sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Moçambique, Entre o Sagrado e o Profano: Reflexões Sobre o Confronto de Poderes

Algo chamou-me a atenção sobre a atual crise política em Moçambique. Havia algo de extraordinário: dois poderes que vão além da força política... o poder temporal e o poder espiritual em conflito. Como nos antigos reinados, em que ambos conviviam numa dança ora harmoniosa, ora perigosa, aqui ressurgem em antagonismo, como se fossem forças destinadas a disputar o mesmo altar.

Nietzsche diria que este confronto é a manifestação última da tragédia humana, o eterno retorno de uma luta ancestral entre os valores da Terra e os valores do Céu. O poder temporal – vestido de cargos, estratégias e pragmatismos – tenta afirmar-se como o único maestro do destino coletivo. Esse é o papel assumido pela FRELIMO, liderada por Filipe Nyusi, mas em torno do partido emerge também Chapo, como um herdeiro e guardião de uma máquina política que há décadas define os rumos do país. Representa o pragmatismo da Realpolitik: a estabilidade obtida pelo controle, pela negociação com aliados estratégicos e pela força.

Por outro lado, o poder espiritual – enraizado na fé, na moral e na transcendência – encontra no discurso e na figura de Venâncio Mondlane um novo profeta. Ele aparece como o mensageiro de um Moçambique redimido, falando não apenas à mente, mas principalmente à alma dos desiludidos. Enquanto Chapo promete uma salvação terrena através do progresso econômico e das reformas institucionais, Mondlane invoca a promessa de uma justiça divina e histórica que transcende os jogos de poder. O povo, exausto de décadas de promessas políticas e econômicas, encontra no discurso de Mondlane um apelo quase messiânico: a fé não como resignação, mas como uma arma de transformação.

No entanto, como ensinou Maquiavel em O Príncipe, "os santos que não pegaram em armas morreram." O pragmatismo do poder temporal sabe que palavras e orações sozinhas não derrubam muros, nem constroem pontes. Chapo, como a encarnação da força política, conhece bem esse princípio. Ele representa a arte de manter o poder, ainda que com sacrifícios. Sua liderança é moldada por alianças de conveniência, promessas de desenvolvimento e pela capacidade de usar a força quando necessário. Em contraste, Mondlane, ao emergir como uma figura espiritual que desafia diretamente o status quo, caminha sobre uma linha tênue entre inspirar e ser esmagado.

Essa tensão entre os dois poderes não é nova. Carl Schmitt, ao falar sobre soberania, explicou que o verdadeiro soberano é aquele que decide sobre o estado de exceção. Em Moçambique, a FRELIMO é quem sempre definiu as regras do jogo, quem declarou o que era ou não legítimo, o que era possível ou impossível. Mondlane, no entanto, desafia essa soberania ao se colocar como uma voz que transcende o sistema político e que apela diretamente às massas. Seu poder não vem do estado, mas da legitimidade que a fé e o desespero popular podem conceder.

O paradoxo é claro: o mesmo poder espiritual que prega a resignação diante do sofrimento é também o que, em momentos cruciais, incendeia as massas para se levantarem. Mondlane, como líder espiritual e político, torna-se uma figura quase nietzschiana – não alguém que clama pela destruição, mas pela superação de um estado de coisas que ele vê como corrompido e decadente.

As consequências disso já começam a se desenhar. A fé cega pode converter-se em uma força política imprevisível, enquanto a Realpolitik de Chapo tenta conter a tempestade com promessas e demonstrações de força. O povo, dividido entre a esperança e o medo, transforma-se no verdadeiro campo de batalha. As ruas de Maputo e outras cidades ecoam murmúrios que podem, a qualquer momento, se transformar em cânticos de resistência ou em súplicas por paz.

O que Moçambique nos ensina é que esse conflito entre o sagrado e o profano é uma metáfora para a luta universal entre poder e sentido. Como diria Maquiavel, "os santos que não pegaram em armas morreram." O futuro dirá se o povo moçambicano escolherá lutar ou esperar, resistir ou se resignar. Será o fim ou a esperança?

E talvez, em meio ao caos, reste apenas a pergunta bíblica: "Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra?"

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Venâncio, Jean Ping e o Processo: A Farsa da Democracia em 5 Atos

A história não apenas se repete, mas se reinventa em novos disfarces, refletindo os erros não corrigidos e as lições ignoradas das gerações passadas. Cada repetição traz consigo um eco de tragédia e farsa, desafiando-nos a transformar ciclos em progresso.
(Marx, 1852, in "O 18 de Brumário de Luís Bonaparte")

Como um homem das ilhas, acostumado à puita política, em nada fiquei espantado com a situação política moçambicana. A campanha de Venâncio Mondlane foi puramente ideológica e, como tantas antes, cometeu o erro clássico: ignorar que o outro lado pode ser simplesmente perverso.

Esperamos que o mágico retirasse da cartola algo além da moral, da consciência e da verdade – ferramentas que não cospem fogo nem tiram vidas. Mas, a cartola estava vazia e o passaporte, retido. Ainda é cedo para declarar VM7 derrotado, mas, como num episódio kafkiano, ele está diante de um processo que o aprisiona em instituições megalômanas. Embora tenha razão, boas intenções e uma retórica popular interessante, as armas não estavam do seu lado. Assim como Jean Ping no Gabão – que tinha o povo com ele, mas enfrentou a força de Bongo –, Venâncio enfrenta o mesmo dilema.

A realidade amarga é que revoltas populares frequentemente partem de um pressuposto falso: que a comunidade internacional se preocupa com a verdade e não com seus interesses. Moçambique não é exceção. A Realpolitik rege as ações internacionais: os parceiros respiram petróleo, comem minérios e colocam seus interesses acima de qualquer narrativa de democracia ou justiça. Tantos anos de FRELIMO consolidaram acordos e alianças que nenhum idealista pode desmantelar com moralismos.

Os idealistas moçambicanos esperavam uma reação de Portugal como os idealistas gaboneses esperavam da França. Mas, como sabemos, o "maná" não cai do céu, e o "white saviour" nunca vem.

Venâncio Mondlane teve o timing certo, apareceu nas capas de jornais, conectou-se com o povo. Mas, como Thomas Sankara ou Umaru Dikko, ele enfrentou traições e adaptações darwinianas do poder. Os antigos aliados mudaram de lado no momento em que perceberam que o barco poderia naufragar. 

Jean Ping deveria ser uma leitura obrigatória para Venâncio Mondlane. Ambos enfrentaram situações semelhantes e, caso nada seja feito agora, os resultados poderão ser igualmente trágicos. Ambos passaram pelo mesmo inferno dantesco: eleições marcadas por suspeitas de fraude, tribunais constitucionais comprometidos, manifestações populares com forte apoio do povo, respostas violentas do poder e, no fim, o ciclo de repressão se fechando. Jean Ping acabou na prisão, protestantes foram mortos, e o país mergulhou numa crise migratória, com muitos fugindo para salvar suas vidas.

Esse paralelismo não é apenas uma coincidência histórica, mas um alerta. Se Venâncio Mondlane deseja quebrar o ciclo, será necessário algo radical – uma ruptura que desafie a repetição da tragédia em farsa. Assim como Marx afirmou, a história tende a se repetir quando não enfrentamos as estruturas que perpetuam os mesmos erros.

Admiro Venâncio pela coragem, mas a campanha falhou ao ignorar a violência como ferramenta política. Como Frantz Fanon nos lembra em Les Damnés de la Terre:

"A violência dos colonizados, que é a prática organizada de sua liberdade, ilumina e desmistifica a violência dos colonizadores. Ela é uma resposta legítima e inevitável à brutalidade estrutural do sistema colonial."

Traduzam "colonizado" e "colonizador" para a novilíngua orwelliana e entenderão a necessidade de uma radicalização enquanto forma de resistência.

O povo moçambicano ainda acredita na razão e na moralidade. Contudo, ao ver as estratégias diluírem-se, talvez chegue a hora de adotar o "por qualquer meio necessário" de Malcolm X. Quando o silêncio da opressão domina, é a radicalidade que rompe as amarras.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Venâncio Mondlane: Entre a Pedra de Sísifo e o Sonho Moçambicano

Nada mais arrogante do que acreditar que apenas criticar o sistema nos torna imunes às consequências de enfrentar as garras de uma estrutura que existia antes de nós. É uma tendência mundial desejar revoluções pacíficas e esperar consciência social de quem acumula dinheiro e poder justamente com a ausência dela. Trata-se, afinal, do bom e velho instinto de sobrevivência.

Todavia, daqui das ilhas maravilhosas de São Tomé e Príncipe, percebemos um pouco tarde que um gigante havia sido despertado em Moçambique. Primeiro, fiquei intrigado com a coragem de desafiar o status quo. Depois, admirei um orador que entende a linguagem do povo. Por fim, percebi que Venâncio Mondlane havia se transformado em VM7 — uma figura moldada pelo povo cansado do velho tabuleiro político. VM7 já não é apenas Venâncio Mondlane.

De alguma forma, estávamos aqui na ilha empolgados com as agitações sociais e com marchas cuja adesão deixava qualquer especialista em engajamento social boquiaberto. Algo estava acontecendo com nossos irmãos no continente. Então vieram os vídeos, os confrontos e os saques... Sutilmente, Venâncio caiu na antiga armadilha do messianismo político. Por muito tempo, ele andou sobre uma corda bamba. Lá do alto, todo o apoio popular parecia elevá-lo. Contudo, nessa corda invisível, Venâncio acreditou que tinha aprendido a voar. Ele lutava contra o Monopólio da Verdade e contra o Monopólio da Força. Seus apoiantes, inflamados, mas despreparados para uma guerra, não tinham como enfrentar as verdadeiras armas que disparam fogo e soldados altamente treinados.

Por outro lado, acredito que, em revoltas sociais, as pessoas depositam confiança excessiva na razão do povo e no povo da razão. Esses intelectuais, que mal sabem manejar uma AK-47, carregam consigo alguns privilégios que os tornam pensadores demais para dobrar-se ao sistema. É incrível como, nesses momentos, muitos esquecem o básico. Como Maquiavel escreveu em O Príncipe: "Todos os santos que não pegaram em armas acabaram mortos." A revolução, gostemos ou não, depende de armas. Infelizmente, os ideais são sempre pacíficos, mas a vida é violenta.

Enquanto isso, VM7 assiste aos companheiros que caem. Recebe apoio de muitos, enquanto outros aplaudem do conforto de seus lares. Um povo guerreiro vai às ruas enfrentar os resultados "oficiais" divulgados por aparelhos "oficiais", sempre defendidos por vozes "oficiais".

Por fim, a cidade está em chamas. As balas continuam a silenciar mais e mais vozes. Enquanto essa guerra de narrativasse arrasta, ativistas tornam-se saqueadores. O partido Podemos não pode, e VM7 brilha como uma miragem, com o langor de uma batalha já derrotada. As balas cantam, e VM7 surge ligeiramente mais abatido, partindo para o tudo ou nada.

Daqui das ilhas, esquecemos que Moçambique, esse baú de recursos naturais, precisa discutir a sua soberania com várias organizações que têm interesses bem claros. Manter tudo como está é economicamente vantajoso para muita gente. Se VM7 não tomar cuidado, acabará por se tornar apenas mais um desequilíbrio na cadeira do partido no poder. Uma carta a ser usada em futuras negociações com o Estado. Algo como: "Aceitem estas propostas ou virá VM8... ou VM9."

Eles não podem eliminar Venâncio Mondlane. Ele precisa permanecer ali para lembrar ao poder que, da fábrica onde se produziu a Primavera Árabe, Mohammed al-Bashir, Al-Shabab, e  muitos outros que ainda virão pode-se produzir VM7-pro... o medo precisa vencer

Neste cenário, não conseguimos acreditar numa vitória da razão de VM7. Precisamos olhar apenas para a razão da vitória. 

Quero finalizar a minha divagação que cheira à Realpolitik. Depois dessa análise que parece tirar o fôlego, desejo, como Amílcar Cabral, fechar os olhos e, permitam-me, sonhar com um Moçambique melhor para o seu povo, repleto de valores voltados para a vida. Permitam-me, povo moçambicano, imaginar-vos felizes além de todas as mortes morridas e matadas que foram provocadas pela necropolítica. Permitam-me saudar-vos pela resiliência. Como Camus, após divagar sobre o absurdo do mundo e da existência, ele diz:"É preciso imaginar Sísifo feliz." E eu digo: 'É preciso imaginar Moçambique feliz!' – A revolta é uma resposta ao absurdo.

Sem Medo, Nada Funciona: a verdade sombria por trás da produtividade

Estamos a viver uma época em que o medo já não é apenas um sentimento: tornou-se uma infraestrutura invisível , uma tecnologia silenciosa qu...