quinta-feira, 31 de julho de 2025

Angola Treme, Portugal Grita: João Lourenço e André Ventura na Política do Espetáculo

Diretamente daquilo que os angolanos chamam de sua 19ª província não-oficial, São Tomé e Príncipe — onde se fala mais sobre Luanda do que sobre Santana — assisto, atônito (e algo resignado), à série distópica que é a atual realidade angolana. Começa com um aumento do preço do petróleo, passa pelo efeito dominó no combustível, culmina numa inflação galopante e acaba... em carros incendiados, lojas pilhadas, jovens mortos nas ruas e “engajamentos” de ativistas digitais com Wi-Fi europeu. 

Enquanto isso, João Lourenço segue firme no cargo, mas cercado. Por um lado, o povo faminto e cansado. Por outro, os barões do seu próprio partido, o MPLA. E, em um terceiro e surpreendente flanco: André Ventura, líder da extrema-direita portuguesa e autodeclarado salvador da civilização lusitana contra imigrantes e outros bodes expiatórios do costume.

Ventura, numa estratégia que mistura pragmatismo de campanha com o charme de um vendedor de telemóvel de segunda mão, identificou um nicho: a diáspora ressentida. Aqueles que fugiram de Angola em busca de um sonho europeu e que hoje oscilam entre o orgulho e o desconforto. Ventura promete-lhes reconhecimento, culpa os "outros" e, como qualquer populista de manual, oferece uma identidade nova aos deslocados.

Quero deixar aqui as minhas palmas mais ruidosas a André Ventura — um verdadeiro génio da esperteza lusitana. A sua estratégia é de uma sofisticação rasteira exemplar. Ele percebeu rapidamente que não havia glória em seguir o caminho da decência institucional. Afinal, esse é um trilho reservado aos bem-nascidos, e não aos sobreviventes da taberna e do canal do YouTube. Ventura usou com mestria o seu ativo mais precioso: o medo embrulhado em patriotismo barato. Os portugueses — esses mesmos que espalharam filhos pelo mundo inteiro, da Venezuela à Suíça — agora fingem que nunca foram imigrantes. E Ventura, com a graça de um ilusionista de feira, aponta o dedo para o óbvio: “um país tem que proteger as suas fronteiras!”

Mas o toque de mestre vem agora: ele não morde a mão dos verdadeiros tubarões. Os sefarditas com golden visas? Silêncio. Os magnatas imobiliários que compram Lisboa a retalho? Intocáveis. Os nômades digitais que pagam 3.000 euros por um T1 e empurram os lisboetas para a Azambuja? Ventura nem os vê — é míope seletivo. Prefere esmurrar os que já vêm com os olhos roxos: pobres, cegos e estrangeiros sem lobby. A esquerda, coitada, ainda tenta compreender com indignação moral, e o PSD, em crise de identidade, tropeça atrás dele como um cão com medo de perder o osso. Não me surpreenderia se, em breve, Ventura surgisse em Fátima, envolto em neblina, proclamando ser a reencarnação de Dom Sebastião, pronto para fundar a Lusitânia — desta vez com vídeos em direto e patrocinado por suplementos de testosterona - e toda a diáspora africana estará do seu lado, essa diáspora que lhe parecerá mais Al-Andaluz. 

Da mesma forma que Trump atacava a mídia e os democratas, Ventura investe contra os governos africanos aliados ao PS ou PSD. Ele sabe que não vai governar Angola (nem quer), mas sabe que pode usar Angola para governar Portugal. Como? Simples: atacando João Lourenço, ele ganha pontos com os angolanos-portugueses que se sentem traídos pelos dois lados. A lógica é cristalina: "Se João é mau para Angola, então quem o ataca é amigo dos angolanos". Parece simplista. É. E funciona.

E foi assim que o CHEGA se tornou o partido preferido dos portugueses em São Tomé e Príncipe em algumas urnas, ultrapassando PS e PSD, num feito que faz Salazar gargalhar no túmbo. 

Ventura não está sozinho nesse teatro. Em Moçambique, tentou aproximação com Venâncio Mondlane, o opositor fora da linha do FRELIMO. Não por amor aos moçambicanos, mas porque qualquer figura que bata no sistema africano tradicional é uma aliada potencial contra os governos portugueses comprometidos com esses mesmos regimes. Ventura é como um hacker político: explora cada brecha do sistema.

Do lado angolano, João Lourenço responde com a tática mais previsível de todas: medo. Mais tropa, mais repressão, mais mortos. Só que a tática, antes eficaz, agora ecoa numa população mais conectada, mais informada e cada vez mais desesperada. E desesperados, como bem diria Maquiavel, são difíceis de governar sem oferecer ou terror absoluto ou uma miragem de esperança. Como ele não consegue oferecer nem um nem outro, sobra-lhe apenas o improviso à base de porrada e propaganda.

Para piorar, a imagem internacional do governo degrada-se. As pilhagens são filmadas. Os corpos, fotografados. As repressões, denunciadas. E o Ocidente? Finge que não vê — afinal, depende de quem controla o petróleo. "They don’t care, bro!"

Prognóstico final? Uma frente quente de balas, seguida de um nevoeiro denso de negociações tímidas. O futuro de Angola será decidido menos por ideologia e mais por logística: quem controla os recursos, os microfones e os algoritmos.

E Ventura? Vai continuar. Explorando ressentimentos, reciclando pânicos, reinventando vilões. Não porque quer salvar Portugal. Mas porque quer salvá-lo para si. Ou talvez de facto queira salvar Portugal,

João Lourenço, por sua vez, não luta mais pela presidência. Luta pela sobrevivência. Medo de que o que se passou com a família Dos Santos ocorra também com a famíia Lourenço. E se contar com os seus bens fora de Angola enquanto ativo, então - basta se lembrar o que foi feito com os ativos da imperatriz Isabel dos Santos. Ó história, sua safada, sempre a querer se repetir!

E é por isso que a tempestade não é apenas metáfora. É previsão - o silêncio ou silenciamento de uma oposição tímida e Angola; os Populares famintos dispostos à tudo; os barrões de MPLA de braços cruzados e João Lourenço tentado assegurar o seu reinado numa era digital demais; os negociantes de petróleo e outras commodities parecem acenar para uma negociação mais íntima com propostas  irrecusáveis - O que fazer John Wick? Qual caminho vai seguir JLO?


quinta-feira, 24 de julho de 2025

Trump e os Monarcas de Papelão: Uma Crônica para Quem Ainda Crê na Soberania Africana


Eis que, num dia qualquer de nossa era gloriosamente neoliberal, o sempre nostálgico ex-presidente Donald Trump decidiu convidar alguns chefes de Estado africanos — Gabão, Guiné-Bissau, Libéria, Mauritânia e Senegal — para um chá diplomático na Casa Branca. A reunião foi vendida como “histórica”. E de fato foi: histórica na forma como conseguiu comprimir séculos de colonialismo, paternalismo e vassalagem simbólica em algumas horas, algumas selfies e muitos sorrisos. Faltaram só as palmas de pé. 

As imagens que circularam poderiam perfeitamente ser confundidas com um meet & greet entre um astro decadente de reality show e seus seguidores devotos. Os presidentes africanos, homens adultos, com cargos de chefe de Estado, constitucionalmente autorizados a comandar exércitos e assinar tratados pareciam alunos da Harvard of Humilhação, prontos a ganhar uma estrela dourada do professor Trump pelo bom comportamento.

Não que eu esperasse outra coisa. A África oficial já há algum tempo tem sido uma peça de teatro cujo público-alvo está fora do continente. Um espetáculo de elites desideologizadas, convertidas em síndicos coloniais com crachá de "parceiros estratégicos". E se tudo isso soa amargo, permita-me: trata-se apenas de realismo dialético.

Aliás, é preciso compreender o contexto: quando Trump, num rasgo de sensibilidade cultural, se surpreendeu com o “excelente inglês” de um presidente africano, ele só ignorava um detalhe menor — o presidente era da Libéria. Um país fundado por afro-americanos libertos dos EUA. Mas esperar que Trump entenda isso seria como pedir a um tubarão que compreenda as dores existenciais dos peixes. Ele faz o que sempre fez: tenta dominar, vender e parecer superior. A tragédia não é Trump — é quem se curva.

Axelle Kabou já nos avisava: o drama africano não é a dominação — é a vontade voluntária de ser dominado. Em Et si l’Afrique refusait le développement?, ela desmascara a elite africana que, vestida de independência, continua a rezar o catecismo de Paris e Washington com zelo de seminarista. É o que vemos. Uma elite que não sabe construir estradas, mas sabe voar para conferências internacionais. Que não planta alimentos, mas colhe relatórios de ONGs. Que não educa o povo, mas escreve discursos sobre o “empoderamento”.

Achille Mbembe já classificou isso como terceirização do poder: os governos africanos administram a miséria para os de cima, enquanto posam de estadistas para os de fora. O neoliberalismo, com sua pedagogia perversa, ensinou aos nossos governantes que a dignidade nacional pode ser trocada por convites VIP. É a velha lição do capataz: esteja limpo, sorria para o senhor, e talvez ele te ofereça um whisky depois do serviço.

E aí entra Fanon, sempre ele. Em Os Condenados da Terra, ele nos lembra que a burguesia africana — aquela que deveria liderar o processo de libertação — se especializou em simular revolução para melhor administrar a colônia. No lugar da violência libertadora, escolheram os jantares com o embaixador. No lugar da autonomia econômica, assinaram memorandos com o FMI. Substituímos os colonizadores por gerentes locais da mesma máquina.

Hoje, nossos presidentes falam de "governança", "resiliência", "inclusão digital" — mas tudo o que governam são orçamentos vigiados, tudo o que resistem são greves populares, e tudo o que incluem são suas famílias em empresas offshore. E quando Trump os chama, lá vão eles, ajustando os ternos, ensaiando sorrisos, prontos a se tornarem figurantes no reality show do capital ocidental.

Mas sejamos justos: talvez eles não tenham escolha. É fácil para nós, intelectuais, com tempo para escrever colunas indignadas, julgar quem tem que manter as luzes acesas com empréstimos condicionados. Como diria Gramsci, o cinismo é uma forma de impotência intelectual — mas, às vezes, é tudo que nos resta para sobreviver ao grotesco.

No fim das contas, a tal reunião foi um espelho. E como todo bom espelho colonial, refletiu o que somos quando aceitamos ser governados por aqueles que medem soberania pelo acesso à Casa Branca. Os velhos colonos nos queriam obedientes. Os novos apenas nos querem funcionais.

A imagem dos presidentes sorrindo ao lado de Trump deveria estar estampada nos manuais de ciências políticas do futuro: “Como destruir um continente com consentimento diplomático”. E enquanto isso, o povo? Ora, o povo continua fora do palco, como figurante sem fala no teatro das nações. O povo, está vendo o presidente de Gabão dançando break dance com o chapéu assinado por Trump escrito algo já gravado na consciência dos imigrantes pobres "Make America Great Again" produzidos numa fábirca chinesa. 




quarta-feira, 16 de julho de 2025

Venâncio Mondlane Está Jogando Damas em um Tabuleiro de Xadrez? - Notas para uma crítica da estratégia política no espectro da pós-democracia

Ao observarmos os últimos movimentos políticos de Venâncio Mondlane, a sua recente visita a Portugal, o encontro com partidos como Iniciativa Liberal e Chega, e o lançamento mercadológico da marca VM7, somos levados a interrogar não apenas os efeitos práticos dessas ações, mas também os horizontes simbólicos e estratégicos que elas revelam. A pergunta que proponho, com ironia carregada de gravidade, é esta: estaria Venâncio jogando damas em um tabuleiro de xadrez?

A analogia serve a um propósito crítico. No jogo de damas, cada peça move-se da mesma maneira. Não há hierarquia senão a da "dama" final, e o objetivo é eliminar o adversário num embate direto. Já no xadrez, o jogo é marcado por complexidade estrutural, cada peça carrega um papel distinto, e a vitória raramente se dá por confronto direto: ela resulta de estratégia, antecipação e acima de tudo, coerência.

I. A Internacionalização Improvisada: Realpolitik ou Contradição Ideológica?

A ida de Venâncio a Portugal e seu encontro com figuras da Iniciativa Liberal e, sobretudo, do partido Chega, não é um movimento neutro. É uma opção. E como toda escolha política, ela deve ser compreendida à luz das alianças que constrói e dos valores que comunica.

Chantal Mouffe, ao escrever sobre o agonismo político, lembra-nos de que a disputa democrática não é entre amigos, mas entre adversários que partilham um compromisso comum com as regras do jogo democrático. Nesse sentido, alianças com grupos de extrema-direita  como o Chega, que propaga uma retórica xenófoba, ultraconservadora e anti-imigração, não apenas ferem esse compromisso, como obscurecem a linha entre adversário legítimo e inimigo da democracia.

Venâncio não é ingénuo. Ele sabe, como todos os políticos modernos, que a comunicação precede a ideologia. Mas ao se aproximar de um partido que representa o backlash europeu contra a mobilidade africana, ele envia sinais ambíguos não apenas ao eleitorado moçambicano, mas à comunidade internacional que o observa como possível renovador de uma democracia em fratura.

Como lembra Antonio Gramsci, “toda relação de hegemonia é necessariamente uma relação pedagógica”. Isto é, o líder político deve formar o senso comum, e não simplesmente reproduzi-lo. Ao legitimar o Chega, Venâncio pode estar tentando mostrar-se pragmático, cosmopolita, aberto ao diálogo, mas o que ensina, nesse gesto, é que vale tudo pelo poder. A pedagogia que se extrai desse gesto é regressiva.

II. A Mercantilização da Rebeldia: O Símbolo Tornado Produto

No outro eixo da sua campanha, Mondlane investe na marca pessoal VM7 . Um número que ressoa como codinome, fórmula publicitária e emblema revolucionário. Nada mais legítimo no mundo contemporâneo, onde a política se faz tanto nos palanques quanto nas redes. Mas o processo pelo qual uma imagem de ruptura se transforma em mercadoria deve ser examinado com cautela.

Guy Debord, em A Sociedade do Espetáculo, afirma que “tudo o que era vivido diretamente se esvai numa representação”. O símbolo da luta transforma-se em logo; a palavra de ordem vira camiseta; a revolução é embalada como produto de consumo. Em um primeiro momento, isso pode parecer astuto. A marca torna-se veículo de disseminação de ideias, entra nos mercados, viraliza, circula. Mas há um custo.

Nancy Fraser, discutindo a lógica do “capitalismo progressista”, mostra como certos signos de emancipação podem ser absorvidos pelo mercado e desprovidos de seu conteúdo transformador. A marca VM7 corre o risco de tornar-se um avatar vazio: símbolo sem substância, rebeldia sem programa, estilo sem estrutura. A pergunta que o eleitor se fará — mais cedo ou mais tarde — será: VM7 é o quê, exatamente? É um projeto político? Uma hashtag? Um produto?

III. Entre Bauman e Schmitt: Estratégia ou Ambiguidade Moral?

Zygmunt Bauman diria que vivemos em tempos líquidos: os compromissos são efêmeros, as alianças são táticas, e a identidade política é moldada por algoritmos e narrativas mutantes. Nesse contexto, não surpreende que um político como Venâncio se mova por entre espectros ideológicos diversos, flertando com liberais, conservadores e radicais. A liquidez, contudo, exige um lastro que é exatamente isso que parece ausente.

Carl Schmitt, ao falar do inimigo político, lembra que todo regime político se define menos pelos seus amigos do que por quem escolhe combater. Se Venâncio quer ser o rosto da alternativa democrática, então precisa tornar claro quem são os inimigos dessa democracia. Não se trata de ódio pessoal, mas de definição de campo político. Quem tudo abraça, nada enfrenta. E quem nada enfrenta, não lidera.

IV. Considerações Finais: O Risco da Tática Sem Estratégia

A política é, por definição, a arte de fazer escolhas sob pressão. Mas a diferença entre um estadista e um oportunista está na coerência de suas decisões. Venâncio Mondlane tem uma base, um discurso, e um momento. Mas parece, neste instante, embaralhar as peças no tabuleiro e jogar damas onde se exige xadrez.

Uma estratégia de marketing não substitui um projeto nacional. Uma selfie com um político europeu não substitui alianças populares. Uma marca não substitui um movimento. E o mais perigoso: ao tentar tornar-se tudo para todos, pode-se tornar irrelevante para cada um.

Mondlane ainda pode corrigir o rumo. Ainda pode construir pontes sem abrir mão da clareza. Mas para isso, precisa abandonar a lógica da performance e retornar à substância do projeto. Porque a história como o xadrez,  não perdoa movimentos em falso.

Sem Medo, Nada Funciona: a verdade sombria por trás da produtividade

Estamos a viver uma época em que o medo já não é apenas um sentimento: tornou-se uma infraestrutura invisível , uma tecnologia silenciosa qu...