sexta-feira, 15 de maio de 2026

Adeus, São: A Poeta que Chegou Cedo Demais


Hoje, perco uma amiga, mentora, ícone nacional e alguém com quem tive das conversas mais intrigantes da minha existência. Percorri as mensagens, olhei os podcasts que fizemos juntos, as entrevistas... e revivi diferentes conversas que tive. A vontade de propagar a cultura sempre esteve ali. A vontade de fazer algo, a vontade de transcender o corpo, coisas que a poesia obriga-nos a fazer de vez em quando quando nos lançamos à empreitada de ser quem já somos.

A primeira lição que tive com São Lima é a ideia de que a qualidade poética não pode ser negociada. É como se a audiência não existisse. Ela sabia o que era e sabia o preço que pagou para acumular o conhecimento vasto que possuía sobre múltiplos aspectos, não estava disposta a ser simplória em nome dos aplausos. Isso colocava-a no meu panteão dos deuses/poetas.

Eu já tinha ouvido falar sobre a poetisa, já tinha lido alguns trechos. Como boa parte dos santolas, meus irmãos de pátria, nunca estudaram São nas escolas e perceberam, saindo fora da ilha, que todos sabiam mais sobre ela do que nós mesmos. E nós, santolas pendantes, não fomos honestos o suficiente para dizer que não tínhamos valorizado esse colosso. Traduzida em mil línguas, e não traduzida na alma dos seus conterrâneos porque os fazedores da cultura não viam os alvos que ela alcançava. Talvez não tenha sido barulhenta o suficiente para que soubéssemos o seu real valor.

Todavia, a minha história com São enquanto amigo e companheiro da jornada poética, melhor ainda, enquanto um fã confesso, começa por intermédio da Yanira Tiny. Nas minhas épocas de desempregado, eu bebia no Pico Mocambo e lia poesia quase todos os dias após usar a manhã para espalhar currículos. Deparei-me com o livro "A dolorosa raiz de Micondó". Perguntei a Yanira se conhecia Conceição Lima. Eu sabia que ela era superstar na UNILAB, mas não a conhecia pessoalmente. Yanira facilitou-me o contacto. Assim que liguei e falei da minha profunda admiração pelos poemas que li e que ribombavam na minha mente, ela ficou feliz com a minha abordagem ousada e combinamos um café.

Não posso deixar de lado as minhas origens, sou um bom Mandinga, a minha mãe foi colega, o meu tio Nuno escreveu músicas que animam noites santolas até hoje. Um tio definiu o capitalismo e outro o socialismo à la santomeense... e ela viu tudo isso em mim. Discutimos por horas no seu lugar favorito — Residencial Avenida. Éramos só nós os dois, nevoeiro de nicotina, uma mão que pensava o cigarro e dois cafés sobre a mesa que meditavam poesia. Horas que voavam como segundos.

Levei poemas meus, ela os leu. Disse que eu escrevia bem. Como todo fã, julguei ser pura gentileza. Os nossos caminhos foram se cruzando em outras ocasiões. Participação numa antologia de poetas da ilha que ela prefaciou com apoio do Centro Cultural Brasil-STP. Os nossos caminhos cruzavam-se várias vezes, nas mesas da CACAU com João Carlos Silva e Paulo Daio, no Abayaa Dá bô, nas conversas no Diogo Vaz, no Podcast Conversas No Centro, no programa que dirigia na TVS. Um mês atrás tivemos a nossa última conversa em público, teci tantos elogios... ela dizia que exagerava, eu dobrava a aposta, sempre pareceu para mim que dizia pouco, que não dizia tudo, pois era imenso o tamanho desse peso pesado da literatura mundial. Eu triplicava os elogios... e sempre me pareciam poucos.

As últimas conversas foram sobre o peso que tinha de carregar o título de embaixadora da cultura. Falamos sobre a autenticidade. Lembro de ter dito à minha Musa, na verdade repetido: "temos a arte para não morrermos da verdade". Pois, sempre soube que a verdade mata. Sempre soube que a sensibilidade artística vinha acompanhada com tristeza indecifrável e incompreensão do mundo. Sempre soube que por mais que nos abramos, nós, agora me considero artista porque não mais estás, São, nós artistas falamos de um mundo translúcido invisível aos que correm atrás do cobre, do poder e dos imediatismos. Nós podemos ver o que esse país podia ser e eles só veem o que esse país é. Esse é o nosso inferno. Eles só veem duas ilhas, luxo no lixo, incoerências e desejo de ser o dono dessa terrinha. Nós não podemos ser insulares nesse nível, sempre nos vimos como sul global, africanos, humanos e poeira cósmica. E isso sempre foi o nosso inferno. Eu tenho sempre o sarcasmo como arma, tinhas só a bruta realidade kafkiana imponente diante de ti.

Por fim, acho-te póstuma, acho que chegaste cedo demais ao país. Jogaste pérolas aos porcos, uma mensagem que não pode ser digerida pelo estômago atual do país. Vi a tua luta erguendo o nome de Alda Espírito Santo, fico feliz de ter ajudado. Eu, a Ilha dos Poetas Vivos, grupo criado para fazer poesias que sacudissem o sono da ilha, não somos dignos de te fazer alguma homenagem, São, somos a homenagem... cada gesto meu é uma homenagem. Disseste-me na última conversa que tiveste com o meu pai, ele disse que estava muito orgulhoso de mim (o que duvido, ele viu-me jogar futebol e ficou estupefacto como um craque pôde produzir um sem talento como eu). Lembro que dizias à minha mãe que precisava proteger o teu menino (eu). Nesse momento em que sou órfão literário, preciso alcançar voos maiores para que a nova geração saiba que andaram deuses/poetas entre nós e não puderam ser vistos porque não estavam em palcos enormes da vaidade e falavam em parábolas indigestas.Abraços do teu filho literário.

Sentimentos à família. Nos vemos em Pasárgada.



Quase São

Quase que sou São.
A São duvidaria disso.

Quase ação,
quase morro
com a sua morte
esta manhã...

Perdi o Norte.

Escrevi vários poemas
onde falei sobre ti.
Em mim havia São,
em mim estava são,
em mim são vários
artistas e todos

admiram Conceição Lima.a

15.05.26




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