Na última quinta-feira, 25 de março de 2026, a Assembleia Geral da ONU aprovou, por 123 votos a favor, 3 contra e 52 abstenções, uma resolução que classifica o tráfico transatlântico de escravos africanos como “o crime mais grave contra a humanidade”. O texto vai além do reconhecimento simbólico: exige desculpas formais, medidas de reparação e a criação de fundos para mitigar as “consequências duradouras” do sistema escravocrata europeu-americano.
À primeira vista, parece um momento de consenso moral. Mas basta olhar com atenção para os padrões de voto para perceber que a ONU não funciona como tribunal da ética universal. Funciona como um mercado de interesses nacionais, onde cada país calcula friamente quanto lhe custa (ou quanto lhe rende) votar de determinada forma.
os meus amigos, de acordo ao país de origem exigem uma posição moral do seu Estado. Uma expectativa que nunca virá e é totalmente compreensível sobre a lógica do pragmatismo político. Existe uma lógica própria na política que não segue o jogo da imagem ética que o povo quer ter do próprio Estado. Trata-se de dinheiro e poder.
talvez possa mostrar outra perspectiva aqui...
1. Os árabes: “Sim” ao transatlântico, “Não” ao transariano
Os 22 países da Liga Árabe votaram quase em bloco a favor. Egito, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Marrocos, Argélia… todos alinhados com o Grupo Africano. Nenhum voto contra, nenhuma abstenção registada. Até a Tunísia cujo presidente queria devolver os africanos à África tirando-os da Tunísia que parece estar em um outro continente. Marrocos que não flerta muito bem com a proposta da União Africana. Agora ressurgem como virgens ofendidas.
A explicação é simples e brutalmente pragmática: esta resolução não lhes custa nada. O texto foca exclusivamente no tráfico organizado por europeus e americanos entre os séculos XVI e XIX. Não menciona o comércio transariano (árabe-muçulmano), que durou mais de 1.300 anos, envolveu entre 10 e 18 milhões de africanos e continuou a existir de forma aberta até ao século XX em vários países árabes.
Imaginem agora o cenário inverso: uma resolução idêntica, mas sobre o tráfico transariano. O que aconteceria?
- A grande maioria dos países árabes votaria contra ou se absteria em massa.
- Arábia Saudita, Emirados, Catar e Kuwait — os mais ricos do grupo — liderariam a oposição.
- Razão? Porque reconhecer o transariano como “o pior crime” abriria imediatamente a porta a pedidos de reparações dirigidos a eles. E quando o assunto é dinheiro, a solidariedade sul-sul evapora-se num instante.
Esta é a primeira grande contradição: os mesmos países que hoje acusam o Ocidente de “negacionismo histórico” seriam os primeiros a praticar negacionismo seletivo se o holofote virasse para o seu próprio passado.
2. O Ocidente: culpa moral sim, conta para pagar não
Estados Unidos, Israel e Argentina foram os únicos três votos contra. A União Europeia, Reino Unido, Portugal, Espanha e a maioria dos países ricos abstiveram-se.
Aqui o cálculo é igualmente frio:
- Apoiar a resolução implicaria admitir responsabilidade financeira futura (reparações, fundos, restituições).
- Votar contra geraria um custo político alto junto da opinião pública progressista e dos países do Sul.
- A abstenção é o compromisso perfeito: “reconhecemos o horror, mas não assinamos cheque em branco”.
É o clássico “sim, a escravidão foi terrível… mas não vamos ser os únicos a pagar por ela”.
3. A África subsaariana: vítima e ator racional
Os países africanos foram os grandes motores da resolução. Para eles, o voto não é apenas simbólico. É estratégico:
- Reforça a narrativa de dívida histórica do Norte para o Sul.
- Pode abrir caminho a mecanismos concretos de transferência de recursos (fundos climáticos, tecnologia, dívida perdoada).
- Mantém a unidade do Grupo Africano na ONU.
No entanto, se a resolução fosse sobre o tráfico transariano, essa unidade racharia. Países como Mauritânia (onde a escravidão ainda existe de forma semi-legal), Sudão, Chade e Mali têm histórias complexas com o mundo árabe. O interesse económico e religioso muitas vezes prevalece sobre a memória histórica.
Conclusão: a ONU como espelho dos interesses nacionais
O que esta votação revela e o que a versão hipotética sobre o transariano confirmaria é que não existe voto ideológico puro na geopolítica. Existe cálculo racional de custos e benefícios:
- Quando a resolução aponta o dedo para o Ocidente rico → maioria do Sul Global vota “sim”.
- Quando aponta o dedo para o mundo árabe rico → o “sim” vira “não” ou abstenção.
- Quando o custo recai sobre si próprio → até os mais inflamados defensores da justiça histórica descobrem subitamente as virtudes da “reconciliação” e do “olhar para o futuro”.
A escravidão foi, de facto, um crime contra a humanidade em todas as suas formas, em todas as civilizações que a praticaram. Mas na ONU, o crime só é “o mais grave” quando o culpado é o outro e o pagador é o terceiro.
Esta seletividade não é hipocrisia acidental. É o funcionamento normal do sistema internacional. Quem finge que a ONU é um parlamento de princípios universais está a fazer propaganda. Quem analisa os votos país a país está a fazer política real.
E a lição é clara: na arena internacional, a memória histórica é um instrumento de poder. Usa-se contra quem pode pagar. Esquece-se quem pode retaliar.
O resto é teatro.
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