sexta-feira, 21 de março de 2025

Caros irmãos, não somos o Ocidente, somos o Sul Global!

Aconteceu algum truque metafísico na nossa história que nos fez sentir ocidentais quando, de fato, não o somos. Se as gerações anteriores à nossa sentiam na pele – e através da pele – a grande invenção do homem negro, nós herdamos algumas subtilezas advindas das reformas sociais que ocorreram ao longo do tempo. O mesmo truque fez com que a história da Europa surgisse como a história do mundo. Como efeito, sempre fico abismado ao encontrar alunos e até jovens intelectuais que acreditam que entramos no mapa apenas após a expansão marítima europeia. A própria historiografia dessas afirmações é, no mínimo, engraçada.

O que é o Ocidente?

O Ocidente não é apenas um ponto cardeal, mas uma construção ideológica que se consolidou com o colonialismo, a Revolução Industrial e o capitalismo global. Ele se apresenta como o centro do mundo, detentor da "civilização", da "democracia" e do "desenvolvimento". Contudo, esses valores foram historicamente usados para justificar a exploração de territórios e povos considerados "periféricos".

A filósofa e escritora camaronesa Axelle Kabou, em Et si l'Afrique refusait le développement?, questiona por que os africanos ainda esperam um desenvolvimento nos moldes ocidentais. Para ela, o verdadeiro problema não é a falta de recursos ou investimentos, mas a aceitação passiva do modelo de desenvolvimento europeu como único caminho legítimo. Isso nos leva ao próximo ponto:

O que é o Sul Global?

O termo "Sul Global" não é apenas geográfico; ele designa um grupo de países que compartilham um histórico de colonização, exploração econômica e dependência estrutural em relação ao Norte Global. Mas mais do que um conceito de marginalização, o Sul Global também representa uma possibilidade de articulação política e econômica independente.

O economista sul-coreano Ha-Joon Chang, em Chutando a Escada, mostra como os países ocidentais desenvolveram suas economias através de protecionismo e intervenção estatal, mas, ao se tornarem potências, passaram a pregar o livre mercado para os países em desenvolvimento, impedindo-os de seguir o mesmo caminho. Esse mecanismo mantém a dependência do Sul Global e reforça a ilusão de que só há progresso seguindo o modelo ocidental.

Quem deverá defender os nossos interesses?

Se não somos o Ocidente e se fazemos parte do Sul Global, então quem defende os nossos interesses?

É um erro acreditar que as grandes potências, sejam elas europeias, americanas ou asiáticas, agirão em nosso favor. A China e os EUA ou UE podem parecer alternativas, mas, no fim das contas, as relações internacionais ainda são moldadas por interesses próprios - Isso é a dinâmica das relações internacionais.

Por isso, a resposta está na nossa capacidade de cooperação dentro do próprio Sul Global. Organizações como a União Africana, o BRICS e parcerias estratégicas entre países da América Latina, Ásia e África são essenciais para fortalecer economias e culturas sem a necessidade de um "salvador" externo. Os famosos irmãos de cruz. 

Cuidado com a lógica de trocar um Explorador por outro

Muitos africanos, desiludidos com o Ocidente, veem na China ou em outras potências emergentes uma nova saída. No entanto, isso pode ser apenas uma troca de domínios. A verdadeira emancipação virá quando os africanos deixarem de buscar um "modelo externo" para o seu desenvolvimento e começarem a construir sua própria trajetória.

O Sul Global tem recursos, cultura e capacidade de inovação. O que falta é romper com a mentalidade de dependência e reconhecer que o nosso futuro não precisa ser uma cópia do Ocidente. Somos mais do que isso. Somos o Sul Global.

Finalizando...

Precisamos abordar a cooperação com o mesmo ar estratégico. O meu humanismo ao abordar a vida não me permite ver um grupo ou outro como inimigos. Eles apenas buscam os seus próprios interesses. Dentro dessa lógica globalista, precisamos pensar do mesmo jeito. Precisamos saber as relações que nos servem e são importantes. 

Tantos anos de União Africana e ainda tantas moedas em um só continente. Todas as nossas negociações são finalizadas em euros ou dólares. Tanta burocracia que um africano, como eu, enfrenta para viajar dentro do próprio continente é incompreensível. Um europeu pode viajar mais livremente pelo continente africano do que um africano. Porquê?

Alguns poucos gatos pingados sentam-se em escritórios onde nada à sua volta foi feito no próprio continente e seguem idolatrando marcas que exploram mão de obra barata e vendem logos bonitos. Precisamos nos articular, organizar e decidir o que queremos. E cooperar com estratégia. A vontade de uma classe privilegiada não pode colocar em questão todo um continente. não precisamos continuar a queimar como carvão para garantir o calor do privilégio de poucos.

Não podemos mais condenar jovens a imigrarem sem sonhos, movidos pelo puro pessimismo.

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