A gestão por si só é amoral. Trata-se de uma prática voltada para atingir as metas propostas inicialmente. Essas metas devem ser atingidas da melhor forma possível, uma economia dos recursos com máximo de produtividade. A primeira vista é essa a ideia.
Por outro lado, não se discute quais são os objetivos e as metas organizacionais. Não são necessariamente éticas. Gestão é o óleo na engrenagem, garantindo que a máquina produza da melhor forma possível sem gerar desperdício e com o menos de desgaste possível. Gestão é amoral. Preciso repetir isso várias vezes. O regime colonial tinha uma gestão eficaz, não quer dizer que era necessariamente boa no sentido ético. O regime de Apartheid, a desflorestação amazônica, a dizimação dos povos indígenas por toda a América Latina é uma engenharia incrível do poder de organização voltada para exploração de recurso e alcance das metas propostas.
Como Hannah Arendt observou no caso de Adolf Eichmann, ele era um burocrata exemplar da máquina nazista: “The trouble with Eichmann was precisely that so many were like him, and that the many were neither perverted nor sadistic, that they were, and still are, terribly and terrifyingly normal.” O mesmo vale para os administradores coloniais, para os burocratas do Apartheid e para os engenheiros que planejam a extração acelerada na Amazônia: gente comum, cumprindo metas, otimizando recursos. Gestão amoral. Preciso repetir isso várias vezes.
Destarte, a gestão não se restringe aos corredores das multinacionais ou do Estado de Bem-Estar Social... Ela está presente em todas as formas como uma organização decide se estruturar, seja num estado fascista, ditatorial ou democrático. O que impede a sociedade de colapsar no caos é justamente a capacidade de gestão organizacional. Podemos ter a Administração Putin ou Trump; a de Bismarck; a de Obama; a de Pepe Mujica; a de Lincoln; a de De Gaulle; a de Lumumba; a de Samora Machel... A máquina funciona ou deixa de funcionar conforme as ideologias e valores que a precedem e a orientam. A eficiência (ou ineficiência) da máquina está sempre nos valores que lhe dão nome e direção.Como Zygmunt Bauman argumentou em Modernity and the Holocaust: “The Holocaust was born and executed in our modern rational society, at the high stage of our civilization and at the peak of human cultural achievement, and for this reason it is a problem of that society, civilization and culture.” O mesmo mecanismo, a burocracia eficiente, divisão de tarefas, indicadores de produtividade serviu (e serve) para explorar recursos e atingir metas sem desperdício. Gestão é amoral. Preciso repetir isso várias vezes.
Por consequência, algumas perguntas precisam ser feitas: O que queremos atingir? Os nossos objetivos são inclusivos ou excludentes? Preferimos o privilégio de alguns ou melhores condições para todos? A partir disso desenhamos a importância da técnica que vamos aplicar. Então, a base da gestão é puramente filosófica. Quero dizer aqui que as questões filosóficas guiam as técnicas ou práticas de gestão. Por detrás de enormes tabelas, gráficos, fluxogramas e organigramas temos questões ancestrais: Qual é o nosso propósito? Quem somos nós? O que é sucesso para nós? Quem deverá ser os nossos colaboradores? Quem não deverá ser os nossos clientes? O que motiva os nossos colaboradores?
Como Gabriel Abend demonstra em The Moral Background, por trás de toda prática de gestão há um “moral background”, pressupostos profundos sobre o que conta como moral, quem é um ator moral legítimo, quais razões valem para justificar ações, e o que pode ser avaliado eticamente. São questões humanas. Se olhamos somente os números seremos facilmente enganados. E se não vermos os números, seremos igualmente enganados. Precisamos de indicadores que permitam a nossa navegação.
Portanto, a técnica e a filosofia são faces de uma mesma moeda a que designamos gestão. O gestor além das operações e técnicas de gestão, precisa lidar com pessoas reais e complexas, com um mercado, com emoções humanas tanto dos stakeholders como da própria organização. Precisa desenhar as narrativas que definem o que a organização faz e não faz.