quinta-feira, 31 de julho de 2025

Angola Treme, Portugal Grita: João Lourenço e André Ventura na Política do Espetáculo

Diretamente daquilo que os angolanos chamam de sua 19ª província não-oficial, São Tomé e Príncipe — onde se fala mais sobre Luanda do que sobre Santana — assisto, atônito (e algo resignado), à série distópica que é a atual realidade angolana. Começa com um aumento do preço do petróleo, passa pelo efeito dominó no combustível, culmina numa inflação galopante e acaba... em carros incendiados, lojas pilhadas, jovens mortos nas ruas e “engajamentos” de ativistas digitais com Wi-Fi europeu. 

Enquanto isso, João Lourenço segue firme no cargo, mas cercado. Por um lado, o povo faminto e cansado. Por outro, os barões do seu próprio partido, o MPLA. E, em um terceiro e surpreendente flanco: André Ventura, líder da extrema-direita portuguesa e autodeclarado salvador da civilização lusitana contra imigrantes e outros bodes expiatórios do costume.

Ventura, numa estratégia que mistura pragmatismo de campanha com o charme de um vendedor de telemóvel de segunda mão, identificou um nicho: a diáspora ressentida. Aqueles que fugiram de Angola em busca de um sonho europeu e que hoje oscilam entre o orgulho e o desconforto. Ventura promete-lhes reconhecimento, culpa os "outros" e, como qualquer populista de manual, oferece uma identidade nova aos deslocados.

Quero deixar aqui as minhas palmas mais ruidosas a André Ventura — um verdadeiro génio da esperteza lusitana. A sua estratégia é de uma sofisticação rasteira exemplar. Ele percebeu rapidamente que não havia glória em seguir o caminho da decência institucional. Afinal, esse é um trilho reservado aos bem-nascidos, e não aos sobreviventes da taberna e do canal do YouTube. Ventura usou com mestria o seu ativo mais precioso: o medo embrulhado em patriotismo barato. Os portugueses — esses mesmos que espalharam filhos pelo mundo inteiro, da Venezuela à Suíça — agora fingem que nunca foram imigrantes. E Ventura, com a graça de um ilusionista de feira, aponta o dedo para o óbvio: “um país tem que proteger as suas fronteiras!”

Mas o toque de mestre vem agora: ele não morde a mão dos verdadeiros tubarões. Os sefarditas com golden visas? Silêncio. Os magnatas imobiliários que compram Lisboa a retalho? Intocáveis. Os nômades digitais que pagam 3.000 euros por um T1 e empurram os lisboetas para a Azambuja? Ventura nem os vê — é míope seletivo. Prefere esmurrar os que já vêm com os olhos roxos: pobres, cegos e estrangeiros sem lobby. A esquerda, coitada, ainda tenta compreender com indignação moral, e o PSD, em crise de identidade, tropeça atrás dele como um cão com medo de perder o osso. Não me surpreenderia se, em breve, Ventura surgisse em Fátima, envolto em neblina, proclamando ser a reencarnação de Dom Sebastião, pronto para fundar a Lusitânia — desta vez com vídeos em direto e patrocinado por suplementos de testosterona - e toda a diáspora africana estará do seu lado, essa diáspora que lhe parecerá mais Al-Andaluz. 

Da mesma forma que Trump atacava a mídia e os democratas, Ventura investe contra os governos africanos aliados ao PS ou PSD. Ele sabe que não vai governar Angola (nem quer), mas sabe que pode usar Angola para governar Portugal. Como? Simples: atacando João Lourenço, ele ganha pontos com os angolanos-portugueses que se sentem traídos pelos dois lados. A lógica é cristalina: "Se João é mau para Angola, então quem o ataca é amigo dos angolanos". Parece simplista. É. E funciona.

E foi assim que o CHEGA se tornou o partido preferido dos portugueses em São Tomé e Príncipe em algumas urnas, ultrapassando PS e PSD, num feito que faz Salazar gargalhar no túmbo. 

Ventura não está sozinho nesse teatro. Em Moçambique, tentou aproximação com Venâncio Mondlane, o opositor fora da linha do FRELIMO. Não por amor aos moçambicanos, mas porque qualquer figura que bata no sistema africano tradicional é uma aliada potencial contra os governos portugueses comprometidos com esses mesmos regimes. Ventura é como um hacker político: explora cada brecha do sistema.

Do lado angolano, João Lourenço responde com a tática mais previsível de todas: medo. Mais tropa, mais repressão, mais mortos. Só que a tática, antes eficaz, agora ecoa numa população mais conectada, mais informada e cada vez mais desesperada. E desesperados, como bem diria Maquiavel, são difíceis de governar sem oferecer ou terror absoluto ou uma miragem de esperança. Como ele não consegue oferecer nem um nem outro, sobra-lhe apenas o improviso à base de porrada e propaganda.

Para piorar, a imagem internacional do governo degrada-se. As pilhagens são filmadas. Os corpos, fotografados. As repressões, denunciadas. E o Ocidente? Finge que não vê — afinal, depende de quem controla o petróleo. "They don’t care, bro!"

Prognóstico final? Uma frente quente de balas, seguida de um nevoeiro denso de negociações tímidas. O futuro de Angola será decidido menos por ideologia e mais por logística: quem controla os recursos, os microfones e os algoritmos.

E Ventura? Vai continuar. Explorando ressentimentos, reciclando pânicos, reinventando vilões. Não porque quer salvar Portugal. Mas porque quer salvá-lo para si. Ou talvez de facto queira salvar Portugal,

João Lourenço, por sua vez, não luta mais pela presidência. Luta pela sobrevivência. Medo de que o que se passou com a família Dos Santos ocorra também com a famíia Lourenço. E se contar com os seus bens fora de Angola enquanto ativo, então - basta se lembrar o que foi feito com os ativos da imperatriz Isabel dos Santos. Ó história, sua safada, sempre a querer se repetir!

E é por isso que a tempestade não é apenas metáfora. É previsão - o silêncio ou silenciamento de uma oposição tímida e Angola; os Populares famintos dispostos à tudo; os barrões de MPLA de braços cruzados e João Lourenço tentado assegurar o seu reinado numa era digital demais; os negociantes de petróleo e outras commodities parecem acenar para uma negociação mais íntima com propostas  irrecusáveis - O que fazer John Wick? Qual caminho vai seguir JLO?


quinta-feira, 24 de julho de 2025

Trump e os Monarcas de Papelão: Uma Crônica para Quem Ainda Crê na Soberania Africana


Eis que, num dia qualquer de nossa era gloriosamente neoliberal, o sempre nostálgico ex-presidente Donald Trump decidiu convidar alguns chefes de Estado africanos — Gabão, Guiné-Bissau, Libéria, Mauritânia e Senegal — para um chá diplomático na Casa Branca. A reunião foi vendida como “histórica”. E de fato foi: histórica na forma como conseguiu comprimir séculos de colonialismo, paternalismo e vassalagem simbólica em algumas horas, algumas selfies e muitos sorrisos. Faltaram só as palmas de pé. 

As imagens que circularam poderiam perfeitamente ser confundidas com um meet & greet entre um astro decadente de reality show e seus seguidores devotos. Os presidentes africanos, homens adultos, com cargos de chefe de Estado, constitucionalmente autorizados a comandar exércitos e assinar tratados pareciam alunos da Harvard of Humilhação, prontos a ganhar uma estrela dourada do professor Trump pelo bom comportamento.

Não que eu esperasse outra coisa. A África oficial já há algum tempo tem sido uma peça de teatro cujo público-alvo está fora do continente. Um espetáculo de elites desideologizadas, convertidas em síndicos coloniais com crachá de "parceiros estratégicos". E se tudo isso soa amargo, permita-me: trata-se apenas de realismo dialético.

Aliás, é preciso compreender o contexto: quando Trump, num rasgo de sensibilidade cultural, se surpreendeu com o “excelente inglês” de um presidente africano, ele só ignorava um detalhe menor — o presidente era da Libéria. Um país fundado por afro-americanos libertos dos EUA. Mas esperar que Trump entenda isso seria como pedir a um tubarão que compreenda as dores existenciais dos peixes. Ele faz o que sempre fez: tenta dominar, vender e parecer superior. A tragédia não é Trump — é quem se curva.

Axelle Kabou já nos avisava: o drama africano não é a dominação — é a vontade voluntária de ser dominado. Em Et si l’Afrique refusait le développement?, ela desmascara a elite africana que, vestida de independência, continua a rezar o catecismo de Paris e Washington com zelo de seminarista. É o que vemos. Uma elite que não sabe construir estradas, mas sabe voar para conferências internacionais. Que não planta alimentos, mas colhe relatórios de ONGs. Que não educa o povo, mas escreve discursos sobre o “empoderamento”.

Achille Mbembe já classificou isso como terceirização do poder: os governos africanos administram a miséria para os de cima, enquanto posam de estadistas para os de fora. O neoliberalismo, com sua pedagogia perversa, ensinou aos nossos governantes que a dignidade nacional pode ser trocada por convites VIP. É a velha lição do capataz: esteja limpo, sorria para o senhor, e talvez ele te ofereça um whisky depois do serviço.

E aí entra Fanon, sempre ele. Em Os Condenados da Terra, ele nos lembra que a burguesia africana — aquela que deveria liderar o processo de libertação — se especializou em simular revolução para melhor administrar a colônia. No lugar da violência libertadora, escolheram os jantares com o embaixador. No lugar da autonomia econômica, assinaram memorandos com o FMI. Substituímos os colonizadores por gerentes locais da mesma máquina.

Hoje, nossos presidentes falam de "governança", "resiliência", "inclusão digital" — mas tudo o que governam são orçamentos vigiados, tudo o que resistem são greves populares, e tudo o que incluem são suas famílias em empresas offshore. E quando Trump os chama, lá vão eles, ajustando os ternos, ensaiando sorrisos, prontos a se tornarem figurantes no reality show do capital ocidental.

Mas sejamos justos: talvez eles não tenham escolha. É fácil para nós, intelectuais, com tempo para escrever colunas indignadas, julgar quem tem que manter as luzes acesas com empréstimos condicionados. Como diria Gramsci, o cinismo é uma forma de impotência intelectual — mas, às vezes, é tudo que nos resta para sobreviver ao grotesco.

No fim das contas, a tal reunião foi um espelho. E como todo bom espelho colonial, refletiu o que somos quando aceitamos ser governados por aqueles que medem soberania pelo acesso à Casa Branca. Os velhos colonos nos queriam obedientes. Os novos apenas nos querem funcionais.

A imagem dos presidentes sorrindo ao lado de Trump deveria estar estampada nos manuais de ciências políticas do futuro: “Como destruir um continente com consentimento diplomático”. E enquanto isso, o povo? Ora, o povo continua fora do palco, como figurante sem fala no teatro das nações. O povo, está vendo o presidente de Gabão dançando break dance com o chapéu assinado por Trump escrito algo já gravado na consciência dos imigrantes pobres "Make America Great Again" produzidos numa fábirca chinesa. 




quarta-feira, 16 de julho de 2025

Venâncio Mondlane Está Jogando Damas em um Tabuleiro de Xadrez? - Notas para uma crítica da estratégia política no espectro da pós-democracia

Ao observarmos os últimos movimentos políticos de Venâncio Mondlane, a sua recente visita a Portugal, o encontro com partidos como Iniciativa Liberal e Chega, e o lançamento mercadológico da marca VM7, somos levados a interrogar não apenas os efeitos práticos dessas ações, mas também os horizontes simbólicos e estratégicos que elas revelam. A pergunta que proponho, com ironia carregada de gravidade, é esta: estaria Venâncio jogando damas em um tabuleiro de xadrez?

A analogia serve a um propósito crítico. No jogo de damas, cada peça move-se da mesma maneira. Não há hierarquia senão a da "dama" final, e o objetivo é eliminar o adversário num embate direto. Já no xadrez, o jogo é marcado por complexidade estrutural, cada peça carrega um papel distinto, e a vitória raramente se dá por confronto direto: ela resulta de estratégia, antecipação e acima de tudo, coerência.

I. A Internacionalização Improvisada: Realpolitik ou Contradição Ideológica?

A ida de Venâncio a Portugal e seu encontro com figuras da Iniciativa Liberal e, sobretudo, do partido Chega, não é um movimento neutro. É uma opção. E como toda escolha política, ela deve ser compreendida à luz das alianças que constrói e dos valores que comunica.

Chantal Mouffe, ao escrever sobre o agonismo político, lembra-nos de que a disputa democrática não é entre amigos, mas entre adversários que partilham um compromisso comum com as regras do jogo democrático. Nesse sentido, alianças com grupos de extrema-direita  como o Chega, que propaga uma retórica xenófoba, ultraconservadora e anti-imigração, não apenas ferem esse compromisso, como obscurecem a linha entre adversário legítimo e inimigo da democracia.

Venâncio não é ingénuo. Ele sabe, como todos os políticos modernos, que a comunicação precede a ideologia. Mas ao se aproximar de um partido que representa o backlash europeu contra a mobilidade africana, ele envia sinais ambíguos não apenas ao eleitorado moçambicano, mas à comunidade internacional que o observa como possível renovador de uma democracia em fratura.

Como lembra Antonio Gramsci, “toda relação de hegemonia é necessariamente uma relação pedagógica”. Isto é, o líder político deve formar o senso comum, e não simplesmente reproduzi-lo. Ao legitimar o Chega, Venâncio pode estar tentando mostrar-se pragmático, cosmopolita, aberto ao diálogo, mas o que ensina, nesse gesto, é que vale tudo pelo poder. A pedagogia que se extrai desse gesto é regressiva.

II. A Mercantilização da Rebeldia: O Símbolo Tornado Produto

No outro eixo da sua campanha, Mondlane investe na marca pessoal VM7 . Um número que ressoa como codinome, fórmula publicitária e emblema revolucionário. Nada mais legítimo no mundo contemporâneo, onde a política se faz tanto nos palanques quanto nas redes. Mas o processo pelo qual uma imagem de ruptura se transforma em mercadoria deve ser examinado com cautela.

Guy Debord, em A Sociedade do Espetáculo, afirma que “tudo o que era vivido diretamente se esvai numa representação”. O símbolo da luta transforma-se em logo; a palavra de ordem vira camiseta; a revolução é embalada como produto de consumo. Em um primeiro momento, isso pode parecer astuto. A marca torna-se veículo de disseminação de ideias, entra nos mercados, viraliza, circula. Mas há um custo.

Nancy Fraser, discutindo a lógica do “capitalismo progressista”, mostra como certos signos de emancipação podem ser absorvidos pelo mercado e desprovidos de seu conteúdo transformador. A marca VM7 corre o risco de tornar-se um avatar vazio: símbolo sem substância, rebeldia sem programa, estilo sem estrutura. A pergunta que o eleitor se fará — mais cedo ou mais tarde — será: VM7 é o quê, exatamente? É um projeto político? Uma hashtag? Um produto?

III. Entre Bauman e Schmitt: Estratégia ou Ambiguidade Moral?

Zygmunt Bauman diria que vivemos em tempos líquidos: os compromissos são efêmeros, as alianças são táticas, e a identidade política é moldada por algoritmos e narrativas mutantes. Nesse contexto, não surpreende que um político como Venâncio se mova por entre espectros ideológicos diversos, flertando com liberais, conservadores e radicais. A liquidez, contudo, exige um lastro que é exatamente isso que parece ausente.

Carl Schmitt, ao falar do inimigo político, lembra que todo regime político se define menos pelos seus amigos do que por quem escolhe combater. Se Venâncio quer ser o rosto da alternativa democrática, então precisa tornar claro quem são os inimigos dessa democracia. Não se trata de ódio pessoal, mas de definição de campo político. Quem tudo abraça, nada enfrenta. E quem nada enfrenta, não lidera.

IV. Considerações Finais: O Risco da Tática Sem Estratégia

A política é, por definição, a arte de fazer escolhas sob pressão. Mas a diferença entre um estadista e um oportunista está na coerência de suas decisões. Venâncio Mondlane tem uma base, um discurso, e um momento. Mas parece, neste instante, embaralhar as peças no tabuleiro e jogar damas onde se exige xadrez.

Uma estratégia de marketing não substitui um projeto nacional. Uma selfie com um político europeu não substitui alianças populares. Uma marca não substitui um movimento. E o mais perigoso: ao tentar tornar-se tudo para todos, pode-se tornar irrelevante para cada um.

Mondlane ainda pode corrigir o rumo. Ainda pode construir pontes sem abrir mão da clareza. Mas para isso, precisa abandonar a lógica da performance e retornar à substância do projeto. Porque a história como o xadrez,  não perdoa movimentos em falso.

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Relatos de um poeta insular: As Vacas Profanas da Nova Ordem

Daqui, destas terras insulares e pequeninas deste enorme continente — longe da costa e pequenas demais para figurarmos em muitos mapas — fala-vos um privilegiado: filho da união entre os arquipélagos e o continente. De São Tomé, herdei o ceticismo dos que vivem entre marés; do meu pai congolês, recebi a paixão pelo pan-africanismo e a crença profunda de que a nossa liberdade intelectual, financeira e nacional deve ser conquistada todos os dias.

Quero começar narrando os dias atuais a partir de uma história que desafiou meu pensamento internacionalista. Quando a Líbia mergulhava no caos, um grupo de presidentes africanos, através da União Africana, sugeriu ao Ocidente que esperasse um pouco. Eles tentariam uma resolução pacífica. A resposta foi clara: “Se viajarem para a Líbia, vossa segurança estará comprometida.” E todos voltaram para seus países — para os seus salões climatizados — e assistiram, inertes, ao desmoronamento de uma nação que tanto ajudara o continente. A Líbia tornou-se um Titã que engole seus próprios filhos… e agora engole também a nossa consciência. Maldito Chronos.

No meu último ano de licenciatura, no Brasil, vaticinei duas coisas que se tornaram reais — talvez por clarividência ou talvez por evidência: a vitória de Bolsonaro e de Trump. Já então percebia que a esquerda abandonava o materialismo histórico para se perder em identitarismos performáticos, enquanto a direita oferecia soluções simplistas à fome e à segurança pública. O Brasil, na figura de Dória, chegou a propor ração humana para os pobres — uma anedota trágica. E claro, armas para todos, inclusive para os que mal podiam pagar pelo almoço. O pobre passou a se imaginar como um Rambo empreendedor, nutrido a rações de sobrevivência e pílulas espirituais vendidas por gurus digitais e influencers de fé barata.

Veio depois a era dos nacionalismos “interessantes”. As sementes das guerras mundiais voltavam a ser plantadas — só que agora com cobertura em tempo real e pitadas de ironia. As Nações Unidas tornaram-se impotentes. Os seus financiadores passaram a investir diretamente na guerra. E quanto mais os novos líderes supremos falavam em nome de vacas sagradas e impérios imaginários, mais eu entendia o meu lugar no mundo enquanto africano.

Se um líder africano dissesse o que Trump diz sobre o resto do mundo, sofreria bloqueios econômicos e, em última instância, drones moralistas sobrevoando a sua soberania. Fui mais longe: se um país identifica Israel ou os EUA como ameaça — teria, então, o direito de se antecipar e atacar? Fiquei sem resposta.

Pequeno, santomense, no centro do mundo, comecei a acompanhar os discursos do Chega e de André Ventura com certa atenção. Le Pen, Meloni, Orbán, Fico — grandes senhores do nacionalismo europeu, cavando as ruínas da União Europeia. Mas o problema não está aí. Quando Ibrahim Traoré diz as mesmas coisas sobre os recursos do seu país e quem deve ou não explorá-los, vira quase um terrorista aos olhos do Ocidente. Mesmo com dados a apontarem para outro rumo. Nacionalismo é privilégio ocidental; no Sul global, é crime, é ameaça. A não ser, claro, que se chame Kagame e receba os aplausos de sempre, por razões que só o Congo entenderá.

Israel, outrora cordeiro, símbolo das vítimas do século XX, agora repete atos de barbárie contra os palestinos e contra todos os não-judeus da região. Por muito menos, a Rússia foi banida do sistema SWIFT. Israel elaborou uma dieta calórica estratégica para Gaza — um jejum forçado, secura e atletismo fugindo dos escobros e dos mísseis após um aviso prévio. E agora, o primeiro-ministro alemão declara, durante a cúpula do G7: “Das ist die Drecksarbeit, die Israel macht für uns alle.” ("É o trabalho sujo que Israel faz por todos nós.") O céu de Teerã brilha com mísseis. Tel Aviv responde com mísseis. Uma guerra absurda, insana. Iranianos, agora generalizados como “árabes radicais”, mesmo quando o Irã tem representantes judeus no Parlamento. E sobre a Arábia Saudita, o Qatar, os “amigos ricos” — silêncio. A moral é um luxo reservado à conveniência. Joguemos fora a Bíblia. Deixemos que Maquiavel, e não Moisés, nos conduza neste mundo de Leviatãs e senhores da guerra — este mundo órfão de Kissinger.

E meu medo continua. Medo da ingenuidade pan-africana. Em vez de nos tornarmos potência tecnológica e econômica, estamos presos a promessas de reparações que nunca virão. Continuamos sob a marca de Cam — não somos bem-vindos em parte alguma. Nossa cultura, que moldou o mundo, é rejeitada. Depois de 400 anos sob o chicote colonial, o que aprendemos foi ler a Bíblia, louvar o Cristo e engolir a história daqueles que nos dominaram. Acreditamos nas Nações Unidas — nosso “amigo” português grita, mas os financiadores continuam surdos. Confiamos na União Africana, que viu tantos líderes desaparecerem. Ou na China, ou na Rússia... sem jamais termos criado uma nossa cartilha, uma agenda, uma doutrina estratégica como eles têm conosco.

O Ocidente chama de “amigo” quem lhe é útil. E nós, o Sul Global, aceitamos o alimento que nos é dado pela mesma mão que matou o porco da sala ao lado. Este pequeno insular, meio congolês e meio santomense, sabe: não se trata de amizade. Cada país defende o seu interesse — como deve ser. A pergunta é: por que não fazemos o mesmo? Por que não protegemos os nossos interesses? E o eco me responde:

— Ivanick, quais interesses?

— Teus amigos estão mais preocupados com classe executiva, marcas de luxo e distrações passageiras do que com a construção de uma África unida e forte.

E eu entristeço-me.

Meu pai ainda reverbera em mim.

Sigo idiota. Sigo idealista. Tentando contribuir com um verso honrando o meu pai e os meus ancestrais.

sexta-feira, 6 de junho de 2025

Os PALOP e o Delírio da Unidade: Um Romance Mal Acabado com Portugal como Narrador

Interlúdio: A nova fraternidade e o voto contra nós

Somos irmãos, sim — quando escolhemos consultores portugueses para projetos que podíamos gerir sozinhos, quando aceitamos que sejam portugueses a intermediar negócios entre financiadores internacionais e países africanos de língua oficial portuguesa, quando abrimos as portas dos nossos governos e das nossas praias a empreendimentos com sotaque europeu e promessas em PowerPoint.

Mas experimentemos nós ir para lá — com ambição, com diploma, com ideias. Aí, os irmãos tornam-se carcereiros. Os novos partidos da extrema-direita europeia — que cresceram confortavelmente sob o silêncio cúmplice da velha esquerda — fazem da nossa presença um incômodo, um perigo, um “problema a resolver”.

E o mais perverso: muitos desses que hoje votam pelo nosso exílio são os mesmos imigrantes que enriqueceram nos nossos países. Fizeram dinheiro em Luanda, Bissau, Maputo e São Tomé, abriram padarias, construíram escolas privadas, conquistaram mercados — e agora, da diáspora, votam com entusiasmo para expulsar-nos de uma Lisboa erguida com ouro brasileiro e suor africano. Uma Lisboa onde a calçada brilha sobre ossadas e a memória se lava com vinho verde.

Somos irmãos, sim. Irmãos num retrato pendurado na parede, mas não no testamento.


A Irmandade num voo de cabeça através da RTP África

“Chamam-se irmãos, mas vivem como vizinhos que não se cumprimentam. E, quando se escrevem, o correio passa por Lisboa.” — se Lumumba estivesse vivo, talvez dissesse isso antes de apagar a luz e desligar a RTP África.

Vamos aos fatos, com a crueza que só a frustração alimenta: os PALOP — essa sigla melancólica que nos vende a imagem de uma fraternidade lusófona africana — não conseguem sequer marcar um voo direto entre si. De Luanda a Bissau, de Maputo a São Tomé, de Cabo Verde a Moçambique, não se constrói nem uma ponte aérea, quanto mais uma ponte de verdade. Para nos encontrarmos, temos de fazer escala em Lisboa, como bons ex-colonizados que ainda precisam do selo metropolitano para garantir o bilhete.

Portugal continua a ser o mediador oficial da nossa comunicação.
Quer saber o que acontece na Guiné-Bissau? Ligue a RTP África. Quer ouvir os debates de Angola? Espere o programa português fazer o “giro dos PALOP”. Somos como filhos que só se conhecem porque a madrasta europeia insiste em organizar jantares familiares. Não há estrutura nossa, canal nosso, nem vontade nossa de nos ouvirmos diretamente.

O PALOP não voa — nem metafórica, nem literalmente

Falamos de integração sul-sul, lusofonia, irmandade histórica... mas somos apenas ilhas emocionais cercadas de passado por todos os lados. A sigla PALOP funciona melhor como desculpa para relatórios da cooperação do que como política pública concreta. Não há bancos comuns, nem redes de universidades integradas, nem linha marítima, aérea ou sequer política que nos una de fato.

O que temos? Palavras. E talvez seja por isso que os PALOP ainda existam — porque são uma invenção sem consequências. É fácil dizer que somos irmãos quando não há exigência de convivência. Nenhum casamento sobrevive sem encontros. E nenhuma comunidade se sustenta se precisa de autorização da antiga metrópole para levantar voo.

CPLP: um clube de chá com sotaques diversos

E se os PALOP falham, será a CPLP a resposta? A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa é, em muitos momentos, mais salão do que comunidade, mais vernissage diplomática do que bloco de integração. É onde se serve vinho do Porto, se entrega medalhas e se discursa em português clássico enquanto os voos entre os próprios países-membros continuam passando por hubs europeus. Um espetáculo de cortesia lusitana com pouco impacto na mobilidade, economia ou cooperação prática.

Enquanto isso, a juventude africana lusófona migra para Portugal. Não para Bissau. Não para Luanda. Para Lisboa. Porque é mais fácil e menos penoso. Porque temos mais voos para Frankfurt do que para Maputo. E porque o nosso sonho ainda carrega, envergonhado, o selo “made in Europe”.

Quem lucra com esse silêncio aéreo?

O vazio entre nós não é apenas geográfico: é político. Porque manter os PALOP desconectados mantém cada país pequeno, isolado, vulnerável. E, convenhamos, ninguém gosta de uma África unida e auto-suficiente, ainda mais se falar português e decidir pensar por conta própria.

Portugal continua sendo o grande curador da nossa língua, da nossa imagem e das nossas narrativas. E nós, como bons colonizados emocionais, ainda batemos palmas quando nos convidam para os salões de Lisboa para debater “a importância da cooperação”. No fim, voltamos aos nossos aeroportos vazios, onde nenhuma aeronave voa até ao irmão mais próximo.

O que nos falta?

Falta vergonha. Vergonha de aceitar esse arranjo ridículo.
Falta rebeldia. Rebeldia para romper com o mapa que nos foi imposto.
Falta-nos fazer da língua comum um caminho real, não apenas literário.
Falta-nos dizer: ou voamos entre nós ou deixamos de falar em irmandade.

Porque, sejamos claros: PALOP não é comunidade, é nostalgia. E CPLP, sem coragem política, é apenas um glossário de boas intenções em papel timbrado.

Até lá, seguimos vendo os nossos irmãos pela RTP África, como se estivéssemos todos numa Casa dos Segredos, comentados por apresentadores lusitanos. Esperando um dia sermos notícia... entre uma novela e um noticiário sobre o preço do bacalhau.


sexta-feira, 30 de maio de 2025

“Chega, mas não entra”: Portugal, a faxina do passado com vassoura do presente

Lisboa, 2025 — O império caiu, mas a arrogância ficou. Entre um brunch vegano em Alfama e um café de especialidade em Marvila, ecoa uma nova epopeia nacional: proteger Portugal da maior ameaça contemporânea — o imigrante que lava pratos, envia remessas e ainda tem a ousadia de sonhar com residência legal.

Não se enganem: não estamos a falar dos magnatas nórdicos que compram casas para o golden visa ou dos nômades digitais que elevam os preços do metro quadrado enquanto geram conteúdo sobre “slow living in Europe”. Não. O inimigo da vez é a senhora angolana que apanha dois autocarros para servir sopa a tempo e horas. O Chega sabe o que faz: transforma o ressentimento popular numa arma política e o racismo institucional numa estratégia de campanha. De megafone em punho, grita-se pela ordem — mas só contra quem já nasceu do lado errado da fronteira e da história.

Colonialismo 2.0: com selo, código fiscal e cartão de contribuinte

Na nova versão do “fardo do homem branco”, Portugal trocou a catequese pela burocracia. Se antes vinha a cruz e a espada, agora vêm o SEF (ou o seu sucessor rebranded, AIMA), as filas para renovar o título de residência, os contratos temporários com salário mínimo e o sorriso hipócrita da inclusão. É o velho jogo da subjugação, com nova embalagem europeia e assinatura digital.

A extrema-direita, romântica como sempre, chora pela pureza da pátria que nunca existiu e denuncia o “revanchismo histórico” africano. Como se o desejo de viver com dignidade em Setúbal fosse uma revanche por séculos de pilhagem, escravização e imposição cultural. Pobres colonizadores cansados — deram tudo e agora recebem... mão de obra que fala crioulo e sabe usar o WhatsApp.

PALOP: parceiros na CPLP, intrusos na porta ao lado

O imigrante dos PALOP é um caso peculiar: é irmão na CPLP, mas vizinho incómodo no T2. É parceiro de cooperação nos relatórios da OCDE, mas fila indesejada no balcão da Segurança Social. Vive o paradoxo lusófono: canta Xutos e Pontapés, bebe Sagres, vê a RTP África, mas é lembrado todos os dias de que está “a mais”.

Enquanto isso, os governos africanos balançam entre o pragmatismo diplomático e a vergonha mal disfarçada. Assinam memorandos, recebem comitivas e celebram o intercâmbio cultural, enquanto seus jovens formados em engenharia trabalham como ajudantes de cozinha no Cacém.

O truque do racismo europeu: ver os pretos, não os patrões

Quando o português branco, empurrado pelo preço da renda e a precarização generalizada, entra num autocarro cheio e só vê corpos negros e árabes, a narrativa cola. É mais fácil culpar quem também está na lama do que olhar para cima e ver quem segura a mangueira de água suja.

Mas não se vêem os suecos com teletrabalho e apartamentos com vista para o Tejo. Nem os fundos imobiliários, nem os chineses com cidadania de papel. O racismo estrutural tem olhos seletivos e memória curta. E o Chega faz disso capital político.

Maquiavel faria contas

Se Fanon nos ensinou a cuspir no opressor, Maquiavel lembraria que cuspir sem estratégia é só desperdício. A verdade é que os países dos PALOP ainda vivem acorrentados não por grilhões, mas por dependências orçamentais, acordos comerciais assimétricos e ilusões diplomáticas. A fragilidade está em tudo: desde a balança comercial negativa até à ausência de soberania monetária.

Não somos tratados como parceiros — somos mantidos como satélites úteis. E isso não é ressentimento, é aritmética. Portugal detém os fluxos de capital, os canais culturais, a tecnologia e a vantagem diplomática. Nós ainda mendigamos cooperação como se fosse caridade.

Enquanto isso, os nossos melhores cérebros migram, as nossas elites se formam em universidades portuguesas e voltam falando como colonizadores reciclados. Continuamos vulneráveis porque confundimos intercâmbio com dependência, e amizade com subordinação. A real independência — a que se expressa em tecnologia, moeda, educação crítica e soberania alimentar — ainda está por acontecer.

E Portugal?

Portugal terá que escolher entre duas nostalgias: a do império ou a da justiça. E, por enquanto, escolheu manter o trono, mas esvaziado de ideias — apenas decorado com saudade e ressentimento. Quer “ordem”, mas não toca nos bancos, nos patrões nem nas grandes construtoras. Quer “identidade”, mas não questiona a desigualdade social. Quer “cultura”, mas exporta fado e importa mão de obra.

Conclusão?

A imigração dos PALOP não é uma ameaça. É uma radiografia. E o que ela mostra é um corpo europeu cansado, hipócrita e viciado em terceirizar culpa.

Se fosse Kissinger a olhar para o continente africano, diria que os afetos são irrelevantes e que o que move as nações é o interesse, não a justiça. A África dos PALOP continua a ser vista como uma zona de influência estratégica, útil enquanto submissa, descartável quando reivindica soberania.

Portugal não precisa amar nem odiar os seus “irmãos lusófonos”; basta manter a vantagem. E manter a vantagem, em termos kissingerianos, significa controlar os fluxos: de mão de obra, de cultura, de recursos. O dia em que esses países africanos perceberem que não precisam da tutela emocional nem da saudade colonial de Lisboa, o jogo muda. E Portugal perde sua posição sem disparar um tiro.

A lição? Quem não tem poder, tem que negociar com frieza. Quem não tem soberania, será sempre um peão no tabuleiro de alguém.

quarta-feira, 21 de maio de 2025

Entre o Aperto de Mãos e o Aperto da Bota: A balada da Paz em Promoção e a Justiça Fora de Estoque

O Nascimento da Tragédia 

No palco moçambicano, onde o drama político se desenrola entre cortinas de veludo e bastidores de ferro, o recente reencontro entre Daniel Chapo e Venâncio Mondlane — um com a caneta do poder, outro com o título autoconcedido de “Presidente Eleito Pelo Povo” — oferece um espetáculo digno da pena mordaz de Voltaire e da frieza estratégica de Maquiavel.
É verdade, senhores, que um aperto de mãos pode calar espingardas. Mas também pode servir para encobrir a continuidade de um sistema cuja essência se alimenta do silêncio, da impunidade e da simulação da paz. Como diria Maquiavel, "os homens julgam mais com os olhos do que com as mãos", e a política é a arte de parecer virtuoso mesmo quando se governa pelo medo.

De Gaulle, se vivo estivesse, diria: “Moçambique não é uma mesa redonda — é uma bomba-relógio disfarçada de reunião de comadres.”

E Marx escreveria: “A história se repete: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa, a terceira como comunicado da Presidência.”

É preciso dizer o óbvio: este país está exausto de encontros secretos e apertos de mão em lugares míticos. O que Moçambique precisa não é de fotos. É de justiça. Não é de consenso estranho. É de respeito ao voto, à vida, à dignidade.
Enquanto os “líderes” falam em reconciliação, o povo segue sem pão, sem remédio e sem voz. E, pior: sem esperança de que algo mude quando os protagonistas são sempre os mesmos, apenas em trajes diferentes.

A estética da conciliação, o vazio da justiça

Num cenário cuidadosamente montado, Chapo e Mondlane reeditam o gesto simbólico do “aperto de mãos”, num ritual que visa apaziguar os ânimos da plebe — ou pelo menos parecer que se apazigua. Mondlane exige prazos e monitoramento para libertação de detidos políticos, assistência médica às vítimas e programas juvenis. Promessas nobres, sem dúvida. Mas também conhecidas. Já vimos essa peça antes.
E como Voltaire nos ensinou, "é perigoso estar certo quando o governo está errado." Quem são os detidos senão jovens que ousaram duvidar da pureza do processo eleitoral? Quem são os feridos senão cidadãos que, com a ingenuidade do povo de Cândido, acreditaram que este é “o melhor dos mundos possíveis”?

A paz como produto político

Daniel Chapo fala em “paz e segurança” como pré-condições para o desenvolvimento. Não é novo. Todo regime que teme a liberdade adorna o seu discurso com os sinos da paz. Mas como Maquiavel adverte em O Príncipe, "é mais seguro ser temido do que amado, quando se não pode ser ambos." A paz proposta é uma paz sob tutela, sob vigilância, e sobretudo, sob condições impostas por quem sempre teve o monopólio das armas, das leis e da narrativa.
A tal “inclusividade” do diálogo parece mais um eufemismo de conveniência. Quantos dos “outros extratos sociais” realmente participam? Onde estão os agricultores sem terra, os mineiros expropriados, as mulheres que enterram os filhos mortos pela polícia ou pela fome?

A utilidade da oposição domesticada

Venâncio Mondlane, nesta peça trágico-cômica, parece oscilar entre o mártir e o colaborador. Ao aceitar sucessivos encontros “secretos” ou “simbólicos” sem resultados concretos e verificáveis, arrisca-se a ser percebido não como líder insurgente, mas como parte do sistema que finge combater. Maquiavel teria sorrido: o príncipe mais astuto é aquele que convence o adversário a selar a paz enquanto ainda sangra.
Voltaire, por sua vez, perguntaria: “É esse o melhor diálogo possível?” Quando as prisões se enchem de jovens por protestarem e o governo responde com comissões e sorrisos, há mais de tragédia do que de esperança nesse script.

A função do bastonário e os bastidores da legalidade

A presença do Bastonário da Ordem dos Advogados parece emprestar um verniz jurídico à negociação — um gesto que, à primeira vista, confere solenidade, credibilidade e esperança de que o diálogo ocorra dentro dos marcos do Estado de Direito. Contudo, quando a legalidade precisa ser invocada como exceção — e não como regra — a própria ideia de justiça entra em colapso.

Um Estado que deve ser convencido a cumprir as leis que ele mesmo sancionou já se encontra em negação do seu próprio fundamento. Já não governa pela norma, mas pela conveniência. Nesse teatro, o Direito deixa de ser a estrutura sobre a qual a sociedade repousa e passa a ser uma peça cenográfica: bonito, necessário para compor o cenário, mas removível sempre que o enredo exigir. Como adverte Walter Benjamin, no seu ensaio "Para uma crítica da violência", a autoridade estatal tende a usar o direito não como instrumento de justiça, mas como instrumento de conservação da própria violência legalizada.

É nesse paradoxo que a figura do bastonário se torna simbólica e trágica. Sua presença, ao mesmo tempo que sinaliza um desejo de institucionalidade, pode inadvertidamente legitimar um jogo onde a legalidade virou performance. Hegel já havia dito que o Estado é a "realidade da ideia ética" — mas quando o Estado se divorcia da ética, resta apenas a aparência formal da lei, manipulada por aqueles que dominam a linguagem do poder.

A legalidade, nesse contexto, torna-se cúmplice da simulação. Aquilo que deveria proteger o cidadão transforma-se em ferramenta de pacificação simbólica. O bastonário vira então uma figura ambivalente: ou age como guardião vigilante da Constituição — mesmo contra o Estado — ou torna-se testemunha involuntária de um pacto que reafirma a hegemonia sob a aparência do diálogo.

A pergunta que persiste é: a lei serve para limitar o poder ou apenas para dar-lhe um rosto aceitável?

Como lembraria Giorgio Agamben, vivemos num tempo em que o estado de exceção se tornou regra, e nesse tempo, até os juristas são arrastados para a lógica perversa da excecionalidade: fingir normalidade enquanto se suspendem os direitos.


Conclusão: Paz sem Justiça é Pantomima

A história julgará estes encontros não pelos comunicados de imprensa nem pelas fotos sorridentes, mas pelas reformas reais, pelas libertações concretas, pelo fim das detenções arbitrárias e da violência institucional. Até lá, o povo moçambicano — como o camponês das Cartas Filosóficas de Voltaire — continuará a plantar, sangrar e calar, esperando que algum dia o aperto de mãos se transforme num verdadeiro contrato social, e não num pacto de conveniência entre elites que trocam de cadeiras, mas não de consciência.

Enquanto isso, os presos políticos seguem encarcerados, como se o seu crime fosse respirar a democracia em praça pública. Os jovens que apanharam pancada por sonhar vivem agora doentes e esquecidos. E o povo, ah, o povo — esse eterno figurante — assiste ao espetáculo sem direito a fala.

Venâncio, o ex-revolucionário de megafone na mão, aparece agora como diplomata em treinamento. Saiu da rua para o salão, trocou a urgência do grito pela liturgia do protocolo. Vê-se nele o cansaço típico de quem descobre que o sistema não se quebra — se absorve.

quinta-feira, 24 de abril de 2025

A Água Turva dos Iluminados

Thomas Sowell, esse herege lúcido do século XX, teve a ousadia de apontar o dedo para a vaca sagrada da modernidade: o intelectual. Não o pensador comprometido com a verdade, mas aquele que “fala sem consequências, aconselha sem responsabilidade e escreve sem consequência prática.” Em outras palavras: o especialista em nada com opinião sobre tudo.

Em África, fizemos um upgrade tropical desse personagem.

Aqui, o intelectual se constrói como uma figura quase sacerdotal. Como N’Krumah previa, teríamos que desenvolver uma classe pensante capaz de imaginar a África por si própria. Mas, no lugar disso, desenvolvemos uma classe que pensa sobre a África... como se fosse um projeto acadêmico em alguma universidade ditosa.

É o intelectual anfíbio: está num país africano, mas nada nas águas profundas da teoria ocidental, onde o jargão acadêmico serve como passaporte para relevância. Como dizia Sowell, “há pessoas tão ansiosas para parecerem profundas, que tornam a água turva de propósito.” É isso. Nossos intelectuais estão turvando a água — não para confundir o opressor, mas para manter a sua própria aparência de profundidade.

Veja bem, caro leitor: não é que falte inteligência. O que falta é vergonha na cara.

Os intelectuais do continente, em boa parte, falam em “povo” como se fosse uma entidade exótica, um objeto de estudo — e não como a razão de sua própria existência pública. Alguns acham, inclusive, que o povo é inculto demais para compreender os altos vôos de sua mente iluminada. Afinal, que valor há no batuque local quando se pode citar Kant, ouvir Mahler e assistir uma ópera vienense?

E aqui chegamos ao personagem mais fascinante dessa tragicomédia: o intelectual que odeia o povo.

Esse, sim, é um clássico africano contemporâneo. Ele despreza a fala popular, abomina a música que vem da rua e reviraria os olhos se o convidassem para um ritual tradicional. Para ele, o saber do povo fede a ignorância. Só sente-se limpo no banho grego de Apolo ou na harmonia matemática de Bach — embora confunda Ogun com Obatalá e jamais tenha entrado num terreiro.

Mas nem tudo está perdido: ainda nos resta o intelectual de palco. Ele dá entrevistas. Modera painéis. Publica em revistas com nomes franceses que ninguém lê. Seu maior feito político é ter assinado um manifesto contra alguma coisa no Facebook. É o rei do discurso, mas treme diante da ação. Afinal, a consequência é uma criatura muito vulgar para quem se alimenta de abstrações.

Sowell nos alertou: o problema não é o erro dos intelectuais, mas sua imunidade à realidade. Erram, e não pagam. Erram de novo, e ganham uma bolsa. Erram pela terceira vez, e são convidados para um simpósio internacional.

E o povo?

Esse aprende que a transformação social está sempre adiada. Que não é hora ainda. Que antes é preciso uma mesa redonda, uma pesquisa, um paper. Que mudança verdadeira é algo para depois — ou para nunca.

Enquanto isso, seguimos nessa peça kafkiana onde o intelectual não desce do palco, porque teme encontrar o povo que diz defender. E quando o encontra, faz pose de antropólogo: escuta, anota, mas não compreende.

Afinal, quem pensa demais sobre o povo, muitas vezes se esquece de pensar com o povo.

Por onde devemos ir?

Talvez seja hora de deixar a ironia e assumir a urgência. De lembrar que o verdadeiro compromisso intelectual não é com a estética do pensamento, mas com a ética da transformação. De trocar o aplauso da elite pelo respeito das ruas. E de entender que, em África, o pensamento precisa ser ação — ou será apenas mais uma forma de dominação disfarçada.

Porque o povo, meu caro leitor, não precisa de intelectuais que falem sobre ele. Precisa de aliados que falem com ele — e andem ao seu lado.

quinta-feira, 10 de abril de 2025

Tarifas, Teorias e Tretas: A Bíblia Econômica Segundo Peter Navarro, o Caçador de Dragões (e Lógica Econômica)

O Nascimento da tragédia 

Nos salões semi-iluminados do novo puritanismo econômico, onde o patriotismo se vende em frascos de spray e a ignorância veste terno, ergue-se a figura de Peter Navarro — parte economista, parte inquisidor da nova ordem mundial, parte entusiasta de tarifas como se fossem relíquias sagradas de uma cruzada comercial. Ele é o Savonarola de Wall Street, queimando tratados internacionais em praça pública como se fossem grimórios satânicos.

Navarro não vê o mundo em termos de oferta e procura. Ele vê um grande tabuleiro de Risk, onde cada container que atravessa o Pacífico carrega não mercadoria, mas feitiçaria chinesa disfarçada de escova elétrica. Para ele, os acordos multilaterais são os sabás da bruxaria globalista, e sua missão é uma só: salvar a América das garras do comércio como quem salva um adolescente das gomas de THC.

Sob a bênção do oráculo laranja — Trump, agora em seu terceiro mês de reinado reciclado — Navarro reina como o sumo sacerdote da Teologia Tarifária, que prega que o único pecado original foi permitir que o mundo se tornasse interdependente.

O embate dos titãs: Navarro x Musk

No altar das ironias históricas, o mais recente duelo de egos envolve Navarro e o barão do espaço, Elon Musk. De um lado, o homem que acredita que a China está por trás de todo mal moderno; do outro, um sujeito que quer colonizar Marte com mão de obra terceirizada. Musk, com a fineza de um magnata ressentido, chamou Navarro de “um neandertal com diploma”. Navarro retrucou chamando Musk de “marionete transnacional” — o que, na língua dele, é basicamente o mesmo que acusá-lo de bruxaria.

A troca de farpas foi digna de uma Caça às Bruxas de Salem, edição 5G, com direito a acusações de traição, feitiçaria tecnológica e contaminação espiritual por meio de carros elétricos.

Tarifas como penitência nacional

Para Navarro, cada tarifa é uma indulgência comprada com dor. Se um americano pagar 30% a mais por um tênis feito no Vietnã, isso é uma bênção. Se um trabalhador da Califórnia perder o emprego porque sua empresa não pode mais importar alumínio barato, isso é martírio. Estamos todos em um grande retiro espiritual rumo à autossuficiência, passando fome de iPads e abstinência de gadgets como quem atravessa a Lei Seca de uma nova era.

A lógica é simples: a cura está no sofrimento. O mesmo sofrimento que levou os EUA, no passado, a banir o álcool e a celebrar Al Capone como um herói involuntário. Agora, os contrabandistas não trazem rum das Caraíbas, mas chips taiwaneses escondidos em caixas de cereais.

O dragão vermelho contra-ataca

Mas enquanto Navarro brinca de Torquemada tarifário, do outro lado do Pacífico, a China observa em silêncio — ou quase. Seria o retorno de Trump e Navarro o ajuste de contas final da Guerra do Ópio? Talvez. O império do meio, que já foi humilhado por barris de heroína britânica, agora devolve a gentileza exportando fentanyl em doses homeopáticas de vingança? O Novo Século Americano termina afogado em comprimidos e paranoia. Muitos zombies pelas ruas do American way of living... o estágio final da financeirização da dignidade humana.

Enquanto isso, Navarro continua a apontar o dedo em riste, como um padre colonial gritando “Feiticeira!” em direção a qualquer coisa que venha com ideogramas. Na sua cabeça, a China está envenenando a juventude americana com apps de dança e cápsulas de sofrimento. O que ele esquece de mencionar é que boa parte dos laboratórios estão no porão da própria América — e os únicos operários visíveis são fantasmas do sistema de saúde falido.

Das garrafas escondidas aos smartphones contrabandeados

A América já passou por isso antes. Uma vez, decidiu que o álcool era o grande inimigo da moral e da família. E assim nasceu a Lei Seca — um experimento social em que o Estado proibiu o whisky e, como resposta, a sociedade inventou o jazz, os gângsteres, os túneis subterrâneos e o coquetel Manhattan.

Hoje, vivemos a Lei Seca 2.0, versão tarifária, onde o pecado original não é mais o bourbon, mas o microchip chinês.

Na teologia navarrista, cada iPhone fabricado em Shenzhen carrega o vírus do comunismo, e cada camiseta barata da Uniqlo é um ataque direto à Declaração da Independência. Assim como o álcool transformou padres em contrabandistas e donas de casa em destiladoras de garagem, as novas tarifas estão transformando adolescentes em mulas de gadgets, e empresários do Kansas em traficantes de peças automotivas coreanas.

Proibir o comércio com a China é como proibir o álcool num bar irlandês — cria-se um mercado negro tão eficiente que até Adam Smith ressuscita só para bater palmas. E, no fim, enquanto Navarro sonha com fábricas renascendo como fênix em Detroit, o que renasce mesmo são as versões paralelas do capitalismo subterrâneo, agora regidas por VPNs e faturas falsas.

Se Al Capone vendia gin, em breve veremos versões do Capone moderno vendendo AirPods debaixo do balcão. Não se espante se surgir o Cartel de Cupertino — e, claro, Musk já estará vendendo liberdade aduaneira no blockchain por 0,3 Dogecoin.

O que foi o speakeasy, será agora o click-easy. Em vez de “posso te servir um copo?”, perguntaremos: “quer um Xiaomi escondido no forro do casaco?”

A história repete-se. Primeiro como tragédia, depois como farsa, e por fim... como nota fiscal fraudada.

Trump, o maestro do caos

Com Trump de volta ao trono — ou ao Twitter, agora renomeado “X”, como se fosse um profeta críptico ou um xarope experimental — os americanos vivem como figurantes de um musical sombrio. Três meses de governo e a inflação virou entretenimento, o Congresso é uma sitcom de má qualidade, e a confiança internacional está sendo vendida em leilão junto com os direitos civis.

Navarro, com seus relatórios escritos como se fossem discursos de Nostradamus em PowerPoint, anda dizendo que o futuro será americano ou não será. Mas a pergunta que o mundo começa a sussurrar é outra: será que ainda existe um “futuro americano”? Ou será que estamos assistindo, em tempo real, a sua mutação zumbi?

O que o mundo pode esperar?

Muito pouco. Ou muito caos. Talvez ambos, servidos com gelo e cinismo. Preparem-se para uma nova Guerra Fria — mas agora sem ideologia, sem espiões elegantes e sem jazz. Só resta sarcasmo, memes e uma overdose de nostalgia imperial.

O tabuleiro está posto: de um lado, a fé messiânica na autossuficiência como se fosse o novo evangelho; do outro, um mundo perplexo, assistindo a tudo com a expressão de quem vê um homem nu berrando no supermercado porque o preço do abacate dobrou.

E no centro do palco, Peter Navarro, o exorcista da era global. Empunha tarifas como se fossem crucifixos contra demônios invisíveis, recitando mantras protecionistas como se estivesse invocando os Founding Fathers numa sessão espírita do Partido Republicano. Ele aponta para a China como se fosse a nova Babilônia Digital — esquecendo que o dragão não apenas sobreviveu: ele se alfabetizou em inglês, comprou startups no Vale do Silício e agora assiste de camarote à América implodir — comprimido por comprimido, overdose por overdose.

Sim, a globalização talvez não acabe. Mas certamente está fumando um charuto cubano, sentada num bar clandestino, gargalhando da tentativa.

quinta-feira, 3 de abril de 2025

A África Entre Gigantes: Colônia, Parceira ou Revolucionária?

Se um filósofo iluminado escrevesse hoje sobre a posição da África no sistema mundial, sua análise seria implacável. O continente africano continua a ser explorado pelas grandes potências capitalistas e mantido à margem do desenvolvimento econômico por estruturas neocoloniais e elites locais coniventes com o saque dos seus próprios povos. A pergunta que devemos nos fazer não é apenas "onde fica a África nisso tudo?", mas sim: "como podemos romper as correntes da dependência e construir um futuro baseado na cooperação entre os trabalhadores africanos?"


O Imperialismo Moderno e a Pilhagem Contínua


Enquanto as potências como China, Rússia, Estados Unidos e União Europeia disputam hegemonia, a África continua a ser o celeiro de matéria-prima e um mercado consumidor passivo. A divisão do trabalho global imposta pelo capitalismo moderno relega o continente ao papel de fornecedor de recursos naturais e mão de obra barata, com economias pouco industrializadas e governos reféns de corporações estrangeiras. Este modelo é a essência do imperialismo descrito por Lenin – uma nova forma de colonialismo onde as armas foram substituídas por contratos, dívidas e tratados desiguais.


O "Dia D" e o Mito do Libertador Ocidental

O Ocidente continua a celebrar o Dia D como o marco da "libertação do mundo" do fascismo, mas esquece que, ao mesmo tempo, impunha sistemas coloniais brutais na África. França, Reino Unido, Bélgica e Portugal mantinham nações inteiras sob jugo enquanto proclamavam liberdade na Europa. Essa hipocrisia nunca foi totalmente desmontada e, hoje, se reflete na forma como as organizações internacionais, dominadas pelo capital, determinam as regras do jogo para a África sem permitir um papel decisivo aos africanos.

Agora, Trump anuncia um novo Dia D – não o desembarque na Normandia, mas um ataque à economia global através de tarifas protecionistas. A mesma economia norte-americana que, nos tempos dourados de Bretton Woods, evangelizava o mercado livre como panaceia universal, agora adota o mercantilismo às claras. Já não se chuta a escada discretamente; queima-se a escada inteira diante de todos, enquanto se declara que a justiça divina sempre esteve do lado do mais forte.

Se a África decidisse declarar "minérios africanos apenas para africanos" e expulsasse os exploradores de recursos não africanos, a resposta do Ocidente seria, no mínimo, um colapso diplomático e, no máximo, uma "missão humanitária" patrocinada por drones e sanções. O problema não é o protecionismo; é quem tem o direito de praticá-lo. Quando os EUA impõem barreiras comerciais, chamam de estratégia econômica; quando a África tenta recuperar suas riquezas, chamam de instabilidade e ameaça à segurança global. No fim, o discurso dos direitos humanos continua sendo a mais eficaz cortina de fumaça do imperialismo.


Rússia: Bloqueios e Resistência à Ordem Global


A Rússia, alvo de sanções ocidentais, conseguiu encontrar caminhos para fortalecer sua economia e se manter relevante no cenário global. O que fez de Putin um homem mau, faz de Nethanyau um santo sionista ungido. No entanto, a África, submetida a bloqueios comerciais informais e dependente de empréstimos estrangeiros, continua presa a um ciclo de miséria e subdesenvolvimento. Se um país como a Rússia pode resistir e se adaptar, por que a África ainda se submete a uma lógica de exploração? Porque falta uma coordenação internacional entre os países africanos, baseada na solidariedade de classe e no planejamento econômico independente das potências estrangeiras.


Trump, "America First" e o Desmonte das Organizações Internacionais


O desinvestimento de Trump em organizações multilaterais como a ONU e a USAID não foi um ataque apenas à governança global, mas também uma demonstração de que o capitalismo não se importa com o desenvolvimento da África. O sucateamento dessas instituições não fez com que os líderes africanos criassem alternativas viáveis de cooperação interna, apenas os deixou ainda mais vulneráveis às disputas entre as potências globais. A pergunta que se impõe é: até quando os africanos aceitarão ser reféns das flutuações do humor político do Ocidente?


A União Africana e a Urgência de um Projeto Revolucionário


A incapacidade da União Africana de formular um posicionamento comum é o reflexo do fracionamento do continente. Enquanto Ásia e América Latina avançam na construção de blocos econômicos que desafiam a ordem neoliberal, a África segue dividida, com governos que priorizam acordos bilaterais frágeis e que perpetuam a dependência externa. Se há uma lição marxista a ser aprendida, é que sem organização política e econômica entre os trabalhadores africanos, a África jamais conquistará sua verdadeira independência. Amanhã um novoTrump desligará os seus satélites e nós ficaremos aqui sem Internet, olhando o seu estrelado que cairá sobre a nossa inocência


Conclusão: A Última Chamada para a Revolução


A África não precisa de "parceiros", mas de:

  1. Expropriar os expropriadores: Nacionalizar minas, terras e bancos sob controle .
  2. Ruptura com o FMI/Banco Mundial: Criar um sistema financeiro pan-africano lastreado em recursos, não no dólar.
  3. Internacionalismo ou morte: Unir-se à América Latina e Ásia para formar uma frente contra a tripla exploração (imperialismo, capitalismo local e burguesia compradora).

"Os imperialistas nos chamam de 'terceiro mundo' porque pretendem que haja um terceiro e último." — Thomas Sankara (se vivo estivesse).


A história não esperará. Ou a África se levanta como classe trabalhadora continental, ou continuará de joelhos — agora com joelheiras feitas em Shenzhen, financiadas por Wall Street e lubrificadas com petróleo russo.

terça-feira, 25 de março de 2025

Mais Que União, Precisamos de Unidade Africana!

Breve início...

No princípio, éramos pequenos clãs espalhados pelo continente africano, divididos por mentalidades tribais. Algumas tribos começaram a formar pequenas sociedades, que mais tarde deram origem a grandes civilizações. Antes disso, éramos uma única raça: a raça humana. Então, surgiu a invenção do "homem negro", uma construção que atendia às necessidades expansionistas e coloniais da economia global. A ideia do "homem negro" que precisas ser batptizado, retirado do seu laço genealógico até que sobrasse uma relação de orgulho somente com o consumo como assistimos hoje, em muitos casos. 

Essa invenção não surgiu de um processo natural, mas como uma ferramenta do sistema económico. O que hoje chamamos de condições culturais ou sociais são apenas desdobramentos externos dessa criação económica — o que Louis Althusser chamaria de "aparelhos ideológicos do Estado".

Contudo, séculos de dominação colonial, marcados por contradições e em alguns casos,  cumplicidades, fizeram com que, além da exploração económica, o homem negro perdesse sua terra, fosse saqueado e despojado de sua própria dignidade, porém, sempre um bom cristão. A violência do colonialismo não se limitou à exploração da força de trabalho: reduziu o homem negro a um objeto de entretenimento, a uma peça de zoológico, a uma mercadoria bestial. Mas essa humilhação gerou revolta. Oprimidos por tanto tempo, os povos indígenas do continente africano se prepararam para a luta. Séculos de resistência culminaram em um confronto que coincidiu com a nova fase do capitalismo global, permitindo que a luta africana contasse com o apoio de irmãos espalhados por diferentes continentes. Irmãos vítimas do fascismo na Europa, porque o capitalismo parece ter retirado a cor da classe trabalhadora... viramos irmãos do desespero. E o futuro mostrará que tirou cor também dos senhores da opressão.

O Nascimento da União Africana

A União Africana nasceu desse contexto. Sua criação representava a concretização do desejo de autodeterminação dos povos africanos, um continente onde a população autóctone pudesse decidir seu próprio destino. Mas desde o início, divergências sobre o método de integração surgiram.

De um lado, reunidos em Casablanca, estavam líderes como Kwame Nkrumah, Gamal Abdel Nasser, Modibo Keita e Sékou Touré. Eles defendiam uma "Super Federação Africana", baseada em uma moeda única, política única e um pan-africanismo radical. No outro extremo, o Grupo de Monróvia, formado por países como Nigéria, Costa do Marfim, Etiópia e Libéria, preferia um modelo de cooperação gradual, preservando a "soberania" dos Estados e mantendo laços com o Ocidente, que à época estava imerso na Guerra Fria.

O resultado desse embate? O grupo de Monróvia venceu.

O Legado de Hailé Selassié e a OUA

Coube a Hailé Selassié consolidar essa visão. O imperador etíope, que já havia aplicado um regime despótico em seu próprio país, exportou para a recém-criada Organização da Unidade Africana (OUA) um modelo feudal e centralizador. Reverenciado como imperador pelos etíopes (da classe privilegiada) e como uma divindade pelos rastafáris, Selassié não demorou a estender sua influência para além das fronteiras etíopes. Assim, a OUA foi moldada por sua liderança, com um viés burocrático e, em muitos casos, ineficaz - no mesmo estado em que deixou Etiópia. Contudo, não podemos negar que Selassie entendia de marketing, basta olhar para as nossas bandeiras africanas e percebemos a sua presença. E para os mais dados à erva mágica, poderá ter um encontro com a segunda vinda de Cristo após a hóstia celestial do culto rastafari.

Os reflexos dessa influência podem ser vistos até hoje. A sede da União Africana, um monumental edifício em Adis Abeba, foi projetada e financiada pela China ao custo de 200 milhões de dólares. Em 2018, o jornal Le Monde revelou que os servidores do prédio enviavam dados para Pequim todas as noites – uma denúncia de espionagem prontamente negada pelas autoridades africanas. Talvez tenham reparado que o mesmo acontecia com computadores, telemóveis e outros aparelhos oferecidos pelas corporações tecnofeudalistas e suas redes sociais, dominadas por algoritmos que ninguém compreende muito bem como funcionam – quinas o único especialista seja a Cambridge Analytica. Mas a dependência externa persiste e, ironicamente, a União Africana continua sendo um reflexo da ingerência estrangeira no continente.

A Diplomacia Africana e os Desafios Atuais

Hoje, vemos líderes africanos em busca de protagonismo. Um exemplo recente foi João Lourenço, presidente de Angola e atual líder da UA, que assumiu o papel de mediador no conflito entre Ruanda e República Democrática do Congo. Mas, para surpresa de muitos, ele abandonou as negociações, deixando um vácuo diplomático. O resultado? Os presidentes de Ruanda e RDC foram para Doha, no Qatar, onde apertaram as mãos do emir, selando uma reaproximação que poderia ter ocorrido em Luanda.

Enquanto isso, em Moçambique, o opositor Venâncio Mondlane envia mensagens ameaçadoras ao governo angolano, anunciando que estará em Angola em 2026 para replicar o modelo de contestação pós-eleitoral que incendiou Moçambique. João Lourenço pode até se sentir ameaçado, mas talvez tudo acabe em um aperto de mãos, iniciado por um encontro entre as "primeiras-damas", consolidando uma reconciliação superficial e reinventando o caso Lisístrata. Talvez João Lourenço se sinta tão ameaçado quanto Daniel Chapo se sente atualmente. Estaria VM7 preparando uma Primavera Africana? Não, sou santomense, vou chamar de Gravana Africana.

Para Onde Vai a União Africana?

A UA nasceu antes da União Europeia, mas, até hoje, não conseguiu conectar o continente de forma eficiente. Não há moeda comum, não há livre-trânsito entre os países africanos, e o comércio intra-africano ainda é minúsculo comparado ao comércio com potências externas.

Em 2002, a OUA foi reformulada para dar lugar à União Africana, na esperança de modernizar a instituição e esquecemos um pouco do Imperador que ia nu pela Etiópia. Mas as aspirações pan-africanistas de Nkrumah e seus aliados foram enfraquecidas ao longo dos anos. Enquanto o continente permanece dividido, disputando guerras com armas compradas das grandes potências, jovens desesperados arriscam suas vidas atravessando o Mar Mediterrâneo, embarcando em um novo tipo de "navio negreiro" — desta vez, movido pela falência das políticas africanas.

Enquanto o mundo discute inteligência artificial, tecnologias emergentes e novas formas de produção, a África continua sendo usada como carne de canhão.

A União Africana precisa decidir: mais um século de humilhação ou um compromisso real com a unificação do continente?

Devemos negociar mais entre nós. Precisamos de integração econômica, de livre-trânsito, de comunicação unificada. Por que, ao viajar dentro do continente, ainda preciso comprar um novo chip de telefone para cada país? Por que tantas organizações sub-regionais fragmentando ainda mais a unidade africana? Por qual motivo devo ter dólares e euros para ir mesmo à Angola e não posso usar minhas dobras que eles conhecem tão bem?

E, mais recentemente, por que a CEDEAO cogitou invadir o Níger? Enquanto a UA declarou oficialmente sua discordância com essa intervenção, ficou claro que as organizações sub-regionais estão ganhando mais peso – e, talvez, até ameaçando a relevância da própria União Africana.

Não podemos ficar ao sabor de vaidades exteriores. Cada vez que uma grande organização faz um corte, todo um continente parece sentir o impacto e se desola. tamanha é a "ajuda externa".

Se não nos unirmos agora, eles virão, dizia Julius Nyerere. 

Lula e a difícil arte de explicar o povo ao povo

A América Latina virou à direita Milei e a sua motosserra na Argentina. Bukele e as suas prisões em El Salvador.  Abelardo de la Espriella e...