terça-feira, 25 de março de 2025

Mais Que União, Precisamos de Unidade Africana!

Breve início...

No princípio, éramos pequenos clãs espalhados pelo continente africano, divididos por mentalidades tribais. Algumas tribos começaram a formar pequenas sociedades, que mais tarde deram origem a grandes civilizações. Antes disso, éramos uma única raça: a raça humana. Então, surgiu a invenção do "homem negro", uma construção que atendia às necessidades expansionistas e coloniais da economia global. A ideia do "homem negro" que precisas ser batptizado, retirado do seu laço genealógico até que sobrasse uma relação de orgulho somente com o consumo como assistimos hoje, em muitos casos. 

Essa invenção não surgiu de um processo natural, mas como uma ferramenta do sistema económico. O que hoje chamamos de condições culturais ou sociais são apenas desdobramentos externos dessa criação económica — o que Louis Althusser chamaria de "aparelhos ideológicos do Estado".

Contudo, séculos de dominação colonial, marcados por contradições e em alguns casos,  cumplicidades, fizeram com que, além da exploração económica, o homem negro perdesse sua terra, fosse saqueado e despojado de sua própria dignidade, porém, sempre um bom cristão. A violência do colonialismo não se limitou à exploração da força de trabalho: reduziu o homem negro a um objeto de entretenimento, a uma peça de zoológico, a uma mercadoria bestial. Mas essa humilhação gerou revolta. Oprimidos por tanto tempo, os povos indígenas do continente africano se prepararam para a luta. Séculos de resistência culminaram em um confronto que coincidiu com a nova fase do capitalismo global, permitindo que a luta africana contasse com o apoio de irmãos espalhados por diferentes continentes. Irmãos vítimas do fascismo na Europa, porque o capitalismo parece ter retirado a cor da classe trabalhadora... viramos irmãos do desespero. E o futuro mostrará que tirou cor também dos senhores da opressão.

O Nascimento da União Africana

A União Africana nasceu desse contexto. Sua criação representava a concretização do desejo de autodeterminação dos povos africanos, um continente onde a população autóctone pudesse decidir seu próprio destino. Mas desde o início, divergências sobre o método de integração surgiram.

De um lado, reunidos em Casablanca, estavam líderes como Kwame Nkrumah, Gamal Abdel Nasser, Modibo Keita e Sékou Touré. Eles defendiam uma "Super Federação Africana", baseada em uma moeda única, política única e um pan-africanismo radical. No outro extremo, o Grupo de Monróvia, formado por países como Nigéria, Costa do Marfim, Etiópia e Libéria, preferia um modelo de cooperação gradual, preservando a "soberania" dos Estados e mantendo laços com o Ocidente, que à época estava imerso na Guerra Fria.

O resultado desse embate? O grupo de Monróvia venceu.

O Legado de Hailé Selassié e a OUA

Coube a Hailé Selassié consolidar essa visão. O imperador etíope, que já havia aplicado um regime despótico em seu próprio país, exportou para a recém-criada Organização da Unidade Africana (OUA) um modelo feudal e centralizador. Reverenciado como imperador pelos etíopes (da classe privilegiada) e como uma divindade pelos rastafáris, Selassié não demorou a estender sua influência para além das fronteiras etíopes. Assim, a OUA foi moldada por sua liderança, com um viés burocrático e, em muitos casos, ineficaz - no mesmo estado em que deixou Etiópia. Contudo, não podemos negar que Selassie entendia de marketing, basta olhar para as nossas bandeiras africanas e percebemos a sua presença. E para os mais dados à erva mágica, poderá ter um encontro com a segunda vinda de Cristo após a hóstia celestial do culto rastafari.

Os reflexos dessa influência podem ser vistos até hoje. A sede da União Africana, um monumental edifício em Adis Abeba, foi projetada e financiada pela China ao custo de 200 milhões de dólares. Em 2018, o jornal Le Monde revelou que os servidores do prédio enviavam dados para Pequim todas as noites – uma denúncia de espionagem prontamente negada pelas autoridades africanas. Talvez tenham reparado que o mesmo acontecia com computadores, telemóveis e outros aparelhos oferecidos pelas corporações tecnofeudalistas e suas redes sociais, dominadas por algoritmos que ninguém compreende muito bem como funcionam – quinas o único especialista seja a Cambridge Analytica. Mas a dependência externa persiste e, ironicamente, a União Africana continua sendo um reflexo da ingerência estrangeira no continente.

A Diplomacia Africana e os Desafios Atuais

Hoje, vemos líderes africanos em busca de protagonismo. Um exemplo recente foi João Lourenço, presidente de Angola e atual líder da UA, que assumiu o papel de mediador no conflito entre Ruanda e República Democrática do Congo. Mas, para surpresa de muitos, ele abandonou as negociações, deixando um vácuo diplomático. O resultado? Os presidentes de Ruanda e RDC foram para Doha, no Qatar, onde apertaram as mãos do emir, selando uma reaproximação que poderia ter ocorrido em Luanda.

Enquanto isso, em Moçambique, o opositor Venâncio Mondlane envia mensagens ameaçadoras ao governo angolano, anunciando que estará em Angola em 2026 para replicar o modelo de contestação pós-eleitoral que incendiou Moçambique. João Lourenço pode até se sentir ameaçado, mas talvez tudo acabe em um aperto de mãos, iniciado por um encontro entre as "primeiras-damas", consolidando uma reconciliação superficial e reinventando o caso Lisístrata. Talvez João Lourenço se sinta tão ameaçado quanto Daniel Chapo se sente atualmente. Estaria VM7 preparando uma Primavera Africana? Não, sou santomense, vou chamar de Gravana Africana.

Para Onde Vai a União Africana?

A UA nasceu antes da União Europeia, mas, até hoje, não conseguiu conectar o continente de forma eficiente. Não há moeda comum, não há livre-trânsito entre os países africanos, e o comércio intra-africano ainda é minúsculo comparado ao comércio com potências externas.

Em 2002, a OUA foi reformulada para dar lugar à União Africana, na esperança de modernizar a instituição e esquecemos um pouco do Imperador que ia nu pela Etiópia. Mas as aspirações pan-africanistas de Nkrumah e seus aliados foram enfraquecidas ao longo dos anos. Enquanto o continente permanece dividido, disputando guerras com armas compradas das grandes potências, jovens desesperados arriscam suas vidas atravessando o Mar Mediterrâneo, embarcando em um novo tipo de "navio negreiro" — desta vez, movido pela falência das políticas africanas.

Enquanto o mundo discute inteligência artificial, tecnologias emergentes e novas formas de produção, a África continua sendo usada como carne de canhão.

A União Africana precisa decidir: mais um século de humilhação ou um compromisso real com a unificação do continente?

Devemos negociar mais entre nós. Precisamos de integração econômica, de livre-trânsito, de comunicação unificada. Por que, ao viajar dentro do continente, ainda preciso comprar um novo chip de telefone para cada país? Por que tantas organizações sub-regionais fragmentando ainda mais a unidade africana? Por qual motivo devo ter dólares e euros para ir mesmo à Angola e não posso usar minhas dobras que eles conhecem tão bem?

E, mais recentemente, por que a CEDEAO cogitou invadir o Níger? Enquanto a UA declarou oficialmente sua discordância com essa intervenção, ficou claro que as organizações sub-regionais estão ganhando mais peso – e, talvez, até ameaçando a relevância da própria União Africana.

Não podemos ficar ao sabor de vaidades exteriores. Cada vez que uma grande organização faz um corte, todo um continente parece sentir o impacto e se desola. tamanha é a "ajuda externa".

Se não nos unirmos agora, eles virão, dizia Julius Nyerere. 

sexta-feira, 21 de março de 2025

Caros irmãos, não somos o Ocidente, somos o Sul Global!

Aconteceu algum truque metafísico na nossa história que nos fez sentir ocidentais quando, de fato, não o somos. Se as gerações anteriores à nossa sentiam na pele – e através da pele – a grande invenção do homem negro, nós herdamos algumas subtilezas advindas das reformas sociais que ocorreram ao longo do tempo. O mesmo truque fez com que a história da Europa surgisse como a história do mundo. Como efeito, sempre fico abismado ao encontrar alunos e até jovens intelectuais que acreditam que entramos no mapa apenas após a expansão marítima europeia. A própria historiografia dessas afirmações é, no mínimo, engraçada.

O que é o Ocidente?

O Ocidente não é apenas um ponto cardeal, mas uma construção ideológica que se consolidou com o colonialismo, a Revolução Industrial e o capitalismo global. Ele se apresenta como o centro do mundo, detentor da "civilização", da "democracia" e do "desenvolvimento". Contudo, esses valores foram historicamente usados para justificar a exploração de territórios e povos considerados "periféricos".

A filósofa e escritora camaronesa Axelle Kabou, em Et si l'Afrique refusait le développement?, questiona por que os africanos ainda esperam um desenvolvimento nos moldes ocidentais. Para ela, o verdadeiro problema não é a falta de recursos ou investimentos, mas a aceitação passiva do modelo de desenvolvimento europeu como único caminho legítimo. Isso nos leva ao próximo ponto:

O que é o Sul Global?

O termo "Sul Global" não é apenas geográfico; ele designa um grupo de países que compartilham um histórico de colonização, exploração econômica e dependência estrutural em relação ao Norte Global. Mas mais do que um conceito de marginalização, o Sul Global também representa uma possibilidade de articulação política e econômica independente.

O economista sul-coreano Ha-Joon Chang, em Chutando a Escada, mostra como os países ocidentais desenvolveram suas economias através de protecionismo e intervenção estatal, mas, ao se tornarem potências, passaram a pregar o livre mercado para os países em desenvolvimento, impedindo-os de seguir o mesmo caminho. Esse mecanismo mantém a dependência do Sul Global e reforça a ilusão de que só há progresso seguindo o modelo ocidental.

Quem deverá defender os nossos interesses?

Se não somos o Ocidente e se fazemos parte do Sul Global, então quem defende os nossos interesses?

É um erro acreditar que as grandes potências, sejam elas europeias, americanas ou asiáticas, agirão em nosso favor. A China e os EUA ou UE podem parecer alternativas, mas, no fim das contas, as relações internacionais ainda são moldadas por interesses próprios - Isso é a dinâmica das relações internacionais.

Por isso, a resposta está na nossa capacidade de cooperação dentro do próprio Sul Global. Organizações como a União Africana, o BRICS e parcerias estratégicas entre países da América Latina, Ásia e África são essenciais para fortalecer economias e culturas sem a necessidade de um "salvador" externo. Os famosos irmãos de cruz. 

Cuidado com a lógica de trocar um Explorador por outro

Muitos africanos, desiludidos com o Ocidente, veem na China ou em outras potências emergentes uma nova saída. No entanto, isso pode ser apenas uma troca de domínios. A verdadeira emancipação virá quando os africanos deixarem de buscar um "modelo externo" para o seu desenvolvimento e começarem a construir sua própria trajetória.

O Sul Global tem recursos, cultura e capacidade de inovação. O que falta é romper com a mentalidade de dependência e reconhecer que o nosso futuro não precisa ser uma cópia do Ocidente. Somos mais do que isso. Somos o Sul Global.

Finalizando...

Precisamos abordar a cooperação com o mesmo ar estratégico. O meu humanismo ao abordar a vida não me permite ver um grupo ou outro como inimigos. Eles apenas buscam os seus próprios interesses. Dentro dessa lógica globalista, precisamos pensar do mesmo jeito. Precisamos saber as relações que nos servem e são importantes. 

Tantos anos de União Africana e ainda tantas moedas em um só continente. Todas as nossas negociações são finalizadas em euros ou dólares. Tanta burocracia que um africano, como eu, enfrenta para viajar dentro do próprio continente é incompreensível. Um europeu pode viajar mais livremente pelo continente africano do que um africano. Porquê?

Alguns poucos gatos pingados sentam-se em escritórios onde nada à sua volta foi feito no próprio continente e seguem idolatrando marcas que exploram mão de obra barata e vendem logos bonitos. Precisamos nos articular, organizar e decidir o que queremos. E cooperar com estratégia. A vontade de uma classe privilegiada não pode colocar em questão todo um continente. não precisamos continuar a queimar como carvão para garantir o calor do privilégio de poucos.

Não podemos mais condenar jovens a imigrarem sem sonhos, movidos pelo puro pessimismo.

sexta-feira, 14 de março de 2025

Venâncio Mondlane e a União Africana: O Silêncio Que Mata

Imagine um jogo de xadrez em que um dos jogadores nunca mexe suas peças. Ele senta, observa, suspira de vez em quando, mas nunca move um peão sequer. Se perguntarmos a ele por que não joga, talvez ele diga que está "avaliando a situação" ou que "a diplomacia exige paciência" ou espera que alguém com alguma relevância diga o que deva fazer. Esse jogador fantasma poderia muito bem ser a União Africana (UA), que nos momentos mais cruciais, em que esperávamos um xeque-mate contra injustiças, limita-se ao mais perfeito e metódico silêncio. Depois do processo de descolonização física, parece ter entrado num sono profundo que promete ser despertado. Podemos ouvir pálidos gritos do Professor Lumumba, mas, nada mais grita... faz frio ali do alto onde os pequenos demiurgos em fatos presidenciais passeiam com o seu séquito.

Um Silêncio com Eco

Nos últimos anos, a UA tem sido notória por seu silêncio seletivo. Golpes de Estado? Silêncio. Violações dos direitos humanos? Silêncio. Eleições questionáveis? Um leve murmúrio, seguido por mais silêncio. Se não fosse pela ocasional condenação genérica emitida em documentos que parecem escritos por inteligência artificial dos anos 90, até esqueceríamos de sua existência. Esperam novamente que lhe diga o que fazer como no caso Gaddafi?

Agora, vejamos Moçambique.

Venâncio Mondlane, figura central das recentes eleições moçambicanas, teve seu nome varrido da cena política como se fosse poeira num canto incômodo. Acusações de fraudes, repressão a opositores, protestos violentamente contidos – ingredientes suficientes para um escândalo internacional. Mas, da União Africana? Nada. Nem um piu. Se houvesse um campeonato mundial de omissão, a UA seria a campeã invicta. Ou aguarda impaciente para que escrevam uma nota de pesar?

A União Africana Serve Para Quê?

Filosofemos: se uma organização continental não intervém em situações de crise, qual é sua finalidade? Aristóteles nos ensinou que tudo tem um telos, um propósito. O telos de um leão é caçar. O telos de uma caneta é escrever. O telos da União Africana... bem, até agora, parece ser organizar cúpulas de líderes onde todos tiram fotos sorridentes e assinam declarações vazias.

Mas por que essa inércia? A resposta está, como sempre, no dinheiro.

Quem Financia a União Africana?

Se seguirmos o rastro do dinheiro, descobrimos algo interessante: a maior parte do financiamento da UA vem de fora da África. Em 2022, mais de 60% do orçamento da organização foi bancado por doadores externos – União Europeia, China, Banco Mundial, e por aí vai. Ora, quem paga a orquestra escolhe a música. E quem paga a União Africana tem seus interesses, que nem sempre coincidem com os dos cidadãos africanos.

Achille Mbembe nos ensina que vivemos sob a necropolítica, onde os Estados decidem quem vive e quem morre. A omissão da UA não é um acaso: é parte do mesmo sistema que trata a vida africana como descartável. Kwame Nkrumah, por outro lado, sonhava com um pan-africanismo forte, onde os africanos controlariam seu próprio destino. Mas enquanto a UA continuar sendo financiada por fora, sua autonomia será uma miragem.

Se a UA não responde aos clamores populares por justiça, talvez seja porque não são esses clamores que sustentam sua existência. Numa democracia ideal, as instituições representam o povo. Mas quando a fonte de recursos vem de fora, a lealdade se desloca.

E Agora?

Se um dia a UA quiser ser levada a sério, precisará recuperar sua independência financeira e ideológica. Até lá, continuará sendo esse jogador de xadrez que nunca mexe as peças – esperando o jogo acabar sem nunca ter participado dele. E Venâncio Mondlane, como tantos outros antes dele, segue como mais uma peça sacrificada num tabuleiro onde as regras já foram escritas antes mesmo da partida começar.

O povo continuará a morrer – não apenas sob balas, mas também sob o peso do silêncio cúmplice. Porque a verdade é dura: muitos dos presidentes africanos não têm moral para condenar fraudes e repressão. Sabem que se apontarem o dedo para Moçambique, acordam os seus próprios VM7’s, que dormem apenas à espera do momento certo para se levantar.

Mas agora que Mondlane se mantém de pé, que faz do tribunal palco e do palco tribunal, será que ele conseguirá transformar esse jogo kafkiano num xeque-mate inesperado? Ou o outro lado, que cospe fogo e manipula as regras do jogo, já decidiu o resultado?

Quid iuris? Ou melhor: quando até a justiça é uma peça do jogo, quem ainda tem coragem para mover um peão?

A Banalidade da Gestão: Quando a Eficiência Serve ao Genocídio

A gestão por si só é amoral. Trata-se de uma prática voltada para atingir as metas propostas inicialmente. Essas metas devem ser atingidas d...