terça-feira, 31 de março de 2026

As Contradições das Votações na ONU: Escravidão é Crime Contra a Humanidade… Só Quando Convém



Na última quinta-feira, 25 de março de 2026, a Assembleia Geral da ONU aprovou, por 123 votos a favor, 3 contra e 52 abstenções, uma resolução que classifica o tráfico transatlântico de escravos africanos como “o crime mais grave contra a humanidade”. O texto vai além do reconhecimento simbólico: exige desculpas formais, medidas de reparação e a criação de fundos para mitigar as “consequências duradouras” do sistema escravocrata europeu-americano.

À primeira vista, parece um momento de consenso moral. Mas basta olhar com atenção para os padrões de voto para perceber que a ONU não funciona como tribunal da ética universal. Funciona como um mercado de interesses nacionais, onde cada país calcula friamente quanto lhe custa (ou quanto lhe rende) votar de determinada forma.

os meus amigos, de acordo ao país de origem exigem uma posição moral do seu Estado. Uma expectativa que nunca virá e é totalmente compreensível sobre a lógica do pragmatismo político. Existe uma lógica própria na política que não segue o jogo da imagem ética que o povo quer ter do próprio Estado. Trata-se de dinheiro e poder.

talvez possa mostrar outra perspectiva aqui...

1. Os árabes: “Sim” ao transatlântico, “Não” ao transariano

Os 22 países da Liga Árabe votaram quase em bloco a favor. Egito, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Marrocos, Argélia… todos alinhados com o Grupo Africano. Nenhum voto contra, nenhuma abstenção registada. Até a Tunísia cujo presidente queria devolver os africanos à África tirando-os da Tunísia que parece estar em um outro continente. Marrocos que não flerta muito bem com a proposta da União Africana. Agora ressurgem como virgens ofendidas.

A explicação é simples e brutalmente pragmática: esta resolução não lhes custa nada. O texto foca exclusivamente no tráfico organizado por europeus e americanos entre os séculos XVI e XIX. Não menciona o comércio transariano (árabe-muçulmano), que durou mais de 1.300 anos, envolveu entre 10 e 18 milhões de africanos e continuou a existir de forma aberta até ao século XX em vários países árabes.

Imaginem agora o cenário inverso: uma resolução idêntica, mas sobre o tráfico transariano. O que aconteceria?

  • A grande maioria dos países árabes votaria contra ou se absteria em massa.
  • Arábia Saudita, Emirados, Catar e Kuwait — os mais ricos do grupo — liderariam a oposição.
  • Razão? Porque reconhecer o transariano como “o pior crime” abriria imediatamente a porta a pedidos de reparações dirigidos a eles. E quando o assunto é dinheiro, a solidariedade sul-sul evapora-se num instante.

Esta é a primeira grande contradição: os mesmos países que hoje acusam o Ocidente de “negacionismo histórico” seriam os primeiros a praticar negacionismo seletivo se o holofote virasse para o seu próprio passado.

2. O Ocidente: culpa moral sim, conta para pagar não

Estados Unidos, Israel e Argentina foram os únicos três votos contra. A União Europeia, Reino Unido, Portugal, Espanha e a maioria dos países ricos abstiveram-se.

Aqui o cálculo é igualmente frio:

  • Apoiar a resolução implicaria admitir responsabilidade financeira futura (reparações, fundos, restituições).
  • Votar contra geraria um custo político alto junto da opinião pública progressista e dos países do Sul.
  • A abstenção é o compromisso perfeito: “reconhecemos o horror, mas não assinamos cheque em branco”.

É o clássico “sim, a escravidão foi terrível… mas não vamos ser os únicos a pagar por ela”.

3. A África subsaariana: vítima e ator racional

Os países africanos foram os grandes motores da resolução. Para eles, o voto não é apenas simbólico. É estratégico:

  • Reforça a narrativa de dívida histórica do Norte para o Sul.
  • Pode abrir caminho a mecanismos concretos de transferência de recursos (fundos climáticos, tecnologia, dívida perdoada).
  • Mantém a unidade do Grupo Africano na ONU.

No entanto, se a resolução fosse sobre o tráfico transariano, essa unidade racharia. Países como Mauritânia (onde a escravidão ainda existe de forma semi-legal), Sudão, Chade e Mali têm histórias complexas com o mundo árabe. O interesse económico e religioso muitas vezes prevalece sobre a memória histórica.

Conclusão: a ONU como espelho dos interesses nacionais

O que esta votação revela e o que a versão hipotética sobre o transariano confirmaria é que não existe voto ideológico puro na geopolítica. Existe cálculo racional de custos e benefícios:

  • Quando a resolução aponta o dedo para o Ocidente rico → maioria do Sul Global vota “sim”.
  • Quando aponta o dedo para o mundo árabe rico → o “sim” vira “não” ou abstenção.
  • Quando o custo recai sobre si próprio → até os mais inflamados defensores da justiça histórica descobrem subitamente as virtudes da “reconciliação” e do “olhar para o futuro”.

A escravidão foi, de facto, um crime contra a humanidade em todas as suas formas, em todas as civilizações que a praticaram. Mas na ONU, o crime só é “o mais grave” quando o culpado é o outro e o pagador é o terceiro.

Esta seletividade não é hipocrisia acidental. É o funcionamento normal do sistema internacional. Quem finge que a ONU é um parlamento de princípios universais está a fazer propaganda. Quem analisa os votos país a país está a fazer política real.

E a lição é clara: na arena internacional, a memória histórica é um instrumento de poder. Usa-se contra quem pode pagar. Esquece-se quem pode retaliar.

O resto é teatro.

terça-feira, 17 de março de 2026

A Banalidade da Gestão: Quando a Eficiência Serve ao Genocídio


A gestão por si só é amoral. Trata-se de uma prática voltada para atingir as metas propostas inicialmente. Essas metas devem ser atingidas da melhor forma possível, uma economia dos recursos com máximo de produtividade. A primeira vista é essa a ideia.

Por outro lado, não se discute quais são os objetivos e as metas organizacionais. Não são necessariamente éticas. Gestão é o óleo na engrenagem, garantindo que a máquina produza da melhor forma possível sem gerar desperdício e com o menos de desgaste possível. Gestão é amoral. Preciso repetir isso várias vezes. O regime colonial tinha uma gestão eficaz, não quer dizer que era necessariamente boa no sentido ético. O regime de Apartheid, a desflorestação amazônica, a dizimação dos povos indígenas por toda a América Latina é uma engenharia incrível do poder de organização voltada para exploração de recurso e alcance das metas propostas.

Como Hannah Arendt observou no caso de Adolf Eichmann, ele era um burocrata exemplar da máquina nazista: “The trouble with Eichmann was precisely that so many were like him, and that the many were neither perverted nor sadistic, that they were, and still are, terribly and terrifyingly normal.” O mesmo vale para os administradores coloniais, para os burocratas do Apartheid e para os engenheiros que planejam a extração acelerada na Amazônia: gente comum, cumprindo metas, otimizando recursos. Gestão amoral. Preciso repetir isso várias vezes.




Destarte, a gestão não se restringe aos corredores das multinacionais ou do Estado de Bem-Estar Social... Ela está presente em todas as formas como uma organização decide se estruturar, seja num estado fascista, ditatorial ou democrático. O que impede a sociedade de colapsar no caos é justamente a capacidade de gestão organizacional. Podemos ter a Administração Putin ou Trump; a de Bismarck; a de Obama; a de Pepe Mujica; a de Lincoln; a de De Gaulle; a de Lumumba; a de Samora Machel... A máquina funciona ou deixa de funcionar conforme as ideologias e valores que a precedem e a orientam. A eficiência (ou ineficiência) da máquina está sempre nos valores que lhe dão nome e direção.Como Zygmunt Bauman argumentou em Modernity and the Holocaust: “The Holocaust was born and executed in our modern rational society, at the high stage of our civilization and at the peak of human cultural achievement, and for this reason it is a problem of that society, civilization and culture.” O mesmo mecanismo, a burocracia eficiente, divisão de tarefas, indicadores de produtividade serviu (e serve) para explorar recursos e atingir metas sem desperdício. Gestão é amoral. Preciso repetir isso várias vezes.

Por consequência, algumas perguntas precisam ser feitas: O que queremos atingir? Os nossos objetivos são inclusivos ou excludentes? Preferimos o privilégio de alguns ou melhores condições para todos? A partir disso desenhamos a importância da técnica que vamos aplicar. Então, a base da gestão é puramente filosófica. Quero dizer aqui que as questões filosóficas guiam as técnicas ou práticas de gestão. Por detrás de enormes tabelas, gráficos, fluxogramas e organigramas temos questões ancestrais: Qual é o nosso propósito? Quem somos nós? O que é sucesso para nós? Quem deverá ser os nossos colaboradores? Quem não deverá ser os nossos clientes? O que motiva os nossos colaboradores?

Como Gabriel Abend demonstra em The Moral Background, por trás de toda prática de gestão há um “moral background”, pressupostos profundos sobre o que conta como moral, quem é um ator moral legítimo, quais razões valem para justificar ações, e o que pode ser avaliado eticamente. São questões humanas. Se olhamos somente os números seremos facilmente enganados. E se não vermos os números, seremos igualmente enganados. Precisamos de indicadores que permitam a nossa navegação.

Portanto, a técnica e a filosofia são faces de uma mesma moeda a que designamos gestão. O gestor além das operações e técnicas de gestão, precisa lidar com pessoas reais e complexas, com um mercado, com emoções humanas tanto dos stakeholders como da própria organização. Precisa desenhar as narrativas que definem o que a organização faz e não faz.


De Re Publica et Potestate: Commentarii Thucydidei de Trumpiana Aetate

Para quem ainda acredita em grandes princípios Discuti por alguns dias com alguns amigos e disse-lhes que os homens que ainda acreditam em g...