quinta-feira, 13 de abril de 2023

E o piolho está na cabeça de todos nós.

 

Existe uma receita básica para inflar o interesse das pessoas por um determinado tema: o ridículo. Sempre foi explorado em todas as partes do mundo e com resultados surpreendentes. A fórmula de chamar atenção pela atenção com conteúdos chocantes – uma receita pós-moderna, uma receita kardashian.

Mister Page é um herói trágico, do meu ponto de vista. Eu via-o andar de lugar em lugar usando as suas roupas extravagantes e se declarando cantor. Humilhação após humilhação dos demais que desacreditam o seu talento. Ele foi de dor em dor sem nunca perder o entusiasmo por uma vida com base na sua arte, naquilo que o deixa feliz, a música. Ele venceu a resistência (desculpas que se dá para não seguir o que se ama), ele superou o conceito existencialista de má fé (colocar nos outros a culpa pela forma como age ou por não estar onde desejaria estar). E agora ele olha o piolho por cima das nossas cabeças.

Por outro lado, conheci muitos cantores que em quesito talento e oportunidades superavam facilmente o Mister Page. Onde eles estão? Uns em depressão, outros buscam emprego “de verdade” e os outros sequer conseguiram sair do banheiro. Outros até, acredito que muitos agora, maldizem de todos que tentam seguir o talento ou a vontade de cantar chamando-os de imaturos, infantis e ridículos.

Por consequência, posso até falar de mim. Sempre gostei de escrever e perco horas lendo coisas e acumulando experiências na esperança que um dia, enfim, venha uma obra magna da minha parte e eu tenha finalmente a ousadia de me declarar escritor. Mas não consigo, o desemprego assombra-me, a ideia de que não sou bom o suficiente está ali. Passo dias pensando na carreira de escritor e poeta que nunca segui de facto. Tive ótimas oportunidades para seguir a vocação, mas faltou aquilo que Mister Page tem de sobra, coragem e perserverança… faltou a coragem do neu vizinho Ghost, do meu amigo Brother, lafinesse, Okapa,… o piolho está na minha cabeça também.

Por fim, creio que Mister Page tenha percebido o óbvio das redes sociais: as pessoas compartilham mais o que acham ridículo do que outra coisa qualquer. Basta olhar para o The Voice, ninguém se lembra do vencedor, mas todos se lembram dos que fizeram papel de ridículos. Até a audiência do The Voice é maior durante o casting. O piolho está ali também, o público quer ser entretido apenas.

quarta-feira, 12 de abril de 2023

O remédio budista para o fim do sofrimento.

 


De acordo com o pensamento budista, a causa maior do sofrimento reside nos nossos desejos. Diante dessa afirmação, a mente corre rapidamente para a ideia de que não desejar é a solução. Isso é não entender a natureza da mente. Desejar não desejar ainda é desejar. Buda estava falando do desejo pelas coisas não correctas. Os desejos não podem não ser desejados, mas entendidos, desaparecem como bolas coloridas.

Com efeito, se desejamos algo passamos por duas fases: não ter e ficar ansioso ou ter e ficar entediado. Posso fazer uma relação rápida com a ideia de amor em Platão que se fundamenta no desejo. Para Platão amor = desejo. Qual é o problema? Assim que se tem o objeto do amor, vem o êxtase e após isso o amor acaba. Só o cego pode desejar ver. O desejo mostra a nossa falta, mostra a nossa insegurança e prega-nos uma armadilha existencial. Se só desejo o que não tenho, o desejo reside na falta. Os relacionamentos tornariam uma espécie de lançamento de Iphone, após experimentar os dissabores de lidar com a realidade, um novo modelo é lançado e nos convencemos que o futuro será melhor.

Buda diria, tenha cuidado com as coisas que desejas, por esses desejos correrás riscos desnecessários e projetarás a tua felicidade em coisas bem fugazes ou passageiras. Buda despertou para a vida quando conheceu o mundo real. A morte, a doença, o envelhicmento… a perda. A natureza transitória do corpo e das coisas que tomamos por eternas causam sofrimentos reais. Os nossos pais ou filhos morrerão, o nosso corpo entrará em colapso, um dia morreremos também. Precisamos reconhecer isso como parte da vida.  Evitar isso é evitar a vida… é urgente viver realmente e sem distrações.

Buda no momento de iluminação meditando nas árvores salas gêmeas percebeu o Mara, a ilusão. É fácil alguém se iludir enquanto crê iludir o outro. Que nem um aluno que copia na prova e crê driblar o sistema mas acaba perdendo a oportunidade de desenvolver uma competência útil à vida. Mara representa a ilusão, Mara vive dentro de nós e funciona como a força que nos impede de ver a Verdade. Ele está no véu de Maya que não nos permite ver as coisas como são.

Qual Verdade?: a transitoriedade das coisas. Hoje estamos vivos, amanhã não. Não podemos controlar os pensamentos e as ações dos outros. O mundo é caótico. As pessoas que gostamos vão morrer. Nosso tempo pode ser exinguido a qualquer instante. Estabilidade não existe. Tudo está em constante mudança. Não precisamos buscar nada fora, nada está em falta, a única viagem necessária é para dentro. Por fim, não podemos salvar pessoa alguma, cada um está naufragando, corpos doridos, e quem está se afogando não poderá ser salva e arrastará tudo e todos no processo.

Destarte, penso no problema com o desejo, devemos de facto buscar satisfazer os nossos desejos ou entender a natureza dos nossos desejos? Devemos dizer a quem tem desejo por álcool que deverá buascar formas de consumir mais ou de entender de onde vem esse desejo? Devemos satisfazer os nossos desejos e ficar irritado quando não conseguimos ou entender o quanto Ego nos engana dizendo que merecemos isso ou aquilo e personaliza tudo?

Diante da dor, precisamos entender o quanto disso reside nas coisas que permitimos, nas pessoas com quem aceitamos conviver, no contexto que acreditamos que precisa ser suportado... no nosso senso de auto-importância. Como temos sido engandos pelo próprio desejo de ser isso ou aquilo? - Não temos inimigos e ninguém poderá nos ofender se enfrentamos o nosso ego e seus desejos.

sábado, 25 de março de 2023

Porque é tão difícil amar o real?

Amor fati,ou amaor ao destino, é a fórmula de Nietszche contra todo o mundo ideal que nos contrange diariamente.

Diria Nitszche:

"O amor fati é o amor ao seu destino, mesmo que ele seja duro e implacável. Somente aceitando-o e amando-o, você pode libertar a si mesmo do sofrimento e da dor."

 

Eu sei que é mais fácil gostar do calor quando se está no frio, é mais fácil gostar do frio quando se está no calor. Com esse pensamento, caímos no platonismo perigoso: acreditar que existe um mundo ideal onde não existirá nada daquilo que nos deixa triste.

Todavia, se tens em mente o ideal de família perfeita com base em redes sociais e filmes onde pessoas felizes tomam pequeno almoço juntos e riem,casais perfeitos, o sofrimento espreita.

COmo também, as Pessoas reais são falhas, na vida nós adoecemos, pessoas passam por problemas e amigos morrem. Pessoas que amamos passam por problemas e incertezas insondáveis, tais como nós. Negar o mundo real é um passo para o escapismo alcóolico, drogas, promiscuidade e se tornar vítima de pastores maldosos.

Destarte, criamos fantasias nessa vida.Desenhamos papéis para o outro que não existem: queremos que a pessoa seja A ou B. Queremos que elas nos olhem de forma C ou D… uma tentativa de tentar aplicar as nossas fantasias às pessoas e às situacões. 

Por fim, Desilusão – o mundo mostrando para ti que não és quem pensas ser e os outros também não o são. Não és exceção à inevitabilidade da morte e dos problemas. O Universo não é mau, apenas não existe para os nossos caprichos e desejos. O mundo capota diariamente… aceite-o, aceitando as emoções superamos, negando-as,sucumbimos... 

Nietzsche segurando no martelo diria:

 

"O amor fati é a chave para a felicidade, pois é a aceitação completa e incondicional de tudo o que a vida oferece, mesmo o sofrimento e a dor."

 

"Amar a vida, mesmo em sua dor e sofrimento, é o caminho para a sabedoria e a compreensão da verdadeira natureza do mundo."

 

"O amor fati é a aceitação do presente, sem desejar que fosse diferente. É amar a vida como ela é, não como gostaríamos que fosse."

quarta-feira, 22 de março de 2023

Poesia, remédio contra a modernidade doente

 

Desde o início, a linguagem apareceu como uma necessidade de expressar uma ideia. Tentativa de comunicar-nos com os outros a partir de códigos e sinais. Contudo, o que não nos contam é o quanto a linguagem é limitada, mal sabemos o que sentimos e não conseguimos nomear as coisas que passam dentro, os nossos olhares estão sempre desatentos.

Por um lado, no baile de máscaras que é a sociedade, a única variável comum é a mentira. A maior mentira contada não é aos outros, mas a nós mesmos. A grande mentira é a propaganda vendendo um modelo de vida irreal a partir de estranhos apóstolos em vestes de “digital influencer”. Por outro lado, estamos viciados na busca por distrações, queremos evitar o que sentimos. Boa parte do problema poderá ser o trabalho que não gostas, o parente narcisista, os amigos que não abandonas e o medo de estar só.

De qualquer modo, estamos sempre convencidos de sermos melhores ou piores do que de fato somos. Sócrates martela de um lado o que ouviu do Oráculo dos Delfos: conheça-te a ti mesmo. Algo simples, mas complicado de se fazer. Muitos não resistem aos rótulos. Os pais, dão-nos um nome, no apelido, está aí sepultado toda a carga histórica e expectativas frustradas que esperam que o seu gene carregado pela criança materialize. Depois a criança se faz adolescente, agora é o pensamento do grupo, ela quer se identificar com certos grupos e isso passa a ser a sua identidade… depois adulto, o trabalho, a sua sexualidade, a conta bancária, os aplausos… tudo isso joga naquilo que ele acredita ser… o que a pessoa é de fato? Queremos a felicidade do outro ou que ela cumpra nossas expectativas?

Todavia, a poesia seria uma aposta alta! É travar a vida agitada e suas rotinas desgastantes para começar a se indagar verdadeiramente: que raio de felicidade é essa que preciso estar sempre dopado? Essas pessoas que me envolvem e todos os rituais de prova de masculinidade ou de capacidade de consumo fazem sentido para mim? O que fazer quando se sente que nenhuma tribo reflete os nossos ideais? – mentimos para nós mesmos, o problema deve estar em nós. A poesia serve para dizer que não tem valor algum estar adaptado a uma sociedade doente.

Por consequência, como muitos, fico no meio de um turbilhão de incertezas que muitos acabam aplacando com copos e corpos, consumo de pessoas e adorações de objetos ou deuses e feiticeiros… e o baile de máscaras segue, muitos passam tanto tempo com a mesma máscara que esquecem o próprio rosto. A poesia serve para dizer que a vida é um ato de ousadia, um ato de resistência, dar chance à realidade. A poesia questiona o quotidiano e quebra os pés de argila da Normalidade…

Quem são os outros que nos olham como juízes? Por qual motivo precisamos estar perdendo a nós mesmos numa tentativa de pertencer, de buscar aplausos, precisamos de fato imitar a vida artificial das redes sociais?! Por qual motivo todos os atos de amor aparecem ligados ao consumo? O presente caro que significa amor, os banquetes intermináveis como família unida, o casamento que precisa ser uma espécie de pompa para os outros… Porque o Natal tem cores da Coca-cola? Quando foi que viramos jogadores do jogo de quem importa menos com os outros? A história da civilização se encerra no sepultamento de todos que ousam revelar a Verdade – Somos reféns de imagens irreais.

Por fim, pessoas, tudo é sobre pessoas, todas tão iguais representando um papel emprestado. A sensação que sempre tive é de todos estarem em monólogos consigo mesmos, dois monólogos numa tentativa de diálogo impossível. A sensação é de as pessoas imitarem ídolos: o tipo intelectual, a pessoa de família, o arrogante disfarçando a ignorância com títulos e posições sociais, a Diva soberba, … Depois o cansaço, rejeitei todos esses títulos. Longe da perfeição, apreciava as conversas literárias mais irónicas com meu pai. Amigos e companheiros de sarcasmo em toda a parte do mundo. A poesia não tem pátria.

A poesia cai como um martelo estoico e pergunta-me: conheces o teu bisavô e a vida que teve? – Respondo que não. A poesia depois grita: memento mori! Um dia serás alguém que em duas gerações ninguém se lembrará. Não precisas das opiniões dos teus contemporâneos. A vida é o que acontece quando não és mais dominado pelo medo. Liberdade é quando não negocias mais a tua felicidade aceitando rótulos… Por ser momento poético, quero terminar com esse trecho:

 

“Todos esses que aí estão

Atravancando meu caminho,

Eles passarão...

Eu passarinho!”

(Mário Quintana)

 

Nota: Bem-vindo Marvin, nasceu no dia da poesia e da criação da Ilha dos Poetas vivos!  

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

O prazer como medicamento contra a morte?

 Geralmente deparo-me com a frase como: “todos nós vamos morrer, por isso, precisamos aproveitar a vida ao máximo” – O que não dizem e fica implícito é o que quer dizer “aproveitar a vida”. O que temos aqui para aproveitar? Onde vamos aproveitar e como?

Todavia, depois de dizer "aproveitar", a pessoa segura num copo de cerveja e afirma que só se vive uma vez e não compensa negar os prazeres da vida. A partir daqui podemos ousar filosofar um pouco… então, o prazer é a forma mais rápida de aproveitar a vida. Logo, o homem estaria condenado a uma vida de evitar dores e buscar o máximo de prazer possível. Parece correto… mas a conta não fecha.

Por qual motivo a conta não fecha?  - Porque o que nos dá prazer, não necessariamente nos faz bem e causa uma dependência a partir de um ponto. Ter prazer e ter momentos felizes parecem a mesma coisa, mas se trata de categorias diferentes, mesmo ao nível bioquímico. Nesse momento podem pensar que tem um Lopandza pregando o ascetismo e a vida sem prazeres. Garanto que não é isso.

Vejamos, ao passar por uma tenda de cacharamba e dar de encontro com os bêbados, tenha noção que o prazer os deixou ali nesse estado. O prazer como fuga da realidade é viciante, tira as pessoas da tensão atual, e um dia elas são atropeladas pela realidade e não resta nada além de um corpo buscando por mais prazer. Mais do que isso, o prazer não pode ser repetido com a mesma dose inicial. Pense na tua infância e as coisas que te davam gozo e prazeres enormes. As festas que darias a alma para ir… as festas não ficaram sem graça do nada, apenas precisas de festas com níveis cada vez mais intensos de prazer para causar a mesma sensação ou de beber tanto para que uma festa repetindo as mesmas músicas com as mesmas pessoas não pese tanto nos teus ombros.

Com efeito, se aproveitar a vida é apenas sexo, comer, beber, rir, fugir das responsabilidades e garantir que tenha o mínimo de dor… isso é uma vida bovina, vida de uma vaca no pasto. Quer dizer que todo esse potencial humano, a imaginação, a linguagem, a abstração, servem apenas para isso… sexo, drogas, álcool e entretenimento?? Tantas questões interessantes, a vida cósmica, a política que nos dá um soco no estômago diariamente, as mudanças climáticas, a fome e todas as tragédias.. devem ser só regadas ao álcool e “aproveitar a vida”.

Por fim, quero partilhar o meu segredo contra o desespero. Tenho consciência de que antes de mim as condições foram melhores, depois pioraram, passamos 400 anos de esclavagismo com base racial… e os que lutaram não viram a vitória. Tivemos séculos em que a morte por doenças que hoje extinguimos, encomendava as almas e desafiava a existência humana. Vejo herança da humanidade em tudo, no sofá onde me sento, no laptop onde escrevo esse artigo, … vejo a história humana em todo o seu potencial e contradições. Como quero participar na História Humana? – embriagar-me e esquecer os problemas da humanidade?! Não seria “aproveitar a vida” uma contribuição de todo o nosso potencial para a futura geração? Que raios de vida aproveitada que precisamos estar embriagados e a ter orgasmos para distrair-nos?! Sei que nem todos possuem o luxo de pensar o porvir, aos que podem, o que vos detém? Foram silenciados pelos pequenos prazeres? – Meu pai citando Sócrates dizia-me: “Não morremos porque nos matam, morremos porque somos mortais, é da nossa natureza morrer” – E Ivanick, um Lopandza sem a mesma notoriedade ainda acrescenta: E viver? Porque temos tanta gente morrendo sem ter vivido? Não é da nossa natureza viver também? Quais são as prisões que nos tem impedidos de sonhar um futuro melhor e optar por essa fuga constate da realidade?!

 

 


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Texto sobre os mortos para a utilidade dos vivos

 


 

A vida é breve, o fim é inevitável e nesse meio tempo carregamos uma existência sem saber ao certo o que fazer com o tempo que temos aqui.

Pessoalmente, lembro de ter lido Voltaire por sugestão do meu pai. Tinha lido alguns livros seus famosos, quando o meu pai morre crio uma pasta com todos os livros que o meu pai gostaria que eu lesse. Entre os livros de Voltaire está o Micrômegas, um gigante vindo de Sirius, visitando o nosso sistema solar, chega na terra e discute filosofia com os terráqueos mais geniais. Em algum momento eles reclamam da brevidade da vida, e Micrômegas na voz de Voltaire diz que passou por várias estrelas e universos onde seres vivem até mil anos, e todos achavam que a vida fosse breve.

Sêneca acrescentaria, a vida é breve ou as nossas ocupações insignificantes roubam o nosso tempo? Quanto do nosso tempo é realmente nosso? – Ivanick acrescentaria, de onde vem a ideia que viveremos para sempre e envelheceremos como os nossos pais, avôs, vizinhos?! … a velhice não é garantida, a vida não é uma corrida para ver quem vive mais.

Por outro lado, tendemos a achar que existe uma fórmula como a vida deve ser vivida. Não tem. Quem arroga para si o conhecimento da boa vida não sabe o que fazer com a própria vida. A vida é exploração e não replicação de fórmulas fracassadas por outros. O mundo não foi criado por deuses, mas pessoas como nós, com angústias e frustrações, é o nosso papel buscar as nossas próprias conclusões e vivê-las.

Vitor Frankl, após sobreviver ao campo de concentração nazista percebe que a força para aguentar a vida não é uma questão física ou condições materiais favoráveis, a nossa maior necessidade é por propósito. Ivanick acrescentaria como um filósofo que nunca foi: De onde vem a ideia que precisamos sobreviver tendo uma vida que não queremos para nos manter vivos na vida que não queremos, não parece um ciclo estranho demais?!

Ailton krenak acrescenta: A vida não é útil, não vivemos medindo a nossa produtividade apenas. Não somos na medida que consumimos. O que é ser útil? O que andamos por aí a adorar? Quais imagem fantasiamos?

O que isso tem a ver com a morte? Porque trouxe essas referências que parecem aleatórias? - Porque a vida acaba, e precisamos pensar o que queremos fazer com o nosso tempo… Não seria melhor contribuir para que a experiência humana seja interessante para todos? O que queremos vencer? O que é vencer na vida quando a morte reduz tudo à nada?! A quem vendemos o nosso tempo tão limitado. E tu que lês, podes morrer amanhã, valeu à pena a experiência até agora? Queria ter perguntado isso ao Kaymy, Papito, meu pai, meus tios, amigos,… e ao menino Dalton que um dia desses se foi – Valeu à pena? Quais eram os vossos ideais e sonhos que deixaram na gaveta por realizar?

A quem vocês venderam o vosso tempo? Quantas costelas quebraram erguendo esse mesmo monstro social que vos engole?

 

Não quero aqui fazer uma propaganda de vida louca e irresponsável, mas o contrário. Se vamos morrer, temos de ser responsáveis com quem partilhamos o tempo, as ideias que defendemos e com as coisas que nos fazem bem! Compensa estar numa relação que te consome a alma? Compensa perder saúde mental num trabalho alienante? Compensa sofrer para manter status de família perfeita? Vais morrer, leve a porra da tua felcidade mais à sério!

A vida é breve, mais uma vez perco um amigo para me lembrar disso. Estamos juntos Kaymy! Estamos juntos Dalton, e tantos outros mergulhados no mesmo caldo do tempo.

Aos vivos, espero que estejamos ainda mais juntos, estamos atravessando o mesmo portal espaço-tempo, não precisamos ser inimigos! Não temos inimigos, não há ninguém que seja ok machucar, Precisamos pensar em criar nossos próprios valores que sejam de facto humanos

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Vulnerabilidade social: um caso de amor

 


 

Até um tempo atrás acreditávamos num paradigma de desastre como um raio que cai e deixa a todos impotentes e frágeis.  Nesse modelo de pensamento acreditamos que somos todos iguais e os problemas afeta-nos todos da mesma forma. O problema nacional de um é negócio de outros. Em situação de dilúio, uns estão na Arca como amigos de Noé e outros são engolidos pelo mar.

Com mais alguns neurónios percebemos que alguns são mais iguais que outros e a vida só dá segundas chaces e infinitas chances para os que estão no topo da pirâmide, aqui começa a história de vulnerabilidade social.

Talvez tenhas um colega que virou motoqueiro por ter estado a faltar aulas ou a namorar demais, contudo, os que estavam com ele na mesma atividade encontram-se de fato e gravata numa instituição pública ou fora do país numa vida tranquila. Ao fim do dia, o que não nos contam é que algumas pessoas são socialmente mais vulneráveis que outras em todos os sentidos

Pensemos, sempre partimos do pressuposto que os pobres são moralmente melhores, são humildes e se contentam com pouco. Na verdade, eles são vulneráveis a todo tipo de doenças e condições extremas que desafiam a moralidade. Aparentemente, o diabo tenta mais aos pobres do que aos detentores de posses.  O pobre é um cliente assíduo de filme de terror chamado: Desassossego.

O teu amigo rico pode-se dar ao luxo de trocar de curso várias vezes se ele não se identificar com o professor ou com algumas disciplinas. O teu amigo que vem de condições melhores, mesmo alcoólatra, será funcional e os estragos demorarão mais tempo a fazer efeito. Já um pobre, em uma semana de bebedeira incorre ao risco de acabar mendigando na primeira esquina de capital. Embiragar-se  com Whisky velho de 35 anos não é a mesma coisa que ficar bêbado na tenda de cacharamba bebendo álcool à base de pilha sem controle de volume de etanol.

Amor, amizade, lealdade, parece até uma invenção burguesa.  O que mantém os pobres unidos é a utilidade e a necessidade de sobrevivência. Basta olhar para história e conhecer uma legião de pessoas que abriram mão do amor para entrar em casamentos miseráveis usando o estômago como bússola orientadora. Na Bíblia está escrito que o amor é paciente e a tudo suporta, na verdade, a fome é paciente e tem um histórico de suportar as piores humilhações.

A dominação maior foi fazer as pessoas acreditarem que existe um caminho justo onde as boas ações serão recompensadas se suportarem bem as humilhações, afinal, “os humilhados serão exaltados.” Basta entrar na igreja e perceber quem está ali dentro: medrosos, pobres, doentes, neuróticos … Cristo veio para essas pessoas prometendo um paraíso futuro porque o paraíso artificial dos ricos já foi criado aqui na terra. 

Todavia, quero deixar isso mais patente. Eu sempre fui muito inocente, acreditava que os meus colegas sedutores possuíam um grande segredo para conquistar corações femininos. Fora algumas exceções que de fato se empenhavam em melhorar a si mesmos, boa parte estava na arte de enviar saldos, comprar telemóveis, pagar saídas e interpretar o papel de um novo rico ou um ungido social. Claro, quanto mais a moça for pobre mais a tática funciona. A necessidade e a possibilidade de consumo tem sido chamado atualmente de excitação. 

Por consequência, não acompanhe o teu colega burguês que é drogado, o teu amigo rico fumará liamba até aos 90 anos, já tu, acabarás louco aos 30 anos porque os contextos não são iguais. O teu colega burguês tem uma família dando suporte, tem menos estresse, e a alimentação não é imprevisível bem como tem acompanhamento médico de qualidade para cada espirro. Não acompanhe a tua amiga que vive de festa em festa bebendo todas e faltando aulas, ela será patroa e chefe de alguma secção onde estarás limpando o banheiro… ela até acreditará que se esforçou mais do que tu.

Por fim, se o mundo está afundando como titanic, saiba que uns esperam a morte bebendo champagne e ouvindo música clássica enquanto outros ratos pobres morrem afogados sem dignidade alguma. A mobilidade de classe existe, mas enquanto exceção. E para os bilionários, Titanic afundando e uns helicópteros pairam no ar para os resgatar. Basta lembrar que em situação de hipertensão, o rico viverá até aos 80 e o pobre morre na esquina aos 50 bebendo chá de uma folha qualquer – vulnerabilidade social, um caso de amor?

sábado, 12 de novembro de 2022

Reflexões sobre a construção do nosso castelo de areia

 

A primeira coisa para se entender o negócio do roubo de areia é: por qual motivo, apesar de tanto esforço, areia roubada consegue ser comprada facilmente? Por qual motivo as pessoas acreditam que a erosão deixa de existir por ter sido legalizada a extracção de areia para A ou B?

Todos conhecem a história de uma casa que caiu devido a erosão ou uma praia que deixou de existir pelo mesmo motivo. Todo mundo sabe que é ilegal a extracção de areia das praias ou das regiões costeiras… por qual motivo essas medidas de combater ao roubo de areia têm falhado?

A primeira visão é simples: os pobres roubam areia das praias porque existe um mercado frutífero para tal.  Algumas pessoas extraem areia das praias porque têm legitimidade para tal. Este é um diagnóstico básico.

Contudo, enquanto se condena, persegue-se na madrugada os ninjas nocturnos da “Vila Oculta” de areia, os seus compradores compram impunemente todo o fruto do roubo, com efeito, cada vez mais jovens prodígios arriscam-se nesse caminho ninja.

Enquanto os ninjas fogem, algumas entidades possuem a legitimidade para fazer a mesma operação em uma escala ainda mais gritante.  E produzem um lucro concentrado na venda de areia. Por um lado temos uma actividade ilegal e socialmente condenável, do outro lado temos “negócio”. A parte caricata é que o desastre é o mesmo, apenas temos actores diferentes.

Nesta senda, na busca do “santola dream” – casa própria, um carro grande, uma família e algumas concubinas… a compra de areia é frenética e sempre aquece o mercado. E para todos esses compradores não são sequer questionados de onde vem a areia.  Por qual motivo não questionamos? Por qual motivo não olhamos para o facto de que - ninguém vende se não existir um mercado preparado para o consumir. Precisamos condenar a compra de areia… e para tal, pensar uma alternativa, precisamos repensar o modelo de construção de casas. Precisamos repensar o nosso estilo de vida também.

 

Por fim, quero que visualize – andas pela marginal, os holandeses ainda não vieram, os passeios estão num constante “adeus”, a erosão está consumindo, o sistema de esgoto não consegue devolver a água pro mar… em dia de chuva podes fazer isso indo de canoa. As raízes dos caroceiros estão destruindo o que sobrou… Percorres a marginal ainda, olhas para o hospital (história longa), agora desces e passas pelo CFAO (outra história longa) e agora andas pela Praia Emília e vês empresas de construção (outra história longa) depois a ponte destruída pela inundação (uma história não tão longa) depois olha o Saton e as suas crateras (uma super história longa)… anoiteceu, os garimpeiros do Saton estão no activo… uma casa está caindo, um buraco, mais crateras… e voltas para casa relaxado repetindo – Um dia desses o mar nos engole!

E esses castelos de areia, esse avanço de mar, essa vulnerabilidade que tentamos não ver, essa gestão de risco que não fazemos está a avançar, e um dia o mar real avança um pouco mais e o nosso castelo de areia se desfragmenta no caldo do tempo, sobrando fotos para mostrar aos que ainda não estão cá -  futura geração. Estaria aí a prova da nossa mitigação, resiliência e adaptabilidade?!

sábado, 8 de outubro de 2022

Os meninos da rua ou os fantasmas da capital

 


 

Ao passarmos pela capital rapidamente somos convidados a fechar os olhos para a nova barbárie que é crianças a pedir dinheiro pela capital. Em algum momento passamos a normalizar crianças que não vão mais à escola e se dedicaram full-time à mendicidade. Outras até parecem que estão vendendo alguma coisa, quando na verdade são colocadas ali como faquires indianos, elas esmolam mais do que vendem alguma coisa. normalizamos uma criança-mãe carregando uma criança-filho enquanto vende saldo.

Qual é a consequência disso?

Ao nível social, sabemos que as crianças na rua começam realmente pedindo, acabam fazendo uns pequenos furtos aqui e acolá, quando dermos por nós, as crianças recriam o caso Ventura e eliminam pessoas. O facto de gozarmos de uma suposta tranquilidade não evitará esses jovens fora de toda a manifestação de consumo de assaltarem-nos, violarem e tirarem a vida futuramente aos que passam desavisados ou incautos.

Um ambiente propício?

Temos de ter a consciência que a nossa cidade durante a noite quase não tem policiamento público e boa parte das vias estão sem iluminação pública. Logo, é sábio pensar também que a polícia não conseguirá dar resposta ao ocorrido de forma eficiente, uma vez que falta investimento na segurança. Os fantasmas estão dormindo nos bancos da praça; estão ali nos restaurantes pedindo aos turistas; estão nos bares mendigando; estão nos cafés pela manhã... só não são levados à sério... 

O que não entendemos?

As pessoas podem pensar que se trata agora de criar muros maiores, colocar mais seguranças nas ruas e ter uma polícia mais musculada.  Não é nada disso, repito, não é nada disso. Não se trata de apenas travá-los, a máquina não vai parar de criar esses fantasmas ... a pobreza alastra-se, quem não rodar bolsas na ponte, caçar dinheiro aos turistas em bares, acabará por virar um desses fantasmas

Qual é o ponto?

Se esses jovens não conseguem comer, nós não conseguiremos dormir aqui na ilha. Se esses jovens não forem apadrinhados pelo sistema educacional, eles vão colocar-nos no sistema hospitalar ou num necrotério. Se não tornarmos essas vidas mais valiosas, os que possuem alguma coisa, terão de se esconder dos que nada possuem. Trata-se de facto de ajudar esses meninos. Por mais egoísta que alguém possa ser, saiba, quando ajudamos esses jovens de uma forma estratégica, estaremos ajudando a nós mesmos. Ou teremos de eliminá-los da forma mais bárbara, pois, para quem tem nada a perder, a moral é só uma fábula bonita para os privilegiados. 


Um dia desses a minha casa foi invadida por esses meninos, levaram algumas coisas, mas estava vazia... um dia eles encontrarão alguém lá dentro, na minha casa ou na vossa... o que acham que irá acontecer?!

terça-feira, 9 de agosto de 2022

Antes tínhamos valores, hoje temos preço...

 Antes  de conhecer algum amigo do filho, os pais perguntavam convenientemente: "Quem são os pais desse teu amigo?" - eles não queriam saber a posição económica, mas sim, os valores sociais compartilhados socialmente. Era uma forma de descriminação mascarada de valores tradicionais e superioridade moral. Tudo isso caiu por terra, desmanchou-se no ar e se tornou mercadoria. 

Hoje, para o meu espanto, a camada jovem já não quer saber quem são os meus pais ou a minha religiosidade. O que agora importa: onde trabalho e se vim de Londres ou não. Olham para o carro que ando a conduzir e assumem que  já me conhecem ou viro um potencial "lover".

Alguns dizem que a sociedade piorou, não acredito que assim seja, apenas os valores foram reinventados. Tudo pode desde que o dinheiro esteja em jogo. Um bandido bem sucedido vale mais do que um moralista batalhando para sobreviver ao Monstro do final do mês... Dizer que é um homem sensato com valores familiares não serve de nada se não consegues garantir o consumo: de bens, saúde, educação no exterior e pessoas (o mais importante). 

Todavia, já havia assistido um movimento que chamo de "alimentar os esfomeados", o novo "freak show". Chego em bares populares e um conjunto de "novos ricos" agregam uns miseráveis e os submetem alguma situação desconcertante. Por exemplo, 100 dobras para mostrar as nádegas, ou 300 dobras para a mulher que melhor rebolar numa dança obscena qualquer. Geralmente os miseráveis entram em lutas hercúleas pelo pequeno almoço que é o dinheiro de uma pessoa que cansado de ficção, decide jogar com a miséria alheia. 

Nesse momento, os mais moralistas olham o meu texto com alguma superioridade moral. Contudo, não vou deixar barato hoje. Sempre vi esse tipo de "dança dos miseráveis" repetir diante de mim várias vezes e sem fim. Quando ia aos casamentos onde a parte pobre de alguma família servia ou era convidada para "ajudar" na realização de um baptismo ou casamento qualquer. Eu vi repetir nas histórias de "minás kiás! Eu vi isso repetir com trabalhos desumanos de venda de saldo num banquinho que relembra o navio negreiro e um conjunto de mulheres e crianças submetidas à exposição e escravidão moderna. 

A sociedade que normaliza crianças e mães amamentando crianças venderem saldo sem um mínimo de direitos trabalhistas não pode mais se achar melhor que os "london boys" patrocinando lutas entre os miseráveis enquanto jogam dinheiro do alto de uma zona VIP qualquer... ou de uma torre de marfim. 

Por fim, é sempre sobre dinheiro, status, carros com pneus cada vez maiores e uma legião de mulheres lutando para o ocupar a poltrona no lugar de passageiro. No fim, a velha elite que se prostitui no trabalho todos os dias sente-se raivosa vendo jovens sem um nome exibir-se desse jeito. E esses jovens que nunca tiveram muita coisa, instalam na cabeça dos jovens um sonho de sucesso estranho enquanto estupidamente brincam com a miséria de um povo guiado pelo estômago enquanto se esbarram para apanhar as notas ou para rebolar o rabo da melhor forma possível em nome da próxima bebida... E os valores têm preço e os preços são os únicos valores santomenses. 

... o engenheiro chega em casa, olha o diploma pendurado na parede, os elogios pelo seu trabalho técnico... ele se alegra, agora a mensagem de uma das amigas que financia pedindo dinheiro, mais dinheiro, e ele está entre o leite das crianças e os seus prazeres que compra. Ela o bloqueia, os "london boys" voltaram, ela precisa de libras, o financiador de saldo e hambúrguer é nada agora. Ele tem raiva dos "london boys". - ele também paga pelo prazer como os londrinos, a diferença está no valor, por qual motivo se acha moralmente melhor?! Agora ele entra no seu carro popular e assiste o pessoal passar por ele com carros de motores potentes, a sua namorada está ali dentro sorrindo enquanto bebe "Bar Royal". Agora ele precisa inventar que ao menos ele tem um vigor sexual melhor para se sentir bem consigo mesmo e sua miséria e o seu diploma que vale nada. - No fim da noite está pedindo copo de whisky aos mesmos que diz odiar.  

... e levemente esses valores adentram-se na política, no imaginário social ... um novo Deus Capital sendo forjado na esquina de uma nação com sintomas patológicos... agora sim, todas as relações são intermediadas pelo dinheiro, o doce e vil metal! - somos todos fantoches do dinheiro e com fetiches pela mercadoria ao fim do dia, poucos escapam desse quadro patológico






sábado, 11 de junho de 2022

Nunca foi perda de valores, apenas sintomas antigos de uma doença ignorada.


Sempre tentam nos convencer que as pessoas perderam os valores que anteriormente foram basilares da nossa sociedade santomense. Evocam valores como: dignidade, solidariedade, orgulho, vestir-se correctamente, conduta sexual cristã e outras coisas que se tornaram conversas que brilham que nem latão enquanto os mais conservadores tentam nos convencer que é ouro.

Quero abordar alguns pontos convosco de forma despretenciosa:

1 – Promiscuidade não é um problema atual, nem é uma questão de valores, é um problema socioeconómico – Desde criança todos nós ouvimos falar na tradição das catorzinhas, dos homens que foram buscar mulheres nas roças como quem compra porco para formar família. Invariavelmente histórias das mães que fugiram com outro homem para Portugal, ou de homens que assumem crianças que parecem muito com o vizinho… mais do que isso, homens com trinta filhos e múltiplas mulheres. Homens que não saberiam dizer quantos filhos possuem ou os nomes de cada criança. Incrivelmente é essa gente que vem nos dizer que a juventude é promíscua e a sociedade está em decadência. Se sobrevivemos aos pedófilos de carteirinha e aos polígamos e senhoras de moral duvidosa, vamos sobreviver à actualidade. A nossa geração apenas trouxe à luz todos os problemas que sempre existiram. Essa geração que oficializou ”mulher de casa” e “meio-irmãos”, nada tem a nos ensinar sobre condutas retas, eles nunca foram retos.

 

2 – Os jovens não inventaram o álcool – Sempre tentam tachar os jovens como alcoólatras, bêbados incorrigíveis e um bando de preguiçosos feitos zombies ao toque do etanol. Bem, os antigos sempre fizeram terapia alcoólica. É a mulher num casamento destrutivo que se mata levemente com vinho e cerveja. É o teu tio que toda hora está bêbado e ninguém te explica o motivo e preferem dizer que é trabalho de um curandeiro abade qualquer. Álcool é um problema nacional, precisa ser levado mais à sério. Mas, é um sintoma e não a causa como muitos querem nos fazer crer. Essa gente que está bebendo a maior parte está buscando uma fuga rápida para o sistema que asfixia. O desemprego, o baixo rendimento, o desassossego matrimonial, a insegurança alimentar… isso o aflige, daí que a taxa de alcoolismo é mais visível em lugares pobres. -Eles não são pobres porque bebem, eles bebem porque são pobres.

 

3 – A fraternidade e a amizade que se perdeu? – mais uma história mal contada. Na minha geração os irmãos ainda se falam. Pergunto aos mais novos, quantos tios que não falam mais com os teus pais ou a quantidade de pessoas que não se falam por vários motivos idiotas? Essa gente pode de facto dizer que já não valorizamos a amizade?! Quantos deles foram roubados por camaradas do partido e já não se falam? Quantos foram burlados e quase perderam a vida ou enlouqueceram?! Quantos perderam a mulher para um amigo “inflacionador de mercado sexual”?

 

4 – A nova geração é materialista, só pensa em dinheiro e ostentação – A maior mentira de todas. A geração que recebeu casa de graça, que invadiu casas e hoje se apropria com alguma altivez, não é menos materialista que nós. Essa gente que brincou de mágico do Oz com dinheiro de campanha, comprou carros, mandou mil mulheres para bolsas em Lisboa e outros países, nada pode falar dos “novos ricos” que fazem a mesma coisa. Aliás, é a mesma geração que patrocina as minhas colegas mais ambiciosas. A geração que aceitava um homem com várias mulheres desde que traga dinheiro para casa nada tem a opinar para a sua filha deslumbrada por euros e libras. A filha ainda vence em quesito imaginação. Os que faliram empresas públicas em nome dos prazeres da vida, só nos pode ensinar o caminho a não seguir, deixem-nos trilhar os nossos caminhos à luz de novos erros. Deixem-nos criar os nossos próprios pecados.

 

Por fim, agradecemos pelos vossos acertos, nós vivemos as vossas falhas e acertos. Muitos andaram de laguna enquanto o povo queria arroz. Outros tiveram a visão de aprovar pena de morte no país onde por sorte, não morreu alguém. Um foi pioneiro no multipartidarismo. Outros fizeram leis à medida para um ou outro, Fradique que o diga. Outros distribuíram terrenos com critérios misteriosos.  Não tem problema, é algo global, existe em toda parte.

 Mas o cinismo, essa forma de delegar problemas para a futura geração, isso sim é o maior pecado da geração que nos antecede. Deixe-nos inovar, somos a primeira geração que quer viver à margem do Estado, sem prebendas, mas empreendendo o próprio futuro. Deixe-nos provar do nosso próprio veneno, espero que tenhamos a hombridade de ser honestos com a futura geração. Espero que chamemos os porcos pelos seus verdadeiros nomes, como a geração passada não fez com a nossa.

Lula e a difícil arte de explicar o povo ao povo

A América Latina virou à direita Milei e a sua motosserra na Argentina. Bukele e as suas prisões em El Salvador.  Abelardo de la Espriella e...