quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Para uma Crítica do Derrotismo Geracional

    Talvez tenhamos deixado de acreditar numa revolução africana. É como se, por séculos, o nosso objetivo tenha sido a independência, a soberania, e, ao mínimo vestígio de luz ao fundo do túnel, tenhamos ficado satisfeitos. Após a independência, ficámos divididos entre os que gostariam de voltar ao passado mítico de São Tomé e Príncipe, colónia das grandes roças com hospitais, caminhos de ferro e energia para alguns “alvos”.

    Por qual motivo, hoje, que temos mais meios de luta e mais ferramentas, o derrotismo reina entre a juventude santomense?

    Por algum motivo, o meu ofício de “filosofeiro” leva-me a conversar com muitas pessoas ao longo do dia, a colher as opiniões de muitos e, para minha surpresa, todos se sentem diante de um jogo viciado em que já começaram derrotados. O objetivo, como um lutador no canto do ringue, é esperar que o seu agressor não os mate ou que se simpatize com a sua dor… mas já não têm força para bater de volta.

    Todavia, sinto que estão de olhos fechados enquanto apanham, pois veriam o tamanho real do agressor, que se alimenta do medo, da incerteza e da ideia de que os mais obedientes serão incorporados. O problema reside no facto de que o sistema foi desenhado para que os vitoriosos sejam a exceção. E que os pobres não existem dentro do sistema por acaso, mas por design.

    Não há como todos serem incorporados. Eu sei que muitos acreditam que serão a exceção e que, de alguma forma, a voracidade do jogador santomense os fará sobreviver. Talvez consigam. Mas deixarão muitos corpos danados ao longo do percurso… pois o seu sonho de vitória não é inclusivo.

    Por consequência, os meus amigos esclarecidos têm muita informação, muitas “armas da crítica”, e facilmente apontam o que vai mal enquanto resultado final. Contudo, são incapazes de entender o mecanismo silencioso que produz todos esses problemas. Estão convencidos de que se trata apenas de escolher melhor a liderança. Acreditam que os recursos naturais, por si só, resolvem o problema. Acreditam que ter um diploma universitário emanado em cada esquina do mundo poderá resolver a pobreza do país. Inocentes. Não conseguem ver o subterrâneo explicativo. A lógica estranha que produz a pobreza e mora na forma como os nossos sentidos se acomodam diante de tanta deseigualdade. 

    Destarte, tenho para mim que há uma mudança geracional incrível, acompanhada de novas fantasias e novos desejos. Se no passado era sobre independência e reconstrução nacional, hoje é sobre poder de consumo e salvação individual. A nova geração já não quer construir nada duradouro e, como tal, vive de pactos de silêncio entre vilões e protagonistas, id est, todos cúmplices!

       E quando dei por mim, percebi que todos podem ficar facilmente ofendidos quando alguém aponta para uma capacidade que tenta ser exibida e acaba por ser inexistente. Todos acreditam, por força das redes sociais, que são protagonistas em algum filme americano e que basta “farmar aura” ou ter autoconfiança. Nada mais desastroso do que um ignorante confiante. Ele não sabe que não sabe, não procura saber porque crê ser sabedor, e motiva outros não sabedores a cair no mesmo abismo, enquanto todos creem ter descoberto a fórmula.

    Por fim, a minha geração, que grita ser diferente, evita verdadeiros debates públicos. Consegue manusear um smartphone com destreza, mas alimenta-se de meias-verdades nas redes sociais. Possui tantas informações contraditórias que já não sabe o que é verdade ou mentira. Em três minutos de vídeo, acredita dominar um assunto por completo.

    E é a essa geração, que escreve com IA e se alimenta de um eterno feed, que foi confiado o bastão da mudança. Estou preocupado. Sinto-me profundamente preocupado.

    O Titanic está a afundar. Eu estou dentro. Muitos dos meus amigos também. Todos olham para as telas azuis enquanto, ao fundo, o mercado internacional anuncia o fim do mundo. Qual mundo?

Como organizar a minha geração?

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