quarta-feira, 17 de junho de 2026

Tudo o que digo quando digo São: uma introdução ao tributo



Fui desafiado a escrever sobre o 1º Festival Tributo de Ação à São. Como todo escritor diante do espelho da memória, escrevo a partir de múltiplas vozes: a do fã, a do poeta, a do amigo e a do santomense inquieto que ama uma nação como quem ama uma ferida aberta: com ternura e vigilância. 

 
Cedo, São percebeu que amar São Tomé e Príncipe não era um gesto leve. Era uma espécie de resignação luminosa. A mesma resignação que havia matado Alda Espírito Santo, agora prometia levar a mestra São. Um amor que não acaricia: atravessa. Amar estas ilhas doía como um corpo em combustão lenta, como se a própria geografia respirasse em espasmos. Aqui, algo sempre pareceu fora de ordem: algo entre os algozes e os amigos, entre a verdade e o ruído, entre o gesto e a sua falsificação...  entre a dor e o alívio.

A sensação era a de jogar um jogo onde todos faziam batota sistematicamente. E ainda assim, ela escrevia. Carpia. Insistia. Mas, seus versos, muitas vezes, não encontravam chão local, ou eram devolvidos como ecos incompreendidos. Fora daqui, porém, tornavam-se quase relíquias: procuradas como exotismo lírico de uma periferia do sul global africano que o mundo queria consumir sem decifrar.

Daí o festival. Não como celebração apenas, mas como gesto de reparação simbólica. Um espaço para resgatar os versos não lidos, para devolver voz ao que ficou suspenso, e carregar o legado como quem transporta uma profecia antiga dirigida ao futuro.
Com a minha querida amiga e mestra, sempre nos perguntámos por que razão alguém escolhe a poesia. Não é profissão que promete abrigo. Não é ofício que recompensa. Exige uma forma de rigor que não consola ninguém. Talvez por isso os poetas não consigam ser outra coisa senão poetas. 
 



Lembro-me de ter citado Nietzsche numa dessas conversas: temos a arte para não morrer da verdade. Porque a verdade, sem véu, pode ser insuportável. E aqui, nestas ilhas de basalto e intriga sussurrada, dizer “sou poeta” ainda soa como uma anomalia social, como se fosse um delírio suave, uma fala deslocada de quem insiste em ver demasiado. E paga-se o preço de se ter o "olho leve", pois vê-se bem o teatro insular com seus personagens invisíveis aos olhos comuns.

Mas,  o mundo é feito de confronto de narrativas: dominantes e marginais, oficiais e subterrâneas. E, ainda assim, muitos vivem como se só houvesse uma forma legítima de existir dentro da sociedade. Essa figura sentada no café Residencial Avenida com o seu cigarro pensativo, toda a altivez de quem sabia o que dizia... e toda a sabedoria de quem já havia desistido disso tudo, dos bobos, dos reis e da própria existência... de quem sentia tudo profundamente...

São sempre me espantou pela recusa em negociar a própria essência. Numa terra pequena onde os discursos mudam de cor conforme o jardineiro que os rega, ela permaneceu raiz. Altiva. Inteira. Irredutível até ao último sopro de si.
Sentia tudo com uma intensidade que não aceitava o anestésico da prudência. Viveu sem o afastamento calculado dos que sobrevivem bem, dos enquadrados e enquadradores. Como se a vida fosse uma linha sem margem de segurança. Um erro deliberado na engenharia do mundo. Um dorso que não se curva. E por isso pagou o preço raro de pertencer a si mesma.

De repente, as cartas deixaram de estar na mesa. Os amigos tornaram-se silêncio. E muitos dos que ocupavam o mesmo ofício apareceram apenas no enterro, trazendo palavras que em vida nunca tiveram coragem de pronunciar enquanto defendiam o próprio farnel, indiferentes à mão que os alimentava.



 
São, quase profética, desenhou em vários poemas os caminhos tortuosos que o país viria a percorrer na sua romaria interminável rumo a uma ideia de independência total. Schopenhauer dizia que o talento atinge metas que os outros não conseguem alcançar; o génio, porém, atinge lugares que os outros nem sequer conseguem ver. São pertence a essa segunda geometria.
Escreveu com uma profundidade que teve a sorte de não ser imediatamente compreendida por certas elites. E talvez nisso resida parte da sua força: os seus versos eram mais perigosos do que qualquer artigo, qualquer discurso, qualquer conversa de ocasião.

Um dia, como depois de uma tempestade que finalmente se retira, deixamos de tentar encaixar o mundo em moldes antigos. Percebemos então que fomos convidados a construir outro. E tudo aquilo que brilha: poder, aplauso, capital, ressentimento... revela a sua fragilidade diante da mortalidade do próprio tempo.
A altivez de quem pertence a si mesma não se negocia. Não se vende. Não se reescreve.
Por isso, este nível de heroísmo precisava ser partilhado.
O festival nasce de uma ideia germinada na Ilha dos Poetas Vivos, onde eu, Marty, Remy e Milton nos reuníamos no espaço Abayaa da Bô de João Carlos Silva que sempre foi patrono das nossas ideias mais desmedidas, mais livres, mais perigosamente necessárias. Ele acreditava no poder da palavra como quem acredita numa forma de feitiço antigo: algo que pode desestabilizar o mundo ou reorganizá-lo.
E São circulava por esses mesmos territórios como a CACAU onde João, Paulo Daio e outros notívagos desta república insular, pessoas que escolheram a porta estreita, a contracorrente, a vida sem garantias. São não apenas escolheu esse caminho. Ela tornou-se esse caminho. E talvez os poetas não consigam mesmo ser outra coisa.


O festival contou com o apoio de vários artistas e vozes: Dério, Márcia, Kalú Mendes, Letícia, Marty, Remy, entre ex-alunos e familiares. Houve palavras que tocaram fundo, como as de Marlene José. E apoios institucionais como o Camões, o Instituto Guimarães Rosa e a Embaixada de Angola em São Tomé e Príncipe. A todos os que sustentam a cultura — a gratidão é uma forma mínima de justiça. Muchas Gracias Gustavo Ramirez y Carla Solé.

À família, que marcou presença e nos ofereceu também poesia viva. À professora Ester Will, a Celiza, e tantos outros familiares que fizeram do gesto presença e da presença memória.
Sempre houve o risco de que a arte fosse desviada do seu propósito. De que o festival se tornasse espetáculo de si mesmo. Mas aqui, sou apenas mais um poeta diante de uma poetisa maior. Um amigo que perdeu a distância crítica porque foi alcançado pela força daquilo que admira.

E por que falo tanto de São? Por que insisto em nomear esta ausência presente?
Porque ela foi capaz de dizer o indizível.

Como em “Ignomínia”:

“Enquanto o fio da catana
avançava sobre o medo encurralado
o mundo espreguiçava uma pálpebra –
hesitava.
E quando o olho da câmara
desventrou enfim o silêncio
um metódico vendaval avermelhara
para sempre as águas e os campos.
As consciências
que no universo o caos ordenam
instauraram a urgência dos relatórios
e a estatística dos esqueletos.
Ruanda ainda conta os crânios dos seus filhos.”
— Conceição Lima


Por isso falo. Por isso insisto. Porque há obras que não podem ser deixadas apenas ao silêncio da história. Somos poucos, é insustentável enterrar tantos heróis nacionais
Eles precisam ser carregados como fogo que recusa apagar. E questiono:

Quem está São? 
Quem foi São?
E esses santolas que vejo, eles são...?


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