quinta-feira, 24 de abril de 2025

A Água Turva dos Iluminados

Thomas Sowell, esse herege lúcido do século XX, teve a ousadia de apontar o dedo para a vaca sagrada da modernidade: o intelectual. Não o pensador comprometido com a verdade, mas aquele que “fala sem consequências, aconselha sem responsabilidade e escreve sem consequência prática.” Em outras palavras: o especialista em nada com opinião sobre tudo.

Em África, fizemos um upgrade tropical desse personagem.

Aqui, o intelectual se constrói como uma figura quase sacerdotal. Como N’Krumah previa, teríamos que desenvolver uma classe pensante capaz de imaginar a África por si própria. Mas, no lugar disso, desenvolvemos uma classe que pensa sobre a África... como se fosse um projeto acadêmico em alguma universidade ditosa.

É o intelectual anfíbio: está num país africano, mas nada nas águas profundas da teoria ocidental, onde o jargão acadêmico serve como passaporte para relevância. Como dizia Sowell, “há pessoas tão ansiosas para parecerem profundas, que tornam a água turva de propósito.” É isso. Nossos intelectuais estão turvando a água — não para confundir o opressor, mas para manter a sua própria aparência de profundidade.

Veja bem, caro leitor: não é que falte inteligência. O que falta é vergonha na cara.

Os intelectuais do continente, em boa parte, falam em “povo” como se fosse uma entidade exótica, um objeto de estudo — e não como a razão de sua própria existência pública. Alguns acham, inclusive, que o povo é inculto demais para compreender os altos vôos de sua mente iluminada. Afinal, que valor há no batuque local quando se pode citar Kant, ouvir Mahler e assistir uma ópera vienense?

E aqui chegamos ao personagem mais fascinante dessa tragicomédia: o intelectual que odeia o povo.

Esse, sim, é um clássico africano contemporâneo. Ele despreza a fala popular, abomina a música que vem da rua e reviraria os olhos se o convidassem para um ritual tradicional. Para ele, o saber do povo fede a ignorância. Só sente-se limpo no banho grego de Apolo ou na harmonia matemática de Bach — embora confunda Ogun com Obatalá e jamais tenha entrado num terreiro.

Mas nem tudo está perdido: ainda nos resta o intelectual de palco. Ele dá entrevistas. Modera painéis. Publica em revistas com nomes franceses que ninguém lê. Seu maior feito político é ter assinado um manifesto contra alguma coisa no Facebook. É o rei do discurso, mas treme diante da ação. Afinal, a consequência é uma criatura muito vulgar para quem se alimenta de abstrações.

Sowell nos alertou: o problema não é o erro dos intelectuais, mas sua imunidade à realidade. Erram, e não pagam. Erram de novo, e ganham uma bolsa. Erram pela terceira vez, e são convidados para um simpósio internacional.

E o povo?

Esse aprende que a transformação social está sempre adiada. Que não é hora ainda. Que antes é preciso uma mesa redonda, uma pesquisa, um paper. Que mudança verdadeira é algo para depois — ou para nunca.

Enquanto isso, seguimos nessa peça kafkiana onde o intelectual não desce do palco, porque teme encontrar o povo que diz defender. E quando o encontra, faz pose de antropólogo: escuta, anota, mas não compreende.

Afinal, quem pensa demais sobre o povo, muitas vezes se esquece de pensar com o povo.

Por onde devemos ir?

Talvez seja hora de deixar a ironia e assumir a urgência. De lembrar que o verdadeiro compromisso intelectual não é com a estética do pensamento, mas com a ética da transformação. De trocar o aplauso da elite pelo respeito das ruas. E de entender que, em África, o pensamento precisa ser ação — ou será apenas mais uma forma de dominação disfarçada.

Porque o povo, meu caro leitor, não precisa de intelectuais que falem sobre ele. Precisa de aliados que falem com ele — e andem ao seu lado.

quinta-feira, 10 de abril de 2025

Tarifas, Teorias e Tretas: A Bíblia Econômica Segundo Peter Navarro, o Caçador de Dragões (e Lógica Econômica)

O Nascimento da tragédia 

Nos salões semi-iluminados do novo puritanismo econômico, onde o patriotismo se vende em frascos de spray e a ignorância veste terno, ergue-se a figura de Peter Navarro — parte economista, parte inquisidor da nova ordem mundial, parte entusiasta de tarifas como se fossem relíquias sagradas de uma cruzada comercial. Ele é o Savonarola de Wall Street, queimando tratados internacionais em praça pública como se fossem grimórios satânicos.

Navarro não vê o mundo em termos de oferta e procura. Ele vê um grande tabuleiro de Risk, onde cada container que atravessa o Pacífico carrega não mercadoria, mas feitiçaria chinesa disfarçada de escova elétrica. Para ele, os acordos multilaterais são os sabás da bruxaria globalista, e sua missão é uma só: salvar a América das garras do comércio como quem salva um adolescente das gomas de THC.

Sob a bênção do oráculo laranja — Trump, agora em seu terceiro mês de reinado reciclado — Navarro reina como o sumo sacerdote da Teologia Tarifária, que prega que o único pecado original foi permitir que o mundo se tornasse interdependente.

O embate dos titãs: Navarro x Musk

No altar das ironias históricas, o mais recente duelo de egos envolve Navarro e o barão do espaço, Elon Musk. De um lado, o homem que acredita que a China está por trás de todo mal moderno; do outro, um sujeito que quer colonizar Marte com mão de obra terceirizada. Musk, com a fineza de um magnata ressentido, chamou Navarro de “um neandertal com diploma”. Navarro retrucou chamando Musk de “marionete transnacional” — o que, na língua dele, é basicamente o mesmo que acusá-lo de bruxaria.

A troca de farpas foi digna de uma Caça às Bruxas de Salem, edição 5G, com direito a acusações de traição, feitiçaria tecnológica e contaminação espiritual por meio de carros elétricos.

Tarifas como penitência nacional

Para Navarro, cada tarifa é uma indulgência comprada com dor. Se um americano pagar 30% a mais por um tênis feito no Vietnã, isso é uma bênção. Se um trabalhador da Califórnia perder o emprego porque sua empresa não pode mais importar alumínio barato, isso é martírio. Estamos todos em um grande retiro espiritual rumo à autossuficiência, passando fome de iPads e abstinência de gadgets como quem atravessa a Lei Seca de uma nova era.

A lógica é simples: a cura está no sofrimento. O mesmo sofrimento que levou os EUA, no passado, a banir o álcool e a celebrar Al Capone como um herói involuntário. Agora, os contrabandistas não trazem rum das Caraíbas, mas chips taiwaneses escondidos em caixas de cereais.

O dragão vermelho contra-ataca

Mas enquanto Navarro brinca de Torquemada tarifário, do outro lado do Pacífico, a China observa em silêncio — ou quase. Seria o retorno de Trump e Navarro o ajuste de contas final da Guerra do Ópio? Talvez. O império do meio, que já foi humilhado por barris de heroína britânica, agora devolve a gentileza exportando fentanyl em doses homeopáticas de vingança? O Novo Século Americano termina afogado em comprimidos e paranoia. Muitos zombies pelas ruas do American way of living... o estágio final da financeirização da dignidade humana.

Enquanto isso, Navarro continua a apontar o dedo em riste, como um padre colonial gritando “Feiticeira!” em direção a qualquer coisa que venha com ideogramas. Na sua cabeça, a China está envenenando a juventude americana com apps de dança e cápsulas de sofrimento. O que ele esquece de mencionar é que boa parte dos laboratórios estão no porão da própria América — e os únicos operários visíveis são fantasmas do sistema de saúde falido.

Das garrafas escondidas aos smartphones contrabandeados

A América já passou por isso antes. Uma vez, decidiu que o álcool era o grande inimigo da moral e da família. E assim nasceu a Lei Seca — um experimento social em que o Estado proibiu o whisky e, como resposta, a sociedade inventou o jazz, os gângsteres, os túneis subterrâneos e o coquetel Manhattan.

Hoje, vivemos a Lei Seca 2.0, versão tarifária, onde o pecado original não é mais o bourbon, mas o microchip chinês.

Na teologia navarrista, cada iPhone fabricado em Shenzhen carrega o vírus do comunismo, e cada camiseta barata da Uniqlo é um ataque direto à Declaração da Independência. Assim como o álcool transformou padres em contrabandistas e donas de casa em destiladoras de garagem, as novas tarifas estão transformando adolescentes em mulas de gadgets, e empresários do Kansas em traficantes de peças automotivas coreanas.

Proibir o comércio com a China é como proibir o álcool num bar irlandês — cria-se um mercado negro tão eficiente que até Adam Smith ressuscita só para bater palmas. E, no fim, enquanto Navarro sonha com fábricas renascendo como fênix em Detroit, o que renasce mesmo são as versões paralelas do capitalismo subterrâneo, agora regidas por VPNs e faturas falsas.

Se Al Capone vendia gin, em breve veremos versões do Capone moderno vendendo AirPods debaixo do balcão. Não se espante se surgir o Cartel de Cupertino — e, claro, Musk já estará vendendo liberdade aduaneira no blockchain por 0,3 Dogecoin.

O que foi o speakeasy, será agora o click-easy. Em vez de “posso te servir um copo?”, perguntaremos: “quer um Xiaomi escondido no forro do casaco?”

A história repete-se. Primeiro como tragédia, depois como farsa, e por fim... como nota fiscal fraudada.

Trump, o maestro do caos

Com Trump de volta ao trono — ou ao Twitter, agora renomeado “X”, como se fosse um profeta críptico ou um xarope experimental — os americanos vivem como figurantes de um musical sombrio. Três meses de governo e a inflação virou entretenimento, o Congresso é uma sitcom de má qualidade, e a confiança internacional está sendo vendida em leilão junto com os direitos civis.

Navarro, com seus relatórios escritos como se fossem discursos de Nostradamus em PowerPoint, anda dizendo que o futuro será americano ou não será. Mas a pergunta que o mundo começa a sussurrar é outra: será que ainda existe um “futuro americano”? Ou será que estamos assistindo, em tempo real, a sua mutação zumbi?

O que o mundo pode esperar?

Muito pouco. Ou muito caos. Talvez ambos, servidos com gelo e cinismo. Preparem-se para uma nova Guerra Fria — mas agora sem ideologia, sem espiões elegantes e sem jazz. Só resta sarcasmo, memes e uma overdose de nostalgia imperial.

O tabuleiro está posto: de um lado, a fé messiânica na autossuficiência como se fosse o novo evangelho; do outro, um mundo perplexo, assistindo a tudo com a expressão de quem vê um homem nu berrando no supermercado porque o preço do abacate dobrou.

E no centro do palco, Peter Navarro, o exorcista da era global. Empunha tarifas como se fossem crucifixos contra demônios invisíveis, recitando mantras protecionistas como se estivesse invocando os Founding Fathers numa sessão espírita do Partido Republicano. Ele aponta para a China como se fosse a nova Babilônia Digital — esquecendo que o dragão não apenas sobreviveu: ele se alfabetizou em inglês, comprou startups no Vale do Silício e agora assiste de camarote à América implodir — comprimido por comprimido, overdose por overdose.

Sim, a globalização talvez não acabe. Mas certamente está fumando um charuto cubano, sentada num bar clandestino, gargalhando da tentativa.

quinta-feira, 3 de abril de 2025

A África Entre Gigantes: Colônia, Parceira ou Revolucionária?

Se um filósofo iluminado escrevesse hoje sobre a posição da África no sistema mundial, sua análise seria implacável. O continente africano continua a ser explorado pelas grandes potências capitalistas e mantido à margem do desenvolvimento econômico por estruturas neocoloniais e elites locais coniventes com o saque dos seus próprios povos. A pergunta que devemos nos fazer não é apenas "onde fica a África nisso tudo?", mas sim: "como podemos romper as correntes da dependência e construir um futuro baseado na cooperação entre os trabalhadores africanos?"


O Imperialismo Moderno e a Pilhagem Contínua


Enquanto as potências como China, Rússia, Estados Unidos e União Europeia disputam hegemonia, a África continua a ser o celeiro de matéria-prima e um mercado consumidor passivo. A divisão do trabalho global imposta pelo capitalismo moderno relega o continente ao papel de fornecedor de recursos naturais e mão de obra barata, com economias pouco industrializadas e governos reféns de corporações estrangeiras. Este modelo é a essência do imperialismo descrito por Lenin – uma nova forma de colonialismo onde as armas foram substituídas por contratos, dívidas e tratados desiguais.


O "Dia D" e o Mito do Libertador Ocidental

O Ocidente continua a celebrar o Dia D como o marco da "libertação do mundo" do fascismo, mas esquece que, ao mesmo tempo, impunha sistemas coloniais brutais na África. França, Reino Unido, Bélgica e Portugal mantinham nações inteiras sob jugo enquanto proclamavam liberdade na Europa. Essa hipocrisia nunca foi totalmente desmontada e, hoje, se reflete na forma como as organizações internacionais, dominadas pelo capital, determinam as regras do jogo para a África sem permitir um papel decisivo aos africanos.

Agora, Trump anuncia um novo Dia D – não o desembarque na Normandia, mas um ataque à economia global através de tarifas protecionistas. A mesma economia norte-americana que, nos tempos dourados de Bretton Woods, evangelizava o mercado livre como panaceia universal, agora adota o mercantilismo às claras. Já não se chuta a escada discretamente; queima-se a escada inteira diante de todos, enquanto se declara que a justiça divina sempre esteve do lado do mais forte.

Se a África decidisse declarar "minérios africanos apenas para africanos" e expulsasse os exploradores de recursos não africanos, a resposta do Ocidente seria, no mínimo, um colapso diplomático e, no máximo, uma "missão humanitária" patrocinada por drones e sanções. O problema não é o protecionismo; é quem tem o direito de praticá-lo. Quando os EUA impõem barreiras comerciais, chamam de estratégia econômica; quando a África tenta recuperar suas riquezas, chamam de instabilidade e ameaça à segurança global. No fim, o discurso dos direitos humanos continua sendo a mais eficaz cortina de fumaça do imperialismo.


Rússia: Bloqueios e Resistência à Ordem Global


A Rússia, alvo de sanções ocidentais, conseguiu encontrar caminhos para fortalecer sua economia e se manter relevante no cenário global. O que fez de Putin um homem mau, faz de Nethanyau um santo sionista ungido. No entanto, a África, submetida a bloqueios comerciais informais e dependente de empréstimos estrangeiros, continua presa a um ciclo de miséria e subdesenvolvimento. Se um país como a Rússia pode resistir e se adaptar, por que a África ainda se submete a uma lógica de exploração? Porque falta uma coordenação internacional entre os países africanos, baseada na solidariedade de classe e no planejamento econômico independente das potências estrangeiras.


Trump, "America First" e o Desmonte das Organizações Internacionais


O desinvestimento de Trump em organizações multilaterais como a ONU e a USAID não foi um ataque apenas à governança global, mas também uma demonstração de que o capitalismo não se importa com o desenvolvimento da África. O sucateamento dessas instituições não fez com que os líderes africanos criassem alternativas viáveis de cooperação interna, apenas os deixou ainda mais vulneráveis às disputas entre as potências globais. A pergunta que se impõe é: até quando os africanos aceitarão ser reféns das flutuações do humor político do Ocidente?


A União Africana e a Urgência de um Projeto Revolucionário


A incapacidade da União Africana de formular um posicionamento comum é o reflexo do fracionamento do continente. Enquanto Ásia e América Latina avançam na construção de blocos econômicos que desafiam a ordem neoliberal, a África segue dividida, com governos que priorizam acordos bilaterais frágeis e que perpetuam a dependência externa. Se há uma lição marxista a ser aprendida, é que sem organização política e econômica entre os trabalhadores africanos, a África jamais conquistará sua verdadeira independência. Amanhã um novoTrump desligará os seus satélites e nós ficaremos aqui sem Internet, olhando o seu estrelado que cairá sobre a nossa inocência


Conclusão: A Última Chamada para a Revolução


A África não precisa de "parceiros", mas de:

  1. Expropriar os expropriadores: Nacionalizar minas, terras e bancos sob controle .
  2. Ruptura com o FMI/Banco Mundial: Criar um sistema financeiro pan-africano lastreado em recursos, não no dólar.
  3. Internacionalismo ou morte: Unir-se à América Latina e Ásia para formar uma frente contra a tripla exploração (imperialismo, capitalismo local e burguesia compradora).

"Os imperialistas nos chamam de 'terceiro mundo' porque pretendem que haja um terceiro e último." — Thomas Sankara (se vivo estivesse).


A história não esperará. Ou a África se levanta como classe trabalhadora continental, ou continuará de joelhos — agora com joelheiras feitas em Shenzhen, financiadas por Wall Street e lubrificadas com petróleo russo.

terça-feira, 25 de março de 2025

Mais Que União, Precisamos de Unidade Africana!

Breve início...

No princípio, éramos pequenos clãs espalhados pelo continente africano, divididos por mentalidades tribais. Algumas tribos começaram a formar pequenas sociedades, que mais tarde deram origem a grandes civilizações. Antes disso, éramos uma única raça: a raça humana. Então, surgiu a invenção do "homem negro", uma construção que atendia às necessidades expansionistas e coloniais da economia global. A ideia do "homem negro" que precisas ser batptizado, retirado do seu laço genealógico até que sobrasse uma relação de orgulho somente com o consumo como assistimos hoje, em muitos casos. 

Essa invenção não surgiu de um processo natural, mas como uma ferramenta do sistema económico. O que hoje chamamos de condições culturais ou sociais são apenas desdobramentos externos dessa criação económica — o que Louis Althusser chamaria de "aparelhos ideológicos do Estado".

Contudo, séculos de dominação colonial, marcados por contradições e em alguns casos,  cumplicidades, fizeram com que, além da exploração económica, o homem negro perdesse sua terra, fosse saqueado e despojado de sua própria dignidade, porém, sempre um bom cristão. A violência do colonialismo não se limitou à exploração da força de trabalho: reduziu o homem negro a um objeto de entretenimento, a uma peça de zoológico, a uma mercadoria bestial. Mas essa humilhação gerou revolta. Oprimidos por tanto tempo, os povos indígenas do continente africano se prepararam para a luta. Séculos de resistência culminaram em um confronto que coincidiu com a nova fase do capitalismo global, permitindo que a luta africana contasse com o apoio de irmãos espalhados por diferentes continentes. Irmãos vítimas do fascismo na Europa, porque o capitalismo parece ter retirado a cor da classe trabalhadora... viramos irmãos do desespero. E o futuro mostrará que tirou cor também dos senhores da opressão.

O Nascimento da União Africana

A União Africana nasceu desse contexto. Sua criação representava a concretização do desejo de autodeterminação dos povos africanos, um continente onde a população autóctone pudesse decidir seu próprio destino. Mas desde o início, divergências sobre o método de integração surgiram.

De um lado, reunidos em Casablanca, estavam líderes como Kwame Nkrumah, Gamal Abdel Nasser, Modibo Keita e Sékou Touré. Eles defendiam uma "Super Federação Africana", baseada em uma moeda única, política única e um pan-africanismo radical. No outro extremo, o Grupo de Monróvia, formado por países como Nigéria, Costa do Marfim, Etiópia e Libéria, preferia um modelo de cooperação gradual, preservando a "soberania" dos Estados e mantendo laços com o Ocidente, que à época estava imerso na Guerra Fria.

O resultado desse embate? O grupo de Monróvia venceu.

O Legado de Hailé Selassié e a OUA

Coube a Hailé Selassié consolidar essa visão. O imperador etíope, que já havia aplicado um regime despótico em seu próprio país, exportou para a recém-criada Organização da Unidade Africana (OUA) um modelo feudal e centralizador. Reverenciado como imperador pelos etíopes (da classe privilegiada) e como uma divindade pelos rastafáris, Selassié não demorou a estender sua influência para além das fronteiras etíopes. Assim, a OUA foi moldada por sua liderança, com um viés burocrático e, em muitos casos, ineficaz - no mesmo estado em que deixou Etiópia. Contudo, não podemos negar que Selassie entendia de marketing, basta olhar para as nossas bandeiras africanas e percebemos a sua presença. E para os mais dados à erva mágica, poderá ter um encontro com a segunda vinda de Cristo após a hóstia celestial do culto rastafari.

Os reflexos dessa influência podem ser vistos até hoje. A sede da União Africana, um monumental edifício em Adis Abeba, foi projetada e financiada pela China ao custo de 200 milhões de dólares. Em 2018, o jornal Le Monde revelou que os servidores do prédio enviavam dados para Pequim todas as noites – uma denúncia de espionagem prontamente negada pelas autoridades africanas. Talvez tenham reparado que o mesmo acontecia com computadores, telemóveis e outros aparelhos oferecidos pelas corporações tecnofeudalistas e suas redes sociais, dominadas por algoritmos que ninguém compreende muito bem como funcionam – quinas o único especialista seja a Cambridge Analytica. Mas a dependência externa persiste e, ironicamente, a União Africana continua sendo um reflexo da ingerência estrangeira no continente.

A Diplomacia Africana e os Desafios Atuais

Hoje, vemos líderes africanos em busca de protagonismo. Um exemplo recente foi João Lourenço, presidente de Angola e atual líder da UA, que assumiu o papel de mediador no conflito entre Ruanda e República Democrática do Congo. Mas, para surpresa de muitos, ele abandonou as negociações, deixando um vácuo diplomático. O resultado? Os presidentes de Ruanda e RDC foram para Doha, no Qatar, onde apertaram as mãos do emir, selando uma reaproximação que poderia ter ocorrido em Luanda.

Enquanto isso, em Moçambique, o opositor Venâncio Mondlane envia mensagens ameaçadoras ao governo angolano, anunciando que estará em Angola em 2026 para replicar o modelo de contestação pós-eleitoral que incendiou Moçambique. João Lourenço pode até se sentir ameaçado, mas talvez tudo acabe em um aperto de mãos, iniciado por um encontro entre as "primeiras-damas", consolidando uma reconciliação superficial e reinventando o caso Lisístrata. Talvez João Lourenço se sinta tão ameaçado quanto Daniel Chapo se sente atualmente. Estaria VM7 preparando uma Primavera Africana? Não, sou santomense, vou chamar de Gravana Africana.

Para Onde Vai a União Africana?

A UA nasceu antes da União Europeia, mas, até hoje, não conseguiu conectar o continente de forma eficiente. Não há moeda comum, não há livre-trânsito entre os países africanos, e o comércio intra-africano ainda é minúsculo comparado ao comércio com potências externas.

Em 2002, a OUA foi reformulada para dar lugar à União Africana, na esperança de modernizar a instituição e esquecemos um pouco do Imperador que ia nu pela Etiópia. Mas as aspirações pan-africanistas de Nkrumah e seus aliados foram enfraquecidas ao longo dos anos. Enquanto o continente permanece dividido, disputando guerras com armas compradas das grandes potências, jovens desesperados arriscam suas vidas atravessando o Mar Mediterrâneo, embarcando em um novo tipo de "navio negreiro" — desta vez, movido pela falência das políticas africanas.

Enquanto o mundo discute inteligência artificial, tecnologias emergentes e novas formas de produção, a África continua sendo usada como carne de canhão.

A União Africana precisa decidir: mais um século de humilhação ou um compromisso real com a unificação do continente?

Devemos negociar mais entre nós. Precisamos de integração econômica, de livre-trânsito, de comunicação unificada. Por que, ao viajar dentro do continente, ainda preciso comprar um novo chip de telefone para cada país? Por que tantas organizações sub-regionais fragmentando ainda mais a unidade africana? Por qual motivo devo ter dólares e euros para ir mesmo à Angola e não posso usar minhas dobras que eles conhecem tão bem?

E, mais recentemente, por que a CEDEAO cogitou invadir o Níger? Enquanto a UA declarou oficialmente sua discordância com essa intervenção, ficou claro que as organizações sub-regionais estão ganhando mais peso – e, talvez, até ameaçando a relevância da própria União Africana.

Não podemos ficar ao sabor de vaidades exteriores. Cada vez que uma grande organização faz um corte, todo um continente parece sentir o impacto e se desola. tamanha é a "ajuda externa".

Se não nos unirmos agora, eles virão, dizia Julius Nyerere. 

sexta-feira, 21 de março de 2025

Caros irmãos, não somos o Ocidente, somos o Sul Global!

Aconteceu algum truque metafísico na nossa história que nos fez sentir ocidentais quando, de fato, não o somos. Se as gerações anteriores à nossa sentiam na pele – e através da pele – a grande invenção do homem negro, nós herdamos algumas subtilezas advindas das reformas sociais que ocorreram ao longo do tempo. O mesmo truque fez com que a história da Europa surgisse como a história do mundo. Como efeito, sempre fico abismado ao encontrar alunos e até jovens intelectuais que acreditam que entramos no mapa apenas após a expansão marítima europeia. A própria historiografia dessas afirmações é, no mínimo, engraçada.

O que é o Ocidente?

O Ocidente não é apenas um ponto cardeal, mas uma construção ideológica que se consolidou com o colonialismo, a Revolução Industrial e o capitalismo global. Ele se apresenta como o centro do mundo, detentor da "civilização", da "democracia" e do "desenvolvimento". Contudo, esses valores foram historicamente usados para justificar a exploração de territórios e povos considerados "periféricos".

A filósofa e escritora camaronesa Axelle Kabou, em Et si l'Afrique refusait le développement?, questiona por que os africanos ainda esperam um desenvolvimento nos moldes ocidentais. Para ela, o verdadeiro problema não é a falta de recursos ou investimentos, mas a aceitação passiva do modelo de desenvolvimento europeu como único caminho legítimo. Isso nos leva ao próximo ponto:

O que é o Sul Global?

O termo "Sul Global" não é apenas geográfico; ele designa um grupo de países que compartilham um histórico de colonização, exploração econômica e dependência estrutural em relação ao Norte Global. Mas mais do que um conceito de marginalização, o Sul Global também representa uma possibilidade de articulação política e econômica independente.

O economista sul-coreano Ha-Joon Chang, em Chutando a Escada, mostra como os países ocidentais desenvolveram suas economias através de protecionismo e intervenção estatal, mas, ao se tornarem potências, passaram a pregar o livre mercado para os países em desenvolvimento, impedindo-os de seguir o mesmo caminho. Esse mecanismo mantém a dependência do Sul Global e reforça a ilusão de que só há progresso seguindo o modelo ocidental.

Quem deverá defender os nossos interesses?

Se não somos o Ocidente e se fazemos parte do Sul Global, então quem defende os nossos interesses?

É um erro acreditar que as grandes potências, sejam elas europeias, americanas ou asiáticas, agirão em nosso favor. A China e os EUA ou UE podem parecer alternativas, mas, no fim das contas, as relações internacionais ainda são moldadas por interesses próprios - Isso é a dinâmica das relações internacionais.

Por isso, a resposta está na nossa capacidade de cooperação dentro do próprio Sul Global. Organizações como a União Africana, o BRICS e parcerias estratégicas entre países da América Latina, Ásia e África são essenciais para fortalecer economias e culturas sem a necessidade de um "salvador" externo. Os famosos irmãos de cruz. 

Cuidado com a lógica de trocar um Explorador por outro

Muitos africanos, desiludidos com o Ocidente, veem na China ou em outras potências emergentes uma nova saída. No entanto, isso pode ser apenas uma troca de domínios. A verdadeira emancipação virá quando os africanos deixarem de buscar um "modelo externo" para o seu desenvolvimento e começarem a construir sua própria trajetória.

O Sul Global tem recursos, cultura e capacidade de inovação. O que falta é romper com a mentalidade de dependência e reconhecer que o nosso futuro não precisa ser uma cópia do Ocidente. Somos mais do que isso. Somos o Sul Global.

Finalizando...

Precisamos abordar a cooperação com o mesmo ar estratégico. O meu humanismo ao abordar a vida não me permite ver um grupo ou outro como inimigos. Eles apenas buscam os seus próprios interesses. Dentro dessa lógica globalista, precisamos pensar do mesmo jeito. Precisamos saber as relações que nos servem e são importantes. 

Tantos anos de União Africana e ainda tantas moedas em um só continente. Todas as nossas negociações são finalizadas em euros ou dólares. Tanta burocracia que um africano, como eu, enfrenta para viajar dentro do próprio continente é incompreensível. Um europeu pode viajar mais livremente pelo continente africano do que um africano. Porquê?

Alguns poucos gatos pingados sentam-se em escritórios onde nada à sua volta foi feito no próprio continente e seguem idolatrando marcas que exploram mão de obra barata e vendem logos bonitos. Precisamos nos articular, organizar e decidir o que queremos. E cooperar com estratégia. A vontade de uma classe privilegiada não pode colocar em questão todo um continente. não precisamos continuar a queimar como carvão para garantir o calor do privilégio de poucos.

Não podemos mais condenar jovens a imigrarem sem sonhos, movidos pelo puro pessimismo.

sexta-feira, 14 de março de 2025

Venâncio Mondlane e a União Africana: O Silêncio Que Mata

Imagine um jogo de xadrez em que um dos jogadores nunca mexe suas peças. Ele senta, observa, suspira de vez em quando, mas nunca move um peão sequer. Se perguntarmos a ele por que não joga, talvez ele diga que está "avaliando a situação" ou que "a diplomacia exige paciência" ou espera que alguém com alguma relevância diga o que deva fazer. Esse jogador fantasma poderia muito bem ser a União Africana (UA), que nos momentos mais cruciais, em que esperávamos um xeque-mate contra injustiças, limita-se ao mais perfeito e metódico silêncio. Depois do processo de descolonização física, parece ter entrado num sono profundo que promete ser despertado. Podemos ouvir pálidos gritos do Professor Lumumba, mas, nada mais grita... faz frio ali do alto onde os pequenos demiurgos em fatos presidenciais passeiam com o seu séquito.

Um Silêncio com Eco

Nos últimos anos, a UA tem sido notória por seu silêncio seletivo. Golpes de Estado? Silêncio. Violações dos direitos humanos? Silêncio. Eleições questionáveis? Um leve murmúrio, seguido por mais silêncio. Se não fosse pela ocasional condenação genérica emitida em documentos que parecem escritos por inteligência artificial dos anos 90, até esqueceríamos de sua existência. Esperam novamente que lhe diga o que fazer como no caso Gaddafi?

Agora, vejamos Moçambique.

Venâncio Mondlane, figura central das recentes eleições moçambicanas, teve seu nome varrido da cena política como se fosse poeira num canto incômodo. Acusações de fraudes, repressão a opositores, protestos violentamente contidos – ingredientes suficientes para um escândalo internacional. Mas, da União Africana? Nada. Nem um piu. Se houvesse um campeonato mundial de omissão, a UA seria a campeã invicta. Ou aguarda impaciente para que escrevam uma nota de pesar?

A União Africana Serve Para Quê?

Filosofemos: se uma organização continental não intervém em situações de crise, qual é sua finalidade? Aristóteles nos ensinou que tudo tem um telos, um propósito. O telos de um leão é caçar. O telos de uma caneta é escrever. O telos da União Africana... bem, até agora, parece ser organizar cúpulas de líderes onde todos tiram fotos sorridentes e assinam declarações vazias.

Mas por que essa inércia? A resposta está, como sempre, no dinheiro.

Quem Financia a União Africana?

Se seguirmos o rastro do dinheiro, descobrimos algo interessante: a maior parte do financiamento da UA vem de fora da África. Em 2022, mais de 60% do orçamento da organização foi bancado por doadores externos – União Europeia, China, Banco Mundial, e por aí vai. Ora, quem paga a orquestra escolhe a música. E quem paga a União Africana tem seus interesses, que nem sempre coincidem com os dos cidadãos africanos.

Achille Mbembe nos ensina que vivemos sob a necropolítica, onde os Estados decidem quem vive e quem morre. A omissão da UA não é um acaso: é parte do mesmo sistema que trata a vida africana como descartável. Kwame Nkrumah, por outro lado, sonhava com um pan-africanismo forte, onde os africanos controlariam seu próprio destino. Mas enquanto a UA continuar sendo financiada por fora, sua autonomia será uma miragem.

Se a UA não responde aos clamores populares por justiça, talvez seja porque não são esses clamores que sustentam sua existência. Numa democracia ideal, as instituições representam o povo. Mas quando a fonte de recursos vem de fora, a lealdade se desloca.

E Agora?

Se um dia a UA quiser ser levada a sério, precisará recuperar sua independência financeira e ideológica. Até lá, continuará sendo esse jogador de xadrez que nunca mexe as peças – esperando o jogo acabar sem nunca ter participado dele. E Venâncio Mondlane, como tantos outros antes dele, segue como mais uma peça sacrificada num tabuleiro onde as regras já foram escritas antes mesmo da partida começar.

O povo continuará a morrer – não apenas sob balas, mas também sob o peso do silêncio cúmplice. Porque a verdade é dura: muitos dos presidentes africanos não têm moral para condenar fraudes e repressão. Sabem que se apontarem o dedo para Moçambique, acordam os seus próprios VM7’s, que dormem apenas à espera do momento certo para se levantar.

Mas agora que Mondlane se mantém de pé, que faz do tribunal palco e do palco tribunal, será que ele conseguirá transformar esse jogo kafkiano num xeque-mate inesperado? Ou o outro lado, que cospe fogo e manipula as regras do jogo, já decidiu o resultado?

Quid iuris? Ou melhor: quando até a justiça é uma peça do jogo, quem ainda tem coragem para mover um peão?

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

O Povo Quer o Que Quer ou Só Quer o Que Pode Querer?

Sempre ouvi que existe uma diferença de objetivo entre o povo e os seus dirigentes, como se fossem até de espécies diferentes. Certamente, estamos fartos de ouvir que um determinado político é corrupto ou que o povo é burro e não sabe votar. Mas podemos, de fato, acreditar nessa diferença? E se, na verdade, forem mais semelhantes do que parece à primeira vista?

Quando olhamos para os países que admiramos quanto à sua governança, percebemos que o povo carrega muitos dos valores que também admiramos. Os governantes vêm do povo e apenas se encontram numa posição favorável para exercer os valores que já existem — ou que não estão disseminados culturalmente. A diferença é que, enquanto fazem parte do povo, ser mau é apenas um atributo que os mais próximos reconhecem. Quando essa mesma pessoa sobe ao poder, o povo se espanta; no entanto, aqueles que lhe são próximos não se surpreendem. Era elementar.

Precisamos entender o que o povo quer. Pois, em boa parte dos Estados, a vontade do povo é difusa, oscilando entre sonhos e fantasias. Talvez Thomas Sowell possa ser citado aqui: "Quando se quer o impossível, só o mentiroso pode oferecer." Se, por um lado, alguém dirá: "Temos vários grupos de interesse, e é natural que estejam em conflito." Por outro, há uma base comum: todos querem um país justo, seguro e próspero... As discordâncias estão na estratégia para ali chegar. Em tese, queremos mais ou menos a mesma coisa. Claro, podemos ter algumas exceções — aqueles dispostos a queimar tudo pelo simples prazer de ver o caos. E sim, essas pessoas existem. Muitos as chamam de chefe... ou de ex-amor.

Apesar da aparente discordância, aqueles que falam sobre a vontade do povo só a consideram válida quando coincide com a sua própria opinião. Assim, facilmente ouviremos desses seres intelectuais e neutros que, quando seus interesses não são atendidos, o povo é burro, não sabe votar ou sofreu lavagem cerebral. Mas a lavagem cerebral ocorre quando alguém tem convicções que vão de encontro ao que acreditamos. Nesse momento, o incômodo da liberdade de imprensa ou de expressão pesa sobre nós, e queremos aniquilar essas discordâncias. Chamamos isso de justiça poética ou de uma causa maior. Temos fórmulas sofisticadas para justificar o nosso extremismo.

E o povo? Podemos acreditar que se trata de uma massa pensante, repleta de individualidades que buscam o que é melhor para si, guiadas pela razão. Ou podemos acreditar que é uma massa acéfala, que precisa ser guiada. Levando essas hipóteses ao extremo, podemos dizer ao povo sofredor: “Por qual motivo a bota da opressão está no vosso pescoço? Não sois vós cúmplices do vosso algoz?” Em parte, sim, ao aceitar determinadas condições. Mas não podemos culpá-lo por não ter o poder de desviar de balas, evitar a fome ou ressuscitar seus entes queridos! Se queremos afirmar que o povo se guia pela razão, pergunto: qual razão pode ser desenvolvida em situações de miséria e sobrevivência? Assim, chegamos à conclusão de que alguns são mais povo do que outros. O filho de um presidente é povo, mas um povo diferente — uma espécie de povo premium. Ele terá acesso e influência que são vedados ao povo econômic.

E os dirigentes? Podemos pensar que são seres independentes, que existem para servir o país... ou para se servir dele. Isso também é relativo. O dirigente depende do Deep State ou dos patrocinadores — aqueles que controlam quem governa, mas que nunca são eleitos. Quando assistimos ao nosso presidente aceitar uma proposta que lesa visivelmente o país, talvez ele esteja apenas fazendo a vontade daqueles que o colocaram ali.

E então? A formação da elite africana, por exemplo, tem um propósito claro: manter o país exatamente como está — pobre e submisso. Enquanto suas famílias se distraem com consumo e um nível de vida mais elevado, o país morre. Mas eles se sentem africanos premium.

Alguém dirá: "Mas ele deveria resistir e manter sua moralidade!" Ele pode até tentar, mas logo será substituído por alguém mais iludido e facilmente manipulável. Isto é a Realpolitik.

Uns concluirão: "Isso só acontece na África porque somos pobres!" Será? O primeiro-ministro japonês acabou com uma bala na testa. Vários presidentes norte-americanos tiveram destinos semelhantes. A França guilhotinou seu rei. A Inglaterra fez o mesmo. Assim segue o baile. Seria a tal famosa elite global? Precisamos pensar nisso.

Por fim, o que o povo quer? O que ele pode querer, dadas as condições materiais da sua própria existência? O que pode desejar quando existe uma máquina milionária de propaganda instalando ideias convenientes para os que estão no poder? O que o povo precisa querer para entender que o sucesso individual não confirma o sucesso do sistema?

O que é o povo, afinal, quando quer o que quer? Ou já chegamos lá?



quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

All in ou xeque-mate? A jogada final de VM7

Venâncio sempre esteve entrincheirado entre duas realidades paradoxais: a necessidade de parecer moralmente superior e a urgência de agir concretamente, o que muitas vezes significa recorrer à violência. Aparentemente, os caminhos oferecidos pelo sistema para a crítica não são suficientemente revolucionários. É como tentar viajar num avião construído por quem mais lucra com sua queda, na esperança de chegar ao destino e assumir o controle. De qualquer modo, segue encurralado pelo peso da opinião pública que insiste que VM7 pode se dar ao luxo do pacifismo.

A FRELIMO, por sua vez, sempre adotou a estratégia de simplesmente olhar para o relógio e assistir ao colapso de todo um sistema de manifestações e retóricas. Por mais magnético que seja o apelo, não consegue atravessar a fronteira das armas da crítica, ou seja, o campo estéril da discussão ética. Enquanto os manifestantes falam, o tempo passa, as políticas seguem e o status quo permanece, estoicamente, no seu posto.

O suporte intelectual sempre alimentou o VM7, mas a intelectualidade, por si só, não garante consenso. Os intelectuais alinhados ao sistema têm assento cativo nos jornais, amplo endosso financeiro e cobertura midiática garantida. Precisam gritar cada vez mais alto para sufocar qualquer suspeita de que talvez tenham sido digeridos pelo imenso estômago de uma dívida conveniente.

Do outro lado do ringue, estão os artistas da fome e os mártires. Esses intelectuais orbitam canais alternativos, compartilhando seus ideais em nome do VM7. Sem suporte financeiro, vivem da efêmera solidariedade dos ativistas da internet. Olham para as contas acumuladas no canto esquerdo da sala e ponderam entre duas opções: tornam-se mártires ou entram na fila dos fatalistas. A revolução também tem custos, e nem todos podem pagá-los.

Diante desse cenário, o VM7 tem apenas duas opções. E só uma delas preserva sua existência física. Como um apostador de pôquer que subiu tanto a aposta que recuar deixou de ser uma alternativa, ele está em modo "all in". Precisa manter o engajamento popular, alimentar-se das pequenas tragédias nacionais e concentrar em si todo o descontentamento.

No fim, as manifestações pacíficas dão lugar a movimentos mais intencionais, visando a tomada agressiva do poder. E não podemos julgá-lo por isso. Ele avançou para a crítica das armas, e fará de tudo para manter a chama acesa. Ele sabe que, no momento em que o mar se acalmar, sua cabeça rolará do alto da escada onde o banquete real está sendo servido. Não se pode condenar esse desespero visível. Ele já perdeu muita gente, apostou alto e agora sente a Máscara da Morte Escarlate pairar sobre si, pronta para arrastá-lo ao esquecimento. Ele luta contra o tempo, sua vida escorre em pequenos grãos pela clepsidra...

Perguntou Drummond de Andrade:

E agora, José? A festa acabou, A luz apagou, O povo sumiu,

 A noite esfriou, E agora, José? E agora, você? 

Agora pergunta um Lopandza:

E agora, VM7? A festa acabou?  A luz apagou?

A noite esfriou? E agora, VM7? E agora? E Agora?

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

Precisamos de um novo Cubaliwa

Ah, Azagaia, o poeta  que ousou não se conformar! Digo, quem diria que um sujeito com a audácia de questionar o status quo, um artista que escolheu empunhar a caneta como espada, faria algo além de ser engolido pela máquina de moer a resistência? Aí está o grande truque: enquanto os pacifistas da opressão nos pregam uma paz estéril e suicida, Azagaia prefere ser a pedra no sapato do sistema! De Moçambique, ele exportou para os PALOP o hino: O povo no Poder!

Vejam só! Ele, que não aceitou a destruição lenta da alma em nome da sobrevivência, foi apontado como um inimigo. Como sempre, a classe dominante, que preza pela pacificação de todos, se encarrega de transformar qualquer brisa de liberdade em tempestade de repressão. De repente, doutrinando crianças, transformando um herói em mero drogado. 

“Toda destruição é autodestruição!”, diria Azagaia, para nossa surpresa. E qual não é a destruição maior do que aceitar a mentira de que o conformismo é paz? A classe opressora sabe muito bem disso: destruir os que lutam pela liberdade é a única maneira de manter a ilusão de que estamos “renascendo” quando, na verdade, estamos todos morrendo aos poucos.

A vida, para os verdadeiros revolucionários, não é uma troca de opressores, mas uma troca de consciências. E Azagaia sabia disso. Ao contrário dos que se contentam com os pedaços de pão oferecidos pelo sistema, ele nos acordou: viver é resistir, não é engolir os venenos do sistema e esperar que nos matemos lentamente, como um suicídio social auto-imposto. O renascimento que ele pregava não é aquele que nos dizem, o da "boa convivência" com a opressão, mas o renascimento de uma nova consciência que rejeita esse suicídio diário.

Renascer, portanto, é lutar, não se render à destruição silenciosa. A luta de Azagaia não era apenas contra as injustiças gritantes, mas contra o silêncio cúmplice dos que preferem morrer sem que o mundo perceba. Toda vez que Azagaia fazia sua voz soar mais forte, ele não estava apenas falando por si mesmo, mas por todos aqueles que se negam a ser engolidos por uma sociedade que lhes diz que viver é aceitar.

Em resumo, Azagaia não foi um mero poeta. Ele foi um panfletista da revolução da alma. E como todos os grandes revolucionários, tentaram o engolir. E talvez, na maior ironia de todas, essa incompreensão seja a prova de que ele estava no caminho certo. Porque os que falam a verdade, mesmo que poucos ouçam, jamais morrem — eles renascem a cada alma que se recusa a se curvar ao suicídio coletivo.

Não quero que retirem o nome de Azagaia do livro que o difama. Quero que ele seja literatura obrigatória nas escolas, uma fonte inesgotável de reflexão sobre quando a liberdade e o senso crítico são levados até as últimas consequências. Azagaia deve ser celebrado, não por ser perfeito, mas por ser verdadeiro. Por nunca ceder às amarras do conformismo e por nos lembrar que a luta pela liberdade é, acima de tudo, uma luta pela alma do povo.

Grito desde São Tomé, das ilhas, sem entender bem a palavra que ressoa desde o meu atavismo pálido enquanto estudante no ensino secundário na altura:

Cubaliwa!

Cubaliwa!

essa é a herança Moz que ecoa em toda a minha alma panafricanista!

 

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

VENÂNCIO MONDLANE: REFORMA OU REVOLUÇÃO?

A História tem um sentido de humor sádico. As revoluções não falham apenas pela força do inimigo, mas pelo peso da paciência do povo. E paciência, essa desgraçada virtude cristã, é o que mantém os tiranos de pé. Se esperarmos tempo suficiente, até a mais ardente chama revolucionária se transforma em brasa fria, e a repressão, essa velha senhora, aprende a sorrir para as câmaras enquanto continua a esmagar crânios nos bastidores.

Venâncio Mondlane, outrora um nome sussurrado com esperança e temor, agora resvala lentamente para o esquecimento. Como a Ucrânia, que foi a vanguarda da "civilização" até o Ocidente se cansar dela. Como Gaza, que só importa enquanto houver tempo de antena entre um anúncio da Nike e outro da Coca-Cola. Como os Houthis, que de terroristas passaram a guerreiros dependendo da conveniência geopolítica. E agora? Agora a nova moda é Trump, Elon Musk a brincar de senhor feudal e a China, que ousa desafiar a inteligência artificial da OpenAI com a Deep Seek. O circo segue, e Moçambique corre o risco de perder o seu palhaço favorito.

Mas há um dilema. O povo já não aguenta discursos, já não se alimenta de metáforas e promessas de um futuro brilhante. O estômago ronca, o salário mingua, a terra arde. E, no meio disso, o VM7 precisa decidir: Reforma ou Revolução?  Negociação ou Inssureição?

Ah, a reforma! Essa bela palavra que, no fundo, significa "remendar a velha roupa do rei para que pareça nova". Perguntem a Rosa Luxemburgo, se a FRELIMO ainda não a tivesse executado em nome da ordem. Diga-nos, Mondlane, depois de levar o povo às ruas, depois de lhes vender a esperança como um mercador da fé, vais sentar-te à mesa e partir o pão com quem os espoliou? Será a tua retórica incendiária apenas um aperitivo para um jantar de negociação? E o sangue derramado, beberemos desse vinho até quando?

Não sejamos ingénuos. A FRELIMO não teme Mondlane. Não teme oposição. O que ela teme é que a farsa da renovação não funcione, que o teatro se torne tragédia real. Por isso, empurra Chapo para a arena, um cordeiro sacrificial vestido de reformista. Porque a História já ensinou aos poderosos que, se a mudança for inevitável, então que seja feita pelas mãos deles mesmos. Mudemos tudo para que tudo fique igual. Eis a lição.

Mas, Mondlane, o tempo é cruel. O que hoje é um perigo amanhã será um meme. Se tardares muito, a negociação será irrelevante porque já não representarás uma ameaça. Serás apenas mais um na longa lista de nomes que já não fazem tremer o poder. E então, com um sorriso nos lábios, o regime dirá: "Obrigado pela participação democrática. Tente novamente em cinco anos."

E enquanto isso, o povo continuará à espera. Esperando que um dia alguém perceba que a liberdade não se mendiga. Ou se toma, ou não se tem.

sábado, 1 de fevereiro de 2025

O Iluminado de Salão: Quando o Sotaque é a Senha para o Pedestal

Faz pouco tempo que assisti à entrevista do "intelectual" moçambicano Conrado. Sua preocupação com o sotaque e o uso de termos técnicos carrega aquela arrogância de classe típica de quem acredita ter recebido o fogo diretamente das mãos de Prometeu. Como um bom Lux Ferre (Lúcifer), não busca iluminar os outros, mas apenas exibir o próprio brilho, como quem se deslumbra diante do próprio espelho.

Não pude deixar de lembrar A Luta de Classes em África, de Kwame Nkrumah. Ali, ele denuncia como o colonialismo forjou uma inteligência domesticada, treinada para falar com a voz dos mestres europeus. O colonialismo acabou, dizem, mas seus ecos seguem ressoando nos salões de conferência. E assim, muitos intelectuais africanos transformaram Platão, Sartre e Kant em guias espirituais, enquanto desaprenderam a língua do próprio povo.

O sofrimento popular, para esses iluminados, não é um problema a ser resolvido, mas um adereço conveniente. Serve, primeiro, como alerta: veja o que acontece quando alguém ousa desafiar a narrativa oficial! E, segundo, como distinção de status: o intelectual não sofre, observa o sofrimento, como um aristocrata que contempla a miséria do alto da varanda. Afinal, o povo — essa massa de ignorantes que insiste em existir — se tornou um obstáculo à elevação do gênio.

E, como todo bom intelectual do status quo, Conrado sabe que a solução para todos esses problemas não está no entendimento profundo da realidade que o povo vive, mas em aplicar as velhas receitas dos grandes grupos internacionais. Precisamos de mais empréstimos, mais consultorias, mais métricas universais que tratam a África como um laboratório de experimentos teóricos. O Banco Mundial, o FMI e suas irmandades de interesse, com seus planos austeros e relatórios recheados de jargões, têm a fórmula mágica para resolver o caos. E a culpa, claro, é sempre do povo: "Eles precisam aprender a se comportar, a produzir melhor, a consumir de forma mais racional." Esquecem-se, no entanto, que essas soluções não têm compromisso com o público orgânico e real que sofre. Não há empatia, só um modelo de desenvolvimento pré-fabricado que ignora as raízes, os valores e a dignidade dos povos. Para esses grupos, a dor do povo é apenas uma variável a ser controlada, um dado que não altera os números nas telas do Excel.

O que precisamos, então?

Dizia Nkrumah: precisamos de uma inteligência revolucionária, capaz de escapar da própria gaiola dourada. O diploma não pode ser um bilhete só de ida para longe dos nossos compatriotas. Conhecimento que não transforma vira só mais um enfeite — tipo medalha de maratona comprada na feira. Mas Conrado, firme no pedestal do positivismo, segue convencido de que ele tem conhecimento, os outros apenas opiniões.

Seus gostos refinados são dogma: ouvir Mozart é alta cultura, mas Fela Kuti, N.W.A, Bulimundo e Sun Cornélio? Ah, isso já é barulho de ralé. Para ele, a cultura é um clube privado, com seguranças na porta exigindo senha na entrada. E qual é a senha? Fácil: falar difícil e depreciar o gosto do povão. Afinal, patrão é patrão... como bem diria MC Roger.

É curioso... O outro Roger, Roger Scruton, com seu conservadorismo estético, ao menos tinha a decência de vestir o eurocentrismo com uma roupagem elegante de “métricas objetivas”. Já Conrado? Nem isso. Seu método é mais direto: é ciência quando ele fala, é palpite quando os outros respondem. A alta cultura, essa nobreza ilustrada, não se contenta em monopolizar o bom gosto—exige também o monopólio da verdade. No fim, o critério é simples: ou você pensa como ele, ou está condenado à insignificância cultural, destinado a viver no gueto do mau gosto, ouvindo música "errada" e tendo opiniões "equivocadas".

Eis a grande ironia: os que mais desprezam a vulgaridade do povo são, no fim das contas, os que mais fazem uso dela — só que com outro sotaque. Conrado, o iluminado de salão, é a prova viva de que o colonialismo não acabou: ele apenas trocou de roupa e aprendeu a falar difícil. Mas, como diria Nkrumah, já o parafraseando, - a verdadeira revolução começa quando a inteligência desce do pedestal e aprende a escutar o povo. Até lá, Conrado seguirá brilhando sozinho, diante do espelho, enquanto o mundo real acontece lá fora, ao som de Fela Kuti e Sun Cornélio.





Lula e a difícil arte de explicar o povo ao povo

A América Latina virou à direita Milei e a sua motosserra na Argentina. Bukele e as suas prisões em El Salvador.  Abelardo de la Espriella e...