Faz pouco tempo que assisti à entrevista do "intelectual" moçambicano Conrado. Sua preocupação com o sotaque e o uso de termos técnicos carrega aquela arrogância de classe típica de quem acredita ter recebido o fogo diretamente das mãos de Prometeu. Como um bom Lux Ferre (Lúcifer), não busca iluminar os outros, mas apenas exibir o próprio brilho, como quem se deslumbra diante do próprio espelho.
Não pude deixar de lembrar A Luta de Classes em África, de Kwame Nkrumah. Ali, ele denuncia como o colonialismo forjou uma inteligência domesticada, treinada para falar com a voz dos mestres europeus. O colonialismo acabou, dizem, mas seus ecos seguem ressoando nos salões de conferência. E assim, muitos intelectuais africanos transformaram Platão, Sartre e Kant em guias espirituais, enquanto desaprenderam a língua do próprio povo.
O sofrimento popular, para esses iluminados, não é um problema a ser resolvido, mas um adereço conveniente. Serve, primeiro, como alerta: veja o que acontece quando alguém ousa desafiar a narrativa oficial! E, segundo, como distinção de status: o intelectual não sofre, observa o sofrimento, como um aristocrata que contempla a miséria do alto da varanda. Afinal, o povo — essa massa de ignorantes que insiste em existir — se tornou um obstáculo à elevação do gênio.
E, como todo bom intelectual do status quo, Conrado sabe que a solução para todos esses problemas não está no entendimento profundo da realidade que o povo vive, mas em aplicar as velhas receitas dos grandes grupos internacionais. Precisamos de mais empréstimos, mais consultorias, mais métricas universais que tratam a África como um laboratório de experimentos teóricos. O Banco Mundial, o FMI e suas irmandades de interesse, com seus planos austeros e relatórios recheados de jargões, têm a fórmula mágica para resolver o caos. E a culpa, claro, é sempre do povo: "Eles precisam aprender a se comportar, a produzir melhor, a consumir de forma mais racional." Esquecem-se, no entanto, que essas soluções não têm compromisso com o público orgânico e real que sofre. Não há empatia, só um modelo de desenvolvimento pré-fabricado que ignora as raízes, os valores e a dignidade dos povos. Para esses grupos, a dor do povo é apenas uma variável a ser controlada, um dado que não altera os números nas telas do Excel.
O que precisamos, então?
Dizia Nkrumah: precisamos de uma inteligência revolucionária, capaz de escapar da própria gaiola dourada. O diploma não pode ser um bilhete só de ida para longe dos nossos compatriotas. Conhecimento que não transforma vira só mais um enfeite — tipo medalha de maratona comprada na feira. Mas Conrado, firme no pedestal do positivismo, segue convencido de que ele tem conhecimento, os outros apenas opiniões.
Seus gostos refinados são dogma: ouvir Mozart é alta cultura, mas Fela Kuti, N.W.A, Bulimundo e Sun Cornélio? Ah, isso já é barulho de ralé. Para ele, a cultura é um clube privado, com seguranças na porta exigindo senha na entrada. E qual é a senha? Fácil: falar difícil e depreciar o gosto do povão. Afinal, patrão é patrão... como bem diria MC Roger.
É curioso... O outro Roger, Roger Scruton, com seu conservadorismo estético, ao menos tinha a decência de vestir o eurocentrismo com uma roupagem elegante de “métricas objetivas”. Já Conrado? Nem isso. Seu método é mais direto: é ciência quando ele fala, é palpite quando os outros respondem. A alta cultura, essa nobreza ilustrada, não se contenta em monopolizar o bom gosto—exige também o monopólio da verdade. No fim, o critério é simples: ou você pensa como ele, ou está condenado à insignificância cultural, destinado a viver no gueto do mau gosto, ouvindo música "errada" e tendo opiniões "equivocadas".
Eis a grande ironia: os que mais desprezam a vulgaridade do povo são, no fim das contas, os que mais fazem uso dela — só que com outro sotaque. Conrado, o iluminado de salão, é a prova viva de que o colonialismo não acabou: ele apenas trocou de roupa e aprendeu a falar difícil. Mas, como diria Nkrumah, já o parafraseando, - a verdadeira revolução começa quando a inteligência desce do pedestal e aprende a escutar o povo. Até lá, Conrado seguirá brilhando sozinho, diante do espelho, enquanto o mundo real acontece lá fora, ao som de Fela Kuti e Sun Cornélio.
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