quarta-feira, 19 de novembro de 2025

O PREÇO DA DISTRAÇÃO: COMO O ENTRETENIMENTO SE TORNOU A NOVA MÁQUINA DE ALIENAÇÃO EM ÁFRICA

Da celebração do futebol ao poder das influenciadoras, um retrato de como o lazer se converteu num instrumento de poder simbólico e económico no continente.


A distração inocente que se torna mecanismo de controlo

O entretenimento sempre ocupou um espaço aparentemente inofensivo na vida social. Uma pausa no trabalho, um momento de leveza, uma necessidade humana de descanso. É o que sociólogos como Zygmunt Bauman chamam de “intervalos de fuga” ou pequenas suspensões do peso da vida pragmática.

Mas, desde Marx ao pensador contemporâneo Byung-Chul Han, existe um alerta antigo: a distração pode transformar-se em alienação quando deixa de ser um descanso e passa a operar como uma fábrica de ilusões que desvia a atenção das contradições reais da sociedade.

Alienação: do truque de mágica ao palco global

Na alienação, explica Marx em Manuscritos Econômico-Filosóficos, o indivíduo perde consciência da sua própria condição material e vive num estado fabricado por forças externas. É o truque do ilusionista: enquanto o público olha para a mão que brilha, a verdadeira operação ocorre no lado oculto do palco.

Hoje, essa operação é sofisticada, global e altamente lucrativa.

Quando o futebol deixa de unir e passa a anestesiar

O fenómeno Messi em Angola e Gabão

Em 2025, Angola gastou milhões de fundos estatais para levar Lionel Messi a um jogo festivo. O Gabão já o fizera anos antes para inaugurar um estádio. A chegada do jogador que foi tratado quase como figura mitológica e mobilizou multidões, abafou críticas sociais e produziu um espetáculo que, segundo analistas como Achille Mbembe, funciona como um “grande ritual de despolitização”.

Para a população, foi festa.
Para as elites, uma oportunidade de prestígio.
Para Messi, apenas negócio.

Enquanto isso, os indicadores sociais continuam preocupantes: mortalidade infantil elevada, serviços básicos insuficientes, disparidades gritantes.

O entretenimento, nesta lógica, opera como um óleo que suaviza o atrito entre governados e governantes permitindo que a máquina continue a rodar.

O império das influenciadoras e o poder invisível sobre comportamentos

De Angola para São Tomé: a cultura da imitação global

Entre jovens santomenses, influenciadoras angolanas conquistam espaço equivalente ao de líderes culturais. Sotaques, estéticas, modos de vida e até expectativas de relacionamento são moldados por criadoras de conteúdo que, por sua vez, imitam influenciadoras brasileiras, que imitam influenciadoras norte-americanas.

O ciclo é global, vertical e altamente rentável.

Pierre Bourdieu chamaria isto de dominação simbólica: uma forma de poder que atua não pela força, mas pela internalização daquilo que parece natural ou desejável.Nenhum presidente, nem mesmo no auge do Partido Único, exerceu tanta influência cultural sobre jovens santomenses quanto as influenciadoras angolanas, tenho observado. talvez esteja generalizando por uma questão retórica. Mas a sensação é de que existe uma alienação grave, uma disputa pela mente dos jovens onde o país sai derrotado diante de uma agenda global.

O entretenimento tornou-se o “partido invisível” que legisla o comportamento, o consumo e até o imaginário social.

A advertência de Platão e a fábrica moderna do desejo

Na República, Platão expulsa os artistas por acreditarem que produzem sombras e desviam o povo da verdade. A crítica parece arcaica e até percebemos como a indústria cultural atual molda perceções, desejos e valores de forma profunda.

Hoje, a alienação manifesta-se sob novas formas:

  • hiperssexualização como linguagem dominante,

  • culto ao corpo e aos objetos,

  • romantização de estilos de vida inalcançáveis,

  • consumo como promessa de pertencimento.

Byung-Chul Han descreve essa era como a do “psicopoder”: não é necessário reprimir o cidadão — basta entretê-lo.

A África entre a esperança suspensa e o barulho constante

Em vários países africanos, assiste-se a um duplo vazio:

  • a perda do nacionalismo crítico das gerações anteriores,

  • a ausência de um projeto claro de futuro.

Nesse intervalo, cresce uma sociedade de consumo barulhenta, medicada, saturada por estímulos — onde se idolatra quem explora, se celebra quem acumula e se esquece das condições estruturais que mantêm a maioria na pobreza.

A estética old money romantizada por jovens pobres torna-se um símbolo dessa inversão total de consciência.

Como lembram economistas como Thomas Piketty e Ha-Joon Chang, o capital depende de trabalho barato e recursos baratos.
A ideologia — difundida como entretenimento — existe para transformar esta desigualdade sistémica numa paisagem natural.

Conclusão: o entretenimento como nova pedagogia da submissão

O entretenimento, quando capturado por grandes corporações e elites políticas, deixa de ser descanso e torna-se uma pedagogia subtil de conformismo, ensinando populações a:

  • admirar aquilo que as oprime,

  • desejar aquilo que nunca possuirão,

  • aceitar como natural um sistema que as empobrece,

  • confundir consumo com liberdade.

Não se trata de culpar o futebol, a música ou as redes sociais. Mas de revelar a engrenagem que opera por trás do riso, da dança, da distração e do espetáculo.

A pergunta que permanece é simples e profundamente política:

Quando a distração se torna o centro da vida, quem realmente ganha com isso?

domingo, 16 de novembro de 2025

Quem ganha com a ideia de que São Tomé e Príncipe está em declínio?

A nova moda do pessimismo nacional

Dizer que “São Tomé e Príncipe está em declínio” tornou-se quase uma tendência nacional. O discurso repete-se nas conversas, nas redes sociais e até nos debates públicos. Muitos evocam o passado colonial com certo saudosismo, como se aquele tempo fosse um período de ordem perdida.
Mas o curioso é: todos reclamam, ninguém assume responsabilidade. A culpa é sempre difusa e depositada em abstrações como “mentalidade”, “cultura” ou “corrupção”, como se o país sofresse um desastre natural e não decisões humanas.

Quem controla a narrativa do declínio?

A questão raramente discutida é esta: quem ganha com a ideia de que o país está irremediavelmente perdido?

Grande parte da produção desse discurso parte das elites antigas e novas que historicamente moldam as percepções sociais. São esses grupos que determinam o que é visto como falha moral, como progresso ou como atraso. A narrativa do declínio funciona como uma espécie de marketing político e social, onde o país é um produto em deterioração e os narradores se apresentam como observadores inocentes do desastre. Até como revoltados e não como vencedores de toda essa desorganização.

O privilégio que se reconhece… e que se reproduz

Quem cresceu entre privilégios, como parte da elite académica ou económica, sabe que o acesso a oportunidades nunca é neutro. Reconhecer esse privilégio tornou-se até sinal de consciência social. Mas, na prática, os mesmos circuitos privados de benefício continuam a ser reproduzidos.
As elites assumem ter “tido sorte”, mas omitem como continuam a reacender essa mesma sorte para os seus — nos empregos, nas escolas, nos círculos fechados de influência.

Enquanto isso, criticam o “povo” a partir de restaurantes caros, atribuindo comportamentos de sobrevivência à “mentalidade”. O que falta dizer é que a pobreza não é um traço cultural, mas uma condição material. Uns até gritam que precisamos disciplinar os pobres, claro, o bom uso da vara, como dizia Salomão em Provérbios. 

A nova elite da era digital

Se antes a elite santomense buscava legitimidade através do discurso nacionalista e da erudição, hoje o poder mudou de mãos e de estética.
A nova elite económica ascende pelo consumo: carros de luxo, moradias ostentatórias, viagens exibidas no TikTok e Instagram. A influência cultural já não se faz em saraus, mas em vídeos curtos, métricas de engajamento e exibições constantes de riqueza.

Curiosamente, é também esta elite que mais repete a ideia do “declínio nacional”. Mas raramente menciona que ela própria molda, direta ou indiretamente, o destino económico e simbólico do país.

Uma disputa antiga: elites e política

São Tomé e Príncipe sempre foi marcado por uma disputa entre elites. Não apenas económicas, mas também culturais e políticas. E ao longo das décadas, essas disputas atravessaram partidos, instituições e famílias.
O país, pequeno e dependente, sempre foi vulnerável à importação de modelos externos: primeiro os portugueses, depois os americanos, e agora os modelos empresariais neoliberais do Vale do Silício démodé.

Com isso, difundiu-se a ideia de que “tudo depende da mentalidade”. Como se um país insular, de economia reduzida, pudesse ultrapassar limitações estruturais apenas com força de vontade.

O mito neoliberal da ascensão individual

Hoje, muitos defendem que os pobres devem simplesmente “empreender”, “mudar a mentalidade” e “pensar grande”. A promessa é sedutora: basta querer muito para prosperar.
Porém, essa retórica ignora desigualdades profundas, o contexto internacional adverso e o fato de que ascender socialmente num país pequeno é muito mais condicionado por rede, nome e contexto do que por mérito individual.

O resultado é um discurso moralizante que responsabiliza os vulneráveis pelos limites que não criaram. 

Por sussurro quase cristão, ouço uma voz:

“Pobres, levantem e enriqueçam! Empreendam! Não sejam preguiçosos… é apenas isso que vos separa de Elon Musk ou Jeff Bezos.”

A verdadeira tese: o problema não é o país — é quem narra o país

Para além do barulho, é preciso esclarecer:
o problema não é que São Tomé e Príncipe “vai mal”; o problema é quem diz que vai mal, e porque esse discurso lhes serve.

A narrativa do declínio cumpre várias funções:

  • Oculta responsabilidades de elites que sempre controlaram oportunidades;

  • Legitima privilégios antigos e novos;

  • Desvia o debate das condições estruturais para a suposta falha moral dos pobres;

  • E reforça uma visão neoliberal onde problemas sociais são tratados como defeitos individuais.

Enquanto continuarmos a aceitar essa narrativa sem questionar os seus autores, confundiremos crítica com fatalismo e diagnóstico com propaganda.

Conclusão: menos profetas da decadência, mais responsabilidade real

São Tomé e Príncipe não precisa de novos discursos de desgraça. Precisa de um debate honesto sobre quem molda as narrativas, quem beneficia delas e quem fica sempre invisível dentro do país que se discute.
A mudança começa quando deixarmos de romantizar o declínio e passarmos a analisar o papel dos que têm poder para transformar ou perpetuar o estado das coisas.

certa vez vi como Thomas Sowell alertava que muitos intelectuais não enfrentam responsabilização real pelas consequências de suas ideias, eles podem estar errados, inovar ideias perigosas, mas raramente pagam o preço prático por isso.

Um médico erra e o paciente perde a vida; um mecânico falha e o carro não anda. Já muitos dos que moldam opiniões em artigos, conferências ou redes sociais podem propagar diagnósticos simplistas sem enfrentar as consequências práticas.
Alguns fazem-no a partir do conforto da diáspora, outros movidos por interesses próprios, outros ainda pela cegueira social que impede de ver o país real aquele que existe para além das bolhas de privilégio.

Se quisermos avançar, é preciso substituir o fatalismo performativo por responsabilidade concreta. Menos discursos sobre a decadência nacional e mais compromisso com a verdade, com o contexto e com a urgência de transformar aquilo que durante décadas foi apenas comentado.



Sem Medo, Nada Funciona: a verdade sombria por trás da produtividade

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