quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Roças & Estado S.A.: uma história de gestão, cacau e ruínas. Para onde foi o manual de instruções?

Introdução

Tenho alguns amigos historiadores com quem converso sobre estas coisas. E, por ter a felicidade de conviver com eles, fui percebendo uma coisa curiosa: fora desse pequeno círculo de especialistas, pouca gente parece conhecer realmente a história das roças, embora quase toda a gente tenha uma opinião sobre elas.

Como não sou historiador, mas Administrador, achei que seria uma excelente oportunidade para meter-me onde não fui chamado. Trazer uma voz de quinta para uma quarta-feira.

Fantasiado de bom local e curioso, vou tecer alguns comentários sobre este processo histórico santomense, provavelmente sujeito a ser desmentido por Seibert, Lauro, Emir, Maria das Dores, João e outros historiadores. Alguns deles, felizmente, são meus amigos. Isso significa que, se o texto estiver muito errado, pelo menos serei corrigido com carinho.

Afinal, o que são as roças?

Uma roça não era simplesmente uma fazenda grande.

Era uma unidade agrícola, económica, social e territorial, organizada para produzir em grande escala, sobretudo para exportação.

A UNESCO descreve as roças como sistemas que combinavam terras agrícolas, infraestrutura industrial, áreas residenciais e equipamentos sociais, dentro de uma organização espacial altamente estruturada. Estamos, portanto, diante de algo muito maior do que uma plantação: uma espécie de cidade produtiva privada, desenhada para fazer uma commodity sair da terra e chegar ao mercado mundial de forma eficiente

E aqui começa a minha obsessão de Administrador.

Porque, olhando para uma roça, é difícil não pensar em organização.

Quem produz?

Quem transforma?

Quem armazena?

Quem transporta?

Quem administra?

Quem mora onde?

Quem presta cuidados de saúde?

Quem controla o trabalho?

Quem controla os recursos?

Qual credo é mais favorável?

Tudo parece estar ligado.

Mas, as roças começaram com o cacau?

Não exatamente.

São Tomé teve, desde os primeiros séculos da colonização, uma importante economia açucareira baseada em grandes plantações e trabalho escravizado. Portanto, antes do cacau já existia uma economia colonial de plantação.

A diferença é que a roça agroindustrial que hoje reconhecemos como sistema territorial consolidou-se sobretudo posteriormente, com a expansão do café e, principalmente, do cacau, a partir do século XIX.

Portanto:

roça moderna de café e cacau ≠ primeira plantação colonial portuguesa em São Tomé.

A primeira grande economia colonial foi a do açúcar. Especialidade da minha arqueóloga favorita, Maria das Dores que navegou-me intelectualmente entre os engenhos bem preservados de Praia Melão. Recomendo a leitura do seu projeto.

Mas há uma continuidade interessante:

grande propriedade + monocultura + processamento + exportação + trabalho coercivo.

A forma muda. A lógica produtiva permanece. Aqui está em ação a minha lente marxista de reconhecimento da infraestrutura e da superestrutura. 

E aqui entra uma das minhas teorias favoritas, que costumo discutir com o meu amigo Ailton nas nossas Soirées Culturais:

a monocultura de ideias.

São Tomé parece ter uma relação quase metafísica com a monocultura.

Mudamos a commodity, mas continuamos a organizar território, trabalho, riqueza e até parte do nosso imaginário em torno dela.

Primeiro açúcar.

Depois café.

Depois cacau.

tentamos o petróleo

Agora Turismo Verde

A commodity muda.

A arquitectura mental parece ter mais dificuldade em fazê-lo.

Mas isto é apenas um parêntese.

Voltemos às roças.

Café. Depois, cacau.

Ao longo do século XIX, o café ganhou importância e, posteriormente, o cacau transformou completamente a economia e o território.

A procura internacional cresceu. O solo vulcânico e o clima das ilhas ofereceram condições extraordinárias para a produção. E São Tomé entrou de maneira muito agressiva na economia mundial do cacau. Foi neste contexto que as grandes roças se consolidaram.

A UNESCO situa precisamente o sistema colonial das roças sobretudo entre o final do século XIX e meados do século XX, associado à produção de café e cacau.

E aqui quero insistir numa coisa:

a roça não era o lugar onde o cacau crescia.

Era o sistema que permitia que o cacau fosse:

produzido → recolhido → processado → armazenado → transportado → exportado.

Sem administração, não havia roça. Como dizia o guru da Administração - O que não pode ser medido, não pode ser gerido. 

Ou, pelo menos, não havia a roça como sistema agroindustrial.

Mas há uma pergunta que estraga rapidamente o romantismo: quem trabalhava?

Aqui chegamos à parte mais dolorosa.

A abolição formal da escravatura nos territórios portugueses não acabou com a necessidade de mão de obra das plantações. Em 1875, Portugal, através do seu governador Gregório Ribeiro aboliu formalmente a escravatura nas ilhas. Mas a economia das plantações continuava a precisar de milhares de trabalhadores.

E foi desenvolvido o sistema emprestado dos jargões da Administração: o trabalho contratado.

Trabalhadores foram recrutados sobretudo em Angola, Cabo Verde e Moçambique. A própria historiografia mostra que este sistema, embora juridicamente distinto da escravidão, conservou diversas formas de coerção e exploração. Era preciso ser um exímio especialista para notar a diferença entre contratado e escravizado

É aqui que a expressão “contratado” começa a ganhar uma ironia histórica particularmente desagradável.

A palavra parece administrativa.

A realidade era muito menos elegante.

Era a burocratização da força de trabalho.

E São Tomé passou a funcionar com uma enorme população de trabalhadores deslocados para alimentar a economia das plantações. Daí que uma grande roça pudesse funcionar quase como uma cidade privada dentro da colónia. 

O trabalhador:

chegava → vivia na roça → trabalhava na roça → recebia serviços na roça → era disciplinado na roça.

A UNESCO descreve justamente um sistema espacial em que habitação, produção, processamento, saúde, educação, religião e transporte estavam articulados numa mesma unidade produtiva.

E aqui entra uma conversa que tive com Maria das Dores e Paulo Daio.

Eles chamaram-me a atenção para um paralelismo interessante com o Panóptico de Foucault.

Eu, naturalmente, fui mais longe.

Pensei em Orwell.

Pensei no Big Brother.

E pensei:

“Finalmente encontrámos uma política de Recursos Humanos verdadeiramente integrada.”

Estou a brincar. Mais ou menos. Porque a arquitectura das roças também servia para organizar, controlar e disciplinar o trabalho. O meu sarcasmo é um verdadeirro defeito de fábrica.

Encontramos nas roças: casa grande; sanzalas; instalações industriais; capela; enfermaria; armazéns; plantações; caminhos; transporte

Tudo fazia parte do mesmo sistema.

A roça era, portanto, uma forma de organizar o território inteiro em função de uma cadeia produtiva.

E chegamos a 1975.

Independência.

Depois de séculos de colonialismo, São Tomé e Príncipe torna-se independente.

E o novo Estado tem diante de si um problema gigantesco: o país herdou uma economia extremamente dependente das grandes propriedades agrícolas. O Estado decide nacionalizar as grandes propriedades.

É aqui que chegamos ao acontecimento que hoje associamos a 30 de setembro de 1975.

Uma pequena precisão histórica: a data foi inicialmente associada ao Dia da Nacionalização das Roças, mas posteriormente passou a ser designada Dia da Reforma Agrária.

Portanto, a sequência que nos interessa é aproximadamente esta:

plantação colonial privada
↓
nacionalização
↓
empresa agrícola estatal
↓
reforma agrária
↓
parcelas familiares / gestão privada / novas formas de exploração

E aqui começa uma das experiências económicas mais interessantes da história contemporânea de São Tomé e Príncipe.

O Estado ficou com quase tudo.

O novo Estado nacionalizou a maior parte da base produtiva agrícola.

O FMI registra que, na independência, cerca de 10.000 toneladas de cacau eram produzidas anualmente em aproximadamente 45 explorações médias e grandes, que foram posteriormente consolidadas em 15 empresas agrícolas.

E aqui temos de ter cuidado com uma confusão frequente: 15 empresas não significa 15 roças. Uma empresa podia administrar uma roça-sede e várias dependências.

A Roça Sundy, por exemplo, funcionava como sede de uma empresa agrícola que incluía oito dependências.

Portanto:

roça ≠ empresa estatal.

A empresa podia ser uma estrutura administrativa maior, agrupando várias unidades territoriais.

Temos alguns casos bem documentados:

  • Empresa Agropecuária de Sundy, resultante da nacionalização da Sociedade Agrícola Sundy;

  • Empresa Estatal Agropecuária Dr. António Agostinho Neto, antiga Roça Rio do Ouro;

  • Diogo Vaz, transformada em empresa estatal;

  • Monte Forte, integrada no processo de estatização das propriedades agrícolas.

O Estado herdou, portanto, algo extraordinariamente grande. Não apenas terra.

Herdou:

terras + plantações + trabalhadores + instalações de processamento + armazéns + oficinas + habitações + equipamentos sociais + infraestruturas de transporte.

Em linguagem empresarial:

o Estado herdou uma empresa verticalmente integrada.

Só havia um pequeno problema.

O organograma tinha mudado.

O computador precisava de outro sistema operativo.

Aqui chegamos à minha provocação de Administrador. O Estado herdou as máquinas. Herdou as terras. Herdou as plantações. Herdou as infraestruturas. Mas não herdou automaticamente todo o capital humano, conhecimento técnico e capacidade de gestão que fazia o sistema funcionar.

O FMI registra precisamente uma escassez de quadros de gestão e mão de obra qualificada após a independência, agravada pela saída de grande parte dos trabalhadores expatriados.

O Banco Mundial também relaciona o problema das empresas estatais com a saída dos portugueses e com a dificuldade de gerir as grandes propriedades no novo contexto.

E aqui está uma distinção importante.

Isto não significa que o sistema colonial fosse “eficiente” no sentido moral ou social. Uma coisa é eficiência produtiva. Outra é legitimidade política. Outra é justiça social. Outra é dignidade humana.

O sistema colonial produzia cacau em escala, mas fazia isso dentro de uma estrutura profundamente desigual e coerciva.

Portanto, não quero transformar produtividade colonial em nostalgia. Isso eu deixo para os guias turísticos

O meu ponto é outro:

destruir uma estrutura de poder não significa automaticamente saber substituir a estrutura organizacional que a fazia funcionar.

E esse é um problema clássico de gestão.

E os resultados?

Aqui os números começam a ficar bastante eloquentes. A produção de cacau passou de aproximadamente:

10.400 toneladas em 1974

para

3.378 toneladas em 1984.

Uma queda de cerca de 67%.

Mas atenção: não vamos cometer o pecado preguiçoso de dizer: “A nacionalização causou sozinha a queda.”

Não.

Houve vários fatores:

  • saída de mão de obra qualificada;

  • dificuldades de gestão;

  • falta de investimento;

  • manutenção insuficiente;

  • problemas estruturais;

  • transformação do sistema produtivo;

  • e a forte queda dos preços internacionais do cacau a partir de 1979. 

O próprio FMI identifica essa combinação de fatores.

Ou seja:

a história é mais interessante do que uma simples relação causa → efeito.

E depois aconteceu algo que talvez seja ainda mais importante.

Quando a capacidade financeira das empresas caiu, tornou-se cada vez mais difícil manter aquilo que fazia da roça uma roça: hospitais, habitações, oficinas, estradas, secadores, armazéns, máquinas, plantações.

E começa a surgir uma imagem que todos nós conhecemos:

a roça como ruína.

Mas aqui está a minha provocação:

a ruína da roça não é apenas colonial.

Ela também é uma paisagem produzida pelo período pós-independência. Isso é fundamental. Porque muitas vezes olhamos para uma roça abandonada e vemos apenas:

“herança colonial”.

Eu vejo algo mais complexo.

Vejo:

COLONIALISMO

grandes proprietários
companhias agrícolas
trabalho coercivo
↓

1975

NACIONALIZAÇÃO

Estado
↓

EMPRESAS ESTATAIS

produção centralizada
↓

1993–2000

REFORMA AGRÁRIA

redistribuição da terra
↓

PRIVATIZAÇÃO / GESTÃO PRIVADA

pequenos e médios produtores
↓

HOJE

paisagem agrícola fragmentada
ruínas
novos usos
património
memória

É uma paisagem com várias camadas.

Então a nacionalização destruiu as roças?

Aqui começa a pergunta que me interessa realmente. A nacionalização destruiu o sistema das roças ou mudou quem o administrava?

A resposta, provavelmente, é:

as duas coisas, mas em momentos diferentes.

A nacionalização alterou profundamente a propriedade e o estatuto do trabalho.

Mas o Estado também reutilizou e manteve durante algum tempo muitas das estruturas físicas e organizacionais herdadas do período colonial.

A investigação antropológica recente mostra precisamente como a nacionalização de 1975 e a reforma agrária de 1993 continuam a influenciar a composição territorial e social das roças atuais.

Portanto, talvez seja mais interessante pensar na roça como uma entidade que sofreu várias metamorfoses:

roça colonial → empresa estatal → propriedade redistribuída → paisagem rural → património → espaço de memória → possível novo território económico.

A roça contemporânea é, simultaneamente:

colonial, socialista e pós-reforma agrária...

As três coisas estão lá.

E é precisamente isso que torna a paisagem tão interessante.

E o património?

Aqui tenho uma pequena provocação para a UNESCO.

Não porque a UNESCO não saiba o que está a fazer. Aliás, em 2026 as roças de São Tomé e Príncipe foram inscritas na Lista do Património Mundial, e o próprio enquadramento reconhece a dimensão agroindustrial, territorial e de trabalho forçado do sistema colonial.

Mas o enquadramento patrimonial privilegia necessariamente determinadas camadas da história.

E talvez a nossa pergunta deva ser:

o que acontece à roça depois de deixar de ser uma máquina agrícola?

Porque a conservação não é apenas conservar paredes.

É decidir:

o que queremos conservar?

A arquitectura?

A memória?

A produção?

As relações sociais?

A paisagem?

As ruínas?

As comunidades?

A possibilidade de voltar a produzir?

Ou simplesmente aquilo que fica bonito na fotografia?

Lauro, meu amigo e forro sapiens falou-me uma vez de algo que ficou na minha cabeça:

a preservação é uma decisão social.

E é aqui que a história começa a ficar deliciosamente complicada.

Hoje, quando olhamos para a Roça Agostinho Neto e vemos hospitais degradados, antigas estruturas ocupadas, edifícios desaparecidos e uma paisagem transformada, podemos perguntar:

por que razão algumas coisas sobrevivem e outras desaparecem?

E então alguém me contou uma explicação absolutamente extraordinária.

Perguntei hoje à Maria: 

“Mas como é que a igreja continua preservada, imponente, quando tanta coisa à volta desapareceu?”

A resposta invisíveil e provavelmente o da minha mãe seria:

“Deus venceu.”

Confesso que, como Administrador, ainda estou a tentar encontrar o KPI correspondente.

Talvez seja este:

Indicador de desempenho patrimonial:

Igreja: preservada
Hospital: ruína
Infraestrutura produtiva: parcialmente desaparecida
Habitação: transformada e ocupada
Paisagem: reinventada
Deus: aparentemente, excelente gestor de ativos.

Talvez a história das roças seja justamente isso.

Uma história sobre produção, poder, trabalho, território, Estado, memória e sobrevivência.

E talvez o maior erro seja olhar para uma roça e perguntar apenas:

“O que aconteceu aqui?”

A pergunta mais interessante pode ser:

“O que ainda está a acontecer aqui?”

Porque a roça não acabou.

Mudou de proprietário.

Mudou de sistema.

Mudou de função.

Mudou de significado.

E agora, talvez, esteja a entrar numa nova metamorfose:

de espaço produtivo → para paisagem de memória → para património → e, quem sabe, novamente para território de produção.

A questão é saber quem vai decidir essa próxima transformação.

E, sobretudo:

para quem será a próxima roça? Um novo projeto REVIVE?


Referências aos que quiserem beber da fonte...

Cardoso, L. J. (2025). Da nacionalização à reforma agrária das roças de São Tomé e Príncipe. Anuário Antropológico, 50. https://doi.org/10.4000/anthropo.11309

International Monetary Fund. (1995). São Tomé and Príncipe: Staff report for the 1995 Article IV consultation. IMF Staff Country Reports, 1995(65).

Seibert, G. (2002). Reflexões sobre as roças em São Tomé e Príncipe. Revista Internacional de Estudos Africanos.

World Bank. (1995). São Tomé and Príncipe: Agricultural sector review. World Bank.

World Bank. (2003). São Tomé and Príncipe: Land reform and agricultural development. World Bank.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Ed Sheeran e a Arte política de ser apolítico na arte

A palavra “política” virou, no discurso contemporâneo, um palavrão de salão. Dizer que alguém “tem interesse político” é quase mais ofensivo do que acusá-lo de furto. Funciona como denúncia moral velada: o sujeito é suspeito de impureza, de cálculo, de não ser suficientemente “bom”. A política, nessa visão de mundo, é o domínio do sujo; a virtude, portanto, residiria na recusa de pisar nessa arena de titãs.

Mas basta abrir Aristóteles. Na Política, a palavra não designa a disputa por cargos ou a arte de se vender em redes sociais. Designa a busca do bem comum e a realização da justiça na pólis. A vida humana plena só se realiza na comunidade política; quem se retira dela não se eleva, apenas se mutila. As sociedades mudaram, a escala se globalizou, as instituições se complexificaram e o conceito se distorceu. O que restou, em muitos círculos, foi uma caricatura: política = partidismo sujo; apolítica = pureza técnica, moral e científica.

E eis que surge a grande virtude contemporânea: a apolítica. O sujeito balança a medalha do “não-político” com a seriedade de quem carrega uma cruz. Diz-se guiado apenas pela técnica (profissionalismo), pela benevolência (moralidade) e pela neutralidade (ciência). É o santo moderno: tão elevado que não contamina as mãos com interesses. Assiste a tudo passivamente e de longe

Olhe com um pouco mais de atenção e a magia se desfaz. A apolítica quase sempre coincide, de forma suspeitamente precisa, com a posição política que o sujeito já ocupava, só que sem o ônus de admiti-la. É o esconderijo preferido dos tímidos, dos covardes e daqueles que descobriram que o poder se exerce melhor quando se finge não exercê-lo. Lar dos canalhas de colarinho branco e discurso de elevador.

O caso recente de Ed Sheeran (o herói secreto desse artigo) ilustra a operação com a elegância de um truque de mágica barato. Macklemore, convidado para abrir a turnê americana, ousou dizer “Free Palestine” em estádios lotados e cantar sobre Gaza. Em questão de dias, sumiu da turnê. Sheeran apressou-se a declarar que a decisão não foi dele, mas dos promotores e dos donos de estádios (incluindo Robert Kraft). Afirmou estar “chocado” com o sofrimento de ambos os lados, ter tentado “construir pontes”, e reiterou sua postura de não se posicionar publicamente. “Não sou cúmplice”, escreveu. “Tenho minhas visões pessoais… Só porque escolho não falar publicamente não significa que não as tenha.”

Curioso. O mesmo artista que, em 2022, subiu ao palco do Concert for Ukraine, cantou, se emocionou e ajudou a arrecadar milhões em solidariedade a um povo sob ataque, agora descobre que a neutralidade é sagrada quando o povo em questão se chama Palestina. Bem, aprende-se com o erro... e apoiar a Ucrânia era humanitário; mencionar Gaza é “político”. Carregar a bandeira de um lado é empatia; recusar a de outro é maturidade artística. A dúvida que paira, inevitável e um tanto cruel: o que acontece quando alguém se declara contra um massacre em curso? Continua sendo “político”? Ou só vira político quando o massacre não conta com a aprovação prévia da indústria, dos donos de estádios e das marcas que pagam as contas?

A lista de exemplos se alonga com a mesma precisão cirúrgica. Kanye West (Ye) perdeu contratos bilionários e foi virtualmente expurgado de boa parte da indústria depois de declarações antissemitas e posicionamentos extremistas. Gina Carano foi demitida de The Mandalorian por comparar a perseguição a conservadores nos Estados Unidos ao Holocausto. U2 e Bono Vox passaram décadas gritando sobre a Irlanda do Norte, a Bósnia, a África e o que mais lhes parecesse justo; as críticas vieram, mas as turnês lotaram e os discos venderam.

Por fim, o que realmente se espera dos artistas? Que estejam lá apenas para “mostrar a arte”? Existe de facto essa ficção conveniente chamada “arte pela arte”, desligada de tudo, limpa de qualquer posição, inocente como um algoritmo?

Se a resposta for sim, então a conclusão é óbvia e um pouco cruel: já não precisamos de artistas humanos. Bastam algoritmos e inteligências artificiais. Eles são mais eficientes, não têm crises de consciência, não gritam “Free Palestine” no meio do show e, acima de tudo, não fingem neutralidade enquanto escolhem cuidadosamente de que lado não se posicionar.

Se o artista humano se reduz a um autómato bem-vestido que só abre a boca quando a narrativa oficial permite, então por que continuar a pagar o preço emocional e moral de fingir que ainda há alma ali? Melhor lidar diretamente com autómatos declarados. Pelo menos esses não mentem sobre a própria natureza.


Lula e a difícil arte de explicar o povo ao povo

A América Latina virou à direita Milei e a sua motosserra na Argentina. Bukele e as suas prisões em El Salvador.  Abelardo de la Espriella e...