sábado, 12 de novembro de 2022

Reflexões sobre a construção do nosso castelo de areia

 

A primeira coisa para se entender o negócio do roubo de areia é: por qual motivo, apesar de tanto esforço, areia roubada consegue ser comprada facilmente? Por qual motivo as pessoas acreditam que a erosão deixa de existir por ter sido legalizada a extracção de areia para A ou B?

Todos conhecem a história de uma casa que caiu devido a erosão ou uma praia que deixou de existir pelo mesmo motivo. Todo mundo sabe que é ilegal a extracção de areia das praias ou das regiões costeiras… por qual motivo essas medidas de combater ao roubo de areia têm falhado?

A primeira visão é simples: os pobres roubam areia das praias porque existe um mercado frutífero para tal.  Algumas pessoas extraem areia das praias porque têm legitimidade para tal. Este é um diagnóstico básico.

Contudo, enquanto se condena, persegue-se na madrugada os ninjas nocturnos da “Vila Oculta” de areia, os seus compradores compram impunemente todo o fruto do roubo, com efeito, cada vez mais jovens prodígios arriscam-se nesse caminho ninja.

Enquanto os ninjas fogem, algumas entidades possuem a legitimidade para fazer a mesma operação em uma escala ainda mais gritante.  E produzem um lucro concentrado na venda de areia. Por um lado temos uma actividade ilegal e socialmente condenável, do outro lado temos “negócio”. A parte caricata é que o desastre é o mesmo, apenas temos actores diferentes.

Nesta senda, na busca do “santola dream” – casa própria, um carro grande, uma família e algumas concubinas… a compra de areia é frenética e sempre aquece o mercado. E para todos esses compradores não são sequer questionados de onde vem a areia.  Por qual motivo não questionamos? Por qual motivo não olhamos para o facto de que - ninguém vende se não existir um mercado preparado para o consumir. Precisamos condenar a compra de areia… e para tal, pensar uma alternativa, precisamos repensar o modelo de construção de casas. Precisamos repensar o nosso estilo de vida também.

 

Por fim, quero que visualize – andas pela marginal, os holandeses ainda não vieram, os passeios estão num constante “adeus”, a erosão está consumindo, o sistema de esgoto não consegue devolver a água pro mar… em dia de chuva podes fazer isso indo de canoa. As raízes dos caroceiros estão destruindo o que sobrou… Percorres a marginal ainda, olhas para o hospital (história longa), agora desces e passas pelo CFAO (outra história longa) e agora andas pela Praia Emília e vês empresas de construção (outra história longa) depois a ponte destruída pela inundação (uma história não tão longa) depois olha o Saton e as suas crateras (uma super história longa)… anoiteceu, os garimpeiros do Saton estão no activo… uma casa está caindo, um buraco, mais crateras… e voltas para casa relaxado repetindo – Um dia desses o mar nos engole!

E esses castelos de areia, esse avanço de mar, essa vulnerabilidade que tentamos não ver, essa gestão de risco que não fazemos está a avançar, e um dia o mar real avança um pouco mais e o nosso castelo de areia se desfragmenta no caldo do tempo, sobrando fotos para mostrar aos que ainda não estão cá -  futura geração. Estaria aí a prova da nossa mitigação, resiliência e adaptabilidade?!

sábado, 8 de outubro de 2022

Os meninos da rua ou os fantasmas da capital

 


 

Ao passarmos pela capital rapidamente somos convidados a fechar os olhos para a nova barbárie que é crianças a pedir dinheiro pela capital. Em algum momento passamos a normalizar crianças que não vão mais à escola e se dedicaram full-time à mendicidade. Outras até parecem que estão vendendo alguma coisa, quando na verdade são colocadas ali como faquires indianos, elas esmolam mais do que vendem alguma coisa. normalizamos uma criança-mãe carregando uma criança-filho enquanto vende saldo.

Qual é a consequência disso?

Ao nível social, sabemos que as crianças na rua começam realmente pedindo, acabam fazendo uns pequenos furtos aqui e acolá, quando dermos por nós, as crianças recriam o caso Ventura e eliminam pessoas. O facto de gozarmos de uma suposta tranquilidade não evitará esses jovens fora de toda a manifestação de consumo de assaltarem-nos, violarem e tirarem a vida futuramente aos que passam desavisados ou incautos.

Um ambiente propício?

Temos de ter a consciência que a nossa cidade durante a noite quase não tem policiamento público e boa parte das vias estão sem iluminação pública. Logo, é sábio pensar também que a polícia não conseguirá dar resposta ao ocorrido de forma eficiente, uma vez que falta investimento na segurança. Os fantasmas estão dormindo nos bancos da praça; estão ali nos restaurantes pedindo aos turistas; estão nos bares mendigando; estão nos cafés pela manhã... só não são levados à sério... 

O que não entendemos?

As pessoas podem pensar que se trata agora de criar muros maiores, colocar mais seguranças nas ruas e ter uma polícia mais musculada.  Não é nada disso, repito, não é nada disso. Não se trata de apenas travá-los, a máquina não vai parar de criar esses fantasmas ... a pobreza alastra-se, quem não rodar bolsas na ponte, caçar dinheiro aos turistas em bares, acabará por virar um desses fantasmas

Qual é o ponto?

Se esses jovens não conseguem comer, nós não conseguiremos dormir aqui na ilha. Se esses jovens não forem apadrinhados pelo sistema educacional, eles vão colocar-nos no sistema hospitalar ou num necrotério. Se não tornarmos essas vidas mais valiosas, os que possuem alguma coisa, terão de se esconder dos que nada possuem. Trata-se de facto de ajudar esses meninos. Por mais egoísta que alguém possa ser, saiba, quando ajudamos esses jovens de uma forma estratégica, estaremos ajudando a nós mesmos. Ou teremos de eliminá-los da forma mais bárbara, pois, para quem tem nada a perder, a moral é só uma fábula bonita para os privilegiados. 


Um dia desses a minha casa foi invadida por esses meninos, levaram algumas coisas, mas estava vazia... um dia eles encontrarão alguém lá dentro, na minha casa ou na vossa... o que acham que irá acontecer?!

terça-feira, 9 de agosto de 2022

Antes tínhamos valores, hoje temos preço...

 Antes  de conhecer algum amigo do filho, os pais perguntavam convenientemente: "Quem são os pais desse teu amigo?" - eles não queriam saber a posição económica, mas sim, os valores sociais compartilhados socialmente. Era uma forma de descriminação mascarada de valores tradicionais e superioridade moral. Tudo isso caiu por terra, desmanchou-se no ar e se tornou mercadoria. 

Hoje, para o meu espanto, a camada jovem já não quer saber quem são os meus pais ou a minha religiosidade. O que agora importa: onde trabalho e se vim de Londres ou não. Olham para o carro que ando a conduzir e assumem que  já me conhecem ou viro um potencial "lover".

Alguns dizem que a sociedade piorou, não acredito que assim seja, apenas os valores foram reinventados. Tudo pode desde que o dinheiro esteja em jogo. Um bandido bem sucedido vale mais do que um moralista batalhando para sobreviver ao Monstro do final do mês... Dizer que é um homem sensato com valores familiares não serve de nada se não consegues garantir o consumo: de bens, saúde, educação no exterior e pessoas (o mais importante). 

Todavia, já havia assistido um movimento que chamo de "alimentar os esfomeados", o novo "freak show". Chego em bares populares e um conjunto de "novos ricos" agregam uns miseráveis e os submetem alguma situação desconcertante. Por exemplo, 100 dobras para mostrar as nádegas, ou 300 dobras para a mulher que melhor rebolar numa dança obscena qualquer. Geralmente os miseráveis entram em lutas hercúleas pelo pequeno almoço que é o dinheiro de uma pessoa que cansado de ficção, decide jogar com a miséria alheia. 

Nesse momento, os mais moralistas olham o meu texto com alguma superioridade moral. Contudo, não vou deixar barato hoje. Sempre vi esse tipo de "dança dos miseráveis" repetir diante de mim várias vezes e sem fim. Quando ia aos casamentos onde a parte pobre de alguma família servia ou era convidada para "ajudar" na realização de um baptismo ou casamento qualquer. Eu vi repetir nas histórias de "minás kiás! Eu vi isso repetir com trabalhos desumanos de venda de saldo num banquinho que relembra o navio negreiro e um conjunto de mulheres e crianças submetidas à exposição e escravidão moderna. 

A sociedade que normaliza crianças e mães amamentando crianças venderem saldo sem um mínimo de direitos trabalhistas não pode mais se achar melhor que os "london boys" patrocinando lutas entre os miseráveis enquanto jogam dinheiro do alto de uma zona VIP qualquer... ou de uma torre de marfim. 

Por fim, é sempre sobre dinheiro, status, carros com pneus cada vez maiores e uma legião de mulheres lutando para o ocupar a poltrona no lugar de passageiro. No fim, a velha elite que se prostitui no trabalho todos os dias sente-se raivosa vendo jovens sem um nome exibir-se desse jeito. E esses jovens que nunca tiveram muita coisa, instalam na cabeça dos jovens um sonho de sucesso estranho enquanto estupidamente brincam com a miséria de um povo guiado pelo estômago enquanto se esbarram para apanhar as notas ou para rebolar o rabo da melhor forma possível em nome da próxima bebida... E os valores têm preço e os preços são os únicos valores santomenses. 

... o engenheiro chega em casa, olha o diploma pendurado na parede, os elogios pelo seu trabalho técnico... ele se alegra, agora a mensagem de uma das amigas que financia pedindo dinheiro, mais dinheiro, e ele está entre o leite das crianças e os seus prazeres que compra. Ela o bloqueia, os "london boys" voltaram, ela precisa de libras, o financiador de saldo e hambúrguer é nada agora. Ele tem raiva dos "london boys". - ele também paga pelo prazer como os londrinos, a diferença está no valor, por qual motivo se acha moralmente melhor?! Agora ele entra no seu carro popular e assiste o pessoal passar por ele com carros de motores potentes, a sua namorada está ali dentro sorrindo enquanto bebe "Bar Royal". Agora ele precisa inventar que ao menos ele tem um vigor sexual melhor para se sentir bem consigo mesmo e sua miséria e o seu diploma que vale nada. - No fim da noite está pedindo copo de whisky aos mesmos que diz odiar.  

... e levemente esses valores adentram-se na política, no imaginário social ... um novo Deus Capital sendo forjado na esquina de uma nação com sintomas patológicos... agora sim, todas as relações são intermediadas pelo dinheiro, o doce e vil metal! - somos todos fantoches do dinheiro e com fetiches pela mercadoria ao fim do dia, poucos escapam desse quadro patológico






sábado, 11 de junho de 2022

Nunca foi perda de valores, apenas sintomas antigos de uma doença ignorada.


Sempre tentam nos convencer que as pessoas perderam os valores que anteriormente foram basilares da nossa sociedade santomense. Evocam valores como: dignidade, solidariedade, orgulho, vestir-se correctamente, conduta sexual cristã e outras coisas que se tornaram conversas que brilham que nem latão enquanto os mais conservadores tentam nos convencer que é ouro.

Quero abordar alguns pontos convosco de forma despretenciosa:

1 – Promiscuidade não é um problema atual, nem é uma questão de valores, é um problema socioeconómico – Desde criança todos nós ouvimos falar na tradição das catorzinhas, dos homens que foram buscar mulheres nas roças como quem compra porco para formar família. Invariavelmente histórias das mães que fugiram com outro homem para Portugal, ou de homens que assumem crianças que parecem muito com o vizinho… mais do que isso, homens com trinta filhos e múltiplas mulheres. Homens que não saberiam dizer quantos filhos possuem ou os nomes de cada criança. Incrivelmente é essa gente que vem nos dizer que a juventude é promíscua e a sociedade está em decadência. Se sobrevivemos aos pedófilos de carteirinha e aos polígamos e senhoras de moral duvidosa, vamos sobreviver à actualidade. A nossa geração apenas trouxe à luz todos os problemas que sempre existiram. Essa geração que oficializou ”mulher de casa” e “meio-irmãos”, nada tem a nos ensinar sobre condutas retas, eles nunca foram retos.

 

2 – Os jovens não inventaram o álcool – Sempre tentam tachar os jovens como alcoólatras, bêbados incorrigíveis e um bando de preguiçosos feitos zombies ao toque do etanol. Bem, os antigos sempre fizeram terapia alcoólica. É a mulher num casamento destrutivo que se mata levemente com vinho e cerveja. É o teu tio que toda hora está bêbado e ninguém te explica o motivo e preferem dizer que é trabalho de um curandeiro abade qualquer. Álcool é um problema nacional, precisa ser levado mais à sério. Mas, é um sintoma e não a causa como muitos querem nos fazer crer. Essa gente que está bebendo a maior parte está buscando uma fuga rápida para o sistema que asfixia. O desemprego, o baixo rendimento, o desassossego matrimonial, a insegurança alimentar… isso o aflige, daí que a taxa de alcoolismo é mais visível em lugares pobres. -Eles não são pobres porque bebem, eles bebem porque são pobres.

 

3 – A fraternidade e a amizade que se perdeu? – mais uma história mal contada. Na minha geração os irmãos ainda se falam. Pergunto aos mais novos, quantos tios que não falam mais com os teus pais ou a quantidade de pessoas que não se falam por vários motivos idiotas? Essa gente pode de facto dizer que já não valorizamos a amizade?! Quantos deles foram roubados por camaradas do partido e já não se falam? Quantos foram burlados e quase perderam a vida ou enlouqueceram?! Quantos perderam a mulher para um amigo “inflacionador de mercado sexual”?

 

4 – A nova geração é materialista, só pensa em dinheiro e ostentação – A maior mentira de todas. A geração que recebeu casa de graça, que invadiu casas e hoje se apropria com alguma altivez, não é menos materialista que nós. Essa gente que brincou de mágico do Oz com dinheiro de campanha, comprou carros, mandou mil mulheres para bolsas em Lisboa e outros países, nada pode falar dos “novos ricos” que fazem a mesma coisa. Aliás, é a mesma geração que patrocina as minhas colegas mais ambiciosas. A geração que aceitava um homem com várias mulheres desde que traga dinheiro para casa nada tem a opinar para a sua filha deslumbrada por euros e libras. A filha ainda vence em quesito imaginação. Os que faliram empresas públicas em nome dos prazeres da vida, só nos pode ensinar o caminho a não seguir, deixem-nos trilhar os nossos caminhos à luz de novos erros. Deixem-nos criar os nossos próprios pecados.

 

Por fim, agradecemos pelos vossos acertos, nós vivemos as vossas falhas e acertos. Muitos andaram de laguna enquanto o povo queria arroz. Outros tiveram a visão de aprovar pena de morte no país onde por sorte, não morreu alguém. Um foi pioneiro no multipartidarismo. Outros fizeram leis à medida para um ou outro, Fradique que o diga. Outros distribuíram terrenos com critérios misteriosos.  Não tem problema, é algo global, existe em toda parte.

 Mas o cinismo, essa forma de delegar problemas para a futura geração, isso sim é o maior pecado da geração que nos antecede. Deixe-nos inovar, somos a primeira geração que quer viver à margem do Estado, sem prebendas, mas empreendendo o próprio futuro. Deixe-nos provar do nosso próprio veneno, espero que tenhamos a hombridade de ser honestos com a futura geração. Espero que chamemos os porcos pelos seus verdadeiros nomes, como a geração passada não fez com a nossa.

segunda-feira, 30 de maio de 2022

Entre azulinhos e exposições: A boca das pobres no microfone londrino

 


 

Tinha considerado que aquilo era um não assunto. Contudo, a forma leviana como tudo ocorreu acabou se tornando uma boa matéria antropológica para entender o que a sociedade santomense tem se tornado na esquina da nossa civilização. Se o pessoal usa ou não medicamentos para ficar erecto, isso nunca foi a verdadeira discussão. Quem foi o alvo das más línguas? quem são essas pessoas que criticam e em qual contexto? Eis aqui o crème de la crème. Logo, sigo em alguns pontos que achei relevante:

1 – A ideia de vergonha social ou familiar deixou de existir

O santomense que se sentia mal por ter o seu nome na boca do povo deixou de existir entre os pobres. As moças se expuseram de todas as formas possíveis, sem levar em conta que os seus vizinhos estavam vendo, se os seus familiares e amigos pudessem se envergonhar dos seus actos. É como se a moralidade como conhecemos no passado não fizesse mais sentido. Ninguém tem moral para criticar             

2 – O dinheiro está acima do bem e do mal

Se antigamente a questão era: “quem são os pais desse jovem?” quando uma moça apresentava o namorado, aparentemente, basta dizer que é “tranchado” e todas as deduções decorrem disso.  A moça falou na casa que construiu, do negócio que montou, exibiu todos os troféus materiais deixando implícito todas as habilidades “empreendedoras” que acabou usando para produzir suas riquezas desde a tenra idade. E o escândalo é apenas falar que alguns homens tomam viagra?!

3 – Consumo, logo existo.

Nada me tem chamado mais atenção como as festas que tenho tido a honra de participar. A parte VIP fica mais lotada do que o lugar comum. Facilmente se nota uma sociedade que todo mundo se acha acima da lei, especial. Todo mundo diz ser amigo íntimo de alguém influente, acha que é especial e para obter o viés de confirmação, um copo de whisky na mão e estar na mesa onde garrafas são abertas sistematicamente. É claro, vejo mulheres erguendo “Bar Royal”, luzes que piscam do Iphone mostrando que usam algo importante e estão causando alguma inveja nas “inimigas”. Mas só se vê gente vazia erguendo copos, olhando corpos.


4 – Mulheres pobres e a comoditização

As mulheres pobres só podem contar com o corpo. Logo, quem as paga tem o total controlo sobre seus corpos e mentes. No capitalismo local, elas existem na medida que podem ser transformadas em objecto de prazer. Em algum momento elas acreditam que as bebidas, o dinheiro, as festas já pagas devem-se a quem elas são enquanto humanas, o que é mentira, espera-se que elas possam dar o corpo, mesmo que seja em forma de pagamento futuro, mas elas não saem desse objecto de consumo. E calculando a desigualdade epistemológica, elas não conseguem desenvolver habilidade alguma na primavera da beleza, e no fim, acabam desengonçadas por uma dieta baseada em cerveja e hambúrgueres e sem habilidade profissional alguma, estavam em algumas festas e não tinham tempo para tal. Então, o homem santomense anda na rua como quem anda olhando vitrinas, é um potencial comprador, olhando vitrinas humanas e empurrando seu carrinho de “pulsão sexual”. 

5 – Nunca foi um caso sexual, mas sim, socioeconómico

As mulheres maldizem dos homens tentando fragilizar a sua potência sexual, é um facto. As mulheres pobres iriam criticar os “londrinos” que possuem algum dinheiro e causa alguma inveja social, outro facto. Elas não criticam o motoqueiros e outros derrotados socioeconómicos, eles sequer são assunto. Da mesma forma as mulheres que se sentiram escandalizadas, geralmente são burguesas que reproduzem o mesmo sistema social. Elas não defendem os bons valores, defendem suas imagens sociais. Eu vi muitos homens aplaudindo a acção das moças. É como se eles dissessem: os londrinos podem ter todo o dinheiro do mundo, mas eu tenho a pulsão sexual, um pénis maior, algo do género. Ou seja, meros invejosos contemplando a própria insignificância. É o mesmo princípio que nos faz achar ricos depressivos, mulheres bonitas superficiais e os alunos mais espertos da sala parecerem  anti-sociais e virgens.

sexta-feira, 11 de março de 2022

O que a guerra na Ucrânia diz sobre nós, os santolas.

  

Em uma tarde éramos especialistas em medicina aplicada ao COVID-19, no outro dia acordamos verdadeiros especialistas em guerras na Europa.

Os meus amigos levantaram a bandeira da Ucrânia, revoltaram-se contra a Rússia e Putin. De repente, começaram a surgir vídeos e artigos sobre como o país que se fez vítima trata os seus emigrantes negros. O país parece oferecer mais dignidade aos cães que aos africanos. A carne negra continua sendo a mais barata do mercado. As opiniões ficaram divididas.

Por um lado, o pessoal tropeçou no maniqueísmo mais burro que existe, dividir entre lado certo e o lado errado. Bem e o mal. Ignoraram por completo a luta entre os gigantes que sempre existiu desde a guerra fria, desde a batalha entre OTAN e o Pacto de Varsóvia… tudo resumido em: Putin mau ou OTAN a malvada. Por outro lado,  De repente, zás! O batalhão Azov, o passado neonazista e os ucranianos ganharam feições diabólicas!

O que me traz aqui são outras questões: porque as nossas dores não são sequer noticiadas por nós? O que torna a Ucrânia a primeira página e a explosão em Somália sequer aparecer.  O Que faz a resistência no médio oriente ser terrorismo e na Ucrânia heroísmo? O que faz o ataque de 11 de Setembro ser mais mediática que vários ataques em regiões de Congo sequer aparecer nos jornais?

Claro que odiamos a guerra, as misérias que isso arrasta. Contudo, algumas dores têm direito ao palco das lamentações e outras são invisíveis. Não consigo entender um santola que passa pelo hospital e assiste almas caindo no moedor de carne humana e decide colocar uma bandeira de Ucrânia no perfil enquanto activista de sofá.

No fim, sabemos que não há nenhuma estrutura fantasmagórica. Nós escolhemos ignorar as nossas dores. A TVS passa mais sobre a Ucrânia do que os constantes bombardeamentos na costa africana. Quando vejo um santola falar que a Rússia está comandando uma guerra, eu entendo o seu ponto de vista, mas não faz sentido. Sempre vivemos em guerra! A paz que acha que gozamos é só um suspiro de uma criança amedrontada. África só é notícia aqui quando está sendo falada na Europa e América. Por que motivo a América latina  e a Ásia sequer faz parte do nosso noticiário?!

Embora ninguém o diga em voz alta, trata-se da posição social de quem lamenta. É o mesmo esquema da criminalidade e morte num país. Algumas vidas tornam-se notícias (classe média) e outras vidas são descartáveis, por fim, a igualdade acaba sendo um recurso meramente matemático, só existe nas contas. A classe média santola que ignora crianças miseráveis e esquálidas na capital, doidos nus e jovens desesperados, é a mesma que numa sensibilidade hipócrita se importa com a guerra na Ucrânia porque os europeus se interessam também.

Por fim, sabemos que a guerra é um desastre humanitário, abominamos a guerra. Não se trata de quem tem razão, cada um possui suas razões para isto ou aquilo. O que me intriga é como assistimos a queda aqui do lado, mesmo aqui no Gabão sem que passe nada nos nossos noticiários. Como assistimos à indiferença negra sobre os próprios assuntos. Como as nossas fontes acabam sendo o que CNN, RTP, BBC e Le Figaro elegem como importante. Precisamos criar nossa própria epistemologia!

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

A revolução está ai na esquina

Embora as pessoas falam diariamente sobre a necessidade de mudança, não há nada que mais assusta do que a mudança de facto - dessa vez falo para mim mesmo, sem superioridade moral alguma, estamos todos naufragando.


Quando era só uma criança, eu conhecia as pessoas pelo nome. Atualmente, essas pessoas foram engolidas por instituições onde estão. Deixaram de ter nomes próprios, e exibem o nome comum - tornaram-se enquadrados, já quadrados, puderam ser sobreviventes. Um é Senhor Diretor, outro é CEO, o mais sortudo é o Fulano desta ou daquela Organização.


Nessa senda, sobrevivência é o eterno marco zero, mas é o caminho escolhido por quase todos. Para muitos colegas que tenho visto, e às vezes em mim mesmo, viver é só não morrer tão cedo e conseguir pagar as contas. Quando se questiona o motivo de querer se manter vivo, poucos saberiam responder, inclusive eu. Então, aparentemente estamos aqui para ficar vivos o máximo de tempo possível, uma espécie de concurso entre pianistas para ver quem toca por mais tempo sem levar em conta a qualidade performática 


Sentado em mim mesmo, outras questões começam a surgir... porquê tanta preocupação em conforto ou tempo de vida e não sobre a criação de algo significativo?! É só isso? - trabalho, casa, mulheres, bebidas, distrações, mais distrações, e por aí segue até que a felicidade e o prazer pareçam a mesma coisa?!


Todavia, sempre imaginei que se poderia usar o nosso tempo limitado para a criação de algo mais consistente. Algo além de nós, um "porquê" que suportasse  qualquer "como". Nossos pais nos contam histórias de personalidades como Mandela, Amílcar Cabral, Lumumba, ... e em silêncio fazem-nos seguir o caminho totalmente oposto, como se isso fosse uma burrice enquanto nos dizem que foram modelos de homens. Eles não podem ser seguidos, fazia sentido, por mais que se ame a revolução, ninguém quer terminar na cruz, pois, a cadeia com grades de ouro, Tv plasma, ar-condicionado e algumas strippers é melhor que o deserto do real... não se trata mais de liberdade, mas de quem encontrou a melhor forma de se distrair até que a morte chegue.


A revolução está aí na esquina, na ausência de medo, enquanto medrosos não podemos ser livres! No medo que o emprego torna-se uma gaiola, o chefe ganha super-poderes e o Estado torna-se um verdadeiro Leviatã. Não temos nada a temer, nada poderá nos atingir, a morte é certa. O sonho mais louco pode ser perseguido... nada poderá ser levado, estamos, enfim, livres! Nesse pálido ponto azul a revolução não precisa de massas, não precisamos convencer alguém, basta sermos fiéis aos nossos princípios!


Está tudo ali, mesmo na esquina!




sábado, 2 de outubro de 2021

Da imoralidade na cobrança das documentações pagas nos concursos públicos santomenses

 O que eu acho mais interessante em todas as narrativas políticas, muitas vezes é a capacidade de o discurso ser incoerente e fazer sentido para toda a gente. Quanto mais estranha for a narrativa, mais as pessoas parecem seguir o baile ainda mais alienado.


Vejamos, todo mundo sabe que os custos são pesados para se reconhecer a assinatura, autenticar documentos, pedir o registo criminal, a certidão de narrativa simples e completa, o atestado médico … e por aí vai. Então, uma das promessas seria baixar os custos dessas documentações que são exigidas no processo de recrutamento público bem como a ausência dos mesmos ser a causa de desclassificação no processo. Logo, tirar 5 dobras ou 10 dobras do valor de cada documento  faz algum sentido? - Não, e eu explico o motivo.


Tomemos nota, pode-se facilmente olhar para o que ocorre em outros países. Na fase inicial do processo, basta não exigir esses documentos, apenas uma declaração que a pessoa possui ou as cópias não autenticadas das mesmas. Não custa nada. E caso a pessoa seja contratada, após as provas e as entrevistas, agora sim, deveria apresentar esses mesmos documentos. Algo simples e lógico. Alguém ainda poderia falar sobre o custo de realização do processo. Tudo bem, mesmo que cada concorrente pagasse uma taxa de inscrição de 300 dobras sairia muito mais barato que da forma como ocorre atualmente. O pior, não podemos reaver esses mesmos documentos após reprovar ou desistir do concurso. 


Com efeito, não acredito que seja uma ignorância pública, temos gênios em cada esquina desse país. Talvez estejamos diante do lobby do Registro Civil, precisamos pagar os emolumentos da nossa aristocracia laboral ou é uma forma das Finanças ganhar em cima de cada jovem ambicioso que deseja prosperar na função pública. Ou ainda, uma hipótese mais sombria, trata-se de uma crise de confiança social. Precisamos apresentar todos os documentos chancelados pelo Estado como prova de que estamos falando a verdade, ou seja, o Estado desconfiando do seu povo, e o povo por sua vez desconfia de todos os concursos públicos. Tanto a vitória como a perda no concurso público é desacreditada. Quem ganha tem medo de pavonear que passou e precisa fazer longos discursos sobre a sua legitimidade, e logo um grau parentesco ou partidário é visto. O derrotado sai sempre ressentido, acreditando que um mais idiota passou por alguma influência e de lá adveio a sua derrota.


Logo, é imoral a exigência de documentos a priori que custam fortunas e tem um uso limitado de tempo, bem como não são devolvidos após a perda no concurso público. Devemos racionalizar o Estado. Invés de cobrar menos, que tal não cobrar? Todos ganham!  


sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Canábis, a planta que deixou os candidatos chapados em São Tomé.


Um dia, o ministro da agricultura apresentou-nos uma possibilidade financeira, um negócio lucrativo para o país: licença para produção de canábis em São Tomé e Príncipe. Ele falou das cifras, falou da importância e todos pareciam achar interessante a proposta na época.

De algum modo, o jogo mudou quando um candidato acusou o outro de estar recebendo dinheiro do narcotráfico para as campanhas e o “povo esclarecido” entendeu que se queria fazer os jovens fumarem mais erva. O mesmo povo que não se preocupa com jovens sem saúde, educação e sem emprego.

A nossa classe de génio percebeu desde o início que a "liamba" é a causa de toda a violência em São Tomé e Príncipe. Mas não o álcool, não a pobreza, não a falta de políticas públicas – enfim, um vilão!

Mais do que isso, o ministro falou da legalização da produção por parte de uma empresa e não da legalização do consumo, mas isso não importava mais, estávamos em campanha. Tudo faz parte do arsenal político. Se o povo não gostou da ideia, fazia sentido os candidatos defenderem o mesmo em nome do voto.

Logo de seguida, o governo lavou as mãos e os candidatos seguiram a mesma rima de sempre. Eram todos contra: Porquê?  - boa parte diz que não temos estrutura de controle, o que de facto concordo, mas se é de uma empresa estrangeira que se fala, não creio que a empresa estaria ok em perder lucros para deixar os jovens “brisados”. Os mesmos defensores, passam do lado de tendas de cacharamba e acreditam que o estado tem estrutura para controlar o álcool sem medição feita em balde com pilhas para acelerar o processo de fermentação da cana-de-açúcar. Aliás, deixamos de ter cacharamba, todo mundo vende “cana-cana” natural. Mas quase não se vê tantos canaviais que justifiquem.

E se a mesma empresa quisesse instalar uma destilaria, seríamos contra? Estaríamos contra o álcool de qualidade e controlado? Ou não teríamos estrutura para controlar? Mais do que isso, a empresa estaria disposta a perder o lucro para embriagar a juventude? Ou o Estado diminuiria os impostos sobre a importação de álcool (como de facto fez) para estimular o consumo? Deveríamos acusar a Rosema que já embriagou todo o judiciário de corromper a juventude? Ou o Mé-zochi de produzir cacharambas sem medidas básicas de higiene (como de facto ocorreu)?

Bem, se forem ao site da PlantoMax, veremos que já falam que estão a produzir em São Tomé e possuem um escritório aqui. Ou eles estão mentindo ou existe um lobby já bem feito e o ministro precisa nos explicar isto.

Por fim, quais são os argumentos contra o plantio? São argumentos morais apenas. E qualquer jovem sabe que com um telefonema terá a seu cachimbo da paz em frente a sua casa em alguns minutos. Que tal controlar o mercado em vez de deixar como está para ver como fica? Do ponto de vista económico estou mais preocupado com o controle tributário do que com o plantio, não podemos nos esquecer, segundo o próprio Estado, Rosema passou anos em sonegação, como praticar tal ato sem a anuência do próprio Estado? Se o Estado diz que não obriga ninguém a beber legalizando o álcool, estaria obrigando alguém a fumar legalizando o “plantio da erva”?

Lula e a difícil arte de explicar o povo ao povo

A América Latina virou à direita Milei e a sua motosserra na Argentina. Bukele e as suas prisões em El Salvador.  Abelardo de la Espriella e...