Diretamente daquilo que os angolanos chamam de sua 19ª província não-oficial, São Tomé e Príncipe — onde se fala mais sobre Luanda do que sobre Santana — assisto, atônito (e algo resignado), à série distópica que é a atual realidade angolana. Começa com um aumento do preço do petróleo, passa pelo efeito dominó no combustível, culmina numa inflação galopante e acaba... em carros incendiados, lojas pilhadas, jovens mortos nas ruas e “engajamentos” de ativistas digitais com Wi-Fi europeu.
Enquanto isso, João Lourenço segue firme no cargo, mas cercado. Por um lado, o povo faminto e cansado. Por outro, os barões do seu próprio partido, o MPLA. E, em um terceiro e surpreendente flanco: André Ventura, líder da extrema-direita portuguesa e autodeclarado salvador da civilização lusitana contra imigrantes e outros bodes expiatórios do costume.
Ventura, numa estratégia que mistura pragmatismo de campanha com o charme de um vendedor de telemóvel de segunda mão, identificou um nicho: a diáspora ressentida. Aqueles que fugiram de Angola em busca de um sonho europeu e que hoje oscilam entre o orgulho e o desconforto. Ventura promete-lhes reconhecimento, culpa os "outros" e, como qualquer populista de manual, oferece uma identidade nova aos deslocados.
Quero deixar aqui as minhas palmas mais ruidosas a André Ventura — um verdadeiro génio da esperteza lusitana. A sua estratégia é de uma sofisticação rasteira exemplar. Ele percebeu rapidamente que não havia glória em seguir o caminho da decência institucional. Afinal, esse é um trilho reservado aos bem-nascidos, e não aos sobreviventes da taberna e do canal do YouTube. Ventura usou com mestria o seu ativo mais precioso: o medo embrulhado em patriotismo barato. Os portugueses — esses mesmos que espalharam filhos pelo mundo inteiro, da Venezuela à Suíça — agora fingem que nunca foram imigrantes. E Ventura, com a graça de um ilusionista de feira, aponta o dedo para o óbvio: “um país tem que proteger as suas fronteiras!”
Mas o toque de mestre vem agora: ele não morde a mão dos verdadeiros tubarões. Os sefarditas com golden visas? Silêncio. Os magnatas imobiliários que compram Lisboa a retalho? Intocáveis. Os nômades digitais que pagam 3.000 euros por um T1 e empurram os lisboetas para a Azambuja? Ventura nem os vê — é míope seletivo. Prefere esmurrar os que já vêm com os olhos roxos: pobres, cegos e estrangeiros sem lobby. A esquerda, coitada, ainda tenta compreender com indignação moral, e o PSD, em crise de identidade, tropeça atrás dele como um cão com medo de perder o osso. Não me surpreenderia se, em breve, Ventura surgisse em Fátima, envolto em neblina, proclamando ser a reencarnação de Dom Sebastião, pronto para fundar a Lusitânia — desta vez com vídeos em direto e patrocinado por suplementos de testosterona - e toda a diáspora africana estará do seu lado, essa diáspora que lhe parecerá mais Al-Andaluz.
Da mesma forma que Trump atacava a mídia e os democratas, Ventura investe contra os governos africanos aliados ao PS ou PSD. Ele sabe que não vai governar Angola (nem quer), mas sabe que pode usar Angola para governar Portugal. Como? Simples: atacando João Lourenço, ele ganha pontos com os angolanos-portugueses que se sentem traídos pelos dois lados. A lógica é cristalina: "Se João é mau para Angola, então quem o ataca é amigo dos angolanos". Parece simplista. É. E funciona.
E foi assim que o CHEGA se tornou o partido preferido dos portugueses em São Tomé e Príncipe em algumas urnas, ultrapassando PS e PSD, num feito que faz Salazar gargalhar no túmbo.
Ventura não está sozinho nesse teatro. Em Moçambique, tentou aproximação com Venâncio Mondlane, o opositor fora da linha do FRELIMO. Não por amor aos moçambicanos, mas porque qualquer figura que bata no sistema africano tradicional é uma aliada potencial contra os governos portugueses comprometidos com esses mesmos regimes. Ventura é como um hacker político: explora cada brecha do sistema.
Do lado angolano, João Lourenço responde com a tática mais previsível de todas: medo. Mais tropa, mais repressão, mais mortos. Só que a tática, antes eficaz, agora ecoa numa população mais conectada, mais informada e cada vez mais desesperada. E desesperados, como bem diria Maquiavel, são difíceis de governar sem oferecer ou terror absoluto ou uma miragem de esperança. Como ele não consegue oferecer nem um nem outro, sobra-lhe apenas o improviso à base de porrada e propaganda.
Para piorar, a imagem internacional do governo degrada-se. As pilhagens são filmadas. Os corpos, fotografados. As repressões, denunciadas. E o Ocidente? Finge que não vê — afinal, depende de quem controla o petróleo. "They don’t care, bro!"
Prognóstico final? Uma frente quente de balas, seguida de um nevoeiro denso de negociações tímidas. O futuro de Angola será decidido menos por ideologia e mais por logística: quem controla os recursos, os microfones e os algoritmos.
E Ventura? Vai continuar. Explorando ressentimentos, reciclando pânicos, reinventando vilões. Não porque quer salvar Portugal. Mas porque quer salvá-lo para si. Ou talvez de facto queira salvar Portugal,
João Lourenço, por sua vez, não luta mais pela presidência. Luta pela sobrevivência. Medo de que o que se passou com a família Dos Santos ocorra também com a famíia Lourenço. E se contar com os seus bens fora de Angola enquanto ativo, então - basta se lembrar o que foi feito com os ativos da imperatriz Isabel dos Santos. Ó história, sua safada, sempre a querer se repetir!
E é por isso que a tempestade não é apenas metáfora. É previsão - o silêncio ou silenciamento de uma oposição tímida e Angola; os Populares famintos dispostos à tudo; os barrões de MPLA de braços cruzados e João Lourenço tentado assegurar o seu reinado numa era digital demais; os negociantes de petróleo e outras commodities parecem acenar para uma negociação mais íntima com propostas irrecusáveis - O que fazer John Wick? Qual caminho vai seguir JLO?