A palavra “política” virou, no discurso contemporâneo, um palavrão de salão. Dizer que alguém “tem interesse político” é quase mais ofensivo do que acusá-lo de furto. Funciona como denúncia moral velada: o sujeito é suspeito de impureza, de cálculo, de não ser suficientemente “bom”. A política, nessa visão de mundo, é o domínio do sujo; a virtude, portanto, residiria na recusa de pisar nessa arena de titãs.
Mas basta abrir Aristóteles. Na Política, a palavra não designa a disputa por cargos ou a arte de se vender em redes sociais. Designa a busca do bem comum e a realização da justiça na pólis. A vida humana plena só se realiza na comunidade política; quem se retira dela não se eleva, apenas se mutila. As sociedades mudaram, a escala se globalizou, as instituições se complexificaram e o conceito se distorceu. O que restou, em muitos círculos, foi uma caricatura: política = partidismo sujo; apolítica = pureza técnica, moral e científica.
E eis que surge a grande virtude contemporânea: a apolítica. O sujeito balança a medalha do “não-político” com a seriedade de quem carrega uma cruz. Diz-se guiado apenas pela técnica (profissionalismo), pela benevolência (moralidade) e pela neutralidade (ciência). É o santo moderno: tão elevado que não contamina as mãos com interesses. Assiste a tudo passivamente e de longe
Olhe com um pouco mais de atenção e a magia se desfaz. A apolítica quase sempre coincide, de forma suspeitamente precisa, com a posição política que o sujeito já ocupava, só que sem o ônus de admiti-la. É o esconderijo preferido dos tímidos, dos covardes e daqueles que descobriram que o poder se exerce melhor quando se finge não exercê-lo. Lar dos canalhas de colarinho branco e discurso de elevador.
O caso recente de Ed Sheeran (o herói secreto desse artigo) ilustra a operação com a elegância de um truque de mágica barato. Macklemore, convidado para abrir a turnê americana, ousou dizer “Free Palestine” em estádios lotados e cantar sobre Gaza. Em questão de dias, sumiu da turnê. Sheeran apressou-se a declarar que a decisão não foi dele, mas dos promotores e dos donos de estádios (incluindo Robert Kraft). Afirmou estar “chocado” com o sofrimento de ambos os lados, ter tentado “construir pontes”, e reiterou sua postura de não se posicionar publicamente. “Não sou cúmplice”, escreveu. “Tenho minhas visões pessoais… Só porque escolho não falar publicamente não significa que não as tenha.”
Curioso. O mesmo artista que, em 2022, subiu ao palco do Concert for Ukraine, cantou, se emocionou e ajudou a arrecadar milhões em solidariedade a um povo sob ataque, agora descobre que a neutralidade é sagrada quando o povo em questão se chama Palestina. Bem, aprende-se com o erro... e apoiar a Ucrânia era humanitário; mencionar Gaza é “político”. Carregar a bandeira de um lado é empatia; recusar a de outro é maturidade artística. A dúvida que paira, inevitável e um tanto cruel: o que acontece quando alguém se declara contra um massacre em curso? Continua sendo “político”? Ou só vira político quando o massacre não conta com a aprovação prévia da indústria, dos donos de estádios e das marcas que pagam as contas?
A lista de exemplos se alonga com a mesma precisão cirúrgica. Kanye West (Ye) perdeu contratos bilionários e foi virtualmente expurgado de boa parte da indústria depois de declarações antissemitas e posicionamentos extremistas. Gina Carano foi demitida de The Mandalorian por comparar a perseguição a conservadores nos Estados Unidos ao Holocausto. U2 e Bono Vox passaram décadas gritando sobre a Irlanda do Norte, a Bósnia, a África e o que mais lhes parecesse justo; as críticas vieram, mas as turnês lotaram e os discos venderam.
Por fim, o que realmente se espera dos artistas? Que estejam lá apenas para “mostrar a arte”? Existe de facto essa ficção conveniente chamada “arte pela arte”, desligada de tudo, limpa de qualquer posição, inocente como um algoritmo?
Se a resposta for sim, então a conclusão é óbvia e um pouco cruel: já não precisamos de artistas humanos. Bastam algoritmos e inteligências artificiais. Eles são mais eficientes, não têm crises de consciência, não gritam “Free Palestine” no meio do show e, acima de tudo, não fingem neutralidade enquanto escolhem cuidadosamente de que lado não se posicionar.
Se o artista humano se reduz a um autómato bem-vestido que só abre a boca quando a narrativa oficial permite, então por que continuar a pagar o preço emocional e moral de fingir que ainda há alma ali? Melhor lidar diretamente com autómatos declarados. Pelo menos esses não mentem sobre a própria natureza.
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