quinta-feira, 25 de setembro de 2025

A Ilusão Romântica de África: Um Apelo à Unidade Geopolítica

Romantismo como Ideologia: A Falsa Consciência do Proletariado Africano

O romantismo do século XVIII, articulado por pensadores como Goethe, foi uma reação às contradições materiais do capitalismo nascente, que, segundo Karl Marx, aliena o trabalhador do seu labor, transformando relações humanas em mercadorias. Em África, perpetuamos uma falsa consciência romântica, um refúgio ilusório em espiritualidades e narrativas ancestrais, enquanto o imperialismo global nos subjuga com tecnologias disruptivas: inteligência artificial, armamentos avançados,  e mercados que extraem mais-valia do nosso suor. Este romantismo é ideologia burguesa, um véu que obscurece a luta de classes, como Marx alertou em O Capital.

A pobreza africana não é destino espiritual, mas produto da exploração capitalista. Como Sindika Dokolo afirmou: “No mundo capitalista, o dinheiro é o argumento supremo.” Hospitais, não orações, salvarão nossas crianças. A acumulação primitiva global drena nossos recursos, deixando-nos na periferia do sistema-mundo. Precisamos romper com a alienação ideológica e abraçar a praxis revolucionária para transformar as condições materiais de produção, como Marx e Engels exigiram no Manifesto Comunista.

A Herança da Esquerda Africana: Cabral, Nkrumah e a Luta de Classes

Recordemos a esquerda marxista que incendiou África com a chama da libertação! Amílcar Cabral, em A Arma da Teoria, ensinou-nos: “Não mintam ao povo, exponham as verdades da opressão!” Sua análise dialética do colonialismo como extensão do capitalismo inspirou guerrilhas que derrotaram impérios. Kwame Nkrumah, em Consciencismo, proclamou a necessidade de um socialismo pan-africano: “A unificação de África sob um governo socialista é a única via para a emancipação!” Estes gigantes forjaram independências, unindo teoria marxista às realidades africanas.

Hoje, essa esquerda foi diluída por distrações burguesas: debates sobre pronomes, representatividade simbólica ou legalização de drogas como “espiritualidade”. Essas questões, embora válidas, desviam-nos da luta central: a apropriação dos meios de produção e a soberania económica. A direita, por sua vez, mascara seus interesses de classe com retórica religiosa e patriotismo vazio, carecendo de estratégias para o desenvolvimento, como Marx previu ao criticar a burguesia em A Ideologia Alemã. Então, é hora de reavivar a luta de classes!

África na Periferia do Capitalismo Global: Um Chamado à Ação

Na perspectiva marxista, África permanece na periferia do sistema capitalista global, como Immanuel Wallerstein descreveu no Sistema-Mundo Moderno. Somos fornecedores de matérias-primas e mão de obra barata, estereotipados como terra de pobreza, corrupção e guerras, enquanto nossa ancestralidade é fetichizada como commodity cultural. Excluídos das mesas de poder, como o G20 de Joanesburgo em novembro de 2025 – enfrentamos uma nova partilha de África. A corrida por terras raras e recursos estratégicos intensifica-se, com potências como China, EUA e Europa disputando nosso solo. Dados do Banco Mundial indicam que a dívida africana excede 1,1 trilhão de dólares, enquanto a instabilidade geopolítica e tarifas protecionistas agravam nossa marginalização.

A Área de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA) promete crescimento de 4,3% do PIB, mas sua implementação é travada pela fragmentação. Moedas como o metical, kwanza ou cedi são irrelevantes globalmente, e a livre circulação no continente é negada aos próprios africanos. Como Marx alertou, o capital fomenta divisões para perpetuar a dominação. O colonialismo, que Lenin descreveu como a fase superior do capitalismo, renasce em formas neocoloniais. Sem ação, seremos novamente um quintal imperialista.

Revolução Pan-Africana: Unidade Socialista ou Subjugação!

Portanto, Marx nos ensina: “A história da humanidade é a história da luta de classes!” Não aceitemos a miséria imposta pelo capital global. Abandonemos o romantismo ou a falsa consciência que nos paralisa! Sigamos Cabral: “Digam a verdade ao povo!” E Nkrumah: “África deve unir-se sob o socialismo!” Em 2025, com o G20 e a União Africana em foco, exijamos:

  1. Integração Económica Revolucionária: Apropriação coletiva dos recursos naturais e meios de produção, rompendo a dependência neocolonial.

  2. Solidariedade Anti-Imperialista: Fortalecer alianças via BRICS e Sul Global, como preconiza o materialismo histórico.

  3. Infraestruturas Socialistas: Investir em saúde, educação e transporte para emancipar o proletariado africano.

  4. Poder Militar Pan-Africano: Uma força coletiva para defender nossa soberania contra intervenções imperialistas.

A União Africana deve ser a vanguarda da revolução, promovendo a solidariedade de classe. O poder económico, político e militar é nossa arma! Como Marx proclamou: “Os proletários nada têm a perder senão suas correntes!”. O outro lado não assistirá passivo os seus recursos fugirem. Eles crirão engodos, pois têm seus interesses em causa. Porém, acredito que na nossa impossibilidade atual de defender-nos devemos buscar acordos que não construam elites que bebam whiskye, mas sim um povo que tenha água potável como Sankara sabiamente percebeu. 

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

O Grande Baile do Nazismo: Remix Europeu, Latino e Agora com Passos de Dança Colonial

 

Ah, o nazismo! Essa relíquia charmosa do século XX, que todos pensávamos ter sido convenientemente incinerada junto com os arquivos de Hitler em 1945. Que ingenuidade a nossa, não é? Afinal, quem diria que uma ideologia baseada em bigodes ridículos, discursos histéricos e um amor desmedido por uniformes pretos poderia sobreviver às bombas aliadas e aos julgamentos de Nuremberga? Pois é, queridos leitores, o nazismo não morreu, ele apenas tirou umas férias prolongadas na sombra, esperando o momento perfeito para voltar à cena europeia com um novo guarda-roupa: ternos elegantes, tweets inflamados e um verniz de "preocupação com a imigração". E agora, em 2025, com a economia aos trancos, refugiados batendo à porta e a União Europeia parecendo um barco furado, as condições estão ideais para o grande comeback ou a volta dos que nunva foram. Vamos rir juntos dessa piada cruel, enquanto exploramos como o nazismo se espalhou pela Europa como um vírus gripal, inspirou cópias baratas na América Latina e, oh ironia das ironias, renasce hoje como o "novo fascismo" em partidos que juram ser apenas "patrióticos" ou defensores fos valores da família tradicional. E para nós, africanos? Preparem o arroz e os feijões, porque o pior pode estar a caminho: um colonialismo 2.0, mais violento e excludente do que nunca.

A Expansão Europeia do Nazismo: Uma Viagem Turística pelo Ódio Organizado

Lembrem-se, por favor, da década de 1930: a Alemanha, ainda de ressaca com o Tratado de Versalhes, inventa o Partido Nacional-Socialista (NSDAP) como se fosse a solução mágica para todos os males: desemprego, judeus, comunistas, tudo num só pacote! Hitler, com o seu carisma de vendedor de aspiradores, exporta essa maravilha ideológica pela Europa inteira, prometendo um "espaço vital" que basicamente significava "roubar tudo dos vizinhos". Que sucesso! Na França, o Partido Popular Francês (PPF) de Jacques Doriot aplaude de pé, adotando o antissemitismo como se fosse a nova moda parisiense. Na Grã-Bretanha, Oswald Mosley funda a União Britânica de Fascistas (BUF) em 1932, desfilando com camisas negras e sonhando com um império britânico "purificado", ah, o bom e velho tempo em que o fascismo era exótico!

E não para por aí: na Roménia, a Guarda de Ferro de Codreanu mistura misticismo com matanças, como um cocktail letal. Na Hungria, o Partido da Cruz Flechada de Szálasi implementa políticas que fariam Himmler corar de inveja. Na Espanha, a Falange de Primo de Rivera alia-se a Franco, recebendo aviões alemães como presente de aniversário durante a Guerra Civil. Até na Noruega, Países Baixos e Suécia, partidos nacional-socialistas brotam como cogumelos após a chuva, colaborando alegremente com a ocupação nazi. Era uma verdadeira fraternidade europeia: propaganda, milícias e um ódio partilhado por "inferiores". Quem poderia imaginar que isso acabaria mal? Ironia suprema: o nazismo uniu a Europa... na destruição.

Na América Latina: O Nazismo Vai de Férias Pagas

Mas o nazismo, esse turista incansável, não se contentou com a Europa. Cruzou o Atlântico para a América Latina, onde ditadores locais o receberam com tapetes vermelhos e asas de galinha. Durante a guerra, embaixadas alemãs espalhavam panfletos antissemitas no Brasil, Argentina e Chile como se fossem convites para uma festa. Após 1945? Ouro puro! Eichmann e Mengele fogem para a Argentina de Perón, que os trata como heróis de férias. Partidos? Ora, o Movimento Integralista Brasileiro (AIB) de Plínio Salgado, com uniformes verdes e saudações hitlerianas, tenta um golpe em 1938, quase um remake tropical de Munique!

Na Argentina, o Partido Nacionalista Tácito sussurra teorias conspiratórias; na Colômbia, o Movimento Latino Nacional de Carlos Lehder (o amigo de Escobar) grita supremacia branca nos anos 80. No Chile, o Movimento Nacional-Socialista local ecoa Berlim, e ex-nazis como Klaus Barbie treinam ditaduras bolivianas e paraguaias em torturas "eficientes". Esses movimentos moldaram regimes militares nos anos 70 e 80, com desaparecimentos que pareciam saídos de um manual da Gestapo. Ironia? Enquanto a Europa se "reconstruía" com o Plano Marshall, a América Latina importava o pior do Velho Mundo, misturando-o com desigualdades locais para um fascismo com sabor a samba e tango.

O Novo Fascismo na Europa Atual: Partidos "Patrióticos" com um Toque Retrô

E agora, o gran finale irónico: o nazismo volta, mas com rebranding! Não mais suásticas, isso seria démodé , mas discursos "razoáveis" sobre "proteger a cultura europeia". Tomem a Alternative für Deutschland (AfD), na Alemanha: em 2025, já é o segundo partido mais votado, defendendo deportações em massa e minimizando o Holocausto como "exagero histórico". Que delicadeza! É o nazismo light, para quem quer ódio sem o peso da culpa. Na França, o Rassemblement National de Marine Le Pen, herdeiro do antissemitismo paternal, ganha eleições com promessas de "França para os franceses" ,ou seja, barrar muçulmanos e africanos, porque, claro, a diversidade é o verdadeiro inimigo.

Na Itália, os Irmãos da Itália de Giorgia Meloni governam desde 2022, com raízes fascistas que ela jura terem sido "mal interpretadas". Na Grécia, o legado do Amanhecer Dourado (banido, mas não morto) inspira neonazis a apunhalar imigrantes. E na Hungria? Viktor Orbán, com o seu Fidesz, constrói "muros" e ataca a UE como "conspiração globalista" ecoando Hitler, mas com memes no Facebook. Esses partidos, o "novo fascismo", exploram crises migratórias e económicas como os nazis exploraram a hiperinflação. Condições propícias? Absolutamente: polarização digital, fake news e um eleitorado cansado de "politicamente correto". Riam, porque é hilário: a Europa, ciente da história, vota no seu repeteco.

O Que a África Deve Esperar: Um Colonialismo 2.0, com Drones e Discursos "Humanitários"?

E nós, em África? Ah, a cereja irónica no bolo podre. Essa "nova guinada fascista" na Europa não é só um problema deles, é uma ameaça exportável, um modelo colonialista reinventado para o século XXI. Imaginem: enquanto a AfD sonha com deportações, o que impede que isso se traduza em políticas externas mais agressivas? Já vemos sinais: acordos migratórios que tratam africanos como "carga indesejada", financiando milícias na Líbia para bloquear travessias, ou "ajuda ao desenvolvimento" que na verdade explora recursos minerais moçambicanos e angolanos com contratos leoninos. O novo fascismo promete "segurança europeia", mas para nós significa um colonialismo violento e excludente: drones sobre fronteiras sul-saarianas, sanções seletivas contra "regimes instáveis" (leia-se: quem não obedece), e uma retórica que pinta África como "fonte de caos" ecoando o racismo nazi, mas com linguagem corporativa.

Devemos preparar-nos para o pior? Ora, por que não? Com o Rassemblement National podendo ganhar em França em 2027, e a AfD pressionando Merkel 2.0, espere mais "missões de paz" que são invasões disfarçadas, mais extração de lítio e cobalto sem partilha de lucros, e uma UE que prioriza "fortaleza Europa" sobre solidariedade global. Moçambique, com a sua instabilidade no norte, pode ser o próximo alvo de "intervenções humanitárias" que beneficiam empresas francesas ou alemãs. O nazismo não morreu; ele evoluiu para um fascismo globalizado, onde o excludente é "sustentável". Riamos agora, mas preparemo-nos: educação, alianças sul-sul e democracias fortes são a nossa vacina. Caso contrário, o fantasma não só voltará como também rará bagagem extra.

VIsões Do Fim: já perdemos 

Temos um exemplo flagrante dessa "amizade entre amigos de amigos", que ilustra perfeitamente o cinismo da máquina global. Ontem, no coração de Doha, no Qatar, o suposto mediador neutro –, um bombardeamento israelita atingiu uma delegação do Hamas em pleno processo de negociações para um acordo de paz. O governo de Netanyahu, com a precisão de um cirurgião bélico, viu ali a oportunidade dourada para eliminar a "elite terrorista". Afinal, em nome da cruzada contra os "terroristas", tudo vale: bombas em capitais estrangeiras, diplomacia em ruínas e civis como dano colateral. Ironia suprema: por que ações semelhantes não acontecem na Coreia do Norte, esse bunker nuclear intocável? A resposta é brutalmente simples, a bomba atómica como dissuasor supremo. Talvez a única "paz" viável seja mesmo a paz nuclear, um equilíbrio de terror mútuo que recuso veementemente aceitar. Como africano em África, privado de tecnologia avançada, do básico essencial e armado apenas com tratados éticos frágeis, sinto-me impotente perante a violência implacável dessa MÁQUINA DO MUNDO, que esmaga os fracos sem pestanejar. Os novos fascistas estão a caminho, e o que nos resta? Discursos morais vazios para combater uma guerra que já perdemos há décadas. Essa gente saudosista do mercado colonial, que especula com capitais enquanto convive serenamente com os horrores do próprio povo – sem moradia, sem dignidade. Essa gente... "Eles passarão, eu passarinho",

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

O Verdadeiro Tesouro Escondido: Gerenciamento, Não Minérios (Ou Por Que Seu País Pode Ser Rico em Ouro e Pobre em Cérebros)


Introdução: O Mito Brilhante que Engana Tolos

Ah, os recursos naturais! Esses salvadores reluzentes, prometendo paraíso eterno como um bilhete de loteria que nunca expira. Mas, ó surpresa das surpresas, se fosse assim, a África seria uma utopia de diamantes flutuantes, e a Venezuela estaria nadando em petróleo como um pato feliz. Em vez disso, muitos desses "abençoados" pela Mãe Natureza chafurdam na miséria, enquanto nações como Singapura cujo principal recurso é uma localização estratégica e ar-condicionado infinito riem até o banco. A moral da história? O desenvolvimento de um país depende mais de uma gestão afiada do que de uma pilha de pedras preciosas. Porque, vamos ser honestos, ter ingredientes não te torna um masterchef; torna-te apenas um acumulador de lixo se você queimar tudo no fogo da corrupção ou das ideias que não funcionam. É como dar um Ferrari a um motorista bêbado: acidente na certa.

Fundamento Filosófico: De Hobbes a Nietzsche, com uma Dose Extra de Sarcasmo

Vamos filosofar, porque nada eleva um debate como citar barbudos mortos que provavelmente rolariam na sepultura vendo nossa estupidez moderna. Comece com Hobbes e seu Leviatã: o mundo é uma selva onde a sobrevivência não vem de presentes da terra, mas de gerenciar o caos para não virar almoço dos vizinhos mais fortes. Ah, e Maquiavel? "Melhor ser temido do que amado", especialmente se você for um país nanico sem óleo para subornar aliados. Jogue Nietzsche na mistura com sua "vontade de poder": nações que superam limitações com astúcia voam alto, enquanto as que choramingam pelo passado afundam no niilismo econômico. E Huey Newton, o pantera negra com visão de raio-X? "Qualquer povo desarmado é escravo, ou está sujeito à escravidão a qualquer momento." Traduzindo: sem "armas" nucleares, econômicas ou institucionais, você é só um alvo ambulante. Filosofia não é só para cafés pretensiosos; é o manual para não ser pisoteado no jogo global.

Caso de Estudo Mordaz: Coreia do Norte – A Bomba que Salvou o Ditador (e Fuzilou o Futuro)

Falando em "armas", eis a Coreia do Norte, o palhaço trágico do circo geopolítico. Enquanto o mundo zomba de desfiles com mísseis que parecem props de filme trash, Pyongyang dá gargalhadas atômicas. Por quê? Eles gerenciaram, ou melhor, sacrificaram tudo pela bomba nuclear como escudo anti-invasão. Desde os anos 50, os Kims torraram vidas em fome e gulags para deter os ianques. Resultado? Ninguém invadiu desde a Guerra da Coreia; até Bush Jr. piscou em 2002, temendo o cogumelo radioativo. É hilário, não? "Sem petróleo? Sem problema, faça uma bomba e veja os imperialistas tremerem." Custou milhões em miséria? Claro! Mas filosoficamente, é Hobbes puro: no anárquico tabuleiro mundial, poder nuclear mantém os tubarões longe. Pena que o povo come grama enquanto o líder come caviar.

Caso de Estudo Cortante: África – Presa no Loop Infinito da Reparação Histórica

Agora, vire o holofote para a África, o continente que ganhou a loteria geológica mas perdeu o bilhete na lavanderia da história. Não nego: colonialismo e escravidão foram horrores que merecem um tribunal eterno. Mas ficar obcecado por "reparações" é como um time de futebol que passa 90 minutos xingando o árbitro em vez de marcar gols. A União Africana até elegeu "Reparações" como tema para 2025, revivendo dramas do século XIX como se fossem novela mexicana. Enquanto isso, ex-colonizadores dão risadinhas, porque dinheiro de reparação, se vier, não conserta a podridão interna: corrupção, guerras tribais e zero inovação. Países como Congo, com minérios aos montes, afundam em pobreza porque a "maldição dos recursos" transforma riqueza em veneno. Huey Newton aprovaria? Dificilmente: sem "armas" próprias, a liberdade é miragem.

Desastres Gerenciais Extra: Venezuela e Nigéria – Petróleo para os Tolos

Queres mais piadas de mau gosto? Venezuela: outrora o rei do óleo da América Latina, agora um zumbi econômico onde hiperinflação come salários como pac-man faminto. Abundância de petróleo? Sim! Gestão? Um circo de corrupção e populismo que transformou ouro negro em lama negra. Nigéria não fica atrás: maior produtor africano de crude, mas com pobreza galopante e elites que tratam o tesouro nacional como buffet particular. Angola e Sierra Leone? Mesma novela: diamantes e óleo financiam guerras civis, não escolas. É a "maldição dos recursos" em technicolor: sem gestão, riquezas viram correntes. Oh, quão chocante que pilhas de dinheiro atraiam ladrões em vez de santos!

Heróis da Gestão: Noruega e Botsuana – Os Que Enganaram a Maldição

Mas nem tudo é desgraça! Noruega: pegou o petróleo do Mar do Norte e, em vez de gastá-lo em palácios, criou um fundo soberano que faz inveja a Wall Street. Resultado? Um dos países mais ricos e igualitários do mundo, provando que gestão inteligente transforma maldição em bênção. Botsuana, na África? Diamantes aos borbotões, mas com instituições fortes e zero tolerância à corrupção, virou oásis de crescimento em um deserto de fracassos vizinhos. Chile com cobre? Mesmo truque: transparência e investimento em humanos, não em ditadores. Esses "heróis" mostram: recursos + cérebro = prosperidade; recursos + idiotice = caos.

Sem Recursos, Sem Choros: Japão, Singapura e os Magos da Inovação

E os pobrezinhos sem nada? Japão: ilhas vulcânicas com zero minérios, mas pós-guerra virou titã econômico com educação, tecnologia e trabalho árduo. Sem óleo? Invente robôs! Singapura: um pontinho no mapa, sem água doce nem terra fértil, mas gestão visionária a transformou em hub financeiro global. Suíça? Montanhas e queijo, mas bancos e precisão a tornaram rica como Midas. Hong Kong, Coreia do Sul, Bélgica, todos provam: sem recursos, force a inovação ou morra tentando. É quase poético: a escassez obriga genialidade, enquanto abundância convida à preguiça.

Conclusão: Gerencie ou Pereça – A Lição Final de Newton

No final, queridos leitores cínicos, desenvolvimento não é loteria geológica; é xadrez humano. Se recursos bastassem, o Saara seria Las Vegas com camelos. Em vez disso, gestão transforma areia em silício high-tech. Troque lamentações por lições: como Nietzsche diria, "o que não nos mata nos torna mais fortes", se não queimarmos o remédio na fogueira da incompetência. E lembre Huey: sem armas próprias, liberdade é piada. Então, nações, gerenciem ou sejam gerenciadas pelo destino, ou pior, pelos vizinhos. E os vizinhos são pop's, e os pop's não poupam ninguém!

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

A Nova Mina de Ouro da África: Corpos no Feed, Não no Solo

De Cacau a Close: A Evolução do Extrativismo

Houve um tempo em que a África era sinônimo de ouro, cacau, café e petróleo — riquezas arrancadas do solo para engordar os bolsos do Ocidente. Hoje, o continente trocou as commodities tradicionais por uma nova safra: filtros de Instagram que vendem pele de silicone, coreografias de TikTok que disfarçam erotismo como "herança cultural" e um mercado de "conteúdo adulto" que faz o Kama Sutra parecer um folheto de academia. Jovens, muitas vezes vulneráveis, são as novas jazidas, posando para os fetiches de magnatas em Dubai ou Londres, onde o colonialismo agora vem com Wi-Fi e hashtags. Como disse Frantz Fanon em Os Condenados da Terra (1961), o colonizado é sempre um objeto, só que agora ele tem uma conta verificada.

Algoritmos: Os Novos Senhores Coloniais

Os algoritmos são os cartógrafos do século XXI, mapeando desejos com a precisão de um negreiro do passado. E o que eles querem? Não é a poesia de Okot p’Bitek ou as ideias de Amílcar Cabral. É pele, em ângulos que desafiam a física e a decência. Quanto mais explícito, mais o algoritmo aplaude: likes, shares, e um lugar garantido no topo do feed. A África, que já teve seus corpos leiloados em praças coloniais, agora os exibe em lives 4K, enquanto homens do Norte global, com carteiras recheadas e egos frágeis, buscam um "paraíso primitivo" para rugir como "machos alfa". Um estudo da UNESCO (2021) revelou que plataformas lucram bilhões com conteúdo sexualizado de regiões vulneráveis. Liberdade de expressão? Claro, desde que renda cliques.

A Educação Sexual do TikTok

Enquanto líderes discursam sobre "futuro digital" em cúpulas internacionais, adolescentes africanos navegam num buffet de gemidos, poses e "trends" que transformam demiurgos influencers  nuns experts sobre tudo. Esqueça manuais de educação sexual: influencers com sorrisos plastificados ensinam mapas do prazer em lives públicas, onde corpos negros viram mercadoria global. Um estudo da Nature Neuroscience (2023) alerta que cérebros jovens expostos a validação digital desenvolvem dependência de likes tão forte quanto de drogas. O resultado? Uma geração que confunde ser vista com ser amada, medindo autoestima em centímetro e oferecidos no ângulo certo.

O Teatro da Hipocrisia

O circo da moralidade africana é um show à parte. Deputados que de dia bradam pela “defesa dos valores tradicionais” à noite são clientes VIP de lives privadas, com nicknames como “PatriotaFiel69”. Pastores que chamam o corpo de “templo sagrado” têm carteiras digitais que rezam no altar do OnlyFans. A indignação pública é um roteiro ensaiado: todos gritam no púlpito, todos sussurram nas DMs. Como dizia Chinua Achebe em O Mundo se Despedaça (1958), a tradição é impecável até o dinheiro entrar na conversa.

Os mesmos "mais velhos" que falam da moral e o dos bons costumes ganharam um estranho gosto de trocar fotos e vídeos sensiais das moças buscando um almoço. Todos os dias tem um escândalo sexual que parte de um vídeo íntimo vazado. Isso é uma indústria de promiscuidade. 

Regular Não é Censurar

Falar em regular conteúdo faz os libertários de Twitter, que nunca leram Foucault, gritarem “censura” como se fossem heróis de uma distopia. Mas regular não é apagar cultura, é proteger mentes que ainda não sabem filtrar o lixo digital. Estados africanos precisam de leis com garras: limites de idade, verificação de identidade e multas que doam no bolso de plataformas como TikTok e OnlyFans. Um relatório da Internet Watch Foundation (2022) mostra que 80% do conteúdo sexual envolvendo menores vem de plataformas que “só conectam pessoas”. Conectar, sei. Proteger crianças de minas de cobalto não é censura, e proteger adolescentes de predadores digitais também não é.

Um Futuro Além do Close

Se nada for feito, a herança digital africana será um arquivo de nudes, não de ideias. Por séculos, o mundo nos definiu pelo que podia extrair: ouro, marfim, corpos. Chegou a hora de exportar pensamento, inovação, arte e menos closes que fariam o algoritmo pedir demissão. Como dizia Steve Biko em Eu Escrevo o Que Quero (1978), a libertação começa na mente. Mas, pelo jeito, o algoritmo prefere as nádegas saltitantes. Cabe a nós mudar o feed.


sexta-feira, 8 de agosto de 2025

O Reacionário Acidental Ou omo me tornei quase um conservador com cheiro de Marx no bolso

A Ascensão dos Salvadores de Feira

Eles surgem com bandeiras ao vento e promessas de ordem: os populistas de direita, sejam chamados de nacionalistas, reacionários ou "exorcistas da modernidade líquida". De Nayib Bukele em El Salvador a Giorgia Meloni na Itália, passando por Donald Trump e André Ventura, esses líderes apontam o dedo para imigrantes, minorias ou qualquer "outro" que possam culpar pelos males do mundo. E nós, que nos vemos como defensores da justiça e da razão, corremos para rotulá-los: fascistas, loucos, oportunistas. Mas condenar é fácil. Difícil é entender por que tantos, de mães trabalhadoras a jovens desiludidos, aplaudem suas soluções simplistas. Por que o populismo seduz até aqueles que, como eu, já sonharam com utopias coletivas?

O Apelo da Simplicidade

Confesso: já me peguei intrigado por políticas de figuras como Bukele ou do partido português CHEGA. Não porque me tornei um reacionário com saudades de um passado idealizado, mas porque a esquerda, minha velha companheira de sonhos, às vezes parece mais preocupada em analisar as raízes da criminalidade do que em proteger quem teme sair de casa à noite. Em 2022, Bukele lançou uma ofensiva em El Salvador, prendendo mais de 70 mil pessoas em 18 meses, segundo dados oficiais. A taxa de homicídios caiu 60%, mas a custo de denúncias de violações de direitos humanos. Para muitos, ele trouxe segurança; para outros, apenas a ilusão dela. O povo, exausto de ensaios acadêmicos sobre desigualdade, aplaudiu a ação e não por desprezo à justiça, mas por desespero por resultados.

Não é só em El Salvador. Na República Democrática do Congo, um líder local, Monsieur Mutamba, ganhou fama ao executar criminosos em transmissões ao vivo, segundo relatos de 2024. Questionado sobre direitos humanos, ele os chamou de "invenção ocidental" — e foi ovacionado. A incoerência é gritante: o mesmo povo congolês que chora pelos guetos franceses aplaude linchamentos caseiros. Por quê? Porque a promessa de segurança, mesmo que ilusória, tem gosto de pão quente.

Em Angola, o mesmo povo indignado com a violência policial queima ladrões nas ruas, em cenas que lembram as antigas inquisições católicas. Um povo tranquilo não gera polícias ou políticos violentos; todos são semelhantes, até na corrupção. A indignação é que uns vivem o Gangsta Paradise e outros enfrentam a realidade dos afastados da corte. A busca por soluções simples sempre justificou violências e horrores dos quais todos somos cúmplices.

A Hipocrisia Global

O populismo não floresce no vácuo; ele se alimenta das contradições do mundo globalizado. Veja a questão do véu islâmico. Países árabes exigem que chefes de Estado ocidentais usem o hijab em respeito às tradições locais, e o silêncio reina. Mas quando nações europeias, como a França, debatem a proibição da burka em escolas públicas, gritos de opressão ecoam na mídia. O direito de decidir sobre o próprio corpo vira um argumento de ocasião, aplicado seletivamente.

De qualquer modo, o mesmo povo que pede ao Ocidente leis mais flexíveis para obtenção de nacionalidade europeia mantém leis patriarcais que me impedem, eu, um bom santomense, de me tornar cidadão desses países ou de garantir cidadania ao meu filho, se o tivesse. Vejo que, nessas mesmas comunidades magrebinas racializadas na Europa, muitos acabam por discriminar negros em guetos ainda piores em seus países de origem. Talvez o Ocidente não seja tão mau quanto o pintam.

Essa hipocrisia não é nova. Mahatma Gandhi, ícone da luta anticolonial, defendia os direitos dos indianos na África do Sul, mas chamava os africanos negros de "cafres", com a condescendência de quem se via acima deles. Hoje, na Líbia pós-Gaddafi, relatórios da ONU de 2023 confirmam a existência de mercados de escravos, onde imigrantes subsarianos são vendidos sob o sol escaldante de uma suposta modernidade. E na África do Sul, onde sonhamos com um continente sem apartheid, a xenofobia contra outros africanos cresce — não entre brancos nostálgicos, mas entre negros, muitos deles filhos da luta contra o regime. Segundo a Human Rights Watch, ataques xenofóbicos em 2024 deixaram dezenas de mortos em comunidades pobres. É uma punhalada vinda de dentro.

O que mais tocou minha alma foi a fala de Venâncio Mondlane sobre a xenofobia em Portugal. Ele relata que André Ventura lhe disse que o problema não são os moçambicanos, mas "os outros". Esses "outros" que tentaram apoiar a causa de Mondlane. Os "outros" que podem ser racializados e desumanizados, enquanto os moçambicanos, aparentemente, não. Está aí o modelo de combate alienante e excludente.

Um Marxista em Crise

Eu, um santomense criado com os ecos da Internacional e da utopia panafricana, sinto uma dor profunda. Como marxista, acredito na luta coletiva, mas o mundo real me força a encarar verdades incômodas. Em São Tomé, amigos defendem ocupações ilegais em Lisboa, mas reclamam quando alguém invade um terreno aqui. Quando apontei essa contradição, quase me chamaram de traidor. Perguntei: “E se fossem portugueses construindo barracas no teu quintal?” Silêncio. Às vezes, é preciso devolver o espelho.

Meu medo era virar reacionário. Mas começo a entender que não é absurdo um país querer decidir quem cruza suas fronteiras ou que tolerar os intolerantes pode ser perigoso. Não defendo muros, mas reconheço o apelo de proteger o que é nosso — não por ódio, mas por pragmatismo. Se ex-colônias escolhem negociar com a China ou o grupo Wagner, é soberania. Se a União Europeia parece um condomínio hostil, que se reconfigure. E se um imigrante se sente humilhado, que busque novos caminhos: talvez Angola, Cuba, ou até Marte.

Eu, que fui ensinado a ver qualquer um que sofre como meu companheiro de luta, não consigo enxergar raças. Um português sem habitação é meu companheiro. Sei diferenciar um colono português de um português comum, um norte-americano oprimido de um imperialista. São meus irmãos de cruz. Entendo o povo como o povo, aquele que luta por um mundo melhor, sem ideologias ou pretensões de virar elite. Vejo os povos do mundo como companheiros contra aqueles que querem nos dominar. E entristece-me esse cenário de luta interna.

Um Novo Caminho

O sonho da globalização morreu. Não há mais ONU, só grupos de WhatsApp onde todos gritam e ninguém resolve. Imigrantes africanos enfrentam discriminação no Golfo, racismo no Norte, violência na América Latina, e são chamados de "sobreviventes" com um sorriso cínico nas estatísticas. Chegou a hora de nos organizarmos. Não por vingança, mas por sanidade. Construir nossas próprias universidades, decidir quem pesca em nossos mares, escolher nossos parceiros de negócios. Menos esperança ingênua, mais cálculo estratégico.

Como marxista, quero acreditar na solidariedade. Mas, como santomense, sei que o mundo não espera por sonhos. E você, o que fará agora que a utopia global ruiu? Continuará gritando contra os populistas ou começará a construir respostas?

quinta-feira, 31 de julho de 2025

Angola Treme, Portugal Grita: João Lourenço e André Ventura na Política do Espetáculo

Diretamente daquilo que os angolanos chamam de sua 19ª província não-oficial, São Tomé e Príncipe — onde se fala mais sobre Luanda do que sobre Santana — assisto, atônito (e algo resignado), à série distópica que é a atual realidade angolana. Começa com um aumento do preço do petróleo, passa pelo efeito dominó no combustível, culmina numa inflação galopante e acaba... em carros incendiados, lojas pilhadas, jovens mortos nas ruas e “engajamentos” de ativistas digitais com Wi-Fi europeu. 

Enquanto isso, João Lourenço segue firme no cargo, mas cercado. Por um lado, o povo faminto e cansado. Por outro, os barões do seu próprio partido, o MPLA. E, em um terceiro e surpreendente flanco: André Ventura, líder da extrema-direita portuguesa e autodeclarado salvador da civilização lusitana contra imigrantes e outros bodes expiatórios do costume.

Ventura, numa estratégia que mistura pragmatismo de campanha com o charme de um vendedor de telemóvel de segunda mão, identificou um nicho: a diáspora ressentida. Aqueles que fugiram de Angola em busca de um sonho europeu e que hoje oscilam entre o orgulho e o desconforto. Ventura promete-lhes reconhecimento, culpa os "outros" e, como qualquer populista de manual, oferece uma identidade nova aos deslocados.

Quero deixar aqui as minhas palmas mais ruidosas a André Ventura — um verdadeiro génio da esperteza lusitana. A sua estratégia é de uma sofisticação rasteira exemplar. Ele percebeu rapidamente que não havia glória em seguir o caminho da decência institucional. Afinal, esse é um trilho reservado aos bem-nascidos, e não aos sobreviventes da taberna e do canal do YouTube. Ventura usou com mestria o seu ativo mais precioso: o medo embrulhado em patriotismo barato. Os portugueses — esses mesmos que espalharam filhos pelo mundo inteiro, da Venezuela à Suíça — agora fingem que nunca foram imigrantes. E Ventura, com a graça de um ilusionista de feira, aponta o dedo para o óbvio: “um país tem que proteger as suas fronteiras!”

Mas o toque de mestre vem agora: ele não morde a mão dos verdadeiros tubarões. Os sefarditas com golden visas? Silêncio. Os magnatas imobiliários que compram Lisboa a retalho? Intocáveis. Os nômades digitais que pagam 3.000 euros por um T1 e empurram os lisboetas para a Azambuja? Ventura nem os vê — é míope seletivo. Prefere esmurrar os que já vêm com os olhos roxos: pobres, cegos e estrangeiros sem lobby. A esquerda, coitada, ainda tenta compreender com indignação moral, e o PSD, em crise de identidade, tropeça atrás dele como um cão com medo de perder o osso. Não me surpreenderia se, em breve, Ventura surgisse em Fátima, envolto em neblina, proclamando ser a reencarnação de Dom Sebastião, pronto para fundar a Lusitânia — desta vez com vídeos em direto e patrocinado por suplementos de testosterona - e toda a diáspora africana estará do seu lado, essa diáspora que lhe parecerá mais Al-Andaluz. 

Da mesma forma que Trump atacava a mídia e os democratas, Ventura investe contra os governos africanos aliados ao PS ou PSD. Ele sabe que não vai governar Angola (nem quer), mas sabe que pode usar Angola para governar Portugal. Como? Simples: atacando João Lourenço, ele ganha pontos com os angolanos-portugueses que se sentem traídos pelos dois lados. A lógica é cristalina: "Se João é mau para Angola, então quem o ataca é amigo dos angolanos". Parece simplista. É. E funciona.

E foi assim que o CHEGA se tornou o partido preferido dos portugueses em São Tomé e Príncipe em algumas urnas, ultrapassando PS e PSD, num feito que faz Salazar gargalhar no túmbo. 

Ventura não está sozinho nesse teatro. Em Moçambique, tentou aproximação com Venâncio Mondlane, o opositor fora da linha do FRELIMO. Não por amor aos moçambicanos, mas porque qualquer figura que bata no sistema africano tradicional é uma aliada potencial contra os governos portugueses comprometidos com esses mesmos regimes. Ventura é como um hacker político: explora cada brecha do sistema.

Do lado angolano, João Lourenço responde com a tática mais previsível de todas: medo. Mais tropa, mais repressão, mais mortos. Só que a tática, antes eficaz, agora ecoa numa população mais conectada, mais informada e cada vez mais desesperada. E desesperados, como bem diria Maquiavel, são difíceis de governar sem oferecer ou terror absoluto ou uma miragem de esperança. Como ele não consegue oferecer nem um nem outro, sobra-lhe apenas o improviso à base de porrada e propaganda.

Para piorar, a imagem internacional do governo degrada-se. As pilhagens são filmadas. Os corpos, fotografados. As repressões, denunciadas. E o Ocidente? Finge que não vê — afinal, depende de quem controla o petróleo. "They don’t care, bro!"

Prognóstico final? Uma frente quente de balas, seguida de um nevoeiro denso de negociações tímidas. O futuro de Angola será decidido menos por ideologia e mais por logística: quem controla os recursos, os microfones e os algoritmos.

E Ventura? Vai continuar. Explorando ressentimentos, reciclando pânicos, reinventando vilões. Não porque quer salvar Portugal. Mas porque quer salvá-lo para si. Ou talvez de facto queira salvar Portugal,

João Lourenço, por sua vez, não luta mais pela presidência. Luta pela sobrevivência. Medo de que o que se passou com a família Dos Santos ocorra também com a famíia Lourenço. E se contar com os seus bens fora de Angola enquanto ativo, então - basta se lembrar o que foi feito com os ativos da imperatriz Isabel dos Santos. Ó história, sua safada, sempre a querer se repetir!

E é por isso que a tempestade não é apenas metáfora. É previsão - o silêncio ou silenciamento de uma oposição tímida e Angola; os Populares famintos dispostos à tudo; os barrões de MPLA de braços cruzados e João Lourenço tentado assegurar o seu reinado numa era digital demais; os negociantes de petróleo e outras commodities parecem acenar para uma negociação mais íntima com propostas  irrecusáveis - O que fazer John Wick? Qual caminho vai seguir JLO?


quinta-feira, 24 de julho de 2025

Trump e os Monarcas de Papelão: Uma Crônica para Quem Ainda Crê na Soberania Africana


Eis que, num dia qualquer de nossa era gloriosamente neoliberal, o sempre nostálgico ex-presidente Donald Trump decidiu convidar alguns chefes de Estado africanos — Gabão, Guiné-Bissau, Libéria, Mauritânia e Senegal — para um chá diplomático na Casa Branca. A reunião foi vendida como “histórica”. E de fato foi: histórica na forma como conseguiu comprimir séculos de colonialismo, paternalismo e vassalagem simbólica em algumas horas, algumas selfies e muitos sorrisos. Faltaram só as palmas de pé. 

As imagens que circularam poderiam perfeitamente ser confundidas com um meet & greet entre um astro decadente de reality show e seus seguidores devotos. Os presidentes africanos, homens adultos, com cargos de chefe de Estado, constitucionalmente autorizados a comandar exércitos e assinar tratados pareciam alunos da Harvard of Humilhação, prontos a ganhar uma estrela dourada do professor Trump pelo bom comportamento.

Não que eu esperasse outra coisa. A África oficial já há algum tempo tem sido uma peça de teatro cujo público-alvo está fora do continente. Um espetáculo de elites desideologizadas, convertidas em síndicos coloniais com crachá de "parceiros estratégicos". E se tudo isso soa amargo, permita-me: trata-se apenas de realismo dialético.

Aliás, é preciso compreender o contexto: quando Trump, num rasgo de sensibilidade cultural, se surpreendeu com o “excelente inglês” de um presidente africano, ele só ignorava um detalhe menor — o presidente era da Libéria. Um país fundado por afro-americanos libertos dos EUA. Mas esperar que Trump entenda isso seria como pedir a um tubarão que compreenda as dores existenciais dos peixes. Ele faz o que sempre fez: tenta dominar, vender e parecer superior. A tragédia não é Trump — é quem se curva.

Axelle Kabou já nos avisava: o drama africano não é a dominação — é a vontade voluntária de ser dominado. Em Et si l’Afrique refusait le développement?, ela desmascara a elite africana que, vestida de independência, continua a rezar o catecismo de Paris e Washington com zelo de seminarista. É o que vemos. Uma elite que não sabe construir estradas, mas sabe voar para conferências internacionais. Que não planta alimentos, mas colhe relatórios de ONGs. Que não educa o povo, mas escreve discursos sobre o “empoderamento”.

Achille Mbembe já classificou isso como terceirização do poder: os governos africanos administram a miséria para os de cima, enquanto posam de estadistas para os de fora. O neoliberalismo, com sua pedagogia perversa, ensinou aos nossos governantes que a dignidade nacional pode ser trocada por convites VIP. É a velha lição do capataz: esteja limpo, sorria para o senhor, e talvez ele te ofereça um whisky depois do serviço.

E aí entra Fanon, sempre ele. Em Os Condenados da Terra, ele nos lembra que a burguesia africana — aquela que deveria liderar o processo de libertação — se especializou em simular revolução para melhor administrar a colônia. No lugar da violência libertadora, escolheram os jantares com o embaixador. No lugar da autonomia econômica, assinaram memorandos com o FMI. Substituímos os colonizadores por gerentes locais da mesma máquina.

Hoje, nossos presidentes falam de "governança", "resiliência", "inclusão digital" — mas tudo o que governam são orçamentos vigiados, tudo o que resistem são greves populares, e tudo o que incluem são suas famílias em empresas offshore. E quando Trump os chama, lá vão eles, ajustando os ternos, ensaiando sorrisos, prontos a se tornarem figurantes no reality show do capital ocidental.

Mas sejamos justos: talvez eles não tenham escolha. É fácil para nós, intelectuais, com tempo para escrever colunas indignadas, julgar quem tem que manter as luzes acesas com empréstimos condicionados. Como diria Gramsci, o cinismo é uma forma de impotência intelectual — mas, às vezes, é tudo que nos resta para sobreviver ao grotesco.

No fim das contas, a tal reunião foi um espelho. E como todo bom espelho colonial, refletiu o que somos quando aceitamos ser governados por aqueles que medem soberania pelo acesso à Casa Branca. Os velhos colonos nos queriam obedientes. Os novos apenas nos querem funcionais.

A imagem dos presidentes sorrindo ao lado de Trump deveria estar estampada nos manuais de ciências políticas do futuro: “Como destruir um continente com consentimento diplomático”. E enquanto isso, o povo? Ora, o povo continua fora do palco, como figurante sem fala no teatro das nações. O povo, está vendo o presidente de Gabão dançando break dance com o chapéu assinado por Trump escrito algo já gravado na consciência dos imigrantes pobres "Make America Great Again" produzidos numa fábirca chinesa. 




quarta-feira, 16 de julho de 2025

Venâncio Mondlane Está Jogando Damas em um Tabuleiro de Xadrez? - Notas para uma crítica da estratégia política no espectro da pós-democracia

Ao observarmos os últimos movimentos políticos de Venâncio Mondlane, a sua recente visita a Portugal, o encontro com partidos como Iniciativa Liberal e Chega, e o lançamento mercadológico da marca VM7, somos levados a interrogar não apenas os efeitos práticos dessas ações, mas também os horizontes simbólicos e estratégicos que elas revelam. A pergunta que proponho, com ironia carregada de gravidade, é esta: estaria Venâncio jogando damas em um tabuleiro de xadrez?

A analogia serve a um propósito crítico. No jogo de damas, cada peça move-se da mesma maneira. Não há hierarquia senão a da "dama" final, e o objetivo é eliminar o adversário num embate direto. Já no xadrez, o jogo é marcado por complexidade estrutural, cada peça carrega um papel distinto, e a vitória raramente se dá por confronto direto: ela resulta de estratégia, antecipação e acima de tudo, coerência.

I. A Internacionalização Improvisada: Realpolitik ou Contradição Ideológica?

A ida de Venâncio a Portugal e seu encontro com figuras da Iniciativa Liberal e, sobretudo, do partido Chega, não é um movimento neutro. É uma opção. E como toda escolha política, ela deve ser compreendida à luz das alianças que constrói e dos valores que comunica.

Chantal Mouffe, ao escrever sobre o agonismo político, lembra-nos de que a disputa democrática não é entre amigos, mas entre adversários que partilham um compromisso comum com as regras do jogo democrático. Nesse sentido, alianças com grupos de extrema-direita  como o Chega, que propaga uma retórica xenófoba, ultraconservadora e anti-imigração, não apenas ferem esse compromisso, como obscurecem a linha entre adversário legítimo e inimigo da democracia.

Venâncio não é ingénuo. Ele sabe, como todos os políticos modernos, que a comunicação precede a ideologia. Mas ao se aproximar de um partido que representa o backlash europeu contra a mobilidade africana, ele envia sinais ambíguos não apenas ao eleitorado moçambicano, mas à comunidade internacional que o observa como possível renovador de uma democracia em fratura.

Como lembra Antonio Gramsci, “toda relação de hegemonia é necessariamente uma relação pedagógica”. Isto é, o líder político deve formar o senso comum, e não simplesmente reproduzi-lo. Ao legitimar o Chega, Venâncio pode estar tentando mostrar-se pragmático, cosmopolita, aberto ao diálogo, mas o que ensina, nesse gesto, é que vale tudo pelo poder. A pedagogia que se extrai desse gesto é regressiva.

II. A Mercantilização da Rebeldia: O Símbolo Tornado Produto

No outro eixo da sua campanha, Mondlane investe na marca pessoal VM7 . Um número que ressoa como codinome, fórmula publicitária e emblema revolucionário. Nada mais legítimo no mundo contemporâneo, onde a política se faz tanto nos palanques quanto nas redes. Mas o processo pelo qual uma imagem de ruptura se transforma em mercadoria deve ser examinado com cautela.

Guy Debord, em A Sociedade do Espetáculo, afirma que “tudo o que era vivido diretamente se esvai numa representação”. O símbolo da luta transforma-se em logo; a palavra de ordem vira camiseta; a revolução é embalada como produto de consumo. Em um primeiro momento, isso pode parecer astuto. A marca torna-se veículo de disseminação de ideias, entra nos mercados, viraliza, circula. Mas há um custo.

Nancy Fraser, discutindo a lógica do “capitalismo progressista”, mostra como certos signos de emancipação podem ser absorvidos pelo mercado e desprovidos de seu conteúdo transformador. A marca VM7 corre o risco de tornar-se um avatar vazio: símbolo sem substância, rebeldia sem programa, estilo sem estrutura. A pergunta que o eleitor se fará — mais cedo ou mais tarde — será: VM7 é o quê, exatamente? É um projeto político? Uma hashtag? Um produto?

III. Entre Bauman e Schmitt: Estratégia ou Ambiguidade Moral?

Zygmunt Bauman diria que vivemos em tempos líquidos: os compromissos são efêmeros, as alianças são táticas, e a identidade política é moldada por algoritmos e narrativas mutantes. Nesse contexto, não surpreende que um político como Venâncio se mova por entre espectros ideológicos diversos, flertando com liberais, conservadores e radicais. A liquidez, contudo, exige um lastro que é exatamente isso que parece ausente.

Carl Schmitt, ao falar do inimigo político, lembra que todo regime político se define menos pelos seus amigos do que por quem escolhe combater. Se Venâncio quer ser o rosto da alternativa democrática, então precisa tornar claro quem são os inimigos dessa democracia. Não se trata de ódio pessoal, mas de definição de campo político. Quem tudo abraça, nada enfrenta. E quem nada enfrenta, não lidera.

IV. Considerações Finais: O Risco da Tática Sem Estratégia

A política é, por definição, a arte de fazer escolhas sob pressão. Mas a diferença entre um estadista e um oportunista está na coerência de suas decisões. Venâncio Mondlane tem uma base, um discurso, e um momento. Mas parece, neste instante, embaralhar as peças no tabuleiro e jogar damas onde se exige xadrez.

Uma estratégia de marketing não substitui um projeto nacional. Uma selfie com um político europeu não substitui alianças populares. Uma marca não substitui um movimento. E o mais perigoso: ao tentar tornar-se tudo para todos, pode-se tornar irrelevante para cada um.

Mondlane ainda pode corrigir o rumo. Ainda pode construir pontes sem abrir mão da clareza. Mas para isso, precisa abandonar a lógica da performance e retornar à substância do projeto. Porque a história como o xadrez,  não perdoa movimentos em falso.

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Relatos de um poeta insular: As Vacas Profanas da Nova Ordem

Daqui, destas terras insulares e pequeninas deste enorme continente — longe da costa e pequenas demais para figurarmos em muitos mapas — fala-vos um privilegiado: filho da união entre os arquipélagos e o continente. De São Tomé, herdei o ceticismo dos que vivem entre marés; do meu pai congolês, recebi a paixão pelo pan-africanismo e a crença profunda de que a nossa liberdade intelectual, financeira e nacional deve ser conquistada todos os dias.

Quero começar narrando os dias atuais a partir de uma história que desafiou meu pensamento internacionalista. Quando a Líbia mergulhava no caos, um grupo de presidentes africanos, através da União Africana, sugeriu ao Ocidente que esperasse um pouco. Eles tentariam uma resolução pacífica. A resposta foi clara: “Se viajarem para a Líbia, vossa segurança estará comprometida.” E todos voltaram para seus países — para os seus salões climatizados — e assistiram, inertes, ao desmoronamento de uma nação que tanto ajudara o continente. A Líbia tornou-se um Titã que engole seus próprios filhos… e agora engole também a nossa consciência. Maldito Chronos.

No meu último ano de licenciatura, no Brasil, vaticinei duas coisas que se tornaram reais — talvez por clarividência ou talvez por evidência: a vitória de Bolsonaro e de Trump. Já então percebia que a esquerda abandonava o materialismo histórico para se perder em identitarismos performáticos, enquanto a direita oferecia soluções simplistas à fome e à segurança pública. O Brasil, na figura de Dória, chegou a propor ração humana para os pobres — uma anedota trágica. E claro, armas para todos, inclusive para os que mal podiam pagar pelo almoço. O pobre passou a se imaginar como um Rambo empreendedor, nutrido a rações de sobrevivência e pílulas espirituais vendidas por gurus digitais e influencers de fé barata.

Veio depois a era dos nacionalismos “interessantes”. As sementes das guerras mundiais voltavam a ser plantadas — só que agora com cobertura em tempo real e pitadas de ironia. As Nações Unidas tornaram-se impotentes. Os seus financiadores passaram a investir diretamente na guerra. E quanto mais os novos líderes supremos falavam em nome de vacas sagradas e impérios imaginários, mais eu entendia o meu lugar no mundo enquanto africano.

Se um líder africano dissesse o que Trump diz sobre o resto do mundo, sofreria bloqueios econômicos e, em última instância, drones moralistas sobrevoando a sua soberania. Fui mais longe: se um país identifica Israel ou os EUA como ameaça — teria, então, o direito de se antecipar e atacar? Fiquei sem resposta.

Pequeno, santomense, no centro do mundo, comecei a acompanhar os discursos do Chega e de André Ventura com certa atenção. Le Pen, Meloni, Orbán, Fico — grandes senhores do nacionalismo europeu, cavando as ruínas da União Europeia. Mas o problema não está aí. Quando Ibrahim Traoré diz as mesmas coisas sobre os recursos do seu país e quem deve ou não explorá-los, vira quase um terrorista aos olhos do Ocidente. Mesmo com dados a apontarem para outro rumo. Nacionalismo é privilégio ocidental; no Sul global, é crime, é ameaça. A não ser, claro, que se chame Kagame e receba os aplausos de sempre, por razões que só o Congo entenderá.

Israel, outrora cordeiro, símbolo das vítimas do século XX, agora repete atos de barbárie contra os palestinos e contra todos os não-judeus da região. Por muito menos, a Rússia foi banida do sistema SWIFT. Israel elaborou uma dieta calórica estratégica para Gaza — um jejum forçado, secura e atletismo fugindo dos escobros e dos mísseis após um aviso prévio. E agora, o primeiro-ministro alemão declara, durante a cúpula do G7: “Das ist die Drecksarbeit, die Israel macht für uns alle.” ("É o trabalho sujo que Israel faz por todos nós.") O céu de Teerã brilha com mísseis. Tel Aviv responde com mísseis. Uma guerra absurda, insana. Iranianos, agora generalizados como “árabes radicais”, mesmo quando o Irã tem representantes judeus no Parlamento. E sobre a Arábia Saudita, o Qatar, os “amigos ricos” — silêncio. A moral é um luxo reservado à conveniência. Joguemos fora a Bíblia. Deixemos que Maquiavel, e não Moisés, nos conduza neste mundo de Leviatãs e senhores da guerra — este mundo órfão de Kissinger.

E meu medo continua. Medo da ingenuidade pan-africana. Em vez de nos tornarmos potência tecnológica e econômica, estamos presos a promessas de reparações que nunca virão. Continuamos sob a marca de Cam — não somos bem-vindos em parte alguma. Nossa cultura, que moldou o mundo, é rejeitada. Depois de 400 anos sob o chicote colonial, o que aprendemos foi ler a Bíblia, louvar o Cristo e engolir a história daqueles que nos dominaram. Acreditamos nas Nações Unidas — nosso “amigo” português grita, mas os financiadores continuam surdos. Confiamos na União Africana, que viu tantos líderes desaparecerem. Ou na China, ou na Rússia... sem jamais termos criado uma nossa cartilha, uma agenda, uma doutrina estratégica como eles têm conosco.

O Ocidente chama de “amigo” quem lhe é útil. E nós, o Sul Global, aceitamos o alimento que nos é dado pela mesma mão que matou o porco da sala ao lado. Este pequeno insular, meio congolês e meio santomense, sabe: não se trata de amizade. Cada país defende o seu interesse — como deve ser. A pergunta é: por que não fazemos o mesmo? Por que não protegemos os nossos interesses? E o eco me responde:

— Ivanick, quais interesses?

— Teus amigos estão mais preocupados com classe executiva, marcas de luxo e distrações passageiras do que com a construção de uma África unida e forte.

E eu entristeço-me.

Meu pai ainda reverbera em mim.

Sigo idiota. Sigo idealista. Tentando contribuir com um verso honrando o meu pai e os meus ancestrais.

sexta-feira, 6 de junho de 2025

Os PALOP e o Delírio da Unidade: Um Romance Mal Acabado com Portugal como Narrador

Interlúdio: A nova fraternidade e o voto contra nós

Somos irmãos, sim — quando escolhemos consultores portugueses para projetos que podíamos gerir sozinhos, quando aceitamos que sejam portugueses a intermediar negócios entre financiadores internacionais e países africanos de língua oficial portuguesa, quando abrimos as portas dos nossos governos e das nossas praias a empreendimentos com sotaque europeu e promessas em PowerPoint.

Mas experimentemos nós ir para lá — com ambição, com diploma, com ideias. Aí, os irmãos tornam-se carcereiros. Os novos partidos da extrema-direita europeia — que cresceram confortavelmente sob o silêncio cúmplice da velha esquerda — fazem da nossa presença um incômodo, um perigo, um “problema a resolver”.

E o mais perverso: muitos desses que hoje votam pelo nosso exílio são os mesmos imigrantes que enriqueceram nos nossos países. Fizeram dinheiro em Luanda, Bissau, Maputo e São Tomé, abriram padarias, construíram escolas privadas, conquistaram mercados — e agora, da diáspora, votam com entusiasmo para expulsar-nos de uma Lisboa erguida com ouro brasileiro e suor africano. Uma Lisboa onde a calçada brilha sobre ossadas e a memória se lava com vinho verde.

Somos irmãos, sim. Irmãos num retrato pendurado na parede, mas não no testamento.


A Irmandade num voo de cabeça através da RTP África

“Chamam-se irmãos, mas vivem como vizinhos que não se cumprimentam. E, quando se escrevem, o correio passa por Lisboa.” — se Lumumba estivesse vivo, talvez dissesse isso antes de apagar a luz e desligar a RTP África.

Vamos aos fatos, com a crueza que só a frustração alimenta: os PALOP — essa sigla melancólica que nos vende a imagem de uma fraternidade lusófona africana — não conseguem sequer marcar um voo direto entre si. De Luanda a Bissau, de Maputo a São Tomé, de Cabo Verde a Moçambique, não se constrói nem uma ponte aérea, quanto mais uma ponte de verdade. Para nos encontrarmos, temos de fazer escala em Lisboa, como bons ex-colonizados que ainda precisam do selo metropolitano para garantir o bilhete.

Portugal continua a ser o mediador oficial da nossa comunicação.
Quer saber o que acontece na Guiné-Bissau? Ligue a RTP África. Quer ouvir os debates de Angola? Espere o programa português fazer o “giro dos PALOP”. Somos como filhos que só se conhecem porque a madrasta europeia insiste em organizar jantares familiares. Não há estrutura nossa, canal nosso, nem vontade nossa de nos ouvirmos diretamente.

O PALOP não voa — nem metafórica, nem literalmente

Falamos de integração sul-sul, lusofonia, irmandade histórica... mas somos apenas ilhas emocionais cercadas de passado por todos os lados. A sigla PALOP funciona melhor como desculpa para relatórios da cooperação do que como política pública concreta. Não há bancos comuns, nem redes de universidades integradas, nem linha marítima, aérea ou sequer política que nos una de fato.

O que temos? Palavras. E talvez seja por isso que os PALOP ainda existam — porque são uma invenção sem consequências. É fácil dizer que somos irmãos quando não há exigência de convivência. Nenhum casamento sobrevive sem encontros. E nenhuma comunidade se sustenta se precisa de autorização da antiga metrópole para levantar voo.

CPLP: um clube de chá com sotaques diversos

E se os PALOP falham, será a CPLP a resposta? A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa é, em muitos momentos, mais salão do que comunidade, mais vernissage diplomática do que bloco de integração. É onde se serve vinho do Porto, se entrega medalhas e se discursa em português clássico enquanto os voos entre os próprios países-membros continuam passando por hubs europeus. Um espetáculo de cortesia lusitana com pouco impacto na mobilidade, economia ou cooperação prática.

Enquanto isso, a juventude africana lusófona migra para Portugal. Não para Bissau. Não para Luanda. Para Lisboa. Porque é mais fácil e menos penoso. Porque temos mais voos para Frankfurt do que para Maputo. E porque o nosso sonho ainda carrega, envergonhado, o selo “made in Europe”.

Quem lucra com esse silêncio aéreo?

O vazio entre nós não é apenas geográfico: é político. Porque manter os PALOP desconectados mantém cada país pequeno, isolado, vulnerável. E, convenhamos, ninguém gosta de uma África unida e auto-suficiente, ainda mais se falar português e decidir pensar por conta própria.

Portugal continua sendo o grande curador da nossa língua, da nossa imagem e das nossas narrativas. E nós, como bons colonizados emocionais, ainda batemos palmas quando nos convidam para os salões de Lisboa para debater “a importância da cooperação”. No fim, voltamos aos nossos aeroportos vazios, onde nenhuma aeronave voa até ao irmão mais próximo.

O que nos falta?

Falta vergonha. Vergonha de aceitar esse arranjo ridículo.
Falta rebeldia. Rebeldia para romper com o mapa que nos foi imposto.
Falta-nos fazer da língua comum um caminho real, não apenas literário.
Falta-nos dizer: ou voamos entre nós ou deixamos de falar em irmandade.

Porque, sejamos claros: PALOP não é comunidade, é nostalgia. E CPLP, sem coragem política, é apenas um glossário de boas intenções em papel timbrado.

Até lá, seguimos vendo os nossos irmãos pela RTP África, como se estivéssemos todos numa Casa dos Segredos, comentados por apresentadores lusitanos. Esperando um dia sermos notícia... entre uma novela e um noticiário sobre o preço do bacalhau.


sexta-feira, 30 de maio de 2025

“Chega, mas não entra”: Portugal, a faxina do passado com vassoura do presente

Lisboa, 2025 — O império caiu, mas a arrogância ficou. Entre um brunch vegano em Alfama e um café de especialidade em Marvila, ecoa uma nova epopeia nacional: proteger Portugal da maior ameaça contemporânea — o imigrante que lava pratos, envia remessas e ainda tem a ousadia de sonhar com residência legal.

Não se enganem: não estamos a falar dos magnatas nórdicos que compram casas para o golden visa ou dos nômades digitais que elevam os preços do metro quadrado enquanto geram conteúdo sobre “slow living in Europe”. Não. O inimigo da vez é a senhora angolana que apanha dois autocarros para servir sopa a tempo e horas. O Chega sabe o que faz: transforma o ressentimento popular numa arma política e o racismo institucional numa estratégia de campanha. De megafone em punho, grita-se pela ordem — mas só contra quem já nasceu do lado errado da fronteira e da história.

Colonialismo 2.0: com selo, código fiscal e cartão de contribuinte

Na nova versão do “fardo do homem branco”, Portugal trocou a catequese pela burocracia. Se antes vinha a cruz e a espada, agora vêm o SEF (ou o seu sucessor rebranded, AIMA), as filas para renovar o título de residência, os contratos temporários com salário mínimo e o sorriso hipócrita da inclusão. É o velho jogo da subjugação, com nova embalagem europeia e assinatura digital.

A extrema-direita, romântica como sempre, chora pela pureza da pátria que nunca existiu e denuncia o “revanchismo histórico” africano. Como se o desejo de viver com dignidade em Setúbal fosse uma revanche por séculos de pilhagem, escravização e imposição cultural. Pobres colonizadores cansados — deram tudo e agora recebem... mão de obra que fala crioulo e sabe usar o WhatsApp.

PALOP: parceiros na CPLP, intrusos na porta ao lado

O imigrante dos PALOP é um caso peculiar: é irmão na CPLP, mas vizinho incómodo no T2. É parceiro de cooperação nos relatórios da OCDE, mas fila indesejada no balcão da Segurança Social. Vive o paradoxo lusófono: canta Xutos e Pontapés, bebe Sagres, vê a RTP África, mas é lembrado todos os dias de que está “a mais”.

Enquanto isso, os governos africanos balançam entre o pragmatismo diplomático e a vergonha mal disfarçada. Assinam memorandos, recebem comitivas e celebram o intercâmbio cultural, enquanto seus jovens formados em engenharia trabalham como ajudantes de cozinha no Cacém.

O truque do racismo europeu: ver os pretos, não os patrões

Quando o português branco, empurrado pelo preço da renda e a precarização generalizada, entra num autocarro cheio e só vê corpos negros e árabes, a narrativa cola. É mais fácil culpar quem também está na lama do que olhar para cima e ver quem segura a mangueira de água suja.

Mas não se vêem os suecos com teletrabalho e apartamentos com vista para o Tejo. Nem os fundos imobiliários, nem os chineses com cidadania de papel. O racismo estrutural tem olhos seletivos e memória curta. E o Chega faz disso capital político.

Maquiavel faria contas

Se Fanon nos ensinou a cuspir no opressor, Maquiavel lembraria que cuspir sem estratégia é só desperdício. A verdade é que os países dos PALOP ainda vivem acorrentados não por grilhões, mas por dependências orçamentais, acordos comerciais assimétricos e ilusões diplomáticas. A fragilidade está em tudo: desde a balança comercial negativa até à ausência de soberania monetária.

Não somos tratados como parceiros — somos mantidos como satélites úteis. E isso não é ressentimento, é aritmética. Portugal detém os fluxos de capital, os canais culturais, a tecnologia e a vantagem diplomática. Nós ainda mendigamos cooperação como se fosse caridade.

Enquanto isso, os nossos melhores cérebros migram, as nossas elites se formam em universidades portuguesas e voltam falando como colonizadores reciclados. Continuamos vulneráveis porque confundimos intercâmbio com dependência, e amizade com subordinação. A real independência — a que se expressa em tecnologia, moeda, educação crítica e soberania alimentar — ainda está por acontecer.

E Portugal?

Portugal terá que escolher entre duas nostalgias: a do império ou a da justiça. E, por enquanto, escolheu manter o trono, mas esvaziado de ideias — apenas decorado com saudade e ressentimento. Quer “ordem”, mas não toca nos bancos, nos patrões nem nas grandes construtoras. Quer “identidade”, mas não questiona a desigualdade social. Quer “cultura”, mas exporta fado e importa mão de obra.

Conclusão?

A imigração dos PALOP não é uma ameaça. É uma radiografia. E o que ela mostra é um corpo europeu cansado, hipócrita e viciado em terceirizar culpa.

Se fosse Kissinger a olhar para o continente africano, diria que os afetos são irrelevantes e que o que move as nações é o interesse, não a justiça. A África dos PALOP continua a ser vista como uma zona de influência estratégica, útil enquanto submissa, descartável quando reivindica soberania.

Portugal não precisa amar nem odiar os seus “irmãos lusófonos”; basta manter a vantagem. E manter a vantagem, em termos kissingerianos, significa controlar os fluxos: de mão de obra, de cultura, de recursos. O dia em que esses países africanos perceberem que não precisam da tutela emocional nem da saudade colonial de Lisboa, o jogo muda. E Portugal perde sua posição sem disparar um tiro.

A lição? Quem não tem poder, tem que negociar com frieza. Quem não tem soberania, será sempre um peão no tabuleiro de alguém.

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