Precisamos crescer, falo enquanto humanidade, é necessário crescer. Ir além de tudo aquilo que acreditamos ser importante. De facto, o esvaziamento de todas as narrativas de reconciliação tem-me assustado. O outro, muito além do inferno sartreano, aparece como um incómodo persistente. Precisamos crescer, buscar uma ética que não leve todos a quebrar as pontes de reconciliação e focar em ser o mais leal possível para com todos os outros. Não quero que vivamos num mundo onde o perdão, o diálogo, a convivência sejam palavras que já não carreguem peso. Falo, daqui, de todas as periferias do mundo, mais isolado, escrevo em português, outra periferia, falo de África, Sul Global periférico, falo de São Tomé, periferia da periferia de um mundo insular.
A história do meu pequeno país começa com a chegada dos portugueses, em 1470, durante a era em que a Europa lançou o seu empreendimento sanguinário, a que chamou de "grande era das descobertas". Por séculos, pessoas que nasciam com o mesmo tom de pele que o meu passaram a pertencer à categoria de "negro", uma classificação que seria transformada numa das bases de um dos maiores empreendimentos comerciais da época: o tráfico e a escravização de seres humanos. Por séculos, sem sermos reconhecidos plenamente como pessoas, fomos sendo mortos como moscas cansadas, apenas tentando voar. A violência não foi apenas física. Foi também jurídica, económica, cultural e simbólica. Inventaram-se categorias para organizar a exploração, e essas categorias sobreviveram aos sistemas que lhes deram origem.
Contudo, aqueles que perpetuaram coisas desse tipo dizem-nos que isso está no passado. Na verdade, temos de aprender a diferenciar entre colonos, Estados, instituições e sociedades ocidentais, porque uma coisa não é sinónimo da outra. Nem todo europeu foi colonizador, nem todo ocidental participou do empreendimento colonial. Houve também europeus que resistiram ao colonialismo, denunciaram a escravidão e lutaram contra as formas de dominação que outros europeus construíram. Ou seja, estamos todos do mesmo lado? Eu quero acreditar que sim.
Por outro lado, olhamos para o norte e encontramos outra história de violência, comércio e escravização. Diferentes sociedades e poderes árabes e muçulmanos participaram, durante séculos, de redes de comércio de pessoas escravizadas que atravessavam o Saara, o Mar Vermelho e o Oceano Índico. Mas é preciso cuidado: não existiu um único "povo árabe" responsável por tudo isso, assim como não existiu uma Europa homogénea. A história é mais incómoda do que as nossas categorias. A expansão árabe e a islamização do Norte de África foram processos históricos complexos, feitos de conquista, migração, assimilação, conflito e intercâmbio cultural. Em determinados períodos, populações africanas foram escravizadas, deslocadas e submetidas a diferentes formas de dominação. Em outros, sociedades africanas resistiram, negociaram e também participaram dessas redes.
O problema não é determinar quem foi o maior criminoso da história. O problema é compreender como diferentes civilizações foram capazes de transformar seres humanos em mercadoria, em propriedade e em categorias inferiores. E, quando olhamos para o mundo contemporâneo, percebemos que algumas dessas hierarquias sobreviveram, embora tenham adquirido novas formas. Dependendo da época e do lugar, uns serão chamados irmãos, outros estrangeiros, outros imigrantes, outros ilegais. As categorias mudam, mas a capacidade de produzir o outro como inferior permanece.
Em outros lugares do mundo, o povo negro continuou a ser subjugado, expulso, animalizado e submetido ao absurdo. E hoje dizem-nos que precisamos esquecer e ultrapassar. Certamente não falam do mesmo esquecimento que muitas sociedades recusaram em relação aos seus próprios traumas históricos. O Holocausto, ocorrido entre 1939 e 1945, tornou-se uma referência central da memória e da responsabilização internacional. Ao mesmo tempo, genocídios e massacres cometidos contra povos africanos, alguns deles posteriores a 1945, permaneceram durante muito tempo nas margens da memória internacional. O genocídio dos Herero e Nama, cometido pelo Império Alemão na atual Namíbia entre 1904 e 1908, é um dos exemplos mais evidentes. Não se trata de estabelecer uma competição entre sofrimentos. Trata-se de perguntar por que algumas memórias conseguem ocupar o centro da consciência internacional enquanto outras permanecem nas periferias da história.
O problema da memória não deveria ser saber quem sofreu mais. Deveria ser saber por que algumas vítimas receberam reconhecimento, investigação, reparação e mecanismos de responsabilização, enquanto outras tiveram de esperar décadas, ou continuam à espera. O passado não desaparece porque deixamos de falar sobre ele. Apenas muda de lugar. Às vezes, instala-se no corpo, na pobreza, na fronteira, na identidade, na desconfiança e na forma como olhamos para o outro.
Por fim, esquecemos. Somos supermulticulturais, dizemos que não definimos os outros pelo que não somos. Não causámos massacres de nenhum outro povo no mundo, talvez por falta de oportunidade. Mas as pessoas vivas, com a pele marcada pela história, continuam a ser estigmatizadas em muitas partes do mundo: caçadas, expulsas, animalizadas e sujeitas ao absurdo. Recebemos os colonos, imitámos os antigos colonos, podemos imaginar até ao fim da África, mas não o fim de um modelo neocolonial africano. Quem ousar imaginar será, muitas vezes, confrontado por um mundo de interesses materiais muito bem definidos.
E talvez esse seja um dos nossos maiores fracassos: aprendemos a denunciar o colonizador, mas nem sempre aprendemos a reconhecer o mecanismo que o tornou possível. Porque o colonialismo não foi apenas uma bandeira estrangeira hasteada sobre um território. Foi também uma forma de organizar poder, conhecimento, economia e humanidade. E essas formas podem sobreviver depois de a bandeira desaparecer.
O que nos restou? Agora entramos numa categoria de deslocados chamados "imigrantes", que se tornou, em parte da política europeia, um bode expiatório diante de uma Europa que enfrenta as suas próprias contradições num mundo cada vez mais multipolar. Uma Europa que não sabe sempre como lidar com a ambiguidade norte-americana, com o poder crescente da China e com uma Rússia que voltou a ocupar, através da guerra e da ameaça militar, um lugar central na imaginação estratégica europeia.
Eu, este africano da periferia, que ainda crê no poder das ideias, lido com a arrogância de instituições que nos dizem o que fazer e como fazer, que atribuem medalhas imaginárias e estabelecem hierarquias entre aqueles que podem falar e aqueles que devem apenas ouvir. Não sei mais por onde ir. Só queria um mundo onde pudéssemos chegar a um acordo, não nos eliminar nas fronteiras como bonecos usados. Não precisam também de vir. Podemos negociar com outras pessoas. Se não nos querem, se somos tão maus, se somos esse Terceiro Mundo, esses poderes poderiam retirar os seus agentes, as suas máquinas das nossas minas, os seus capitães de mando dos nossos partidos e os seus interesses dos nossos mares. Talvez assim descobríssemos até que ponto a nossa pobreza é realmente apenas nossa.
Quero ainda acreditar nos fundamentos das Nações Unidas, no potencial humano para chegar ao acordo. Quero acreditar que os Estados podem negociar antes de disparar, que as sociedades podem lembrar antes de odiar e que os povos podem defender a sua autodeterminação sem transformar o vizinho em inimigo.
Portanto, não quero ter inimigos. Não quero ter de olhar para um inimigo em cada caucasiano que encontro quando eu mesmo tenho tantos amigos entre todas as etnias humanas, todos os credos e todas as partes deste mundo. Na minha linha de vida, não vejo diferença entre um europeu esfomeado, um norte-americano esfomeado e um africano esfomeado. A fome não pede passaporte. A dignidade não tem nacionalidade.
Mas isso não significa que as estruturas sejam iguais. A desigualdade pode atravessar fronteiras nacionais, raciais e religiosas, mas também pode utilizar essas mesmas categorias para se reproduzir. O colonialismo demonstrou isso de forma brutal. A exploração económica foi acompanhada pela criação de hierarquias raciais, pela classificação dos seres humanos e pela construção de uma ordem em que alguns podiam decidir sobre a vida dos outros.
E, ainda assim, não quero transformar essa história numa herança de ódio.
O que os colonizadores europeus fizeram em África não deve ser esquecido. Mas também não acredito que o descendente de um colonizador deva nascer culpado pelo crime de alguém que morreu há séculos. Da mesma forma, não acredito que um africano deva ser responsabilizado pelos crimes cometidos por qualquer outro africano. A culpa não deve ser hereditária. A memória, sim, pode ser.
Qual é a diferença entre um judeu na Alemanha e as etnias da Namíbia reduzidas às cinzas pelos alemães? Existem diferenças históricas, jurídicas e políticas que não devemos apagar. Mas há também uma pergunta que permanece: por que alguns crimes produziram mecanismos internacionais de responsabilização muito mais fortes do que outros? O segundo não teve Nuremberga. E isso deveria incomodar-nos.
Talvez seja essa a questão que ainda não conseguimos responder: como reconhecer a violência sem transformar a memória numa máquina de produzir novos inimigos?
Não quero esquecer o passado. Quero impedir que o passado determine quem devo odiar no presente.
Precisamos pensar numa outra civilização humana, uma civilização capaz de lembrar sem viver de ressentimento, de reconhecer responsabilidades sem transformar culpa histórica em culpa hereditária, de defender a autodeterminação sem transformar a diferença em inimizade.
Caso contrário, continuaremos presos à velha guerra de todos contra todos, apenas com novas fronteiras, novas palavras e novas armas.