quinta-feira, 24 de julho de 2025

Trump e os Monarcas de Papelão: Uma Crônica para Quem Ainda Crê na Soberania Africana


Eis que, num dia qualquer de nossa era gloriosamente neoliberal, o sempre nostálgico ex-presidente Donald Trump decidiu convidar alguns chefes de Estado africanos — Gabão, Guiné-Bissau, Libéria, Mauritânia e Senegal — para um chá diplomático na Casa Branca. A reunião foi vendida como “histórica”. E de fato foi: histórica na forma como conseguiu comprimir séculos de colonialismo, paternalismo e vassalagem simbólica em algumas horas, algumas selfies e muitos sorrisos. Faltaram só as palmas de pé. 

As imagens que circularam poderiam perfeitamente ser confundidas com um meet & greet entre um astro decadente de reality show e seus seguidores devotos. Os presidentes africanos, homens adultos, com cargos de chefe de Estado, constitucionalmente autorizados a comandar exércitos e assinar tratados pareciam alunos da Harvard of Humilhação, prontos a ganhar uma estrela dourada do professor Trump pelo bom comportamento.

Não que eu esperasse outra coisa. A África oficial já há algum tempo tem sido uma peça de teatro cujo público-alvo está fora do continente. Um espetáculo de elites desideologizadas, convertidas em síndicos coloniais com crachá de "parceiros estratégicos". E se tudo isso soa amargo, permita-me: trata-se apenas de realismo dialético.

Aliás, é preciso compreender o contexto: quando Trump, num rasgo de sensibilidade cultural, se surpreendeu com o “excelente inglês” de um presidente africano, ele só ignorava um detalhe menor — o presidente era da Libéria. Um país fundado por afro-americanos libertos dos EUA. Mas esperar que Trump entenda isso seria como pedir a um tubarão que compreenda as dores existenciais dos peixes. Ele faz o que sempre fez: tenta dominar, vender e parecer superior. A tragédia não é Trump — é quem se curva.

Axelle Kabou já nos avisava: o drama africano não é a dominação — é a vontade voluntária de ser dominado. Em Et si l’Afrique refusait le développement?, ela desmascara a elite africana que, vestida de independência, continua a rezar o catecismo de Paris e Washington com zelo de seminarista. É o que vemos. Uma elite que não sabe construir estradas, mas sabe voar para conferências internacionais. Que não planta alimentos, mas colhe relatórios de ONGs. Que não educa o povo, mas escreve discursos sobre o “empoderamento”.

Achille Mbembe já classificou isso como terceirização do poder: os governos africanos administram a miséria para os de cima, enquanto posam de estadistas para os de fora. O neoliberalismo, com sua pedagogia perversa, ensinou aos nossos governantes que a dignidade nacional pode ser trocada por convites VIP. É a velha lição do capataz: esteja limpo, sorria para o senhor, e talvez ele te ofereça um whisky depois do serviço.

E aí entra Fanon, sempre ele. Em Os Condenados da Terra, ele nos lembra que a burguesia africana — aquela que deveria liderar o processo de libertação — se especializou em simular revolução para melhor administrar a colônia. No lugar da violência libertadora, escolheram os jantares com o embaixador. No lugar da autonomia econômica, assinaram memorandos com o FMI. Substituímos os colonizadores por gerentes locais da mesma máquina.

Hoje, nossos presidentes falam de "governança", "resiliência", "inclusão digital" — mas tudo o que governam são orçamentos vigiados, tudo o que resistem são greves populares, e tudo o que incluem são suas famílias em empresas offshore. E quando Trump os chama, lá vão eles, ajustando os ternos, ensaiando sorrisos, prontos a se tornarem figurantes no reality show do capital ocidental.

Mas sejamos justos: talvez eles não tenham escolha. É fácil para nós, intelectuais, com tempo para escrever colunas indignadas, julgar quem tem que manter as luzes acesas com empréstimos condicionados. Como diria Gramsci, o cinismo é uma forma de impotência intelectual — mas, às vezes, é tudo que nos resta para sobreviver ao grotesco.

No fim das contas, a tal reunião foi um espelho. E como todo bom espelho colonial, refletiu o que somos quando aceitamos ser governados por aqueles que medem soberania pelo acesso à Casa Branca. Os velhos colonos nos queriam obedientes. Os novos apenas nos querem funcionais.

A imagem dos presidentes sorrindo ao lado de Trump deveria estar estampada nos manuais de ciências políticas do futuro: “Como destruir um continente com consentimento diplomático”. E enquanto isso, o povo? Ora, o povo continua fora do palco, como figurante sem fala no teatro das nações. O povo, está vendo o presidente de Gabão dançando break dance com o chapéu assinado por Trump escrito algo já gravado na consciência dos imigrantes pobres "Make America Great Again" produzidos numa fábirca chinesa. 




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