segunda-feira, 30 de maio de 2022

Entre azulinhos e exposições: A boca das pobres no microfone londrino

 


 

Tinha considerado que aquilo era um não assunto. Contudo, a forma leviana como tudo ocorreu acabou se tornando uma boa matéria antropológica para entender o que a sociedade santomense tem se tornado na esquina da nossa civilização. Se o pessoal usa ou não medicamentos para ficar erecto, isso nunca foi a verdadeira discussão. Quem foi o alvo das más línguas? quem são essas pessoas que criticam e em qual contexto? Eis aqui o crème de la crème. Logo, sigo em alguns pontos que achei relevante:

1 – A ideia de vergonha social ou familiar deixou de existir

O santomense que se sentia mal por ter o seu nome na boca do povo deixou de existir entre os pobres. As moças se expuseram de todas as formas possíveis, sem levar em conta que os seus vizinhos estavam vendo, se os seus familiares e amigos pudessem se envergonhar dos seus actos. É como se a moralidade como conhecemos no passado não fizesse mais sentido. Ninguém tem moral para criticar             

2 – O dinheiro está acima do bem e do mal

Se antigamente a questão era: “quem são os pais desse jovem?” quando uma moça apresentava o namorado, aparentemente, basta dizer que é “tranchado” e todas as deduções decorrem disso.  A moça falou na casa que construiu, do negócio que montou, exibiu todos os troféus materiais deixando implícito todas as habilidades “empreendedoras” que acabou usando para produzir suas riquezas desde a tenra idade. E o escândalo é apenas falar que alguns homens tomam viagra?!

3 – Consumo, logo existo.

Nada me tem chamado mais atenção como as festas que tenho tido a honra de participar. A parte VIP fica mais lotada do que o lugar comum. Facilmente se nota uma sociedade que todo mundo se acha acima da lei, especial. Todo mundo diz ser amigo íntimo de alguém influente, acha que é especial e para obter o viés de confirmação, um copo de whisky na mão e estar na mesa onde garrafas são abertas sistematicamente. É claro, vejo mulheres erguendo “Bar Royal”, luzes que piscam do Iphone mostrando que usam algo importante e estão causando alguma inveja nas “inimigas”. Mas só se vê gente vazia erguendo copos, olhando corpos.


4 – Mulheres pobres e a comoditização

As mulheres pobres só podem contar com o corpo. Logo, quem as paga tem o total controlo sobre seus corpos e mentes. No capitalismo local, elas existem na medida que podem ser transformadas em objecto de prazer. Em algum momento elas acreditam que as bebidas, o dinheiro, as festas já pagas devem-se a quem elas são enquanto humanas, o que é mentira, espera-se que elas possam dar o corpo, mesmo que seja em forma de pagamento futuro, mas elas não saem desse objecto de consumo. E calculando a desigualdade epistemológica, elas não conseguem desenvolver habilidade alguma na primavera da beleza, e no fim, acabam desengonçadas por uma dieta baseada em cerveja e hambúrgueres e sem habilidade profissional alguma, estavam em algumas festas e não tinham tempo para tal. Então, o homem santomense anda na rua como quem anda olhando vitrinas, é um potencial comprador, olhando vitrinas humanas e empurrando seu carrinho de “pulsão sexual”. 

5 – Nunca foi um caso sexual, mas sim, socioeconómico

As mulheres maldizem dos homens tentando fragilizar a sua potência sexual, é um facto. As mulheres pobres iriam criticar os “londrinos” que possuem algum dinheiro e causa alguma inveja social, outro facto. Elas não criticam o motoqueiros e outros derrotados socioeconómicos, eles sequer são assunto. Da mesma forma as mulheres que se sentiram escandalizadas, geralmente são burguesas que reproduzem o mesmo sistema social. Elas não defendem os bons valores, defendem suas imagens sociais. Eu vi muitos homens aplaudindo a acção das moças. É como se eles dissessem: os londrinos podem ter todo o dinheiro do mundo, mas eu tenho a pulsão sexual, um pénis maior, algo do género. Ou seja, meros invejosos contemplando a própria insignificância. É o mesmo princípio que nos faz achar ricos depressivos, mulheres bonitas superficiais e os alunos mais espertos da sala parecerem  anti-sociais e virgens.

sexta-feira, 11 de março de 2022

O que a guerra na Ucrânia diz sobre nós, os santolas.

  

Em uma tarde éramos especialistas em medicina aplicada ao COVID-19, no outro dia acordamos verdadeiros especialistas em guerras na Europa.

Os meus amigos levantaram a bandeira da Ucrânia, revoltaram-se contra a Rússia e Putin. De repente, começaram a surgir vídeos e artigos sobre como o país que se fez vítima trata os seus emigrantes negros. O país parece oferecer mais dignidade aos cães que aos africanos. A carne negra continua sendo a mais barata do mercado. As opiniões ficaram divididas.

Por um lado, o pessoal tropeçou no maniqueísmo mais burro que existe, dividir entre lado certo e o lado errado. Bem e o mal. Ignoraram por completo a luta entre os gigantes que sempre existiu desde a guerra fria, desde a batalha entre OTAN e o Pacto de Varsóvia… tudo resumido em: Putin mau ou OTAN a malvada. Por outro lado,  De repente, zás! O batalhão Azov, o passado neonazista e os ucranianos ganharam feições diabólicas!

O que me traz aqui são outras questões: porque as nossas dores não são sequer noticiadas por nós? O que torna a Ucrânia a primeira página e a explosão em Somália sequer aparecer.  O Que faz a resistência no médio oriente ser terrorismo e na Ucrânia heroísmo? O que faz o ataque de 11 de Setembro ser mais mediática que vários ataques em regiões de Congo sequer aparecer nos jornais?

Claro que odiamos a guerra, as misérias que isso arrasta. Contudo, algumas dores têm direito ao palco das lamentações e outras são invisíveis. Não consigo entender um santola que passa pelo hospital e assiste almas caindo no moedor de carne humana e decide colocar uma bandeira de Ucrânia no perfil enquanto activista de sofá.

No fim, sabemos que não há nenhuma estrutura fantasmagórica. Nós escolhemos ignorar as nossas dores. A TVS passa mais sobre a Ucrânia do que os constantes bombardeamentos na costa africana. Quando vejo um santola falar que a Rússia está comandando uma guerra, eu entendo o seu ponto de vista, mas não faz sentido. Sempre vivemos em guerra! A paz que acha que gozamos é só um suspiro de uma criança amedrontada. África só é notícia aqui quando está sendo falada na Europa e América. Por que motivo a América latina  e a Ásia sequer faz parte do nosso noticiário?!

Embora ninguém o diga em voz alta, trata-se da posição social de quem lamenta. É o mesmo esquema da criminalidade e morte num país. Algumas vidas tornam-se notícias (classe média) e outras vidas são descartáveis, por fim, a igualdade acaba sendo um recurso meramente matemático, só existe nas contas. A classe média santola que ignora crianças miseráveis e esquálidas na capital, doidos nus e jovens desesperados, é a mesma que numa sensibilidade hipócrita se importa com a guerra na Ucrânia porque os europeus se interessam também.

Por fim, sabemos que a guerra é um desastre humanitário, abominamos a guerra. Não se trata de quem tem razão, cada um possui suas razões para isto ou aquilo. O que me intriga é como assistimos a queda aqui do lado, mesmo aqui no Gabão sem que passe nada nos nossos noticiários. Como assistimos à indiferença negra sobre os próprios assuntos. Como as nossas fontes acabam sendo o que CNN, RTP, BBC e Le Figaro elegem como importante. Precisamos criar nossa própria epistemologia!

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

A revolução está ai na esquina

Embora as pessoas falam diariamente sobre a necessidade de mudança, não há nada que mais assusta do que a mudança de facto - dessa vez falo para mim mesmo, sem superioridade moral alguma, estamos todos naufragando.


Quando era só uma criança, eu conhecia as pessoas pelo nome. Atualmente, essas pessoas foram engolidas por instituições onde estão. Deixaram de ter nomes próprios, e exibem o nome comum - tornaram-se enquadrados, já quadrados, puderam ser sobreviventes. Um é Senhor Diretor, outro é CEO, o mais sortudo é o Fulano desta ou daquela Organização.


Nessa senda, sobrevivência é o eterno marco zero, mas é o caminho escolhido por quase todos. Para muitos colegas que tenho visto, e às vezes em mim mesmo, viver é só não morrer tão cedo e conseguir pagar as contas. Quando se questiona o motivo de querer se manter vivo, poucos saberiam responder, inclusive eu. Então, aparentemente estamos aqui para ficar vivos o máximo de tempo possível, uma espécie de concurso entre pianistas para ver quem toca por mais tempo sem levar em conta a qualidade performática 


Sentado em mim mesmo, outras questões começam a surgir... porquê tanta preocupação em conforto ou tempo de vida e não sobre a criação de algo significativo?! É só isso? - trabalho, casa, mulheres, bebidas, distrações, mais distrações, e por aí segue até que a felicidade e o prazer pareçam a mesma coisa?!


Todavia, sempre imaginei que se poderia usar o nosso tempo limitado para a criação de algo mais consistente. Algo além de nós, um "porquê" que suportasse  qualquer "como". Nossos pais nos contam histórias de personalidades como Mandela, Amílcar Cabral, Lumumba, ... e em silêncio fazem-nos seguir o caminho totalmente oposto, como se isso fosse uma burrice enquanto nos dizem que foram modelos de homens. Eles não podem ser seguidos, fazia sentido, por mais que se ame a revolução, ninguém quer terminar na cruz, pois, a cadeia com grades de ouro, Tv plasma, ar-condicionado e algumas strippers é melhor que o deserto do real... não se trata mais de liberdade, mas de quem encontrou a melhor forma de se distrair até que a morte chegue.


A revolução está aí na esquina, na ausência de medo, enquanto medrosos não podemos ser livres! No medo que o emprego torna-se uma gaiola, o chefe ganha super-poderes e o Estado torna-se um verdadeiro Leviatã. Não temos nada a temer, nada poderá nos atingir, a morte é certa. O sonho mais louco pode ser perseguido... nada poderá ser levado, estamos, enfim, livres! Nesse pálido ponto azul a revolução não precisa de massas, não precisamos convencer alguém, basta sermos fiéis aos nossos princípios!


Está tudo ali, mesmo na esquina!




sábado, 2 de outubro de 2021

Da imoralidade na cobrança das documentações pagas nos concursos públicos santomenses

 O que eu acho mais interessante em todas as narrativas políticas, muitas vezes é a capacidade de o discurso ser incoerente e fazer sentido para toda a gente. Quanto mais estranha for a narrativa, mais as pessoas parecem seguir o baile ainda mais alienado.


Vejamos, todo mundo sabe que os custos são pesados para se reconhecer a assinatura, autenticar documentos, pedir o registo criminal, a certidão de narrativa simples e completa, o atestado médico … e por aí vai. Então, uma das promessas seria baixar os custos dessas documentações que são exigidas no processo de recrutamento público bem como a ausência dos mesmos ser a causa de desclassificação no processo. Logo, tirar 5 dobras ou 10 dobras do valor de cada documento  faz algum sentido? - Não, e eu explico o motivo.


Tomemos nota, pode-se facilmente olhar para o que ocorre em outros países. Na fase inicial do processo, basta não exigir esses documentos, apenas uma declaração que a pessoa possui ou as cópias não autenticadas das mesmas. Não custa nada. E caso a pessoa seja contratada, após as provas e as entrevistas, agora sim, deveria apresentar esses mesmos documentos. Algo simples e lógico. Alguém ainda poderia falar sobre o custo de realização do processo. Tudo bem, mesmo que cada concorrente pagasse uma taxa de inscrição de 300 dobras sairia muito mais barato que da forma como ocorre atualmente. O pior, não podemos reaver esses mesmos documentos após reprovar ou desistir do concurso. 


Com efeito, não acredito que seja uma ignorância pública, temos gênios em cada esquina desse país. Talvez estejamos diante do lobby do Registro Civil, precisamos pagar os emolumentos da nossa aristocracia laboral ou é uma forma das Finanças ganhar em cima de cada jovem ambicioso que deseja prosperar na função pública. Ou ainda, uma hipótese mais sombria, trata-se de uma crise de confiança social. Precisamos apresentar todos os documentos chancelados pelo Estado como prova de que estamos falando a verdade, ou seja, o Estado desconfiando do seu povo, e o povo por sua vez desconfia de todos os concursos públicos. Tanto a vitória como a perda no concurso público é desacreditada. Quem ganha tem medo de pavonear que passou e precisa fazer longos discursos sobre a sua legitimidade, e logo um grau parentesco ou partidário é visto. O derrotado sai sempre ressentido, acreditando que um mais idiota passou por alguma influência e de lá adveio a sua derrota.


Logo, é imoral a exigência de documentos a priori que custam fortunas e tem um uso limitado de tempo, bem como não são devolvidos após a perda no concurso público. Devemos racionalizar o Estado. Invés de cobrar menos, que tal não cobrar? Todos ganham!  


sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Canábis, a planta que deixou os candidatos chapados em São Tomé.


Um dia, o ministro da agricultura apresentou-nos uma possibilidade financeira, um negócio lucrativo para o país: licença para produção de canábis em São Tomé e Príncipe. Ele falou das cifras, falou da importância e todos pareciam achar interessante a proposta na época.

De algum modo, o jogo mudou quando um candidato acusou o outro de estar recebendo dinheiro do narcotráfico para as campanhas e o “povo esclarecido” entendeu que se queria fazer os jovens fumarem mais erva. O mesmo povo que não se preocupa com jovens sem saúde, educação e sem emprego.

A nossa classe de génio percebeu desde o início que a "liamba" é a causa de toda a violência em São Tomé e Príncipe. Mas não o álcool, não a pobreza, não a falta de políticas públicas – enfim, um vilão!

Mais do que isso, o ministro falou da legalização da produção por parte de uma empresa e não da legalização do consumo, mas isso não importava mais, estávamos em campanha. Tudo faz parte do arsenal político. Se o povo não gostou da ideia, fazia sentido os candidatos defenderem o mesmo em nome do voto.

Logo de seguida, o governo lavou as mãos e os candidatos seguiram a mesma rima de sempre. Eram todos contra: Porquê?  - boa parte diz que não temos estrutura de controle, o que de facto concordo, mas se é de uma empresa estrangeira que se fala, não creio que a empresa estaria ok em perder lucros para deixar os jovens “brisados”. Os mesmos defensores, passam do lado de tendas de cacharamba e acreditam que o estado tem estrutura para controlar o álcool sem medição feita em balde com pilhas para acelerar o processo de fermentação da cana-de-açúcar. Aliás, deixamos de ter cacharamba, todo mundo vende “cana-cana” natural. Mas quase não se vê tantos canaviais que justifiquem.

E se a mesma empresa quisesse instalar uma destilaria, seríamos contra? Estaríamos contra o álcool de qualidade e controlado? Ou não teríamos estrutura para controlar? Mais do que isso, a empresa estaria disposta a perder o lucro para embriagar a juventude? Ou o Estado diminuiria os impostos sobre a importação de álcool (como de facto fez) para estimular o consumo? Deveríamos acusar a Rosema que já embriagou todo o judiciário de corromper a juventude? Ou o Mé-zochi de produzir cacharambas sem medidas básicas de higiene (como de facto ocorreu)?

Bem, se forem ao site da PlantoMax, veremos que já falam que estão a produzir em São Tomé e possuem um escritório aqui. Ou eles estão mentindo ou existe um lobby já bem feito e o ministro precisa nos explicar isto.

Por fim, quais são os argumentos contra o plantio? São argumentos morais apenas. E qualquer jovem sabe que com um telefonema terá a seu cachimbo da paz em frente a sua casa em alguns minutos. Que tal controlar o mercado em vez de deixar como está para ver como fica? Do ponto de vista económico estou mais preocupado com o controle tributário do que com o plantio, não podemos nos esquecer, segundo o próprio Estado, Rosema passou anos em sonegação, como praticar tal ato sem a anuência do próprio Estado? Se o Estado diz que não obriga ninguém a beber legalizando o álcool, estaria obrigando alguém a fumar legalizando o “plantio da erva”?

Lula e a difícil arte de explicar o povo ao povo

A América Latina virou à direita Milei e a sua motosserra na Argentina. Bukele e as suas prisões em El Salvador.  Abelardo de la Espriella e...