Introdução
Tenho alguns amigos historiadores com quem converso sobre estas coisas. E, por ter a felicidade de conviver com eles, fui percebendo uma coisa curiosa: fora desse pequeno círculo de especialistas, pouca gente parece conhecer realmente a história das roças, embora quase toda a gente tenha uma opinião sobre elas.
Como não sou historiador, mas Administrador, achei que seria uma excelente oportunidade para meter-me onde não fui chamado. Trazer uma voz de quinta para uma quarta-feira.
Fantasiado de bom local e curioso, vou tecer alguns comentários sobre este processo histórico santomense, provavelmente sujeito a ser desmentido por Seibert, Lauro, Emir, Maria das Dores, João e outros historiadores. Alguns deles, felizmente, são meus amigos. Isso significa que, se o texto estiver muito errado, pelo menos serei corrigido com carinho.
Afinal, o que são as roças?
Uma roça não era simplesmente uma fazenda grande.
Era uma unidade agrícola, económica, social e territorial, organizada para produzir em grande escala, sobretudo para exportação.
A UNESCO descreve as roças como sistemas que combinavam terras agrícolas, infraestrutura industrial, áreas residenciais e equipamentos sociais, dentro de uma organização espacial altamente estruturada. Estamos, portanto, diante de algo muito maior do que uma plantação: uma espécie de cidade produtiva privada, desenhada para fazer uma commodity sair da terra e chegar ao mercado mundial de forma eficiente
E aqui começa a minha obsessão de Administrador.
Porque, olhando para uma roça, é difícil não pensar em organização.
Quem produz?
Quem transforma?
Quem armazena?
Quem transporta?
Quem administra?
Quem mora onde?
Quem presta cuidados de saúde?
Quem controla o trabalho?
Quem controla os recursos?
Qual credo é mais favorável?
Tudo parece estar ligado.
Mas, as roças começaram com o cacau?
Não exatamente.
São Tomé teve, desde os primeiros séculos da colonização, uma importante economia açucareira baseada em grandes plantações e trabalho escravizado. Portanto, antes do cacau já existia uma economia colonial de plantação.
A diferença é que a roça agroindustrial que hoje reconhecemos como sistema territorial consolidou-se sobretudo posteriormente, com a expansão do café e, principalmente, do cacau, a partir do século XIX.
Portanto:
roça moderna de café e cacau ≠ primeira plantação colonial portuguesa em São Tomé.
A primeira grande economia colonial foi a do açúcar. Especialidade da minha arqueóloga favorita, Maria das Dores que navegou-me intelectualmente entre os engenhos bem preservados de Praia Melão. Recomendo a leitura do seu projeto.
Mas há uma continuidade interessante:
grande propriedade + monocultura + processamento + exportação + trabalho coercivo.
A forma muda. A lógica produtiva permanece. Aqui está em ação a minha lente marxista de reconhecimento da infraestrutura e da superestrutura.
E aqui entra uma das minhas teorias favoritas, que costumo discutir com o meu amigo Ailton nas nossas Soirées Culturais:
a monocultura de ideias.
São Tomé parece ter uma relação quase metafísica com a monocultura.
Mudamos a commodity, mas continuamos a organizar território, trabalho, riqueza e até parte do nosso imaginário em torno dela.
Primeiro açúcar.
Depois café.
Depois cacau.
tentamos o petróleo
Agora Turismo Verde
A commodity muda.
A arquitectura mental parece ter mais dificuldade em fazê-lo.
Mas isto é apenas um parêntese.
Voltemos às roças.
Café. Depois, cacau.
Ao longo do século XIX, o café ganhou importância e, posteriormente, o cacau transformou completamente a economia e o território.
A procura internacional cresceu. O solo vulcânico e o clima das ilhas ofereceram condições extraordinárias para a produção. E São Tomé entrou de maneira muito agressiva na economia mundial do cacau. Foi neste contexto que as grandes roças se consolidaram.
A UNESCO situa precisamente o sistema colonial das roças sobretudo entre o final do século XIX e meados do século XX, associado à produção de café e cacau.
E aqui quero insistir numa coisa:
a roça não era o lugar onde o cacau crescia.
Era o sistema que permitia que o cacau fosse:
produzido → recolhido → processado → armazenado → transportado → exportado.
Sem administração, não havia roça. Como dizia o guru da Administração - O que não pode ser medido, não pode ser gerido.
Ou, pelo menos, não havia a roça como sistema agroindustrial.
Mas há uma pergunta que estraga rapidamente o romantismo: quem trabalhava?
Aqui chegamos à parte mais dolorosa.
A abolição formal da escravatura nos territórios portugueses não acabou com a necessidade de mão de obra das plantações. Em 1875, Portugal, através do seu governador Gregório Ribeiro aboliu formalmente a escravatura nas ilhas. Mas a economia das plantações continuava a precisar de milhares de trabalhadores.
E foi desenvolvido o sistema emprestado dos jargões da Administração: o trabalho contratado.
Trabalhadores foram recrutados sobretudo em Angola, Cabo Verde e Moçambique. A própria historiografia mostra que este sistema, embora juridicamente distinto da escravidão, conservou diversas formas de coerção e exploração. Era preciso ser um exímio especialista para notar a diferença entre contratado e escravizado
É aqui que a expressão “contratado” começa a ganhar uma ironia histórica particularmente desagradável.
A palavra parece administrativa.
A realidade era muito menos elegante.
Era a burocratização da força de trabalho.
E São Tomé passou a funcionar com uma enorme população de trabalhadores deslocados para alimentar a economia das plantações. Daí que uma grande roça pudesse funcionar quase como uma cidade privada dentro da colónia.
O trabalhador:
chegava → vivia na roça → trabalhava na roça → recebia serviços na roça → era disciplinado na roça.
A UNESCO descreve justamente um sistema espacial em que habitação, produção, processamento, saúde, educação, religião e transporte estavam articulados numa mesma unidade produtiva.
E aqui entra uma conversa que tive com Maria das Dores e Paulo Daio.
Eles chamaram-me a atenção para um paralelismo interessante com o Panóptico de Foucault.
Eu, naturalmente, fui mais longe.
Pensei em Orwell.
Pensei no Big Brother.
E pensei:
“Finalmente encontrámos uma política de Recursos Humanos verdadeiramente integrada.”
Estou a brincar. Mais ou menos. Porque a arquitectura das roças também servia para organizar, controlar e disciplinar o trabalho. O meu sarcasmo é um verdadeirro defeito de fábrica.
Encontramos nas roças: casa grande; sanzalas; instalações industriais; capela; enfermaria; armazéns; plantações; caminhos; transporte
Tudo fazia parte do mesmo sistema.
A roça era, portanto, uma forma de organizar o território inteiro em função de uma cadeia produtiva.
E chegamos a 1975.
Independência.
Depois de séculos de colonialismo, São Tomé e Príncipe torna-se independente.
E o novo Estado tem diante de si um problema gigantesco: o país herdou uma economia extremamente dependente das grandes propriedades agrícolas. O Estado decide nacionalizar as grandes propriedades.
É aqui que chegamos ao acontecimento que hoje associamos a 30 de setembro de 1975.
Uma pequena precisão histórica: a data foi inicialmente associada ao Dia da Nacionalização das Roças, mas posteriormente passou a ser designada Dia da Reforma Agrária.
Portanto, a sequência que nos interessa é aproximadamente esta:
plantação colonial privada
↓
nacionalização
↓
empresa agrícola estatal
↓
reforma agrária
↓
parcelas familiares / gestão privada / novas formas de exploração
E aqui começa uma das experiências económicas mais interessantes da história contemporânea de São Tomé e Príncipe.
O Estado ficou com quase tudo.
O novo Estado nacionalizou a maior parte da base produtiva agrícola.
O FMI registra que, na independência, cerca de 10.000 toneladas de cacau eram produzidas anualmente em aproximadamente 45 explorações médias e grandes, que foram posteriormente consolidadas em 15 empresas agrícolas.
E aqui temos de ter cuidado com uma confusão frequente: 15 empresas não significa 15 roças. Uma empresa podia administrar uma roça-sede e várias dependências.
A Roça Sundy, por exemplo, funcionava como sede de uma empresa agrícola que incluía oito dependências.
Portanto:
roça ≠ empresa estatal.
A empresa podia ser uma estrutura administrativa maior, agrupando várias unidades territoriais.
Temos alguns casos bem documentados:
Empresa Agropecuária de Sundy, resultante da nacionalização da Sociedade Agrícola Sundy;
Empresa Estatal Agropecuária Dr. António Agostinho Neto, antiga Roça Rio do Ouro;
Diogo Vaz, transformada em empresa estatal;
Monte Forte, integrada no processo de estatização das propriedades agrícolas.
O Estado herdou, portanto, algo extraordinariamente grande. Não apenas terra.
Herdou:
terras + plantações + trabalhadores + instalações de processamento + armazéns + oficinas + habitações + equipamentos sociais + infraestruturas de transporte.
Em linguagem empresarial:
o Estado herdou uma empresa verticalmente integrada.
Só havia um pequeno problema.
O organograma tinha mudado.
O computador precisava de outro sistema operativo.
Aqui chegamos à minha provocação de Administrador. O Estado herdou as máquinas. Herdou as terras. Herdou as plantações. Herdou as infraestruturas. Mas não herdou automaticamente todo o capital humano, conhecimento técnico e capacidade de gestão que fazia o sistema funcionar.
O FMI registra precisamente uma escassez de quadros de gestão e mão de obra qualificada após a independência, agravada pela saída de grande parte dos trabalhadores expatriados.
O Banco Mundial também relaciona o problema das empresas estatais com a saída dos portugueses e com a dificuldade de gerir as grandes propriedades no novo contexto.
E aqui está uma distinção importante.
Isto não significa que o sistema colonial fosse “eficiente” no sentido moral ou social. Uma coisa é eficiência produtiva. Outra é legitimidade política. Outra é justiça social. Outra é dignidade humana.
O sistema colonial produzia cacau em escala, mas fazia isso dentro de uma estrutura profundamente desigual e coerciva.
Portanto, não quero transformar produtividade colonial em nostalgia. Isso eu deixo para os guias turísticos
O meu ponto é outro:
destruir uma estrutura de poder não significa automaticamente saber substituir a estrutura organizacional que a fazia funcionar.
E esse é um problema clássico de gestão.
E os resultados?
Aqui os números começam a ficar bastante eloquentes. A produção de cacau passou de aproximadamente:
10.400 toneladas em 1974
para
3.378 toneladas em 1984.
Uma queda de cerca de 67%.
Mas atenção: não vamos cometer o pecado preguiçoso de dizer: “A nacionalização causou sozinha a queda.”
Não.
Houve vários fatores:
saída de mão de obra qualificada;
dificuldades de gestão;
falta de investimento;
manutenção insuficiente;
problemas estruturais;
transformação do sistema produtivo;
e a forte queda dos preços internacionais do cacau a partir de 1979.
O próprio FMI identifica essa combinação de fatores.
Ou seja:
a história é mais interessante do que uma simples relação causa → efeito.
E depois aconteceu algo que talvez seja ainda mais importante.
Quando a capacidade financeira das empresas caiu, tornou-se cada vez mais difícil manter aquilo que fazia da roça uma roça: hospitais, habitações, oficinas, estradas, secadores, armazéns, máquinas, plantações.
E começa a surgir uma imagem que todos nós conhecemos:
a roça como ruína.
Mas aqui está a minha provocação:
a ruína da roça não é apenas colonial.
Ela também é uma paisagem produzida pelo período pós-independência. Isso é fundamental. Porque muitas vezes olhamos para uma roça abandonada e vemos apenas:
“herança colonial”.
Eu vejo algo mais complexo.
Vejo:
COLONIALISMO
1975
NACIONALIZAÇÃO
EMPRESAS ESTATAIS
1993–2000
REFORMA AGRÁRIA
PRIVATIZAÇÃO / GESTÃO PRIVADA
HOJE
É uma paisagem com várias camadas.
Então a nacionalização destruiu as roças?
Aqui começa a pergunta que me interessa realmente. A nacionalização destruiu o sistema das roças ou mudou quem o administrava?
A resposta, provavelmente, é:
as duas coisas, mas em momentos diferentes.
A nacionalização alterou profundamente a propriedade e o estatuto do trabalho.
Mas o Estado também reutilizou e manteve durante algum tempo muitas das estruturas físicas e organizacionais herdadas do período colonial.
A investigação antropológica recente mostra precisamente como a nacionalização de 1975 e a reforma agrária de 1993 continuam a influenciar a composição territorial e social das roças atuais.
Portanto, talvez seja mais interessante pensar na roça como uma entidade que sofreu várias metamorfoses:
roça colonial → empresa estatal → propriedade redistribuída → paisagem rural → património → espaço de memória → possível novo território económico.
A roça contemporânea é, simultaneamente:
colonial, socialista e pós-reforma agrária...
As três coisas estão lá.
E é precisamente isso que torna a paisagem tão interessante.
E o património?
Aqui tenho uma pequena provocação para a UNESCO.
Não porque a UNESCO não saiba o que está a fazer. Aliás, em 2026 as roças de São Tomé e Príncipe foram inscritas na Lista do Património Mundial, e o próprio enquadramento reconhece a dimensão agroindustrial, territorial e de trabalho forçado do sistema colonial.
Mas o enquadramento patrimonial privilegia necessariamente determinadas camadas da história.
E talvez a nossa pergunta deva ser:
o que acontece à roça depois de deixar de ser uma máquina agrícola?
Porque a conservação não é apenas conservar paredes.
É decidir:
o que queremos conservar?
A arquitectura?
A memória?
A produção?
As relações sociais?
A paisagem?
As ruínas?
As comunidades?
A possibilidade de voltar a produzir?
Ou simplesmente aquilo que fica bonito na fotografia?
Lauro, meu amigo e forro sapiens falou-me uma vez de algo que ficou na minha cabeça:
a preservação é uma decisão social.
E é aqui que a história começa a ficar deliciosamente complicada.
Hoje, quando olhamos para a Roça Agostinho Neto e vemos hospitais degradados, antigas estruturas ocupadas, edifícios desaparecidos e uma paisagem transformada, podemos perguntar:
por que razão algumas coisas sobrevivem e outras desaparecem?
E então alguém me contou uma explicação absolutamente extraordinária.
Perguntei hoje à Maria:
“Mas como é que a igreja continua preservada, imponente, quando tanta coisa à volta desapareceu?”
A resposta invisíveil e provavelmente o da minha mãe seria:
“Deus venceu.”
Confesso que, como Administrador, ainda estou a tentar encontrar o KPI correspondente.
Talvez seja este:
Indicador de desempenho patrimonial:
Igreja: preservada
Hospital: ruína
Infraestrutura produtiva: parcialmente desaparecida
Habitação: transformada e ocupada
Paisagem: reinventada
Deus: aparentemente, excelente gestor de ativos.
Talvez a história das roças seja justamente isso.
Uma história sobre produção, poder, trabalho, território, Estado, memória e sobrevivência.
E talvez o maior erro seja olhar para uma roça e perguntar apenas:
“O que aconteceu aqui?”
A pergunta mais interessante pode ser:
“O que ainda está a acontecer aqui?”
Porque a roça não acabou.
Mudou de proprietário.
Mudou de sistema.
Mudou de função.
Mudou de significado.
E agora, talvez, esteja a entrar numa nova metamorfose:
de espaço produtivo → para paisagem de memória → para património → e, quem sabe, novamente para território de produção.
A questão é saber quem vai decidir essa próxima transformação.
E, sobretudo:
para quem será a próxima roça? Um novo projeto REVIVE?
Referências aos que quiserem beber da fonte...
Cardoso, L. J. (2025). Da nacionalização à reforma agrária das roças de São Tomé e Príncipe. Anuário Antropológico, 50. https://doi.org/10.4000/anthropo.11309
International Monetary Fund. (1995). São Tomé and Príncipe: Staff report for the 1995 Article IV consultation. IMF Staff Country Reports, 1995(65).
Seibert, G. (2002). Reflexões sobre as roças em São Tomé e Príncipe. Revista Internacional de Estudos Africanos.
World Bank. (1995). São Tomé and Príncipe: Agricultural sector review. World Bank.
World Bank. (2003). São Tomé and Príncipe: Land reform and agricultural development. World Bank.
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