1. A Europa também tem os seus dias de chinelos
A Europa acordou! Eu, que durante anos me perguntava como uma civilização que tanto se orgulha dos seus indicadores de desenvolvimento humano conseguia conviver tão tranquilamente com injustiças e condições de vida precárias para tantos, começo a surpreender-me com os acontecimentos recentes. O descontentamento que começou a tirar o sono a Macron parece alastrar-se, atravessar fronteiras e ameaçar chegar a outros centros de poder europeus. Até em Portugal, as notícias já falam de ameaças contra uma das 55 propriedades ligadas ao primeiro-ministro. O continente que tantas vezes se apresentou ao mundo como um modelo de estabilidade parece ter descoberto que a paz social também tem prazo de validade.
Tudo terá começado com manifestações estudantis em França, motivadas por reivindicações concretas e melhores condições. Mas, como acontece tantas vezes, uma pequena chama encontrou um terreno que já estava seco. Por baixo das reivindicações imediatas acumulavam-se outras frustrações, outras contas por pagar, outras promessas por cumprir. A manifestação deixou de ser apenas sobre aquilo que a fez nascer. Tornou-se uma oportunidade para gritar tudo o que andava entalado. Não podemos duvidar da força dos que perceberam que não serão influencer's ou modelos de Only Fans.
A crise europeia não nasceu ontem. As guerras, a instabilidade geopolítica, os choques energéticos, a inflação e a crescente dificuldade de aceder à habitação expuseram fragilidades que a prosperidade dos últimos anos ajudara a disfarçar. O gás russo deixou de ser a fonte barata e previsível que alimentava parte da economia europeia. Os conflitos no Médio Oriente e os riscos associados às rotas marítimas voltaram a lembrar que a estabilidade dos preços europeus depende, em parte, de acontecimentos que se desenrolam a milhares de quilómetros. Entretanto, o mercado imobiliário continua a ser, para muitos, uma máquina de produzir rendas para uns e ansiedade para outros.
Os europeus, que tantas vezes olharam para o resto do mundo com a tranquilidade de quem acredita ter encontrado a fórmula certa para viver, começam a conhecer uma versão da vida que, para muitos povos, nunca foi novidade: muito trabalho, salários que mal chegam ao fim do mês, instituições em que já não se confia e a sensação persistente de que o poder político e o interesse público nem sempre caminham de mãos dadas, talvez fosse ainda pior, interesses conflitantes.
Como santomense, confesso que sempre tive alguma inveja daqueles que conseguem confiar nos processos, nas instituições e na boa-fé dos seus governantes. Crescemos a olhar para determinados países como lugares onde as regras funcionam, onde os contratos são respeitados e onde a competência, em princípio, vale mais do que a proximidade com quem manda. É intrigante perceber que até essas sociedades podem começar a questionar os alicerces da confiança que as sustentam.
O mundo está a capotar. Ou talvez sejamos nós que estamos finalmente a ver aquilo que a estabilidade nos permitia ignorar. Admito o meu próprio viés: há em mim uma tendência para olhar para acontecimentos desta dimensão e imaginar que estamos a assistir ao princípio do fim. Talvez seja apenas o velho fascínio humano pelos tempos apocalípticos. Mas há uma questão que não consigo afastar: quando uma sociedade começa a perder a confiança nas suas instituições, quem consegue transformar esse descontentamento numa oportunidade política?
2. Quem controla a narrativa, controla a revolta
É aqui que a disputa fica interessante.
A direita encontrou uma maneira particularmente eficaz de disputar o significado da revolta. Por um lado, responsabiliza os sucessivos governos de esquerda pela degradação das condições de vida. Por outro, apresenta-se como a força da ordem, da segurança e da autoridade. Mas existe um problema: como defender a ordem sem reconhecer que parte dos desordeiros pode pertencer à própria comunidade que se pretende proteger? Como explicar a violência sem admitir que ela também pode nascer de dentro do tão celebrado mundo civilizado?
A solução narrativa é conveniente: o imigrante. Aquele que, alegadamente, importa métodos de selvageria, ameaça os costumes e vem pilhar a casa alheia. A partir daí, a reivindicação passa a ser desordem; a desordem transforma-se em pilhagem; a pilhagem converte-se em violência; e a violência acaba apresentada como prova de que o país está a perder a sua identidade. A questão social desaparece por trás da questão securitária. Não o imigrante que compram prédios, falo dos "petits fonctionnaires" do turismo, das obras e os uber's da vida.
Não significa que os episódios de violência devam ser ignorados, nem que todos os discursos sobre imigração sejam iguais. Significa que, quando a violência de alguns passa a representar a essência de um movimento inteiro, cria-se uma oportunidade para deslegitimar as reivindicações de muitos. A direita não precisa necessariamente de inventar a desordem. Basta-lhe, por vezes, conseguir que a desordem seja a única coisa que o público vê.
E assim nasce um paradoxo: uma população protesta porque sente que o sistema deixou de funcionar a seu favor e pode acabar por entregar mais poder àqueles que prometem restaurar a ordem, sem necessariamente resolver as condições que alimentaram a revolta. O medo do caos pode tornar-se mais urgente do que a procura de justiça. E, quando isso acontece, a promessa de autoridade começa a valer mais do que a promessa de transformação.
3. A esquerda quer mudar o mundo. Mas consegue organizar a mudança?
Do outro lado, há uma esquerda mais radical que acredita que todas as batalhas devem ser travadas em conjunto. Greta Thunberg e outros ativistas procuram frequentemente estabelecer ligações entre a crise climática, as desigualdades económicas, as guerras, o legado colonial e as relações de poder internacionais. E não estão necessariamente errados ao reconhecer essas ligações. Não se pode compreender a Europa sem olhar para o mundo, nem falar de prosperidade europeia ignorando as relações históricas que a ajudaram a construir.
Mas existe uma diferença entre reconhecer que as injustiças estão relacionadas e acreditar que todas devem gritar ao mesmo tempo, no mesmo lugar e com a mesma intensidade.
Uma coligação que tenta transformar cada reivindicação numa batalha universal pode acabar por perder a capacidade de explicar o que pretende mudar primeiro, como o pretende fazer e com quem está disposta a construir uma solução. Quanto mais causas se acumulam sem prioridades partilhadas, mais difícil pode tornar-se manter a coesão. A diversidade não condena um movimento ao fracasso, mas a ausência de uma estratégia comum pode condená-lo à dispersão.
E, enquanto a esquerda tenta explicar o mundo inteiro, alguém pode estar a perguntar simplesmente como vai pagar a renda no próximo mês.
A política não se faz apenas com a verdade das causas. Faz-se também com a capacidade de as transformar em respostas compreensíveis, concretas e possíveis. Uma população pode reconhecer a injustiça do sistema e, ainda assim, rejeitar os movimentos que prometem combatê-la, se sentir que esses movimentos não compreendem as suas urgências. É nesse intervalo entre a indignação e a solução que outras forças políticas encontram espaço para crescer.
4. Da liberdade à autoridade: a história não tem o mesmo guião, mas tem perguntas recorrentes
A França, aliás, tem uma história que nos devia tornar prudentes perante os grandes gritos da liberdade. A Revolução Francesa abalou uma ordem política antiga, mas abriu caminho a uma sequência de conflitos e transformações que incluiu a ascensão de Napoleão Bonaparte. A história não se repetiu simplesmente quando Charles de Gaulle emergiu num contexto de crise nacional profundamente diferente. Seria demasiado fácil transformar acontecimentos separados por séculos numa única sequência. Mas permanece uma questão: porque é que, em certos momentos, a promessa de liberdade acaba acompanhada pela procura de uma autoridade forte?
Será que estamos a assistir à preparação de uma nova etapa da política francesa, com Marine Le Pen e a direita nacionalista a beneficiarem do cansaço, da insegurança e da desconfiança? Não sei. Seria precipitado anunciar o resultado antes de conhecermos o desfecho. Mas a hipótese merece atenção. Uma revolta contra a ordem existente não tem necessariamente uma orientação progressista. Pode abrir caminho a uma transformação social, mas também pode produzir uma reação conservadora, nacionalista ou autoritária.
Marx escreveu que os grandes acontecimentos e personagens da história aparecem, por assim dizer, duas vezes: primeiro como tragédia, depois como farsa. Talvez o problema seja que, enquanto discutimos se a história está a repetir-se como tragédia ou como farsa, ela já esteja a preparar um terceiro ato que ninguém antecipou.
5. O povo pode encher as ruas. Mas quem tem o poder de mudar o Estado?
Não vos apoquenteis! Antes de anunciar a revolução, convém perceber que encher uma praça é mais fácil do que tomar um palácio. O povo tem cartazes, megafones e indignação. O Estado tem tribunais, burocratas, cofres e polícia. A indignação faz barulho; a máquina pública trata da papelada.
Thomas Hobbes já nos avisava: sem uma autoridade capaz de impor a ordem, corremos o risco de transformar a sociedade numa guerra de todos contra todos. Mas imagino o velho filósofo a explicar aos jovens manifestantes que o Leviatã existe para os proteger, enquanto estes lhe perguntam quem os protege do senhorio. É que a ordem é muito bonita, mas pagar a renda também tem as suas exigências.
Maquiavel seria menos sentimental. Não perguntaria quem tem razão, mas quem controla as armas, quem permanece fiel e quem consegue conservar o poder quando os aplausos acabam. Um governante pode ser detestado por milhões e continuar no palácio; uma multidão pode aplaudir a revolução e regressar a casa sem ter mudado absolutamente nada. A popularidade enche praças. Não derruba, por si só, estruturas de poder.
Morgenthau acrescentaria que, por trás dos grandes discursos sobre liberdade, solidariedade e dignidade humana, existem interesses e cálculos de poder. Os Estados apoiam aliados, enfraquecem rivais e aproveitam oportunidades. Mas nem precisamos de imaginar um embaixador estrangeiro a distribuir instruções secretas por cada revolta. Às vezes, a incompetência dos próprios governantes já faz o trabalho todo.
A verdade é que o povo pode ter a razão e até a maioria, mas o Estado continua a ter as armas, os cofres e o aparelho administrativo. Para transformar indignação em poder, é preciso mais do que gritar «demissão!»: é preciso abalar as estruturas que sustentam quem governa. Caso contrário, chega a noite, os manifestantes regressam a casa e, na manhã seguinte, o mesmo ministro aparece na televisão a defender a estabilidade.
Mas há um pequeno problema: o Estado pode dispersar uma multidão, não pode dispersar a inflação. Pode prender manifestantes, não pode algemar o preço da renda. Pode restaurar o trânsito, mas não consegue obrigar uma população inteira a acreditar que está tudo bem.
6. A revolta pode acabar a votar em quem promete acabar com ela
As manifestações poderão continuar. E, com elas, a procura de culpados. A esquerda e a direita digladiar-se-ão para explicar quem destruiu o país. Uns apontarão os gananciosos; outros, os preguiçosos. Uns dirão que o sistema foi mal desenhado; outros insistirão que o problema está nas pessoas que não sabem respeitar as regras de um sistema que, no essencial, seria perfeito.
No fim do dia, haverá quem continue em cima e quem permaneça em baixo. A riqueza poderá continuar a concentrar-se no topo, enquanto a base luta por uma fatia cada vez menor daquilo que produz. As pessoas poderão dormir nas praças, gritar nas ruas e exigir justiça. E talvez algumas acabem por votar mais à direita, em nome da ordem, precisamente porque a revolta não conseguiu oferecer-lhes uma alternativa que considerassem credível.
É este o perigo que mais me interessa. Não apenas a possibilidade de a revolta fracassar, mas a possibilidade de produzir uma vitória política para aqueles que menos têm interesse em alterar as condições que a fizeram nascer.
Afinal, a questão não é simplesmente saber se a Europa irá para a direita ou para a esquerda. É perceber se conseguirá transformar o descontentamento em mudanças concretas antes que o medo da desordem se torne mais poderoso do que a vontade de justiça.
Porque uma sociedade pode suportar a desigualdade durante muito tempo, sobretudo quando acredita que o futuro será melhor. Mas, quando deixa de acreditar nisso, alguma coisa começa a partir-se. E o resultado dessa ruptura não depende apenas de quem protesta. Depende também de quem consegue dar sentido à revolta, organizar as suas forças e convencer as pessoas de que existe uma saída.
7. Europa, e agora?
Uma mentira foi repetida tantas vezes que quase se tornou verdade: estamos todos no mesmo barco. Não estamos. Uns viajam em primeira classe; outros remam no porão. E há quem nem sequer tenha conseguido embarcar.
Durante anos, disseram aos pobres que a pobreza era uma questão de mindset. Os gurus venderam-lhes disciplina, os livros prometeram abundância e o poder da atração prometeu o resto. Mas nenhuma visualização paga a renda. Nenhum pensamento positivo compra uma casa. E, quando a promessa de sucesso falha, sobra a pergunta: e se o problema não estiver apenas na nossa cabeça, mas nas regras do jogo?
A Europa começa a temer aquilo que durante décadas julgou ser o destino dos outros: uma geração instruída, competente e condenada à precariedade. Jovens com diplomas, mas sem casa. Qualificações, mas sem segurança. Empregos, mas sem futuro. Não há vergonha em servir à mesa ou trabalhar num café. A vergonha está numa sociedade que promete mobilidade social e depois transforma a sobrevivência num privilégio.
Europa, e agora? Virar à direita, à procura de culpados? Virar à esquerda, à procura de alternativas? Derrubar os que estão em cima ou mudar as regras que os mantêm lá?
Os próximos acontecimentos dirão. Mas a pergunta decisiva é outra: quando a injustiça se torna insuportável, mas a mudança assusta, o povo escolherá transformar a ordem ou entregar-se a quem promete restaurá-la?

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