedores a cair no mesmo abismo, enquanto todos creem ter descoberto a fórmula.

    Por fim, a minha geração, que grita ser diferente, evita verdadeiros debates públicos. Consegue manusear um smartphone com destreza, mas alimenta-se de meias-verdades nas redes sociais. Possui tantas informações contraditórias que já não sabe o que é verdade ou mentira. Em três minutos de vídeo, acredita dominar um assunto por completo.

    E é a essa geração, que escreve com IA e se alimenta de um eterno feed, que foi confiado o bastão da mudança. Estou preocupado. Sinto-me profundamente preocupado.

    O Titanic está a afundar. Eu estou dentro. Muitos dos meus amigos também. Todos olham para as telas azuis enquanto, ao fundo, o mercado internacional anuncia o fim do mundo. Qual mundo?

Como organizar a minha geração?

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Tudo o que digo quando digo São: uma introdução ao tributo



Fui desafiado a escrever sobre o 1º Festival Tributo de Ação à São. Como todo escritor diante do espelho da memória, escrevo a partir de múltiplas vozes: a do fã, a do poeta, a do amigo e a do santomense inquieto que ama uma nação como quem ama uma ferida aberta: com ternura e vigilância. 

 
Cedo, São percebeu que amar São Tomé e Príncipe não era um gesto leve. Era uma espécie de resignação luminosa. A mesma resignação que havia matado Alda Espírito Santo, agora prometia levar a mestra São. Um amor que não acaricia: atravessa. Amar estas ilhas doía como um corpo em combustão lenta, como se a própria geografia respirasse em espasmos. Aqui, algo sempre pareceu fora de ordem: algo entre os algozes e os amigos, entre a verdade e o ruído, entre o gesto e a sua falsificação...  entre a dor e o alívio.

A sensação era a de jogar um jogo onde todos faziam batota sistematicamente. E ainda assim, ela escrevia. Carpia. Insistia. Mas, seus versos, muitas vezes, não encontravam chão local, ou eram devolvidos como ecos incompreendidos. Fora daqui, porém, tornavam-se quase relíquias: procuradas como exotismo lírico de uma periferia do sul global africano que o mundo queria consumir sem decifrar.

Daí o festival. Não como celebração apenas, mas como gesto de reparação simbólica. Um espaço para resgatar os versos não lidos, para devolver voz ao que ficou suspenso, e carregar o legado como quem transporta uma profecia antiga dirigida ao futuro.
Com a minha querida amiga e mestra, sempre nos perguntámos por que razão alguém escolhe a poesia. Não é profissão que promete abrigo. Não é ofício que recompensa. Exige uma forma de rigor que não consola ninguém. Talvez por isso os poetas não consigam ser outra coisa senão poetas. 
 



Lembro-me de ter citado Nietzsche numa dessas conversas: temos a arte para não morrer da verdade. Porque a verdade, sem véu, pode ser insuportável. E aqui, nestas ilhas de basalto e intriga sussurrada, dizer “sou poeta” ainda soa como uma anomalia social, como se fosse um delírio suave, uma fala deslocada de quem insiste em ver demasiado. E paga-se o preço de se ter o "olho leve", pois vê-se bem o teatro insular com seus personagens invisíveis aos olhos comuns.

Mas,  o mundo é feito de confronto de narrativas: dominantes e marginais, oficiais e subterrâneas. E, ainda assim, muitos vivem como se só houvesse uma forma legítima de existir dentro da sociedade. Essa figura sentada no café Residencial Avenida com o seu cigarro pensativo, toda a altivez de quem sabia o que dizia... e toda a sabedoria de quem já havia desistido disso tudo, dos bobos, dos reis e da própria existência... de quem sentia tudo profundamente...

São sempre me espantou pela recusa em negociar a própria essência. Numa terra pequena onde os discursos mudam de cor conforme o jardineiro que os rega, ela permaneceu raiz. Altiva. Inteira. Irredutível até ao último sopro de si.
Sentia tudo com uma intensidade que não aceitava o anestésico da prudência. Viveu sem o afastamento calculado dos que sobrevivem bem, dos enquadrados e enquadradores. Como se a vida fosse uma linha sem margem de segurança. Um erro deliberado na engenharia do mundo. Um dorso que não se curva. E por isso pagou o preço raro de pertencer a si mesma.

De repente, as cartas deixaram de estar na mesa. Os amigos tornaram-se silêncio. E muitos dos que ocupavam o mesmo ofício apareceram apenas no enterro, trazendo palavras que em vida nunca tiveram coragem de pronunciar enquanto defendiam o próprio farnel, indiferentes à mão que os alimentava.



 
São, quase profética, desenhou em vários poemas os caminhos tortuosos que o país viria a percorrer na sua romaria interminável rumo a uma ideia de independência total. Schopenhauer dizia que o talento atinge metas que os outros não conseguem alcançar; o génio, porém, atinge lugares que os outros nem sequer conseguem ver. São pertence a essa segunda geometria.
Escreveu com uma profundidade que teve a sorte de não ser imediatamente compreendida por certas elites. E talvez nisso resida parte da sua força: os seus versos eram mais perigosos do que qualquer artigo, qualquer discurso, qualquer conversa de ocasião.

Um dia, como depois de uma tempestade que finalmente se retira, deixamos de tentar encaixar o mundo em moldes antigos. Percebemos então que fomos convidados a construir outro. E tudo aquilo que brilha: poder, aplauso, capital, ressentimento... revela a sua fragilidade diante da mortalidade do próprio tempo.
A altivez de quem pertence a si mesma não se negocia. Não se vende. Não se reescreve.
Por isso, este nível de heroísmo precisava ser partilhado.
O festival nasce de uma ideia germinada na Ilha dos Poetas Vivos, onde eu, Marty, Remy e Milton nos reuníamos no espaço Abayaa da Bô de João Carlos Silva que sempre foi patrono das nossas ideias mais desmedidas, mais livres, mais perigosamente necessárias. Ele acreditava no poder da palavra como quem acredita numa forma de feitiço antigo: algo que pode desestabilizar o mundo ou reorganizá-lo.
E São circulava por esses mesmos territórios como a CACAU onde João, Paulo Daio e outros notívagos desta república insular, pessoas que escolheram a porta estreita, a contracorrente, a vida sem garantias. São não apenas escolheu esse caminho. Ela tornou-se esse caminho. E talvez os poetas não consigam mesmo ser outra coisa.


O festival contou com o apoio de vários artistas e vozes: Dério, Márcia, Kalú Mendes, Letícia, Marty, Remy, entre ex-alunos e familiares. Houve palavras que tocaram fundo, como as de Marlene José. E apoios institucionais como o Camões, o Instituto Guimarães Rosa e a Embaixada de Angola em São Tomé e Príncipe. A todos os que sustentam a cultura — a gratidão é uma forma mínima de justiça. Muchas Gracias Gustavo Ramirez y Carla Solé.

À família, que marcou presença e nos ofereceu também poesia viva. À professora Ester Will, a Celiza, e tantos outros familiares que fizeram do gesto presença e da presença memória.
Sempre houve o risco de que a arte fosse desviada do seu propósito. De que o festival se tornasse espetáculo de si mesmo. Mas aqui, sou apenas mais um poeta diante de uma poetisa maior. Um amigo que perdeu a distância crítica porque foi alcançado pela força daquilo que admira.

E por que falo tanto de São? Por que insisto em nomear esta ausência presente?
Porque ela foi capaz de dizer o indizível.

Como em “Ignomínia”:

“Enquanto o fio da catana
avançava sobre o medo encurralado
o mundo espreguiçava uma pálpebra –
hesitava.
E quando o olho da câmara
desventrou enfim o silêncio
um metódico vendaval avermelhara
para sempre as águas e os campos.
As consciências
que no universo o caos ordenam
instauraram a urgência dos relatórios
e a estatística dos esqueletos.
Ruanda ainda conta os crânios dos seus filhos.”
— Conceição Lima


Por isso falo. Por isso insisto. Porque há obras que não podem ser deixadas apenas ao silêncio da história. Somos poucos, é insustentável enterrar tantos heróis nacionais
Eles precisam ser carregados como fogo que recusa apagar. E questiono:

Quem está São? 
Quem foi São?
E esses santolas que vejo, eles são...?


sexta-feira, 15 de maio de 2026

Adeus, São: A Poeta que Chegou Cedo Demais


Hoje, perco uma amiga, mentora, ícone nacional e alguém com quem tive das conversas mais intrigantes da minha existência. Percorri as mensagens, olhei os podcasts que fizemos juntos, as entrevistas... e revivi diferentes conversas que tive. A vontade de propagar a cultura sempre esteve ali. A vontade de fazer algo, a vontade de transcender o corpo, coisas que a poesia obriga-nos a fazer de vez em quando quando nos lançamos à empreitada de ser quem já somos.

A primeira lição que tive com São Lima é a ideia de que a qualidade poética não pode ser negociada. É como se a audiência não existisse. Ela sabia o que era e sabia o preço que pagou para acumular o conhecimento vasto que possuía sobre múltiplos aspectos, não estava disposta a ser simplória em nome dos aplausos. Isso colocava-a no meu panteão dos deuses/poetas.

Eu já tinha ouvido falar sobre a poetisa, já tinha lido alguns trechos. Como boa parte dos santolas, meus irmãos de pátria, nunca estudaram São nas escolas e perceberam, saindo fora da ilha, que todos sabiam mais sobre ela do que nós mesmos. E nós, santolas pendantes, não fomos honestos o suficiente para dizer que não tínhamos valorizado esse colosso. Traduzida em mil línguas, e não traduzida na alma dos seus conterrâneos porque os fazedores da cultura não viam os alvos que ela alcançava. Talvez não tenha sido barulhenta o suficiente para que soubéssemos o seu real valor.

Todavia, a minha história com São enquanto amigo e companheiro da jornada poética, melhor ainda, enquanto um fã confesso, começa por intermédio da Yanira Tiny. Nas minhas épocas de desempregado, eu bebia no Pico Mocambo e lia poesia quase todos os dias após usar a manhã para espalhar currículos. Deparei-me com o livro "A dolorosa raiz de Micondó". Perguntei a Yanira se conhecia Conceição Lima. Eu sabia que ela era superstar na UNILAB, mas não a conhecia pessoalmente. Yanira facilitou-me o contacto. Assim que liguei e falei da minha profunda admiração pelos poemas que li e que ribombavam na minha mente, ela ficou feliz com a minha abordagem ousada e combinamos um café.

Não posso deixar de lado as minhas origens, sou um bom Mandinga, a minha mãe foi colega, o meu tio Nuno escreveu músicas que animam noites santolas até hoje. Um tio definiu o capitalismo e outro o socialismo à la santomeense... e ela viu tudo isso em mim. Discutimos por horas no seu lugar favorito — Residencial Avenida. Éramos só nós os dois, nevoeiro de nicotina, uma mão que pensava o cigarro e dois cafés sobre a mesa que meditavam poesia. Horas que voavam como segundos.

Levei poemas meus, ela os leu. Disse que eu escrevia bem. Como todo fã, julguei ser pura gentileza. Os nossos caminhos foram se cruzando em outras ocasiões. Participação numa antologia de poetas da ilha que ela prefaciou com apoio do Centro Cultural Brasil-STP. Os nossos caminhos cruzavam-se várias vezes, nas mesas da CACAU com João Carlos Silva e Paulo Daio, no Abayaa Dá bô, nas conversas no Diogo Vaz, no Podcast Conversas No Centro, no programa que dirigia na TVS. Um mês atrás tivemos a nossa última conversa em público, teci tantos elogios... ela dizia que exagerava, eu dobrava a aposta, sempre pareceu para mim que dizia pouco, que não dizia tudo, pois era imenso o tamanho desse peso pesado da literatura mundial. Eu triplicava os elogios... e sempre me pareciam poucos.

As últimas conversas foram sobre o peso que tinha de carregar o título de embaixadora da cultura. Falamos sobre a autenticidade. Lembro de ter dito à minha Musa, na verdade repetido: "temos a arte para não morrermos da verdade". Pois, sempre soube que a verdade mata. Sempre soube que a sensibilidade artística vinha acompanhada com tristeza indecifrável e incompreensão do mundo. Sempre soube que por mais que nos abramos, nós, agora me considero artista porque não mais estás, São, nós artistas falamos de um mundo translúcido invisível aos que correm atrás do cobre, do poder e dos imediatismos. Nós podemos ver o que esse país podia ser e eles só veem o que esse país é. Esse é o nosso inferno. Eles só veem duas ilhas, luxo no lixo, incoerências e desejo de ser o dono dessa terrinha. Nós não podemos ser insulares nesse nível, sempre nos vimos como sul global, africanos, humanos e poeira cósmica. E isso sempre foi o nosso inferno. Eu tenho sempre o sarcasmo como arma, tinhas só a bruta realidade kafkiana imponente diante de ti.

Por fim, acho-te póstuma, acho que chegaste cedo demais ao país. Jogaste pérolas aos porcos, uma mensagem que não pode ser digerida pelo estômago atual do país. Vi a tua luta erguendo o nome de Alda Espírito Santo, fico feliz de ter ajudado. Eu, a Ilha dos Poetas Vivos, grupo criado para fazer poesias que sacudissem o sono da ilha, não somos dignos de te fazer alguma homenagem, São, somos a homenagem... cada gesto meu é uma homenagem. Disseste-me na última conversa que tiveste com o meu pai, ele disse que estava muito orgulhoso de mim (o que duvido, ele viu-me jogar futebol e ficou estupefacto como um craque pôde produzir um sem talento como eu). Lembro que dizias à minha mãe que precisava proteger o teu menino (eu). Nesse momento em que sou órfão literário, preciso alcançar voos maiores para que a nova geração saiba que andaram deuses/poetas entre nós e não puderam ser vistos porque não estavam em palcos enormes da vaidade e falavam em parábolas indigestas.Abraços do teu filho literário.

Sentimentos à família. Nos vemos em Pasárgada.



Quase São

Quase que sou São.
A São duvidaria disso.

Quase ação,
quase morro
com a sua morte
esta manhã...

Perdi o Norte.

Escrevi vários poemas
onde falei sobre ti.
Em mim havia São,
em mim estava são,
em mim são vários
artistas e todos

admiram Conceição Lima.a

15.05.26




quarta-feira, 8 de abril de 2026

De Re Publica et Potestate: Commentarii Thucydidei de Trumpiana Aetate

Para quem ainda acredita em grandes princípios

Discuti por alguns dias com alguns amigos e disse-lhes que os homens que ainda acreditam em grandes princípios deviam reler Tucídides, não Maquiavel, mas Tucídides, não para consolar a alma, mas para endurecê-la até ao ponto de a tornar insensível.

O historiador ateniense, exilado e amargo como um velho general derrotado, via com clareza cristalina o que hoje se disfarça sob hashtags, discursos televisivos e posts furiosos no X: a política não é o reino da justiça, mas o domínio perpétuo e descarado do temor, da honra e do interesse: timor, honor, interest.

Donald Trump não é uma anomalia da história americana; é apenas a versão atualizada, com X, tariffs e ameaças de “trazer de volta à Idade da Pedra”, da mesma lógica implacável que moveu Atenas contra Melos ou Esparta contra Atenas. A Guerra do Peloponeso atualizou-se, senhores: chama-se agora Guerra contra o Irão.

Os fortes fazem o que podem

Como diria o próprio Tucídides, “os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem”. Trump compreendeu esta máxima com uma lucidez quase ofensiva, muito melhor do que qualquer senador que ainda invoca a “alma da democracia” enquanto treme diante das sondagens.

Quando, em 2019, lançou a guerra comercial contra a China, não o fez em nome da liberdade ou dos direitos humanos, mas porque via claramente o risco de perder a primazia económica, exatamente como Atenas construiu os Longos Muros não por amor à democracia, mas por puro medo de perder o império do mar.

America First não é slogan; é a tradução moderna, brutal e televisiva de imperium nostrum.

Muros, pobres e temor

Observe-se o muro na fronteira com o México. Tucídides teria reconhecido nele os mesmos muros longos de Atenas: uma barreira física e simbólica contra o “outro” que ameaça a coesão interna.

Os americanos, que tanto se orgulham de ser “nação de imigrantes”, aplaudiram a construção porque, na prática, o povo ama os seus pobres, mas teme e detesta os pobres alheios. Quando Trump ordenou expulsões em massa, não agiu por crueldade gratuita, mas por fria prudência realista: o forte protege o que é seu enquanto pode. Ou estava interessado em um Reality Show on ICE

O povo aplaudiu, como outrora os atenienses aplaudiram Cleão. O temor sempre vence a caridade nas relações entre povos. Sempre.

Alianças, deals e a OTAN

Nos assuntos internacionais, a ironia torna-se ainda mais deliciosa e cruel. A OTAN, esse “império disfarçado de aliança”, foi tratada por Trump exatamente como os atenienses tratavam os aliados da Liga de Delos: “paguem ou saímos”.

Não era amor à Europa, nem ódio à Rússia; era simples cálculo. Cui bono? Em 2026, com a guerra na Ucrânia ainda a sangrar lentamente, Trump não fala de “defesa da democracia”, mas de deal: “Putin, dá-me algo e eu dou-te algo”.

Tucídides sorriria com sarcasmo: a paz não nasce da virtude, mas da impossibilidade momentânea de continuar a guerra com vantagem.

O Médio Oriente e os Acordos de Abraão

E no Médio Oriente? Ah, aqui a comédia atinge o sublime. Os Acordos de Abraão não foram fruto de reconciliação moral, mas de medo comum do Irão e de muito dinheiro saudita. Israel faz o que pode porque é forte; os outros sofrem o que devem porque são os mais fracos.

Nada mudou desde o Diálogo dos Melianos, apenas o cenário é agora transmitido em direto no TikTok, com imagens de pontes a voar pelos ares e o preço do petróleo a subir como um foguete iraniano e a descer consoante os sons dos trompetes com investidores "amigos" lucrando como se guiados por uma bola de cristal laranja... coincidências.

A Guerra contra o Irão: lição máxima

Mas foi a Guerra contra o Irão que coroou a lição thucydídea com um laço de ironia negra. Em fevereiro de 2026, os fortes (EUA e Israel) fizeram o que podiam: lançaram uma chuva de strikes contra instalações nucleares, comandantes e até o próprio líder supremo, tudo em nome de impedir uma arma que talvez já não existisse ou talvez existisse amanhã.

Trump, com a sua habitual elegância, ameaçou “trazer o Irão de volta à Idade da Pedra”, destruir todas as pontes, todas as centrais elétricas e transformar uma civilização inteira em cinzas numa única noite se o Estreito de Ormuz não fosse reaberto. “Open the f***ing Strait, you crazy bastards!”, tuitou ele, ou algo igualmente refinado.

Os fracos (o Irão) sofreram o que deviam: mísseis retaliatórios, portos atingidos, economia em colapso e o mundo inteiro a pagar gasolina mais cara.

O cessar-fogo de duas semanas

A ironia máxima? Depois de semanas de bombardeamentos, ultimatos apocalípticos e ameaças que fariam corar até os generais lacedemónios, chegou-se, pasme-se, a um cessar-fogo de duas semanas. Duas míseras semanas, negociadas no Paquistão, com o Irão a declarar vitória e o povo de Teerão a festejar nas ruas como se tivesse humilhado o império.

Trump recuou nas ameaças “devastadoras”, o Estreito reabriu (ou fingiu reabrir) e todos voltaram à mesa das negociações, como bons realistas que são.

Tucídides teria adorado: a guerra não termina por justiça ou clemência, mas porque o custo se tornou momentaneamente inconveniente. Amanhã recomeçará, com novos nomes, novos hashtags e o mesmo velho jogo.

A democracia como tirania popular

A maior ironia, (ironicaante repetitivo aqui), porém, reside na própria democracia americana. O povo que se considera o ápice da liberdade elegeu (e aparentemente tolera) duas vezes um homem que despreza abertamente as formas polidas do discurso político.

Trump não é um tirano clássico; é um demagogo thucydídeo perfeito: diz em voz alta o que a plebe pensa em silêncio. “Fake news!”, “Deep State!”, “Eles odeiam-nos"! São fórmulas que Cleão ateniense teria aprovado de pé.

A polarização atual não é acidente; é o resultado natural de uma democracia onde o demos descobre que pode usar o poder contra as próprias elites que o controlavam. Tucídides já avisara: quando o temor e o interesse dominam, a democracia facilmente se transforma em algo muito próximo da tirania popular, só que agora com likes e retweets.

Trump, o espelho

Assim, longe de condenar Trump, convém entendê-lo como sintoma puro. Ele não corrompeu a República; apenas arrancou-lhe as vestes retóricas, as invocações à “alma da democracia” e mostrou a nudez realista que sempre esteve por baixo.

Os mesmos que o acusam de “destruir as normas democráticas” agora copiam os seus métodos: tarifas, muros, discursos crus, apelos diretos ao povo e, quando necessário, bombas sobre pontes alheias. A China impõe tarifas, a Europa reforça fronteiras, todos praticam o seu próprio America First.

A ironia final é verdadeiramente deliciosa: Trump não foi a doença; foi o espelho mais cruel e mais honesto.

Et sic transit gloria mundi

terça-feira, 31 de março de 2026

As Contradições das Votações na ONU: Escravidão é Crime Contra a Humanidade… Só Quando Convém



Na última quinta-feira, 25 de março de 2026, a Assembleia Geral da ONU aprovou, por 123 votos a favor, 3 contra e 52 abstenções, uma resolução que classifica o tráfico transatlântico de escravos africanos como “o crime mais grave contra a humanidade”. O texto vai além do reconhecimento simbólico: exige desculpas formais, medidas de reparação e a criação de fundos para mitigar as “consequências duradouras” do sistema escravocrata europeu-americano.

À primeira vista, parece um momento de consenso moral. Mas basta olhar com atenção para os padrões de voto para perceber que a ONU não funciona como tribunal da ética universal. Funciona como um mercado de interesses nacionais, onde cada país calcula friamente quanto lhe custa (ou quanto lhe rende) votar de determinada forma.

os meus amigos, de acordo ao país de origem exigem uma posição moral do seu Estado. Uma expectativa que nunca virá e é totalmente compreensível sobre a lógica do pragmatismo político. Existe uma lógica própria na política que não segue o jogo da imagem ética que o povo quer ter do próprio Estado. Trata-se de dinheiro e poder.

talvez possa mostrar outra perspectiva aqui...

1. Os árabes: “Sim” ao transatlântico, “Não” ao transariano

Os 22 países da Liga Árabe votaram quase em bloco a favor. Egito, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Marrocos, Argélia… todos alinhados com o Grupo Africano. Nenhum voto contra, nenhuma abstenção registada. Até a Tunísia cujo presidente queria devolver os africanos à África tirando-os da Tunísia que parece estar em um outro continente. Marrocos que não flerta muito bem com a proposta da União Africana. Agora ressurgem como virgens ofendidas.

A explicação é simples e brutalmente pragmática: esta resolução não lhes custa nada. O texto foca exclusivamente no tráfico organizado por europeus e americanos entre os séculos XVI e XIX. Não menciona o comércio transariano (árabe-muçulmano), que durou mais de 1.300 anos, envolveu entre 10 e 18 milhões de africanos e continuou a existir de forma aberta até ao século XX em vários países árabes.

Imaginem agora o cenário inverso: uma resolução idêntica, mas sobre o tráfico transariano. O que aconteceria?

  • A grande maioria dos países árabes votaria contra ou se absteria em massa.
  • Arábia Saudita, Emirados, Catar e Kuwait — os mais ricos do grupo — liderariam a oposição.
  • Razão? Porque reconhecer o transariano como “o pior crime” abriria imediatamente a porta a pedidos de reparações dirigidos a eles. E quando o assunto é dinheiro, a solidariedade sul-sul evapora-se num instante.

Esta é a primeira grande contradição: os mesmos países que hoje acusam o Ocidente de “negacionismo histórico” seriam os primeiros a praticar negacionismo seletivo se o holofote virasse para o seu próprio passado.

2. O Ocidente: culpa moral sim, conta para pagar não

Estados Unidos, Israel e Argentina foram os únicos três votos contra. A União Europeia, Reino Unido, Portugal, Espanha e a maioria dos países ricos abstiveram-se.

Aqui o cálculo é igualmente frio:

  • Apoiar a resolução implicaria admitir responsabilidade financeira futura (reparações, fundos, restituições).
  • Votar contra geraria um custo político alto junto da opinião pública progressista e dos países do Sul.
  • A abstenção é o compromisso perfeito: “reconhecemos o horror, mas não assinamos cheque em branco”.

É o clássico “sim, a escravidão foi terrível… mas não vamos ser os únicos a pagar por ela”.

3. A África subsaariana: vítima e ator racional

Os países africanos foram os grandes motores da resolução. Para eles, o voto não é apenas simbólico. É estratégico:

  • Reforça a narrativa de dívida histórica do Norte para o Sul.
  • Pode abrir caminho a mecanismos concretos de transferência de recursos (fundos climáticos, tecnologia, dívida perdoada).
  • Mantém a unidade do Grupo Africano na ONU.

No entanto, se a resolução fosse sobre o tráfico transariano, essa unidade racharia. Países como Mauritânia (onde a escravidão ainda existe de forma semi-legal), Sudão, Chade e Mali têm histórias complexas com o mundo árabe. O interesse económico e religioso muitas vezes prevalece sobre a memória histórica.

Conclusão: a ONU como espelho dos interesses nacionais

O que esta votação revela e o que a versão hipotética sobre o transariano confirmaria é que não existe voto ideológico puro na geopolítica. Existe cálculo racional de custos e benefícios:

  • Quando a resolução aponta o dedo para o Ocidente rico → maioria do Sul Global vota “sim”.
  • Quando aponta o dedo para o mundo árabe rico → o “sim” vira “não” ou abstenção.
  • Quando o custo recai sobre si próprio → até os mais inflamados defensores da justiça histórica descobrem subitamente as virtudes da “reconciliação” e do “olhar para o futuro”.

A escravidão foi, de facto, um crime contra a humanidade em todas as suas formas, em todas as civilizações que a praticaram. Mas na ONU, o crime só é “o mais grave” quando o culpado é o outro e o pagador é o terceiro.

Esta seletividade não é hipocrisia acidental. É o funcionamento normal do sistema internacional. Quem finge que a ONU é um parlamento de princípios universais está a fazer propaganda. Quem analisa os votos país a país está a fazer política real.

E a lição é clara: na arena internacional, a memória histórica é um instrumento de poder. Usa-se contra quem pode pagar. Esquece-se quem pode retaliar.

O resto é teatro.

terça-feira, 17 de março de 2026

A Banalidade da Gestão: Quando a Eficiência Serve ao Genocídio


A gestão por si só é amoral. Trata-se de uma prática voltada para atingir as metas propostas inicialmente. Essas metas devem ser atingidas da melhor forma possível, uma economia dos recursos com máximo de produtividade. A primeira vista é essa a ideia.

Por outro lado, não se discute quais são os objetivos e as metas organizacionais. Não são necessariamente éticas. Gestão é o óleo na engrenagem, garantindo que a máquina produza da melhor forma possível sem gerar desperdício e com o menos de desgaste possível. Gestão é amoral. Preciso repetir isso várias vezes. O regime colonial tinha uma gestão eficaz, não quer dizer que era necessariamente boa no sentido ético. O regime de Apartheid, a desflorestação amazônica, a dizimação dos povos indígenas por toda a América Latina é uma engenharia incrível do poder de organização voltada para exploração de recurso e alcance das metas propostas.

Como Hannah Arendt observou no caso de Adolf Eichmann, ele era um burocrata exemplar da máquina nazista: “The trouble with Eichmann was precisely that so many were like him, and that the many were neither perverted nor sadistic, that they were, and still are, terribly and terrifyingly normal.” O mesmo vale para os administradores coloniais, para os burocratas do Apartheid e para os engenheiros que planejam a extração acelerada na Amazônia: gente comum, cumprindo metas, otimizando recursos. Gestão amoral. Preciso repetir isso várias vezes.




Destarte, a gestão não se restringe aos corredores das multinacionais ou do Estado de Bem-Estar Social... Ela está presente em todas as formas como uma organização decide se estruturar, seja num estado fascista, ditatorial ou democrático. O que impede a sociedade de colapsar no caos é justamente a capacidade de gestão organizacional. Podemos ter a Administração Putin ou Trump; a de Bismarck; a de Obama; a de Pepe Mujica; a de Lincoln; a de De Gaulle; a de Lumumba; a de Samora Machel... A máquina funciona ou deixa de funcionar conforme as ideologias e valores que a precedem e a orientam. A eficiência (ou ineficiência) da máquina está sempre nos valores que lhe dão nome e direção.Como Zygmunt Bauman argumentou em Modernity and the Holocaust: “The Holocaust was born and executed in our modern rational society, at the high stage of our civilization and at the peak of human cultural achievement, and for this reason it is a problem of that society, civilization and culture.” O mesmo mecanismo, a burocracia eficiente, divisão de tarefas, indicadores de produtividade serviu (e serve) para explorar recursos e atingir metas sem desperdício. Gestão é amoral. Preciso repetir isso várias vezes.

Por consequência, algumas perguntas precisam ser feitas: O que queremos atingir? Os nossos objetivos são inclusivos ou excludentes? Preferimos o privilégio de alguns ou melhores condições para todos? A partir disso desenhamos a importância da técnica que vamos aplicar. Então, a base da gestão é puramente filosófica. Quero dizer aqui que as questões filosóficas guiam as técnicas ou práticas de gestão. Por detrás de enormes tabelas, gráficos, fluxogramas e organigramas temos questões ancestrais: Qual é o nosso propósito? Quem somos nós? O que é sucesso para nós? Quem deverá ser os nossos colaboradores? Quem não deverá ser os nossos clientes? O que motiva os nossos colaboradores?

Como Gabriel Abend demonstra em The Moral Background, por trás de toda prática de gestão há um “moral background”, pressupostos profundos sobre o que conta como moral, quem é um ator moral legítimo, quais razões valem para justificar ações, e o que pode ser avaliado eticamente. São questões humanas. Se olhamos somente os números seremos facilmente enganados. E se não vermos os números, seremos igualmente enganados. Precisamos de indicadores que permitam a nossa navegação.

Portanto, a técnica e a filosofia são faces de uma mesma moeda a que designamos gestão. O gestor além das operações e técnicas de gestão, precisa lidar com pessoas reais e complexas, com um mercado, com emoções humanas tanto dos stakeholders como da própria organização. Precisa desenhar as narrativas que definem o que a organização faz e não faz.


quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Sem Medo, Nada Funciona: a verdade sombria por trás da produtividade



Estamos a viver uma época em que o medo já não é apenas um sentimento: tornou-se uma infraestrutura invisível, uma tecnologia silenciosa que organiza a vida, o trabalho e até os sonhos das pessoas. Sob a aparência de “gestão”, “produtividade” e “eficiência”, escondemos uma máquina que opera na sombra,  uma verdadeira máquina que devora a vitalidade humana e espiritual em nome da sobrevivência. Um sistema que parece ganhar vida e converte mentes criativas em verdadeiros serviçais.

Krishnamurti diria que o medo é um movimento do pensamento.
Krenak diria que o medo é o sintoma de uma humanidade que deixou de sonhar.
Mbembe diria que o medo é a política que governa corpos, territórios e futuros.

E todos estariam certos.

O medo como forma de governo

O mundo contemporâneo transformou o medo em método.
Gestão é, muitas vezes, outra palavra para administração da ansiedade.
Gestores podem toranr-se facilmente em capatazes de um sistema que eles mesmos desconhecem. É preciso uma gestão que seja libertadora.

Gerimos prazos como quem gerencia assombrações.
Gerimos pessoas como quem administra riscos biológicos.
Gerimos recursos como quem controla uma pandemia emocional.

A “boa gestão” tornou-se a arte de manter todos suficientemente assustados para produzirem, mas não assustados o bastante para fugirem. É um equilíbrio macabro que revela o fracasso interior da nossa civilização.

Mbembe lembra-nos que vivemos num regime que organiza vidas e mortes: uma “necropolítica”.
No mundo corporativo, não se mata o corpo: mata-se o sentido, mata-se a imaginação.
Mata-se devagar. Devagar o suficiente para que se produza muito antes da morte final. 

O humano reduzido ao algoritmo do medo

Krishnamurti observou que a mente humana está condicionada há milênios.
Hoje, esse condicionamento não é apenas psicológico:
é sistémico, tecnológico, maquínico.

Somos instruídos a acreditar que:

  • se não fores produtivo, deixas de merecer existir;

  • se não corres, ficas para trás;

  • se não entregas, és descartável;

  • se descansas, és suspeito.

O medo tornou-se a moeda espiritual da modernidade.

E o mais aterrador: nós internalizamos o opressor.
O chefe já não está no escritório.
Mora dentro da cabeça.

“Terra é gente”  e a gestão esqueceu de viver

Ailton Krenak diz: Terra é gente.”
Ou seja, não há fronteira entre humano e natureza.
Mas a gestão moderna opera como se fôssemos máquinas separadas do cosmos.

Gerimos projetos, mas não gerimos o espírito.
Gerimos cronogramas, mas não gerimos o sonho.
Gerimos KPI’s, mas esquecemos do céu.

Fomos amputados da vida.
Desconectados do rio, da noite, da dança, do sagrado.

Krenak chamaria isso de humanidade em coma.

E é por isso que temos medo:
porque esquecemos que pertencemos a algo maior do que nossos cargos.

A grande mentira da segurança

O medo nasce da busca desesperada por segurança.

Mas que segurança existe num mundo que está a desabar em crises ecológicas, espirituais e políticas?
Que segurança existe em empregos que desertificam a alma?
Que segurança existe numa vida que perdeu o riso?

A promessa de segurança é o truque mais brutal da gestão contemporânea.
Porque ela pede a tua liberdade em troca de uma proteção que nunca chega.

Krishnamurti diria:

“Quando você busca segurança no que é instável, está a criar a semente do medo.”

E quase tudo no nosso mundo é instável.

Como sair dessa prisão? Não por métodos. Mas por rasgo.

Não há técnica de gestão capaz de libertar o humano do medo.
Porque o medo não é um problema técnico.
É um problema ontológico.

O que precisamos é de um rasgo existencial.

Uma insurreição do espírito contra o condicionamento.

  • Sair da gestão como controle.

  • Entrar na gestão como cuidado.

  • Sair da produtividade.

  • Entrar no encantamento.

  • Sair da lógica do medo.

  • Entrar na possibilidade de estar vivo.

Krenak chamaria isso de adiar o fim do mundo.
Krishnamurti chamaria de libertar-se da autoridade interna.
Mbembe chamaria de recusar o destino imposto pelos dispositivos de poder.

Um novo começo: gestão como um ato poético

Talvez a gestão do futuro não seja um manual.
Seja um ritual.

Não um conjunto de tarefas.
Mas um modo de conversar com o mundo.

Talvez gerir seja:

  • Sentar-se com a equipe como quem se senta em volta da fogueira.

  • Pausar o trabalho para ouvir a chuva.

  • Criar espaços onde ninguém precisa ter medo.

  • Inventar novos futuros que não cabem em relatórios.

Talvez o gestor do futuro não seja um técnico.
Seja um guardião do sonho.

Porque quando o medo desaparece, o humano reaparece.
E quando o humano reaparece, a gestão deixa de ser uma prisão
para tornar-se uma arte de continuar vivo num mundo que tenta nos adormecer.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

O PREÇO DA DISTRAÇÃO: COMO O ENTRETENIMENTO SE TORNOU A NOVA MÁQUINA DE ALIENAÇÃO EM ÁFRICA

Da celebração do futebol ao poder das influenciadoras, um retrato de como o lazer se converteu num instrumento de poder simbólico e económico no continente.


A distração inocente que se torna mecanismo de controlo

O entretenimento sempre ocupou um espaço aparentemente inofensivo na vida social. Uma pausa no trabalho, um momento de leveza, uma necessidade humana de descanso. É o que sociólogos como Zygmunt Bauman chamam de “intervalos de fuga” ou pequenas suspensões do peso da vida pragmática.

Mas, desde Marx ao pensador contemporâneo Byung-Chul Han, existe um alerta antigo: a distração pode transformar-se em alienação quando deixa de ser um descanso e passa a operar como uma fábrica de ilusões que desvia a atenção das contradições reais da sociedade.

Alienação: do truque de mágica ao palco global

Na alienação, explica Marx em Manuscritos Econômico-Filosóficos, o indivíduo perde consciência da sua própria condição material e vive num estado fabricado por forças externas. É o truque do ilusionista: enquanto o público olha para a mão que brilha, a verdadeira operação ocorre no lado oculto do palco.

Hoje, essa operação é sofisticada, global e altamente lucrativa.

Quando o futebol deixa de unir e passa a anestesiar

O fenómeno Messi em Angola e Gabão

Em 2025, Angola gastou milhões de fundos estatais para levar Lionel Messi a um jogo festivo. O Gabão já o fizera anos antes para inaugurar um estádio. A chegada do jogador que foi tratado quase como figura mitológica e mobilizou multidões, abafou críticas sociais e produziu um espetáculo que, segundo analistas como Achille Mbembe, funciona como um “grande ritual de despolitização”.

Para a população, foi festa.
Para as elites, uma oportunidade de prestígio.
Para Messi, apenas negócio.

Enquanto isso, os indicadores sociais continuam preocupantes: mortalidade infantil elevada, serviços básicos insuficientes, disparidades gritantes.

O entretenimento, nesta lógica, opera como um óleo que suaviza o atrito entre governados e governantes permitindo que a máquina continue a rodar.

O império das influenciadoras e o poder invisível sobre comportamentos

De Angola para São Tomé: a cultura da imitação global

Entre jovens santomenses, influenciadoras angolanas conquistam espaço equivalente ao de líderes culturais. Sotaques, estéticas, modos de vida e até expectativas de relacionamento são moldados por criadoras de conteúdo que, por sua vez, imitam influenciadoras brasileiras, que imitam influenciadoras norte-americanas.

O ciclo é global, vertical e altamente rentável.

Pierre Bourdieu chamaria isto de dominação simbólica: uma forma de poder que atua não pela força, mas pela internalização daquilo que parece natural ou desejável.Nenhum presidente, nem mesmo no auge do Partido Único, exerceu tanta influência cultural sobre jovens santomenses quanto as influenciadoras angolanas, tenho observado. talvez esteja generalizando por uma questão retórica. Mas a sensação é de que existe uma alienação grave, uma disputa pela mente dos jovens onde o país sai derrotado diante de uma agenda global.

O entretenimento tornou-se o “partido invisível” que legisla o comportamento, o consumo e até o imaginário social.

A advertência de Platão e a fábrica moderna do desejo

Na República, Platão expulsa os artistas por acreditarem que produzem sombras e desviam o povo da verdade. A crítica parece arcaica e até percebemos como a indústria cultural atual molda perceções, desejos e valores de forma profunda.

Hoje, a alienação manifesta-se sob novas formas:

  • hiperssexualização como linguagem dominante,

  • culto ao corpo e aos objetos,

  • romantização de estilos de vida inalcançáveis,

  • consumo como promessa de pertencimento.

Byung-Chul Han descreve essa era como a do “psicopoder”: não é necessário reprimir o cidadão — basta entretê-lo.

A África entre a esperança suspensa e o barulho constante

Em vários países africanos, assiste-se a um duplo vazio:

  • a perda do nacionalismo crítico das gerações anteriores,

  • a ausência de um projeto claro de futuro.

Nesse intervalo, cresce uma sociedade de consumo barulhenta, medicada, saturada por estímulos — onde se idolatra quem explora, se celebra quem acumula e se esquece das condições estruturais que mantêm a maioria na pobreza.

A estética old money romantizada por jovens pobres torna-se um símbolo dessa inversão total de consciência.

Como lembram economistas como Thomas Piketty e Ha-Joon Chang, o capital depende de trabalho barato e recursos baratos.
A ideologia — difundida como entretenimento — existe para transformar esta desigualdade sistémica numa paisagem natural.

Conclusão: o entretenimento como nova pedagogia da submissão

O entretenimento, quando capturado por grandes corporações e elites políticas, deixa de ser descanso e torna-se uma pedagogia subtil de conformismo, ensinando populações a:

  • admirar aquilo que as oprime,

  • desejar aquilo que nunca possuirão,

  • aceitar como natural um sistema que as empobrece,

  • confundir consumo com liberdade.

Não se trata de culpar o futebol, a música ou as redes sociais. Mas de revelar a engrenagem que opera por trás do riso, da dança, da distração e do espetáculo.

A pergunta que permanece é simples e profundamente política:

Quando a distração se torna o centro da vida, quem realmente ganha com isso?

domingo, 16 de novembro de 2025

Quem ganha com a ideia de que São Tomé e Príncipe está em declínio?

A nova moda do pessimismo nacional

Dizer que “São Tomé e Príncipe está em declínio” tornou-se quase uma tendência nacional. O discurso repete-se nas conversas, nas redes sociais e até nos debates públicos. Muitos evocam o passado colonial com certo saudosismo, como se aquele tempo fosse um período de ordem perdida.
Mas o curioso é: todos reclamam, ninguém assume responsabilidade. A culpa é sempre difusa e depositada em abstrações como “mentalidade”, “cultura” ou “corrupção”, como se o país sofresse um desastre natural e não decisões humanas.

Quem controla a narrativa do declínio?

A questão raramente discutida é esta: quem ganha com a ideia de que o país está irremediavelmente perdido?

Grande parte da produção desse discurso parte das elites antigas e novas que historicamente moldam as percepções sociais. São esses grupos que determinam o que é visto como falha moral, como progresso ou como atraso. A narrativa do declínio funciona como uma espécie de marketing político e social, onde o país é um produto em deterioração e os narradores se apresentam como observadores inocentes do desastre. Até como revoltados e não como vencedores de toda essa desorganização.

O privilégio que se reconhece… e que se reproduz

Quem cresceu entre privilégios, como parte da elite académica ou económica, sabe que o acesso a oportunidades nunca é neutro. Reconhecer esse privilégio tornou-se até sinal de consciência social. Mas, na prática, os mesmos circuitos privados de benefício continuam a ser reproduzidos.
As elites assumem ter “tido sorte”, mas omitem como continuam a reacender essa mesma sorte para os seus — nos empregos, nas escolas, nos círculos fechados de influência.

Enquanto isso, criticam o “povo” a partir de restaurantes caros, atribuindo comportamentos de sobrevivência à “mentalidade”. O que falta dizer é que a pobreza não é um traço cultural, mas uma condição material. Uns até gritam que precisamos disciplinar os pobres, claro, o bom uso da vara, como dizia Salomão em Provérbios. 

A nova elite da era digital

Se antes a elite santomense buscava legitimidade através do discurso nacionalista e da erudição, hoje o poder mudou de mãos e de estética.
A nova elite económica ascende pelo consumo: carros de luxo, moradias ostentatórias, viagens exibidas no TikTok e Instagram. A influência cultural já não se faz em saraus, mas em vídeos curtos, métricas de engajamento e exibições constantes de riqueza.

Curiosamente, é também esta elite que mais repete a ideia do “declínio nacional”. Mas raramente menciona que ela própria molda, direta ou indiretamente, o destino económico e simbólico do país.

Uma disputa antiga: elites e política

São Tomé e Príncipe sempre foi marcado por uma disputa entre elites. Não apenas económicas, mas também culturais e políticas. E ao longo das décadas, essas disputas atravessaram partidos, instituições e famílias.
O país, pequeno e dependente, sempre foi vulnerável à importação de modelos externos: primeiro os portugueses, depois os americanos, e agora os modelos empresariais neoliberais do Vale do Silício démodé.

Com isso, difundiu-se a ideia de que “tudo depende da mentalidade”. Como se um país insular, de economia reduzida, pudesse ultrapassar limitações estruturais apenas com força de vontade.

O mito neoliberal da ascensão individual

Hoje, muitos defendem que os pobres devem simplesmente “empreender”, “mudar a mentalidade” e “pensar grande”. A promessa é sedutora: basta querer muito para prosperar.
Porém, essa retórica ignora desigualdades profundas, o contexto internacional adverso e o fato de que ascender socialmente num país pequeno é muito mais condicionado por rede, nome e contexto do que por mérito individual.

O resultado é um discurso moralizante que responsabiliza os vulneráveis pelos limites que não criaram. 

Por sussurro quase cristão, ouço uma voz:

“Pobres, levantem e enriqueçam! Empreendam! Não sejam preguiçosos… é apenas isso que vos separa de Elon Musk ou Jeff Bezos.”

A verdadeira tese: o problema não é o país — é quem narra o país

Para além do barulho, é preciso esclarecer:
o problema não é que São Tomé e Príncipe “vai mal”; o problema é quem diz que vai mal, e porque esse discurso lhes serve.

A narrativa do declínio cumpre várias funções:

  • Oculta responsabilidades de elites que sempre controlaram oportunidades;

  • Legitima privilégios antigos e novos;

  • Desvia o debate das condições estruturais para a suposta falha moral dos pobres;

  • E reforça uma visão neoliberal onde problemas sociais são tratados como defeitos individuais.

Enquanto continuarmos a aceitar essa narrativa sem questionar os seus autores, confundiremos crítica com fatalismo e diagnóstico com propaganda.

Conclusão: menos profetas da decadência, mais responsabilidade real

São Tomé e Príncipe não precisa de novos discursos de desgraça. Precisa de um debate honesto sobre quem molda as narrativas, quem beneficia delas e quem fica sempre invisível dentro do país que se discute.
A mudança começa quando deixarmos de romantizar o declínio e passarmos a analisar o papel dos que têm poder para transformar ou perpetuar o estado das coisas.

certa vez vi como Thomas Sowell alertava que muitos intelectuais não enfrentam responsabilização real pelas consequências de suas ideias, eles podem estar errados, inovar ideias perigosas, mas raramente pagam o preço prático por isso.

Um médico erra e o paciente perde a vida; um mecânico falha e o carro não anda. Já muitos dos que moldam opiniões em artigos, conferências ou redes sociais podem propagar diagnósticos simplistas sem enfrentar as consequências práticas.
Alguns fazem-no a partir do conforto da diáspora, outros movidos por interesses próprios, outros ainda pela cegueira social que impede de ver o país real aquele que existe para além das bolhas de privilégio.

Se quisermos avançar, é preciso substituir o fatalismo performativo por responsabilidade concreta. Menos discursos sobre a decadência nacional e mais compromisso com a verdade, com o contexto e com a urgência de transformar aquilo que durante décadas foi apenas comentado.



sexta-feira, 24 de outubro de 2025

A Juventude dos PALOP: Do Hustle Neoliberal ao TikTok da Vergonha

Por um Correspondente Desiludido em São Tomé

Em plena era digital, a juventude dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) parece ter trocado as barricadas da luta anticolonial por mantras de autoajuda importados do Vale do Silício. Esqueçam Amílcar Cabral, o guineense que sonhava com unidade africana contra o jugo português, hoje, o herói é o "empreendedor" que promete virar Bill Gates com um smartphone e muita "disciplina". Que ironia: enquanto Cabral alertava para a exploração coletiva, esta geração acha que o colonialismo acabou e bastam dancinhas no TikTok para enriquecer.

O Hustle Escondido na Hiperssexualização

Mas vejamos o verdadeiro "hustle" que pulula nas redes: uma vulgarização grotesca do corpo feminino africano, transformado em mercadoria barata para likes. O TikTok, esse oráculo neoliberal, revela o espetáculo da idiotice. Temas como pobreza e desigualdade reduzidos a piadas de mau gosto. Em Angola e Moçambique, importam reality shows americanos como se fossem cultura própria, expondo celebridades em rodopios de nada. Adeus Valete, Azagaia ou Pai Grande o Poeta, vozes que denunciavam o sistema; olá endless scrolling, onde cérebro homogenizado repete slogans como se fossem revelações divinas. Thomas Sankara, o burquinense que pregava soberania e rejeitava o consumismo ocidental, deve estar se revirando no túmulo ao ver esta alienação.

Políticos Showmen: Ideologia? Só se for de Efeito

Os políticos, outrora ideólogos, viraram showmen à la Trump, agora frases de efeito no lugar de planos. A pobreza, escândalo coletivo para Kwame Nkrumah, o ganense que lutava por pan-africanismo, agora é "batalha individual". Sucesso? Garantido com mindset certo! Eles dançam para o algoritmo, inflamam polêmicas para engajamento, ignorando flagelados. Em São Tomé, livrarias sumiram; cultura fica para expatriados e burguesia que entende educação. A juventude? Reza por vistos, fugindo em "navios negreiros" modernos, para depois vangloriar senzalas em bairros sociais europeus, enquanto extrema-direita promete pisar em todos e deixá-los naufragar no mediterrâneo sem um pingo de dignidade. Ou voam para o médio oriente para enfrentarem o sistema cafala ou de desumanização legal.

Arte como Escapismo: Sexo, Drogas e Musk

A arte reflete o caos: shows consumíveis, letras de sexo, drogas e lifestyles inatingíveis. Convencem que a diferença entre Elon Musk e um africano desesperado é só "mindset", pura propaganda neoliberal. Artistas, escravos de aplausos, alienam o povo. "Comeram a minha banana" vira debate nacional, enquanto extermínio por idiotização avança. Carros maiores, TVs maiores; livros? Extintos. Samora Machel, o moçambicano que combatia o analfabetismo como arma colonial, veria nisto traição.

O Inimigo Invisível e a Falta de União

Ativistas de outrora viam o Inimigo claro; hoje, proxies e medrosos mantêm poder via acordos ignotos com capital estrangeiro. Pobreza gera "cultura da pobreza": cidades sujas como "nossa condição definitiva". Utopia morreu; viramos cemitério para saqueadores de terras raras e recursos. E os PALOP? Incapazes de cooperação simples sem intermediários gananciosos. Por que não negócios entre nós? Por que voos de São Tomé a Maputo, Bissau ou Praia são missão impossível? Éramos "povos irmãos" que apoiavam Cuba embargada, viam Congo ruir sem braços belgas. Agostinho Neto, o angolano poeta da independência, clamava unidade, onde estão?

A Bolha da Ignorância: Influencer's sim, Malangatana não

Notícias de povos irmãos? Inexistentes na bolha santomense. Sabíamoss mais de Saramago que de Malangatana. Hoje sem Saramago, nem Malangatana. Juventude ignora história, conhece influencers sexuais, músicas de quinta que destroem família africana e busca pelo conhecimento. Intimida quem quer sair da ignorância. Eduardo Mondlane, o moçambicano assassinado por lutar educação libertadora, diria: voltamos à estaca zero, escravos voluntários do algoritmo. Que esquerda africana desperte antes que o hustle nos engula de vez. A esquerda perdeu o discurso de libertação diante d eum público que quer ter os carros que as suas celebridades têm, querem possuir as mulheres seminuas naqueles videoclipes sensuais.

Não Quero Ter Inimigos: memória, colonialismo e a possibilidade de reconciliação

Precisamos crescer, falo enquanto humanidade, é necessário crescer. Ir além de tudo aquilo que acreditamos ser importante. De facto, o esvaz...